Aquela pergunta me pegou de surpresa e quase engasguei com minha própria comida.
-Eu não digo saber do meu nome ou algo do tipo. – continuou. – O nome eu já disse quando nos apresentamos. Eu quero dizer é se você conhece a pessoa Nara Ennetsu. A que chamam de “rainha do fogo” como se fosse um elogio, mas que todos nós sabemos que se realmente quisessem elogiar, não usariam “rainha” e sim “princesa” ou algo do tipo.
Ela me olhava com uma expressão inquieta, dando a entender que estava bem ansiosa pela minha resposta, independente de qual fosse. Admito que não sabia como responder aquilo adequadamente. Claro, eu tinha entendido o recado, mas o que menos eu queria era ofender a pessoa que eu mais tinha interesse em criar uma relação amistosa logo depois de já ter feito a parte mais difícil.
Não poderia hesitar por muito tempo ou tal hesitação poderia ser uma ofensa por si só. Respondi com a primeira coisa que veio à minha cabeça.
-Então... seu poder é fogo? Nem tinha notado.
Bebi um gole do meu suco e fiz questão de não tirar o meu olhar para ela. Sua variação de emoções em tão pouco tempo foi inicialmente preocupante, mas me aliviei quando ela riu.
-Muito engraçado.
-Bom, você riu. Então, obrigado.
-Isso não responde a minha pergunta, no entanto.
É, tinha ganhado um tempo, mas ela voltou a olhar séria para mim. Sabia que seria bem mais fácil agora que a tensão no ar estava menor e respondi com uma hesitação menor.
-É meio difícil não conhecer alguém quando este alguém está na Liga dos Heróis, não é?
Dessa vez olhei para ela com um sorriso reconfortante no rosto. Não tinha a intenção de contar a razão da minha “aventura” aqui. Preferia conhecer ela um pouco mais antes de ir para tal nível, ou ela provavelmente não gostaria e poderia até se ofender. Admito que isso seria ainda mais difícil depois de tal conversa, porém. Nara deixou claro que ela se incomodava com sua suposta “fama”, então falar tal coisa para ela me faria parecer um “fã bitolado” ou algo do tipo. Isso ignorando completamente o quanto eu parecia com um perseguidor se as palavras erradas fossem usadas.
Nara retribuiu o sorriso e pegou a sua sobremesa, que era a mesma que a minha.
-É... é verdade.
Ela abriu o pote em seguida. Não sei dizer se havia feito algo errado, mas não conseguia identificar nenhuma decepção apenas lendo seu rosto. Apenas comia seu pudim em silêncio e aquilo me deixava absurdamente desconfortável. Pensei em dizer algo como “não vai nem me dizer se esse pudim é bom?”, mas senti que estaria quebrando alguns obstáculos que não deveria quebrar e resolvi ficar quieto.
Não nos falamos mais por um bom tempo. Mesmo terminando sua comida, ela ficava na mesa, como se me aguardasse terminar. Apesar de não ter nenhuma intenção de falar nada, acabei me surpreendendo o quanto o pudim era bom e acabei soltando vários “hums” a cada colherada. A comida era boa, mas aquele pudim estava sensacional.
Nara notou e acabou rindo.
-É, eu também me surpreendi de como era bom depois de comer no meu primeiro dia.
Aproveitando que aquilo tinha acabado indiretamente com a tensão, não pensei duas vezes em responder.
-Bom? – tomei mais uma colher e fiz questão de falar com a boca cheia. – Isso é maravilhoso. Deveria ser um crime dar isso para alunos.
Ela riu mais uma vez com meu comentário. Não escondi a felicidade por ter “revertido o jogo”, ainda mais de uma forma tão besta e inesperada. A ironia de tudo era que aquilo era tão inesperado quanto foi meu primeiro encontro com Nara. A vida tem dessas coisas, eu diria.
Ao terminar meu pudim, continuamos conversando, dessa vez sobre as aulas. O colégio tinha aulas teóricas, como qualquer outro, só que com os melhores professores que você encontraria em Yukopan e até mesmo alguns estrangeiros. Nara tinha me dito que nosso professor de química era de Nova Garedônia e isso me fez lembrar que era um dos países com influência toruguesa, mesmo que sua atual língua fosse bem diferente do toruguês atual. Certamente teríamos certas coisas engraçadas a conversar.
Mas o diferencial do Chikara no Kyoten era justamente nas suas matérias do vespertino. A instituição não estava em busca de garotos com alta afinidade à toa e as tardes visavam explorar seus poderes. Haviam matérias teóricas sobre eles, como a “Introdução ao estudo de afinidades” que era a que faríamos hoje mesmo logo depois do almoço, assim como várias práticas. De acordo com Nara, até mesmo as aulas de educação física envolviam o uso dos poderes. Já sabia de tudo isso, mas vendo ela falar, acompanhado do quanto ela parecia empolgada, fez que eu ficasse empolgado também. Digo, não é como se as aulas teóricas do matutino fossem tão ruins que precisassem ser compensadas pelas as que finalizavam o dia, mas realmente parecia divertido estudar tudo aquilo.
Recolhemos nossos pratos uns vinte minutos antes de acabar o horário de almoço. Nara e eu voltamos juntos para a nossa devida sala e nesse meio tempo continuávamos a conversar sobre as matérias. Nos separamos quando tivemos que nos sentar e aproveitei o tempo livre para dar uma folheada no livro “Um breve estudo sobre Afinidades”, me arrependendo a cada segundo de que não tinha feito aquilo antes. Poderia ter misturado aquilo com o estudo do yukoponês, já que o livro também estava em tal língua. Diabos, perdi a oportunidade de ser o sabichão que corrigiria o professor hoje.
Akemi e seus quatro “comparsas” entraram logo antes do sinal tocar. Tinha as mãos nos bolsos frontais do seu paletó aberto e torto e seus olhos roxo-escuros me fitaram por um momento com uma expressão que não consegui identificar como além de “neutra”, mas não manteve e logo perdeu o interesse. Não acho que ela esqueceu o que tinha acontecido mais cedo, mas provavelmente não queria pensar no assunto. Não a culpo.
Olhei pela janela mais uma vez. O sol estava próximo do seu ponto máximo e nenhuma nuvem era vista no céu azul. Era uma visão muito diferente do que era com o pátio cheio, bem mais calmo e quieto. O vento forte do final do verão batia nas folhas azuis-celestes das árvores e ajudava no aspecto relaxante. Era uma visão agradável e provavelmente veria aquilo por horas com prazer. Era uma pena que em poucos minutos teria que desviar minha atenção.
É, Yukopan. Você está cada vez mais aprovado no meu conceito. É tão bom quando as coisas simplesmente funcionam, apesar de alguns poréns. Não é como se os “poréns” deixassem de existir em algum momento, convenhamos.
Felizmente não sabemos do nosso futuro em “poréns” e ninguém nasceu com nenhum poder parecido com isso.
Eu também não sabia de nada naquele momento e provavelmente ficaria louco se soubesse.
Além da ingenuidade, a ignorância também é uma benção.

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