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Marca da Vontade

Capítulo 19 (Parte 4) – Júlio ficou no passado

Capítulo 19 (Parte 4) – Júlio ficou no passado

Aug 25, 2025

A grosseria também é uma maneira de chamar atenção. Óbvio que não seria uma unanimidade naquela abordagem, devido ao questionamento levantado. Porém, Juliette sabia que havia uma justificativa maior para o incômodo com sua presença.

— Com licença. Estou os encaminhando para meu escritório para resolver alguns assuntos importantes.

A resposta veio monótona, levemente protocolar, deixando claro que a mulher queria se esquivar daqueles questionamentos. A educação foi a única barreira que impediu um conflito entre as duas. Entretanto, aquela resposta educada irou em demasia a senhora, que desferiu um tapa no rosto da ruiva.

Ação que paralisou o tempo para os irmãos Buloke, sem que entendessem a razão por trás daquela reação abrupta. Mesmo assim, Juliette permaneceu imóvel, com seus olhos sendo cobertos pelo cabelo desarrumado que formava uma franja sobre o rosto.

— Dá um tempo nesse seu teatrinho barato! Você não irá levar esses jovens para a fossa que se enfiou! — A linha de impasse havia sido traçada. Realmente não era apenas um questionamento motivado por preocupação. — Já não basta você ser abduzido por essas más influências e ter se tornado essa… essa coisa que você é hoje!

O olhar julgador escaneava os elementos que constituíam a vestimenta da mulher. A roupa, que oscilava entre o comportado e revelador, talvez refletisse o impasse interno que Juliette Belrom enfrentava: a tentativa de se mostrar diferente da vulgaridade que poderiam julgá-la. Ainda assim, esse estilo não impedia que a senhora ardesse em cólera em cada palavra ou gesto.

Raissa finalmente compreendeu o que estava acontecendo. Na verdade, bastou ouvir a palavra “abduzido”, com ênfase no pronome masculino, para que tudo fizesse sentido. As suspeitas, ligadas à voz e às feições, mesmo sendo remotas, ainda persistiam como uma pulga atrás da orelha.

Por isso, a jovem cacheada se colocou no lugar de Juliette e nutriu uma vontade enorme dentro de si:

“Ela precisa sair daqui urgente. Tenho que abraçá-la. Isso não é justo…”

A covardia não é um defeito quando você desaparece em prol da sua saúde mental. A menina elevou esse pensamento no seu penúltimo encontro com aquele cenário hostil que havia se libertado no dia anterior. Ou seja, se o mantra funcionou consigo, por que não funcionaria com outra pessoa desamparada?

— Mãe… — Aquele substantivo veio do fundo do peito, como se resistisse após um longo caminho de espinhos, como enunciado a uma última tentativa de justificar o que havia sido tratado em inúmeros embates. — Não houve doutrinação, más influências, nem fossa. Na verdade, a minha fossa era estabelecida quando eu tive que sustentar e construir uma mentira por todo esse tempo.

Raissa hesitou em tomar qualquer atitude ao perceber que Juliette estava a anos-luz dela em termos de amadurecimento. A idade, naquele contexto, poderia ter contribuído para mais reflexões, mas a realidade é que a garota nunca teria paciência para debater com seus pais — extremamente guiados pela doutrina Sandalista — sobre quem era, já que quebrava as regras da normalidade e contrariava a lógica reprodutiva que esperavam propagar.

Naquele mundo, mesmo com o Obi, ainda não era possível que casais homoafetivos reproduzissem, nem que alguém alterasse completamente seu corpo para ser quem desejasse. Ou seja, fundamentalmente, mesmo ao se tornar uma mulher, seu corpo ainda era biologicamente de um homem.

Desse modo, era compreensível que Fátima visse Juliette como uma “farsante”. Porém, ao enxergar por esse lado, ela anulava totalmente o novo eu da ruiva, pensando unicamente em quem ela era antes.

— Tudo queimava em mim quando eu falava daquele jeito, me vestia daquele jeito, fingia me portar daquele jeito — disse Juliette, unindo as mãos sobre o coração.

— Não fala assim, Júlio…

Raimundo finalmente compreendia o embate que acontecia à sua frente. Não tinha a mente tão aberta quanto sua irmã em relação a esses assuntos. Por isso, sentiu um arrepio quando pensou que a mulher que havia feito ele sentir-se minimamente atraído não era exatamente como imaginou.

“Então, ela era o filho da dona Fátima por quem ela tanto esperava. Eu me atraí por um homem?”

Porém, antes que se perdesse naquelas tolas reflexões de um jovem que ainda permanecia relutante, já que havia saído há pouco da doutrina binária, Juliette interrompeu seus pensamentos com sua explicação dirigida à mãe.

— O Júlio não era eu de verdade. Sempre fui Juliette. Sabe quando eu confirmei isso?

— Não… Eles te convenceram a pensar assim. Sempre achei seu grupinho meio rebelde… Estava certa em minhas suspeitas.

— Assim que eu fui humilhada e expulsa de casa por vocês! Aquela surra que meu pai me deu ainda doí em mim…

Nesse momento, Fátima sentiu-se constrangida. A verdade é que, durante os sete anos do ocorrido, havia refletido sobre as ações de seu marido e compreendido que ele havia passado do limite ao descobrir que seu filho não se reconhecia como homem, mas não se arrependia de repreender um ato profano.

Assim, ela se escorava nos papeis de gênero impostos pelo Divinal, segundo os quais o homem teria que propagar sua descendência com mulheres, Fiéis a Sândalo, para evitar que seu legado fosse apagado. Dessa forma, Júlio, filho único do casal estava, além de impedindo eles de manterem isso, descumprindo o sétimo mandamento de Sândalo como não se dirigir aos seus pais como Sândalo, ou seja, deuses com suas regras invioláveis.

— Mesmo chateada pelo que aconteceu, não odeio vocês. Apenas fico triste que não sejam livres dessa doutrina para me abraçarem como sua filha.

As lágrimas caíram… pelo incrível que pareça, do rosto da mãe que não enxergava sentido naquele novo eu construído por seu filho.

Juliette compreendia com pesar aquela situação, agora com maior maturidade do que em anos anteriores. Já tinha sofrido o suficiente para enxergar a dificuldade que sua mãe exercia para largar a noção de mundo construída ao longo de toda sua vida. Talvez ela nem tivesse mais salvação, por isso, apenas nutria a utopia da senhora entendê-la como mulher com a mesma facilidade que Raimundo e Raissa tiveram.

Logo, a ruiva decidiu abandonar qualquer conflito que poderia se prolongar com sua mãe. Deu as costas para a senhora e ordenou que os dois irmãos não ficassem inertes como espectadores daquela briga familiar mal resolvida.

— Vamos, queridinhos. Temos muito o que conversar…

Eles assentiram com a cabeça, mantendo-se calados em respeito ao peso da situação que não os envolvia. Porém, Raimundo não acreditava completamente nisso, já que fora associado a Juliette quando dona Fátima compartilhou sua saudade pelo filho.

“Estou sendo idiota! Se ela se vê como Juliette, então ela é uma mulher!”

Raimundo mordeu os lábios quando se corrigiu em relação à confusão que teve ao descobrir a realidade sobre aquela mulher. Na realidade, tentava se convencer, dado que nunca havia se envolvido com uma pessoa trans antes, e sabia que necessitava contrariar seus pensamentos intrusivos para não a desrespeitar verbalmente.

“É tão simples entender que ela apenas se encontrou… Por que uma ideologia seria capaz de evitar um abraço de mãe e filha?”

Aquela pergunta dizia mais sobre ele do que queria acreditar, já que abandonou uma filosofia e permaneceu ao lado da irmã — a pessoa mais importante para ele.

Não sabia ao certo o motivo do desaparecimento de Raissa naquela tarde, mas quando percebeu que ela tinha cometido um erro incorrigível que a levaria à pena de morte e que ele, por outro lado, não sofreria consequência alguma por um massacre… Logo, desistiu daquele caminho de sangue e escolheu o da proteção, como um bom irmão mais velho.

— Júlio, — gritou Fátima, na tentativa de alcançar o trio que se afastava do seu campo de visão — me prometa que você não fará nada com esses jovens!

— Júlio ficou no passado, mamãe.

Aquelas palavras sacramentaram qualquer possiblidade de retorno à velha eu de Juliette. Júlio estava enterrado dentro dela com as vivências, experiências e laços que ela constituiu. Estava borrado, tal como o símbolo que estava estampado nas costas da jaqueta da ruiva: uma face riscada com grafite de lápis. Irreconhecível. Essa imagem se tornava cada vez mais distante de acordo a cada passo adiante da garota, assim como a figura de seu filho que não era mais visível em qualquer horizonte.

 

 ***

 

Era de praxe para qualquer comerciante do Éden cruzar o fim da rua principal e subir a ladeira até se deparar com o galpão extenso, anexado a algumas casas que constituíam a base do Movimento Humanista Proletário. O tamanho, similar ao de uma escola, fazia sentido, pois o local também servia como uma espécie de centro social para resolver pendências do bairro de forma voluntária.

Então, acabava sendo comum ver um fluxo constante de pessoas indo e voltando, relatando problemas e participando de atividades para descontrair naquele ambiente. Sem contar o restaurante popular, que atendia tanto os residentes do abrigo para sem-teto quanto os moradores de rua que não tinham onde comer.

Já passava do horário do café da manhã. Por isso, Raimundo percebeu um havia mais gente do lado de fora, na fila do almoço, do que no interior da base. O que era positivo, pois reduzia o risco de serem reconhecidos e causarem uma controvérsia por naquela comunidade. Qualquer manchete a menos era mais um dia de paz para os irmãos Buloke. Mesmo utilizando bandanas para mascarar seus rostos.

Já nos corredores, base adentro, Juliette os parou na frente aos banheiros — masculino e feminino — reservados apenas aos membros do movimento. Em outras palavras, a chance de cruzarem com alguém que ainda não soubesse que a ruiva tinha ido buscá-los era nula, logo podiam se banhar sem preocupações.

— Bom, queridinhos. Tomem um banho, tirem essa roupa toda suada, almocem à vontade. O refeitório fica descendo a rampa à esquerda — disse Juliette, enquanto instruía com o braço, antes de juntar as mãos em uma leve palma. — Tentem terminar de comer antes de meio-dia, já que nesse horário, liberam os usuários do restaurante popular para o almoço. E depois, me encontrem no meu escritório.

— Olha, Juliette…

— Me chama de “Ju”, rainha — interrompeu, sorrindo.

— Beleza. Ju. Esse lugar é meio… enorme, sabe? E tem… muitas portas… como vamos saber onde é seu escritório?

— Uma mocinha simpática chamada Bernarda irá guiar vocês até lá. Não se preocupem!

— Ah sim, obrigada, Ju.

— Bem, aguardo vocês lá! Tchau, tchau.

A bela mulher caminhou rumo ao fim do corredor, enquanto seus cabelos deslumbrantes balançavam de um lado para o outro. Porém, uma terceira voz não se conteve após tanto silêncio no percurso até finalmente serem encaminhados até um bom banho.

— Juliette! — Era Raimundo, que logo deu um joinha desajeitado como forma de agradecimento. — Não imagina o quanto sou grato pela hospitalidade. Você é uma pessoa legal!

Apesar da postura patética do jovem, todo sem jeito, a reação da mulher não poderia ser outra diante aquela cena incomum de um rapaz que se mostrou tão durão até então:

“Que coisinha mais fofa! Vontade de apertar!”

Essa vontade se traduziu em um largo sorriso encantador, difícil de conter, quando ela se virou na direção deles. Por um momento, viu aquele jovem como o cara mais legal de todos. Diferente dos boatos que tinha ouvido sobre a máquina de matar fria e sem empatia. Talvez estivesse certa ao pensar neles como fruto das circunstâncias, já que aqueles dois jovens não tinham perfil de assassinos. Como resposta ao agradecimento, não deixou de expressar toda aquela explosão interna de fofura.

— Você é um fofo, queridinho! Aproveitem que tem água quente!

O clima estava tão agradável que os dois foram contagiados por aquele sorriso encantador, sorrindo junto dela.

A leve impressão que tiveram sobre Juliette os levou a pensar que não faria sentido ela encaminhar eles para uma emboscada. Talvez ela estivesse em busca de um caminho para se resolver como pessoa e, pela confiança, estava próxima a isso. Característica que eles ansiavam, em algum momento no futuro.

Depois do banho, ambos se arrumaram com novos visuais, tentando se diferenciar ao máximo da forma como estavam sendo vistos nos anúncios de procurado.

Raissa, primeiro, colocou um top vermelho de alças até os ombros. Também pôs duas munhequeiras de mesma cor nos punhos, como uma verdadeira atleta. O que servia como uma maneira de disfarçar sua marca da vontade, agora brilhando em azul. Além disso, optou por uma bermuda legging preta, buscando uma maior liberdade para movimentos de batalha, algo que o jeans nunca permitiu.

Por fim, ela juntou os cachos volumosos com as mãos e prendeu o cabelo com um elástico, deixando apenas duas fitas caírem sobre sua testa, desviando o foco daquela região.

Enquanto isso, no banheiro masculino, Raimundo teve dificuldade em se afastar da imagem tão formal da caótica noite anterior. Por isso, optou pelo meio-termo entre o mega formal e o despojado.

Ele vestia uma camisa praieira verde com alguns detalhes brancos e botões abertos, revelando uma blusa preta de tecido confortável, que, sem intenção, destacava seu peitoral — mesmo que não fosse a intenção. Entretanto, manteve um toque de formalidade ao usar uma calça leve preta e tênis.

Prontos, eles finalmente estavam com visuais ideais para o verão. Seja para praticar exercícios ou ir a uma festa na orla. Sofreriam pouco com o calor e o assédio popular, pois seria improvável que figuras tão ligadas ao Sandalismo usassem roupas tão destoantes dos rostos conhecidos. Uma dor de cabeça a menos.

— Nossa… Vai sair para correr e não me avisou? — ironizou Raimundo.

— E você vai para o luau, “queridinho”?

— Olha… por mim, ela não me chamaria assim…

— Finge que não gosta que eu acredito… Juliette, Clarisse… Está óbvio que você tem um tipo.

— C-Clarisse… o que você está dizendo?

Enquanto desciam a rampa, Raimundo foi incapaz de esconder o rubor nas bochechas. Sua irmã riu, pois tinha sacado que o maninho adorava mulheres mandonas com personalidade forte e logo se deleitou imaginando qualquer uma das duas como sua cunhada.

“Ele tem bom gosto. Admito.”

Já no restaurante popular, os dois dirigiam ao balcão, informando que haviam sido enviados pela líder para almoçar antes do horário. E foram surpreendidos com a resposta do atendente.

— Estamos cientes… Ô, dona Vilma! Libera o rango das visitas da Ju que a Camila tinha avisado.

— Podexa!

A voz distante trouxe uma atmosfera diferente da contida mansão Buloke e de outros ambientes das famílias serventes. Havia um calor humano e um senso de comunidade único naquele complexo. Motivados por esse sentimento, os dois almoçaram enquanto trocavam uma ideia sobre o quão grande e organizado era aquele lugar.

Quando terminaram, ainda sentados, foram abordados por uma aparentemente menina gentil de cabelo curto destacado pelas tranças laterais.

— Raimundo e Raissa Buloke.

— Pois não? — respondeu a cacheada.

— Eu sou Bernarda Del Valle. Me acompanham até a sala da Juliette?

Aquela era uma mulher extremamente relevante e, junto de Juliette, símbolo popular do MHP.

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Raimundo gosta das mandonas! hahahahaha

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Raimundo e Raissa são dois irmãos de uma das doze famílias serventes, aquelas que recebem os poderes dos discípulos de Sândalo pelo passar das gerações. Raimundo é o primogênito da família Buloke, sendo taxado como escolhido para seguir o legado da família e proteger todos do mal. Entretanto, o mesmo não desperta as cores da sua "marca da vontade" e tenta fugir de seu destino sendo um garoto normal, porém alguns inimigos da família não querem deixar isso barato.

Autor: O Thi (@othi_oficial) - Ilustrador: Rren (@rren_san)
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