O sol brilhava forte lá fora, uma coisa nada comum para aquela época do ano, seu corpo ainda doía por causa da luta na noite anterior. Tomou um banho com água morna e depois de vestir uma roupa confortável para o clima daquele dia, se dirigiu até a sala de estar onde avistou sua mãe assistindo a um daqueles programas matinais da televisão brasileira.
Segundo o sonho com seu pai, ele deveria conversar com sua mãe sobre a questão do dinheiro, entretanto os seus pensamentos mudaram depois da ideia de Leandro e o que gostaria de contar para sua mãe não era mais sobre sua vontade de ajudar em casa e a vergonha de não poder. Ficou alguns minutos encarando a sua mãe de longe, só tinha uma coisa da qual queria contar para ela e não esconder mais essa parte da sua vida, não achava certo de se fazer, mas como ela aceitaria essa notícia?
— Mãe. — disse Miguel se aproximando.
— Sim? — perguntou a mulher sorrindo.
— Eu gostaria de conversar com a senhora sobre uma coisa.
A mulher sorriu em resposta, os dois sentaram no sofá e desligaram a televisão para que a conversa seguisse melhor.
As mãos de Miguel começaram a tremer, nitidamente se encontrava nervoso, suor começava a escorrer pela sua testa, a mãe o observava sem dizer nada, porém sabia do que se tratava aquela conversa e esperava por aquele dia desde quando descobriu a verdade sobre seu filho. Ela também não conseguia ver seu menino nervoso daquela maneira, ela aceitava e o amava, queria que ele soubesse disso. Iria amá-lo não importa o seu jeito.
— Tudo bem Miguel, eu já sei. — a mais velha sorriu, um sorriso maternal que pegou o coração do adolescente desprevenido.
— A senhora já sabe? — o rapaz perguntou.
Ela afirmou com sua cabeça.
— Desconfiei quando você estava entrando na adolescência, confesso que no início tive dificuldade em aceitar e acreditar, mas com o passar do tempo percebi que você não deixou e não deixaria de ser o meu guri, o meu filho. — lágrimas começaram a cair do seu olho esquerdo, ainda sorrindo ela limpou as pequenas gotas de água. — Miguel, eu não me importo se você é gay ou qualquer outra coisa, quero que saiba que sempre vou te amar porque você é meu filho querido e só quero que seja feliz. Você é assim e não posso mudar.
— Mãe. — sussurrou o jovem herói, naquele momento um estranho calor preencheu todo seu peito, não conseguiu conter sua emoção e se deixou levar pelo momento. A abraçou com força deixando com que suas lágrimas escorressem pelo seu rosto.
— Então você contou? — Daniela perguntou animada. — Ah que alívio, estava na hora de você sair do armário para sua mãe não é verdade? — fez a última pergunta direcionada a Leandro.
— Eu concordo. — o japonês respondeu.
— Na verdade eu queria contar para ela sobre o Anjo Noturno, mas de alguma forma ela sabia que sou gay e achou que o assunto se tratava disso. — revelou Miguel envergonhado. — Eu sempre achei que não dava muito na cara sobre isso, sabe?
Daniela e Leandro trocaram olhares suspeitos.
— Bem, você teve uma festa de aniversário com o tema de Britney Spears. — comentou a garota negra.
— Você assiste RuPaul’s Drag Race na sala da sua casa. — Leandro disse.
O super-herói adolescente suspira derrotado, se recostou na cadeira da cantina escolar.
— Pelo menos não contou sobre sua identidade secreta, isso seria a coisa mais idiota que você faria em toda sua vida, seu idiota! — Daniela falou tentando regular seu tom de voz para que toda a escola não ouvisse.
Um garoto, que ninguém nunca tinha visto na escola (ou seja, um aluno novo), entrou na cantina. Todos os olhares se dirigiram para o moreno de olhos escuros. A sua presença emanava uma energia mística que ninguém conseguia decifrar, havia algo nele que rapidamente atraiu a atenção de Miguel, como de todos os outros, mas não se tratava de algo relacionado ao cristal roxo de outro mundo. Quando seus olhares se encontraram, Miguel sentiu um raio de energia ligando um ao outro, no final o rapaz misterioso sorriu.
— Cara, imagina como essa esquisitice seria legal se tivesse acontecido em uma daquelas animações japonesas sobre romance entre dois garotos. — comentou Daniela.
— Boys Love? — perguntou Leandro. — Como não disse o nome do gênero?
— Ás vezes pode ter pessoas que não sabem. — respondeu a adolescente negra.
O descendente de japoneses deu de ombros, sem entender o que a amiga estava querendo dizer.

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