Uma das coisas que mais me impressionou na viagem de trem, além do próprio trem, que fez o caminho em apenas vinte minutos, foi o ambiente de onde passei. Em nenhum momento passei por lugares bonitos e cercados por florestas, mas sim por vários lugares povoados, com prédios altos e resquícios de civilização em todo o lugar. Se eu não tivesse ideia de onde o trem estava indo, poderia interpretar que viajei entre dois bairros.
Atarashi era nitidamente menor do que Shihon. Não me impressionava, já que a cidade também fazia parte da pesquisa extensa que fiz antes de decidir estudar fora. Em torno de setecentos mil habitantes, sempre foi uma cidade de médio porte do país e nunca esteve sequer nas quarenta mais habitadas. Eu morava em uma cidade chamada Cachoeira do Sul, mas ela tinha apenas trinta e cinco mil pessoas, então era difícil dizer que me sentia em casa, mas bem... entre Atarashi e Shihon, Atarashi era uma escolha fácil.
O sol começava a nascer no horizonte, como é normal de acontecer no verão de Yukopan às quatro e vinte da manhã. Pássaros começavam a cantar e eu notei uma coisa logo quando desci do trem, a de que Atarashi era mais fria que Shihon. Ao ligar o celular, ele confirmou minhas suspeitas: onze graus.
Aquilo estava bem longe de ser um frio que me incomodava. Na verdade, o que me incomodava mesmo era que eu estava no verão. Tinha acabado de sair do inverno do sudoeste e a temperatura tinha números equivalentes.
Parece uma piada, não é? O garoto aqui, que se acha por ter um poder de congelar coisas, sequer consegue lidar com temperaturas mais baixas. Isso era uma prova ainda maior que minha afinidade não passava de números que nada significavam.
Atarashi sofria com uma característica bem comum de Yukopan: era uma cidade consideravelmente populosa em pouco espaço. Não havia feito a comparação, mas só de olhar, tinha a impressão que Cachoeira do Sul era ainda mais extensa. O apartamento que meus pais tinham alugado para mim era consideravelmente próximo da estação ferroviária e resolvi fazer o percurso caminhando. Não era como Shihon, que havia uma delegacia gigantesca próxima a estação, mas o sentimento de segurança ainda estava lá. E também o sol nascer no horizonte ampliava esse sentimento, mesmo que aquilo não fizesse sentido algum. Como o sol poderia nos proteger de qualquer coisa? Era estúpido, mas funcionava por alguma razão.
Não demorei a chegar no meu apartamento. Era um que se misturava com os outros e não parecia ter nada de especial. O colégio ainda ficava a seiscentos metros de caminhada, mas não estava no percurso, então conhecerei ele em outro momento. Não havia prestado atenção ao meu redor no caminho em si, mas pelo pouco que notei, vi que aquela seria uma cidade legal de morar, pelo menos até me formar. Não tinha nada de muito característico nela, mas aquele “quê” de pacificidade que Cachoeira do Sul também tinha estava lá. Era legal se identificar, mesmo que de forma breve.
Logo quando abri a porta que levava ao terraço, me lembrei de algo que me aterrorizava.
Meus pais haviam resolvido tudo para mim no quesito financeiro e de disponibilidade, mas eu ainda precisava falar com alguém para poder pegar as chaves.
Não seria o primeiro yukoponês com quem eu falaria, mas era o que eu precisava me comunicar mais detalhadamente até então.
Pego um pedaço de papel que estava no meu bolso desde que saí de Torugal do Sul. Nele haviam todas as informações que precisava. O endereço eu havia decorado, mas não a pessoa.
Hiro Miyakawa
Apt. 25
Síndico e responsável pelas chaves
Em cima do papel havia o endereço, que já era inútil e embaixo algumas observações, como lembrar de ser formal e não o chamar pelo primeiro nome “em nenhuma ocasião”. Achei engraçado que “em nenhuma ocasião” foi escrito com uma caneta vermelha, enquanto todo o resto do papel estava em preto.
É, toda aquela diferença cultural ia pegar também mais à frente. Sul-torugueses não se importam em serem chamados pelo primeiro nome, mas as coisas eram diferentes por aqui. Tal detalhe era mínimo se comparado com outras diferenças com Torugal do Sul e seguir tais regras de etiqueta seria um baita desafio.
Hesitantemente apertei o botão que interfonava para o apartamento vinte e cinco, esquecendo completamente do horário que era. Ótimo, mal comecei a minha estadia naquele país e já tinha feito cagada.
Não iria insistir em interfonar novamente e já estava pensando em comer em algum lugar para o tempo passar, mas a resposta veio rápida.
-Sim?
A voz era rouca e provavelmente vinha de alguém que tinha acabado de ser acordado.
-Se... senhor Miyakawa?
É difícil de explicar para alguém que nunca precisou se comunicar com uma língua que não é fluente em um país estranho, mas o que posso adiantar é que é ainda mais difícil de formar as frases na hora do “vamos ver”. Nervosismo e ansiedade se misturam como se fossem batidos no liquidificador e você acaba falando como se não tivesse expressado uma única palavra há anos.
-Sim, é ele. Quem é?
Tentei encontrar algum sinal de insatisfação em sua voz, mas ela estava completamente neutra.
-Me desculpe por estar lhe incomodando tão cedo, mas... eu me chamo Pedro. Pedro Cardoso para ser mais exato. Aluguei um apartamento por aqui e sei que preciso pegar as chaves com o senhor.
Ou ao menos foi o que eu achei que havia dito. Por que aquilo era tão difícil? Soltei uma transpiração tão forte que tenho a certeza que o morador do apartamento vinte e cinco tinha ouvido.
A resposta não tinha vindo. Por um momento achei que o senhor Miyakawa não tinha entendido meu yukoponês sem prática. Estava prestes a repetir tudo, dessa vez com maior cautela nas palavras, mas fui interrompido.
-Ah, sim. Certo. Pode subir e lhe darei as chaves.
Alívio era uma palavra muito fraca para expressar o que sentia naquele momento. Ele entendeu. Ele não havia criticado meu yukoponês ou parecido. Claro, não significava que ele não faria isso em pessoa, mas ele não fez questão de fazer isso no interfone. Era algo bom... certo?
-Obrigado. Já... estou subindo.
Desliguei o interfone e subi depressa. O prédio tinha apenas quatro andares e não tinha nenhum elevador disponível. Não havia trazido muitas coisas, então não foi um problema chegar no segundo andar.

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