Normalmente tal método não funciona com as pessoas. Se você for ver, meio que não faz sentido. Como que aumentar o volume da música pode lhe ajudar a dormir? Seus ouvidos apenas vão ficar mais incomodados com todo aquele ritmo constante passando por eles. Não é como se a minha lista contasse com apenas uma música também, onde seu cérebro entenderia o padrão e se acostumaria com ele com o passar do tempo.
Mas bem, funcionou comigo. Bem até demais.
A cabeça estava extremamente pesada. Talvez por ter dormido naquela posição completamente desconfortável, ou talvez pelas horas consecutivas da música em altíssimo volume. Nunca saberei e sinceramente não me importava o suficiente para tentar descobrir. O incômodo que sentia dificultava em pensar em qualquer coisa.
Peguei o celular do bolso. Estava morno, como qualquer aparelho em atividade por muito tempo. Ao ligar a tela me deparei com o horário e o indicador de bateria, que me causou uma reação engraçada, envolvendo alegria e tristeza ao mesmo tempo. Alegria porque o relógio indicava que eram onze e quarenta e seis da manhã, ou ao menos o horário em Torugal do Sul, já que o celular só se adaptaria com o horário local ao ter sinal novamente. E tristeza porque a bateria estava em exatos dezesseis por cento.
Desliguei o aparelho sem pensar duas vezes. Por mais que adorasse substituí-lo pelo computador portátil que estava na minha mochila, não tinha como saber se precisaria dele também. Sono não era mais um problema, pois havia dormido demais, mas ainda precisava saber como ocupar a hora e pouca restante que ainda teria de viagem.
Nem mesmo poderia ver algo na janela. O avião estava viajando para o leste por todo o tempo, então era como se eu estivesse passando por uma eterna noite. Na verdade, eu tinha a certeza que tinha passado por um momento que fosse dia, mas aquele momento já era e tudo que via era um breu, o mesmo que o do ocidente, só que dessa vez no oriente.
Suspirei mais uma vez e peguei o livro que estava entre os dois travesseiros do meu colo. Talvez aquela fosse uma boa oportunidade para estudar.
Tudo é muito mais fácil quando você não está com sono. A hora seguinte foi produtiva e, antes mesmo que pudesse notar, o avião aterrissou em Shihon. Estava em Yukopan. Ainda tinha uma pequena escala a fazer, mas já estava no meu destino.
-Olá, senhores passageiros. Sejam bem-vindos a Yukopan.
A voz, provavelmente do capitão, vinha das caixas de som que estavam estrategicamente colocadas no teto dos corredores. O anúncio estava em toruguês.
-Acabamos de aterrissar em Shihon, a capital do país. A temperatura do lado de fora está em torno de dezesseis graus centígrados. Em breve as portas irão se abrir para que todos possam sair. Lembramos que mesmo as pessoas que estejam em escala para outras cidades ainda precisarão passar pela alfândega. Obrigado por escolherem nossa empresa e tenham um bom dia.
Houve uma pausa e a mesma mensagem foi repetida pelo mesmo capitão, só que dessa vez em yukoponês. Ter entendido cada palavra dita, mesmo que já tivesse a “cola” do que seria dito, ainda foi um sentimento bacana. Os estudos haviam valido a pena.
Havia chegado, mas aquele era apenas o princípio.
Não fazia a menor ideia do que viria pela frente e, assim como a reação que tive ao olhar para a tela do celular pouco mais de uma hora atrás, era um sentimento engraçado.
Medo nunca combinou muito bem com determinação.
Eu havia dito que ainda tinha um caminho a fazer, mas aquele caminho não era por avião. Ainda bem, chega de aviões.
Atarashi ficava a cento e trinta quilômetros de Shihon. Contava com seu próprio aeroporto, mas a viagem era tão próxima que não era viável. Mesmo se quisesse, não conseguiria uma passagem para aquele momento.
Liguei novamente meu celular. Ainda indicava os dezesseis por cento de bateria, mas o horário se atualizou como se fosse a maior das prioridades após receber o sinal. Duas e doze da manhã. Rapidamente passou pela minha cabeça o quão horrível iria ser acostumar com o novo fuso horário, mas o lado bom é que minhas aulas não começariam pelos próximos dez dias. Passar um dia inteiro estirado na cama era uma ideia que parecia muito melhor do que realmente é, ao menos naquele momento.
Bem, não dá para se estirar em uma cama se você não tem uma ao seu dispor. Ainda tinha o que fazer.
Pai e mãe sempre me mimaram bastante, ao ponto que eu mesmo achava o mimo exagerado. Não precisei mover um dedo sequer para os preparativos da viagem, sendo que eles arrumaram as passagens, minha mala e até mesmo o local onde iria ficar. Normalmente eu odiaria aquilo tudo, mas sempre que imaginava o quão trabalhoso isso seria de fazer, ainda mais com meu vocabulário limitado de yukoponês, o ódio virava um alívio, seguido de um “obrigadão”, seja para meu pai, ou minha mãe ou para os dois ao mesmo tempo. Não sei a intensidade que cada um se envolveu em tal processo, mas agradecia na mesma intensidade.
E não falei o plural de “passagem” à toa, já que realmente eram passagens. A do voo que acabei de fazer e a do trem para Atarashi. Estava marcado para as quatro da madrugada, já que não tínhamos como saber se o avião atrasaria ou se a alfândega faria esse trabalho. Nenhum dos dois fez, na verdade. A promessa do voo era estar em solo às duas e quinze e ele realmente estava. A alfândega foi tão rápida que eu me perguntei por um momento se eles estavam fazendo seu trabalho direito. Claro que eles olharam meus documentos e fizeram as perguntas padrões, como “propósito da viagem” em que enrolei muito mais do que deveria para dizer “estudos”, mas... era aquilo? Era difícil não pensar se algumas pessoas já sabiam disso e enganaram aqueles funcionários com documentos e propósitos falsos.
Bom, se considerarmos que Yukopan é um dos países mais pacíficos de todo o mundo, acho que era o suficiente.
A estação ferroviária ficava tão próxima do aeroporto que sequer precisei de carona ou um serviço com o mesmo propósito. Mesmo estando de madrugada, eu me sentia seguro. As ruas eram iluminadas e logo na saída do aeroporto havia uma estação policial muito maior do que esperava. Suas luzes acesas também indicavam que eles estavam funcionando.
Pouco pude admirar a cidade, mas me surpreendi com alguns detalhes, como existir vários apartamentos residenciais próximos ao aeroporto. Em Torugal do Sul, os aeroportos normalmente ficavam bem distantes das cidades, com poucas exceções. Aquilo era um bom sinal de que eles tinham que se virar como podiam no seu pequeno pedaço de terra que chamavam de país. A população de Torugal do Sul era parecida com a de Yukopan, mas tinha pelo menos cinco vezes mais terreno ao seu dispor. Imagino se as pessoas que moram ali perto estariam acostumadas com o barulho de chegadas de voos e de trens que saíam vinte e seis horas por dia e cinco dias por semana.
Ao chegar na estação ferroviária, fiz um esforço para ler o que estava sendo indicado nos telões. Obviamente tudo estava em yukoponês. Comecei a me perguntar se odiaria aqueles símbolos nos próximos dias e era difícil pensar em uma resposta otimista além de “talvez”. Felizmente eles eram diretos e os números ainda eram parecidos com os nossos, então não demorei de encontrar onde deveria ir.
Peguei o celular mais uma vez. Dessa vez o número havia reduzido de dezesseis para quatorze por cento e sequer eram três horas. Provavelmente teria que desligá-lo novamente em breve, mas naquele momento aproveitei para mandar uma mensagem para a minha família. Já era reconfortante ver algo em toruguês mais uma vez.
“Cheguei. Estou na estação esperando o trem para Atarashi. Tudo ocorreu bem. Falo com vocês de novo quando estiver no apartamento.”
Exceto pelo corretor insistir em corrigir “Atarashi” para “atrás de ti”, não tive muitos problemas em digitar a mensagem. A resposta foi rápida. Um simples emoticon com um sinal de “legal”.
Ainda estava olhando para a tela quando veio mais uma resposta.
“Não ligue pra isso, bebê. Seu pai que achou uma boa ideia ser seco desse jeito mesmo. É bom saber que você chegou bem. Ligue para nós quando chegar. Beijão de sua mãe.”
Sorri e desliguei o aparelho em seguida. Poderia não ter a minha família perto de mim naquele momento, mas ainda me impressionava como você pode expressar tão bem sua personalidade em textos.
Aquilo iria funcionar. Não sei por quanto tempo, mas não era algo que tinha interesse de pensar agora.
O banco da estação não era muito confortável, porém não é como se eu tivesse muita opção de onde encostar.

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