Nada muito relevante ocorreu nas horas seguintes. Admito que isso me deixou um pouco decepcionado.
Logo na primeira aula eu fui apresentado como o aluno novo. A apresentação foi indiferente e todos responderam “olá” pela ordem do professor de matemática. Quer dizer, todos menos Akemi e seus amigos, que tudo que fizeram foram me lançar olhares de negação. A própria Akemi parecia bem emburrada e com toda a razão, se me permite dizer. Ao menos ela sabia agora que eu era de Torugal do Sul, já que foi uma das coisas que o professor fez total questão de dizer.
Exceto por ser uma aula ditada em yukoponês, não parecia ser muito diferente das que eu já tive. O assunto foi pura revisão, então reconheci muitas coisas, ao mesmo tempo que outras não. Eh, eu teria muito tempo para me atualizar, se assim fosse necessário.
A cada minuto de aula eu me sentia cada vez mais feliz e realizado por ter investido todos aqueles últimos dez dias no estudo da língua yukoponesa. Se parecia como uma tarefa pensar nas palavras quando eu havia chegado, agora estava bem mais natural. Longe de ser confortável como o toruguês, mas podia dizer que a fluência não estava longe. Precisava agradecer ao senhor Hiro também, já que ele mesmo fez questão de usar suas curtas noites livres para me ajudar na pronúncia de palavras e outras coisas que pudessem vir a serem relevantes.
Ainda aconteceram mais duas matérias antes do horário de almoço, mas também nada que eu não já tinha visto. Em história o assunto foi o início da era contemporânea, a que estávamos agora. Era estranho rever o uso da sigla “e.c.” para o uso dos anos, já que no dia-a-dia o normal era usar apenas os números, mas precisava ser feito, já que citaram eventos que aconteceram antes de tal era e, nesse caso, a sigla era “a.e.c.”, uma forma curta de dizer “antes da era contemporânea”. A aula de biologia foi apenas um estudo da anatomia humana, algo que eu tinha a certeza que já estava estudando há alguns anos.
E chegávamos na metade do dia. Treze horas das vinte e seis haviam passado e estaríamos livres até as quatorze e meia. O próprio colégio oferecia almoço para os seus estudantes e expressei um sorriso para mim mesmo após lembrar que em quatro dos cinco dias da semana eu iria economizar em tal refeição do dia. Mais dinheiro para lazer, eu diria. Minha esperança era que ao menos a comida fosse boa.
Como o ensino era integral até mesmo para as séries inferiores, o colégio contava com ao menos três refeitórios, todos grandes o suficiente para acolher os mil e quinhentos alunos. Não sei dizer se realmente haviam quinhentos lugares em cada um, mas parecia que sim. Para não causar problemas, a divisão era feita por séries e eu ficaria no último deles, que envolvia alunos entre a oitava e décima quarta séries. Não havia nenhuma restrição em envolver alunos de séries diferentes nas mesmas mesas, mas eu pude notar que era algo que raramente acontecia.
A seleção do que comer era bem variada e haviam muitos pratos tipicamente yukoponeses no meio. Poderia provar alguns, mas não estava com uma vontade muito grande em me “aventurar”, então peguei apenas os que já sabia que gostava. Mal pude esconder minha felicidade quando vi que a sobremesa era um pote de pudim recheado de chocolate. Não sabia o gosto, mas parecia muito bom de “cara”.
Procurava por um lugar, até que uma voz me chamando me chamou a atenção.
Nara estava sentada em uma mesa grande, que na verdade era exatamente o mesmo tamanho que as outras, mas não deixava de ser enorme. Tinha capacidade para, pelo menos, umas trinta pessoas comerem juntas. Dois assentos do seu lado estavam vazios e optei pelo mais afastado deles.
-Pedro.
Ouvi ela logo depois de me sentar. Ela olhava diagonalmente, em um meio termo para a frente e onde eu estava.
-Sim?
-Vai ser meio difícil não ficar rouca se eu tiver que falar com você a dois quilômetros de distância.
O tom de sua voz me fez entender rapidamente o problema. Não era a distância somente, mas também o barulho do refeitório. Quinhentas pessoas falando em um único ambiente fazia ser um pandemônio de vozes misturadas.
Mudei para a cadeira mais próxima, ainda meio envergonhado. Admito que ainda estava surpreso que Nara agisse BEM diferente do que esperava. Ela parecia incrivelmente assertiva e sem problemas nenhum para expressar o que pensava. O que não tinha nada a ver com aquela garota que sequer sabia como se comportar em uma comemoração.
-Tem razão. Desculpe.
Ela apenas olhou para mim e sorriu. Por um momento apenas comíamos em silêncio.
Após observar ao redor, notei que Akemi e seus amigos não estavam na mesma mesa e sim em uma um pouco mais afastada que a nossa. Não sei se ela me olhou antes, mas naquele momento ela apenas apreciava sua comida.
Aquilo me fez lembrar de um assunto que eu queria falar com Nara.
-Então... qual é a sua história com Akemi?
Ela me olhou com certa curiosidade.
-Digo... você não precisa falar se não quiser. – Me apressei em dizer, com medo que estivesse quebrando barreiras rápido demais.
-Ah, não se preocupe. – e bebeu um pouco do seu suco. – Não é como se toda a escola já não soubesse.
Meus olhos esbugalharam com a resposta. Admito que esperava algo bem mais... recluso, se é que aquela palavra estaria certa em ser usada naquela ocasião.
-Você poderia dizer que nossos santos não se batem. – continuou.
Aquela era uma expressão tipicamente toruguesa e demorei a notar que ela usou tais palavras em toruguês. Sabia que era um dos piores momentos para isso, mas acabei soltando uma risada involuntária.
-Então sabe algo de toruguês... – eu falava aquilo com um certo orgulho no rosto. – Me pergunto o quanto você fala.
Acabei falando tudo aquilo em toruguês também, como se tentasse continuar o “ritmo”. Não sei dizer se Nara tinha entendido, mas por ela ter sorrido, imagino que sim.
-Eu entrei aqui aos doze anos, na sexta série. – ela voltava a dizer em yukoponês. – Logo no meu primeiro dia, ela foi a primeira a falar comigo. Era bem mais jovem e devia ter uns vinte centímetros a menos que hoje, mas eram as mesmas palavras que ela usou com você e o mesmo maldito tom arrogante de merda.
Apenas ouvi em silêncio e aguardei que ela continuasse.
-Só que eu não tinha alguém pra me defender, sabe? Suas respostas foram praticamente iguais as minhas... é claro, ignorando que ela não implicava com minha descendência e dessa vez com a cor e tamanho dos meus cabelos. Talvez seja por isso que achei uma boa ideia intervir. Eu sabia que aquilo não terminaria bem, porque não terminou comigo.
-O que aconteceu?
Não consegui evitar a preocupação, porque já imaginava onde aquilo iria chegar.
-No final da tarde daquele dia, ela e esses mesmos quatro... escravos dela me cercaram. Tentei reagir e até consegui por um tempo, mas era uma batalha completamente injusta. Em pouco tempo me derrubaram, mas não pararam.
Seu rosto demonstrava uma mistura de tristeza e raiva lembrando da situação. Pensei em pedir que ela parasse, mas ela continuou antes disso.
-Já perto de desmaiar, eu senti que melhorava rápido, como que um milagre. Então eu notei que ela me curava. – deu uma pequena pausa e olhou para mesa, continuando em seguida. – Não esqueço aquele maldito sorriso de vitória que ela tinha. Ela sentia prazer com aquilo. Pude voltar a revidar, mas acabei perdendo a luta do mesmo jeito que a primeira vez.
-Caralho.
Não costumava soltar aquele tipo de palavra apenas por falar, mas ouvir aquilo me deixava realmente revoltado. Expressei um pedido de desculpas e ela sorriu mais uma vez, só que agora não tinha alegria nenhuma em seu rosto. Ela continuou após um tempo, como se estivesse juntando seus pensamentos.
-Ela não fez isso apenas uma vez, ou duas... eu perdi a conta, pra ser sincera. O resultado era sempre o mesmo. Estava decidida que na próxima vez que ela me curasse, eu tentaria fugir, porque não adiantava nada. Não conseguia nem mesmo arranhar um deles. Só que não teve mais uma vez.
Ela pausou novamente e ainda olhava para a mesa. Não a interrompi.
-Tudo que eu sei é que acordei horas depois em um hospital. Não tinha nenhum plano de saúde, então você pode imaginar o que aconteceu.
-Você precisou ficar internada e não teve direito a cura instantânea?
Nara voltou a olhar para mim. Sua expressão parecia mais calma, mas ainda estava nitidamente perturbada.
-Isso. É assim também em Torugal do Sul?
-É. Pode-se dizer que nisso nossos países não são tão diferentes assim.
Ela sorriu mais uma vez, dessa vez de forma sincera e aos poucos voltava a mesma de antes da conversa.
-Felizmente eu tenho uma amiga com o poder de cura e quando contei a ela o que havia acontecido, ela foi para a mesma hora pro hospital. – e bebeu mais um gole do seu suco. – Sua afinidade era bem inferior à de Akemi, mas as estimativas eram que eu passasse meses lá dentro e ela conseguiu reduzir para apenas um único dia. Não tenho o que reclamar. Deve ter evitado várias cicatrizes também.
Por um momento, apenas voltamos a comer. Algumas perguntas ainda pairavam no ar, como a de que se aquilo teria acontecido mais vezes, ou também porque os papéis haviam se invertido. Esta última parecia ter uma resposta bem mais óbvia, porém, mas não tinha a certeza se queria ouvir e nem mesmo se era o momento adequado para perguntar.
Sua voz quebrou o silêncio logo após ela terminar seu prato.
-Mas eu não tenho muito o que reclamar, sabe? – limpou sua boca com um guardanapo antes de continuar. – Se Akemi não tivesse implicado comigo no primeiro dia, eu não sei se teria ficado tão forte em tão pouco tempo. As coisas são bem mais rápidas quando você tem a necessidade.
Eu não sei dizer se ela sentia raiva mesmo falando daquele jeito, mas se sentia, estava escondendo muito bem.
Estava prestes apenas a concordar, quando ela mesma se adiantou.
-Pedro... você sabe quem eu sou, certo?

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