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Não me Esqueças

1. Myosotis scorpioides (1)

1. Myosotis scorpioides (1)

Apr 25, 2024

 


 “A humanidade está sempre em constante mudança, não podemos ficar para trás”, essa foi a primeira – e de passagem única – explicação que Cassian teve vinda de um anjo do porquê que o Paraíso possuía um programa de recrutamento.

  Não era como se o motivo realmente fosse secreto, pois estava em qualquer livro de história disponível nas bibliotecas do centro do Paraíso, mas os anjos pareciam ter uma aversão enorme a frase “nós não entendemos como a humanidade funciona de verdade”, criando mil e um motivos para dizer que eles estavam fazendo aquilo puramente por inclusão. O problema era que Cassian não precisava nem ler para entender o real motivo. 

  Quando a Nova Era se iniciou no Paraíso muitos anjos anciãos e seus respectivos subordinados acabaram sendo expulsos ou executados como punições pelos seus crimes. Isso acarretou em um número alarmante de perdas e, consequentemente, de anjos iniciantes que não possuíam contato algum com a humanidade. Aqueles que sobraram se voluntariaram para ensinar os mais novos, mas a quantidade era demais para qualquer um aguentar. Visto isso, as Irmãs do Destino, as novas diretoras do Paraíso, chegaram à conclusão de que a forma mais orgânica de treinar seus anjos seria se elas tivessem exemplos vivos – ou mortos neste caso – que pudessem exemplificar e auxiliar no entendimento de como a humanidade funcionava. Dessa forma, não só a interação dos anjos e dos humanos se tornaria mais natural, como também haveria uma nova opinião de como o Paraíso poderia ser construído. A segunda parte, porém, foi logo descartada, afinal seres humanos se demonstraram serem sistemáticos demais para o gosto da irmã mais velha.

  As almas, em sua maioria, eram selecionadas a dedo pelas irmãs – com uma pequena porcentagem sendo sorteada, chamada de ‘cota de inclusão’ – e normalmente apresentavam alguma habilidade excepcional que construíram em vida, essa determinando para que divisão a alma seria direcionada. Esse era o mesmo motivo pelo qual Cassian acreditava fazer parte da tal cota. 

  Cassian podia ser habilidoso em muitas coisas, como cozinhar, cuidar de crianças, cuidar de canteiros, entre outras coisas domésticas que ele aprendeu com seus pais, mas nenhuma dessas coisas era realmente necessária no Paraíso. Apesar da notícia de que ele havia sido escolhido a dedo por uma das irmãs, não era como se ele tivesse recebido qualquer privilégio ou tratamento especial por isso. Pelo que ele sabia, era comum que Láquesis fosse impulsiva e tomasse suas decisões por pura emoção do momento, e a aprovação de suas irmãs apenas reforçava que a escolha foi mais por inclusão que utilidade. Acima de tudo, ele havia sido jogado na Divisão de Comunicação e Entregas, conhecida por sua infame quantidade de almas que, em um grande resumo, não eram aptas para um trabalho mais interessante.

  A divisão em si não era ruim na opinião de Cassian, havia pessoas maravilhosas de se trabalhar e o serviço em si não era desagradável, mas o líder dela era – ironicamente – um enorme cabeça oca com zero habilidades de socialização e liderança, se passando mais como uma criança mimada. Consequentemente, quando Cassian chegou na divisão era como se ele estivesse em um campo de guerra, com funcionários largados às traças e sem organização alguma. Se não fosse pelo supervisor enviado pela Divisão de Administração, Chester, e sua insistência em ajudar os funcionários nas suas tarefas, Cassian tinha certeza de que nenhum deles ainda estaria lá para contar a história. Isso era o que ele acreditava, afinal, ele nunca perguntou o que acontecia com aqueles que não alcançavam as expectativas das irmãs.

  Em dois anos, Cassian podia jurar que seu cabelo estava mais branco do que em todos os seus anos cuidando de seus irmãos, apenas por ter de aturar o líder de sua divisão e sua incompetência de manter a divisão em si organizada, se sentindo na obrigação de ao menos ajudar Chester com um dos setores. Por esse mesmo motivo, Cassian era uma figura reconhecida no setor de entregas, o mesmo que ele havia sido designado para começo de conversa. Enquanto Chester quebrava a cabeça no setor de comunicação, resolvendo os diversos problemas técnicos que os funcionários encontravam no sistema frágil e ridiculamente difícil de navegar, Cassian auxiliava no funcionamento da central de entregas, colocando uma tabela de horários para distribuir igualmente os serviços entre os funcionários, lidando com situações em que um representante deveria falar em nome do setor, entre outras atividades que normalmente Chester deveria fazer. Em circunstâncias normais, aquilo seria visto como falta de ética, mas era um entendimento comum que a Divisão de Comunicação e Entregas era um real bicho de sete cabeças quando se tratava de administrá-lo – mesmo que ninguém das outras divisões admitisse que era culpa do próprio líder.

  Cassian não tinha nada contra o trabalho, ele até achava o ambiente agradável. Em dias cheios, ele normalmente se mantinha no armazém atrás do almoxarifado fazendo inventário, ou escrevendo algum relatório de comportamento, e em dias mais calmos, ele podia ficar na recepção ou no balcão de recebimento. Claro, ele odiava ter de interagir com os anjos, cansado de ouvir reclamações sem sentido e falta de empatia alguma, mas de vez em quando ele encontrava outra alma à procura dos serviços do setor e eles tinham conversas agradáveis. No entanto, nem tudo eram flores. Haviam momentos que Cassian não tinha paciência nenhuma para interação, como qualquer ser humano tinha, e nesses dias ele preferia se isolar no armazém e fazer seu trabalho sem incômodo algum. Porém tinham aqueles que, mesmo com o mau humor, Cassian não podia simplesmente fugir de sua responsabilidade.

  As últimas horas de funcionamento da central de entregas eram marcadas por serem as mais difíceis de lidar, pois mais da metade dos funcionários já haviam batido seus pontos para sair e sempre havia algum infeliz que aparecia de última hora com alguma carta ou pacote para entregar, atrasando a saída dos funcionários restantes. Cassian, como o “supervisor honorário”, era sempre o último a sair e bater a chave, e, portanto, também era o único disponível para atender o balcão. Ele conseguia sentir a enxaqueca se formando enquanto Chester colocava um copo de café para ele e tagarelava sobre sua vida pessoal. Chester não era desagradável, mas ele com toda certeza era desnecessário em certos assuntos, e isso era muito bem refletido em sua aparência. Ele não era muito alto, usando sapatos com plataformas pesadas, e seu rosto também não se destacava na multidão, precisando de roupas chamativas para se mostrar interessante. Ele havia sido inspirado em um coelho, pelo que Cassian havia entendido em uma de suas conversas, olhos grandes, rosto arredondado, com uma audição quase que perfeita, muita energia e uma voz que, se ele não gritasse em toda frase que falava, passaria despercebida de tão gentil e silenciosa era. Seu cabelo poderia ser dito como a parte mais interessante, pois naturalmente possuía uma enorme faixa branca no centro. Se não fosse por sua aversão a certos tipos de toque, Cassian já teria criado o hábito de mexer no cabelo de seu supervisor.

  “Você não vai tomar? Eu fiz todo o trabalho de passar o café pra você, sabe?”, Cassian olhou para o balcão, apenas agora percebendo a caneca com café recém feito. O cheiro era reconfortante, e ele estava precisando de algo para mantê-lo acordado pelas próximas duas horas.

  “Obrigado. Sobre o que você estava falando mesmo? Eu acabei viajando um pouco”, tentando não aborrecer o coelho, Cassian tentou criar o mínimo de interesse no que Chester estava falando, recebendo um pequeno sorriso gentil como resposta. Se havia algo que Chester gostava era ser ouvido.

  “Está tudo bem, não te culpo por isso, leve as coisas com calma, eu espero você estar melhor”, Chester deu dois tapinhas leves nas costas de Cassian, confortando o rapaz. Era comum que Chester confortasse os funcionários ao longo do dia com palavras de afirmação e presentes, mas ele não tinha vergonha de dizer que Cassian era uma das duas únicas pessoas que recebia o tratamento especial de receber afeto por contato físico. Desde que o rapaz chegou na divisão, sua vida não apenas ficou mais fácil, como ele também encontrou alguém em que ele podia confiar e conversar, alguém que o respeitava por ser ele, e não por seu status. Uma das coisas que o Chester mais odiava em si não era sua aparência genérica quando comparada com as de seus colegas, mas sim seu ranking em toda essa bagunça de sistema hierárquico que as irmãs haviam “ajeitado”.

  Chester era um anjo de nível “código”, uma classificação criada no início da Nova Era como uma forma de manter ordem entre os anjos. Códigos eram colocados logo abaixo dos querubins, forçando os tronos a ficarem em um ranking abaixo do original, e tinham o dever de criar, administrar e regulamentar leis e regras no Paraíso, geralmente sendo separados por divisões para melhor cobertura. Todo código possui uma contraparte, geralmente complementando as falhas do primeiro, sendo referidos como “protocolo” quando juntos. Isso também justificava o porquê de seu trabalho ser tão cansativo. Chester era social, energético e diurno, preferindo se manter em contato com pessoas e aprender com elas. Minty, sua contraparte, no entanto, era mais reclusa e noturna, com uma personalidade difícil de lidar quanto qualquer regra era questionada. Para evitar brigas desnecessárias, Chester ficava com toda a carga da parte comunicativa de seu trabalho, enquanto Minty ficava com a parte burocrática.

  Essa foi a brecha que possibilitou que Chester e Cassian se aproximassem. Cassian podia ter uma personalidade um pouco complexa demais para se ler apenas com um olhar, e suas atitudes contradiziam completamente o que ele aparentava ser, mas ele ia longe de sua zona de conforto apenas para atender aos pedidos dos outros, mostrando um carinho imenso que ele tinha pela comunidade que ele recém havia entrado. Em primeiro momento, Chester não tinha certeza se podia confiar tamanha responsabilidade ao rapaz, mas sua dedicação e atenção logo o provaram o contrário. Ele ainda tinha medo de como seus olhos pareciam ler cada centímetro de seu ser, e como ele conseguia dizer qual era o ranking de cada anjo apenas com um olhar, sem nem ao menos conhecê-lo previamente, mas se ele ignorasse esses pequenos detalhes, Cassian se mostrou ser como um irmão mais novo para ele – o que se mostrou ser um sentimento estranho, já que anjos da Nova Era não deveriam reconhecer esse conceito de família.

  Uma coisa boa que o Chester encontrou nessa situação estranha com os olhos era que eles tornavam o trabalho de ler suas emoções muito mais fácil. Ele tinha uma pequena tabela mental, que conforme o tempo passava, ele atualizava com as novas emoções que ele percebia. Os olhos de Cassian normalmente eram dourados, quase como um pôr-do-sol, mas quando ele sentia uma emoção forte, eles mudavam de cor, indo desde leves mudanças de tom até mudar completamente de tonalidade. Na primeira vez que Chester percebeu isso foi em uma festa de final de ano, onde ele havia presenteado Cassian com uma vitrola, e ele jurou ter visto os olhos dele se tornarem mais rosados, assim como nuvens no amanhecer. Desde então, ele se manteve atento para perceber essas pequenas mudanças e anotá-las mentalmente. Ele não tinha coragem de fazer contato visual com o rapaz, com medo de que ele realmente pudesse ler sua existência inteira, mas enquanto ele estava ocupado com outras coisas, ele o observava com atenção.

  No momento, os olhos de Cassian estavam quase um castanho profundo, tão diferentes da sua cor usual. Era cansaço, raiva e ansiedade, uma cor que Chester chamava de “crise mensal”, pois havia pelo menos um dia no mês em que Cassian apareceria nesse estado, se forçando a trabalhar mesmo com as reclamações de dores, as mudanças bruscas de humor, o desejo de ficar sozinho e sensibilidade a tudo e todos. Nesses dias, Chester levava alguns lanches para a central e compartilhava com todos, mas dava ênfase principalmente nos de Cassian, colocando seus doces favoritos dentro de uma marmita e logo após uma caneca de café fresco para acompanhar. O humor dele poderia não melhorar magicamente, mas por essas pequenas ações ele conseguia ver que o dia se tornava mais fácil de passar.

  “Você já comeu alguma coisa hoje?”, o coelho estava organizando alguns papéis, olhando de soslaio para o rapaz. Ele já sabia a resposta que viria, mas ainda sim perguntou por educação.

  “Comi um pedaço de torta de vegetais que deixaram na geladeira, por quê?”, Cassian, por sua vez, estava separando as cartas embaixo do balcão por divisão. Chester sempre fazia essa pergunta quando vinha o visitar na central, então a resposta saiu de imediato, percebendo apenas depois o erro que havia cometido ao dar a resposta errada.

  “E isso foi quando?”, o coelho parou, se virando para Cassian, que não tinha coragem de se virar. Seu tom era frio, interrogatório, e assustador para sua personalidade. “Cassian, quando foi que você comeu pela última vez?”

  Cassian estava prestes a pedir por piedade, sentindo o sermão vindo na sua direção como um caminhão em alta velocidade, quando um som veio do outro lado do balcão, anunciando a chegada de alguém.

Erosgrammia
Anteros Grammia

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Céu é algo que muitos desejam. Não importa a crença, o conceito de paz eterna para a alma é sempre tentador. Infelizmente, Cassian aprendeu da pior maneira que esse conceito era exclusivo do imaginário.
Ele não podia dizer o que era pior, trabalhar incansavelmente no pretexto de que, se não o fizesse, sua alma seria condenada, ou o completo penhasco de intrigas e história antiga que ele acabou caindo ao meter seu nariz onde não era chamado.
De qualquer forma, seu papel era claro, mesmo que significasse se jogar aos animais famintos que habitavam nesse hospício celestial na esperança de trazer a humanidade neles. Não havia volta, tendo cavado sua própria cova enquanto imaginava finalmente encontrar a paz que procurava.

“Não há maior dor do que a de nos recordarmos dos dias felizes quando estamos na miséria.„
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