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Além do Preto e Branco

Prólogo (2/5)

Prólogo (2/5)

Mar 13, 2021

“Se eu estiver com sono atrasado, certamente dormirei no avião!”

Pedro do passado, como você pode ser tão imbecil? Sono não é o único fator que faz as pessoas dormirem, cacilda.

Sim, eu estava com sono, mas não conseguia dormir de jeito nenhum. A cadeira não era confortável, o ar estava variando entre gelado e quente com frequência porque era daquele jeito que funcionava o sistema de refrigeração do avião e os travesseiros do meu colo se provaram inúteis em ajudar no conforto.

Já havia dado voltas nos meus pensamentos incontáveis vezes. Cansei de ler o curso de yukoponês em cinco minutos. É, já sabia como falar “irrisório” em yukoponês. Que massa, não é? É, pena que nunca irei usar a palavra e não irei sequer lembrar dela em alguns dias. Tudo que o livro fazia agora era estar entre os dois travesseiros do meu colo e criando peso nas minhas coxas.

Havia uma tela na parte de trás do assento da minha frente. Ela tinha em torno de umas dez polegadas e você podia escolher a programação de acordo com um catálogo organizado pela própria empresa que fazia a viagem. Parecia ser uma boa alternativa para passar o tempo, mas é claro que foi a primeira coisa que havia tentado fazer logo que botei a bunda na cadeira que estava agora. Nada além de filmes do século passado e seriados incompletos, todos igualmente antigos. Seria ótimo se eu não costumasse assistir nada, mas... ei, não era o caso.

Também não é como se eu tivesse muita opção do que fazer nas próximas dez horas, então comecei a passar os canais como já havia feito antes.

Se talvez fossem filmes antigos e BONS, não me incomodaria de assistir mais uma vez, mas eram os blockbusters das décadas de 80 e 90. Era impossível não ficar impressionado em como aqueles filmes foram esquecidos tão rápido... ao menos pelas pessoas, já que eram sempre lembrados pelo catálogo.

Estava já cansado de passar os canais, quando algo me chamou a atenção. Não estava passando um filme ou seriado em tal canal, mas sim um duelo que logo reconheci. Era a final do campeonato mundial de duelos estudantis de 610, que eu havia assistido pelo menos uma dezena de vezes. Bom, eu adorei assistir em todas a dezena de vezes, então assistiria novamente sem pensar. Ao menos teria minha mente ocupada pelos próximos... dez minutos ou parecido.

Normalmente os duelos duravam bem mais. Lembro de jogos que levaram até seis horas e que aconteceram naquele mesmo campeonato, mas havia uma razão em específico do porquê a final foi tão rápida.

A final foi entre as seleções de Yukopan e Isia. Isia definitivamente tinha um time cheio de garotos excepcionais, todos acima dos vinte e beirando os limites de idade dos torneios estudantis, que era vinte e cinco. Yukopan tinha cinco membros e quatro deles seguiam o mesmo padrão, mas havia uma exceção entre eles.

Nara Ennetsu.

Vendo isso, me faz pensar que foi assim que o mundo deve ter a conhecido. Digo, hoje ela está na Liga dos Heróis, então meio que já virou uma pessoa pública, mas naquela época a presença dela impressionou a todos.

Nara não tinha sequer quatorze quando esse campeonato aconteceu. Sua idade era de um contraste tão grande que ela era consideravelmente alta para uma garota com treze anos, mas ainda assim não alcançava os ombros dos seus colegas de equipe.

Ao mesmo tempo que era risível, você pode dizer que era assustador também. Digo, estamos falando de uma seleção que chegou a uma final de um campeonato mundial e tal seleção tinha como membro uma garota que tinha chances de sequer ter passado pela sua primeira menstruação. Além de tudo isso, essa garota não era apenas uma reserva, como um prodígio que todos tinham esperança que se tornasse alguém impactante mais a frente, mas ainda não confiavam nele o suficiente para estar no time titular. Nara não só estava no time titular como também era a capitã do time. Você conseguia notar isso pela faixa amarela presa no seu braço esquerdo. Aqueles jovens adultos de Yukopan não apenas confiavam nela como uma colega de equipe digna, mas também seguiam suas instruções.

Tente imaginar que tal seleção é sua adversária e você sabe de todos esses detalhes. Não só isso, como aquela guria em questão vai ser a primeira a lutar com você.

Como eu disse: é assustador. É assustador saber que eles confiam em uma criança para levá-los para a vitória. É assustador saber que tal criança não tinha perdido uma batalha sequer até então e, principalmente, era assustador saber que você poderia ser humilhado por alguém que não faz a menor ideia do que seja problemas com espinhas ou que ficaria mais rouca com o passar do tempo pelo crescimento natural da adolescência.

Imagino se isso passou pelas cabeças dos integrantes de Isia. Aliás, a pergunta em questão é se houve TEMPO para passar na cabeça deles. Como eu disse: Nara foi a primeira a lutar e sua seleção não precisou mover um dedo sequer. Os mesmos prodígios de Isia que haviam dado trabalho a outras fortes seleções, como também tinham humilhado as mais fracas, não pareciam nem perto do que realmente eram. A senhorita Ennetsu tinha destruído os três primeiros integrantes em menos de cinco minutos. A torcida enlouquecia com cada vitória fácil de Yukopan. Batalhas equivalentes eram legais, mas admito que deve ter sido ainda melhor ver uma criança acabando com um bando de adulto com suas barbas formadas como se eles fossem bonecos de pano.

As expressões vindas do último integrante de Isia eram impagáveis. Lembro que eu sempre ria quando via que ele estava se cagando de medo. Sempre pensei se aquilo era literal, mas nunca cheguei a achar nenhuma mancha marrom nas suas roupas. Ainda assim, ele era a estrela de sua seleção e deu mais trabalho do que os outros, mas também não conseguiu durar cinco minutos. Quatro minutos e trinta e sete segundos, para ser mais exato. Para quem não acompanha tal esporte, parecem apenas números ao vento, mas acho que ajuda dizer que a média de cada duelo era em torno de vinte e sete minutos e quarenta e dois segundos. É, não deve ter sido um bom dia para ele e o resto da sua equipe.

Isia estar na final não era nada impressionante, já que o país já tinha chegado lá outras vezes, mas Yukopan nunca havia ido além das quartas. Obviamente eles comemoraram como nunca, mesmo que a maior responsável pela vitória tenha ficado bem mais na dela e sorria constrangida. Eu sempre me perguntei porque aquela era a sua reação. Sei que pode ser aterrorizante para algumas pessoas ouvirem seus nomes em uníssono em um estádio cheio, mas... diabos! Você venceu um campeonato mundial! Você já fez mais do que muita gente vai fazer em toda a sua vida e nem tem seios crescidos ainda! Comemorar é o mínimo que você pode fazer. É o que eu faria, sem dúvida.

Rever aquela final foi bem animador, porque aquilo me fazia lembrar um detalhe interessante de tudo: a minha razão por estar neste avião agora, a caminho de um país que eu não conheço, com um povo que não conheço e com uma língua que, mesmo que tenha a estudado no último ano, também não conheço o suficiente. Tal razão era a mesma que levou seu país a vitória dois anos atrás, a Nara Ennetsu.

Logo depois de assistir esse torneio, eu criei um certo interesse por ela. É, ela é bonita. Seus cabelos longos e com detalhes em laranja e vermelho, sua altura, seus olhos igualmente laranjas e que ficavam ainda mais bonitos quando brilhavam no meio de toda aquela humilhação, seu rosto sem destaques, seu nariz e boca finos e todas essas características foram intensificadas dois anos depois, mas meu interesse não era em sua beleza. Digo, não é como se tais características fossem exclusivas dela ou de Yukopan e eu pouco sabia sobre sua personalidade. Também não é como se eu fosse a pessoa mais linda do mundo e fosse para Yukopan com a certeza de que a prodígio iria se apaixonar por mim.

A razão do meu interesse era, na verdade, de aprender com ela. Se ela era a capitã da sua seleção no esporte, provavelmente deveria saber muito de batalhas e controle de poderes. É claro que eu poderia pegar tais dicas até mesmo da seleção do meu país, só que eles sequer passam da primeira fase e não acho que adultos tenham interesse a explicar coisas para uma criança aleatória. Além do mais, o que poderia aprender com eles que não aprenderia com qualquer um que estivesse em um torneio estudantil? Se ao menos Torugal do Sul tivesse um histórico vencedor... não era o caso.

O que poderia tornar isso possível, toda essa aproximação com essa garota, todo esse aprendizado, toda essa possibilidade de aprendizado, era não só ela ser uma vencedora, como também termos idades próximas. Nossa ingenuidade é, provavelmente, bem parecida, assim como forma de pensar ou vivência em si. Não gosto muito dessa última palavra, mas enfim.

Parece um pensamento idiota e eu admito que é mesmo. Estar indo para outro país apenas para falar com uma garota que você sequer conhece, esperar que ela possa ser sua sensei ou seja lá qual é a palavra em yukoponês para isso e não sabendo nada se ela vai aceitar. Existe uma grande chance dela me ignorar como se eu nem existisse. É, eu sou o garoto estrangeiro, mas o mesmo garoto estrangeiro que perdem o interesse após a primeira semana passar e verem que ele nada tem de especial.

Esse “nada tem de especial” é provavelmente o que mais me incomoda. Veja bem, eu nasci com 7,4 de afinidade. Novamente, números ao vento nada significam, então deixe-me dizer que é um valor consideravelmente acima da média, que varia entre zero e dez pontos. O colégio Chikara no Kyoten só aceita estudantes de alta afinidade. Se você é estudioso, mas tem uma baixa afinidade, nada feito. É um dos requisitos.

Só que não importa ter tal afinidade se a minha força ainda é baixa. Eu nunca lutei em duelos, nunca treinei adequadamente e não faço a menor ideia por onde começar. Já me disseram que eu não deveria seguir o que pessoas com afinidade menor faziam, porque o método é diferente. No começo achei isso bem babaca e elitista, mas para minha surpresa... é verdade. Passei meses tentando seguir dicas de um dos meus amigos que participava de torneios lá em Torugal do Sul, mas sua afinidade era menos de seis pontos. Os efeitos praticamente não existiram. De certo que o Rafael tinha mais experiência do que eu, mas não diria ser normal perder as batalhas da forma que eu perdia.

Tudo nesse mundo depende desse número que indica a sua afinidade. Não adianta nada ser inteligente ou dedicado se sua afinidade for baixa demais. Há várias histórias de superação de pessoas que tinham baixas afinidades e conseguiram fazer coisas incríveis... ou ao menos incríveis para o que esperavam para suas devidas afinidades.

Mas é exatamente esse o ponto: eu não tenho baixa afinidade. Na teoria, eu sou privilegiado. De nada adianta ser “privilegiado” se toda aquela medição não passar de números. É como nascer em berço de ouro e então ter que vender tal berço para pagar dívidas porque você virou um adulto incompetente que não consegue pagar suas próprias contas.

Não é apenas um objetivo pessoal. Minha família pode precisar de mim. Meu país passou por tempos conturbados recentemente e eu posso proteger a todos eles se isso vir a acontecer de novo. Não adianta você ser o destaque de sua família se você não é além de um número que não significa absolutamente nada.

E sim, estou ciente que Nara é muito mais poderosa do que eu, mas tem um fator: ela nasceu com hiperimperium, uma espécie de habilidade que permite que sua afinidade cresça praticamente sem limites. Seus números começaram baixos e foram aumentando aos poucos. Hoje talvez ela seja muito mais poderosa, mas nem sempre foi assim e ela já teve um nível parecido com o meu. Sim, sua afinidade era em torno de 7,3 no torneio de 610. Ela destruiu os adversários, mesmo com um nível que não tem nada de especial para alguém que conseguiu chegar a uma final de campeonato mundial. Posso e devo aprender muito com ela.

O colégio que irei começar a estudar em duas semanas é exatamente o mesmo que Nara estuda. Não faço ideia se há mais turmas na nossa série, o que tornaria a chance de estudarmos na mesma sala ainda menor, mas não importa. Ela não estar na mesma sala é apenas um pequeno obstáculo que irei vencer sem muitos problemas. Não é como se eu fosse aprender algo com ela quando precisarei prestar atenção as aulas de qualquer forma porque se minhas notas forem terríveis, o “gringo” aqui será dispensado sem dó e vai precisar continuar sua vida como se tal parte dela nunca tivesse acontecido.

Era naquele ponto que meus pensamentos tinham dado mais uma volta, mas foi tão rápido que foi difícil evitar a frustração quando vi que tinham passado apenas três minutos. A tela da minha frente ainda mostrava a comemoração de Yukopan pela sua inédita conquista.

Suspirei mais uma vez e me encostei na cadeira. Decidi por aumentar o volume da música que continuava tocando no celular. Ajudaria a refrescar a mente.

Ou a dormir.

igornsdm
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