O dia passou voando. É incrível como se divertir faz tudo passar muito mais rápido.
Não eram apenas as matérias em si. “Introdução ao estudo de afinidades” tinha, provavelmente, a melhor professora que já tinha visto uma aula. Não apenas ela sabia que o assunto era interessante, como o repassava de uma forma nítida e com piadas. Sua idade provavelmente ajudava também, já que parecia ter menos de trinta anos e deveria ser uma das professoras mais jovens de todo o colégio, senão a mais jovem. O assunto em si era básico e começamos pelas diferenças entre força e afinidade. Acabei lembrando que tinha comentado brevemente sobre esse assunto mais cedo com Nara e era realmente o que estava lá. Talvez minha maior surpresa seria a abordagem daquele assunto somente na décima série.
A quinta e última matéria começou no meio da tarde e deveria ser prática, mas o professor deixou claro que, por ser o primeiro dia, apenas ficaríamos em uma apresentação e falaríamos sobre o básico. “Aplicação de poderes” era o nome e, pelo que ele explicou, o estudo seria focado em pontos fortes e fracos de cada tipo de poder, além do uso dos mesmos pelos próprios alunos. Ele também adicionou que certos duelos selecionáveis poderiam acontecer se assim fosse necessário, mas apenas amistosos, nada de batalhas tão brutais como já estávamos acostumados a ver nos campeonatos. Ao mesmo tempo que aquilo me deixava feliz, era difícil não ficar decepcionado.
O último sinal tocou às dezoito e meia. O sol começava a se pôr, mas ainda iluminava o ambiente perfeitamente como fez durante todo o dia, apenas mudando brevemente o tom para algo levemente mais escuro do que antes.
Apesar de não ter acontecido nenhuma atividade prática, aquilo foi bem cansativo. Foram dez horas de aulas e pouco mais de onze e meia dentro do próprio colégio. Aqueles números eram praticamente o dobro que eu tinha em Cachoeira do Sul, então foi um choque dos grandes. Nada impossível de acostumar, porém, e tinha a certeza que não levaria muito tempo para tal coisa.
Arrumei minhas coisas e senti alívio quando me lembrei que não tinha que levar para casa a mesma quantia de livros que eu trouxe. Não era tão pesado assim, mas meus ombros agradeciam que tudo que minha mochila carregaria seria meu caderno e estojo.
Nara passou por mim com seu caderno em mãos. Olhou para mim sorrindo e acenou.
-A gente se vê amanhã.
-Espere!
Falei de forma tão súbita e em alto volume que acabei chamando a atenção de algumas pessoas ao meu redor. A própria “rainha do fogo” quase tropeçou no passo seguinte, mas rapidamente se ajeitou e olhou para mim, com curiosidade.
-Você... er... digo... você não...
Eu estava gaguejando mais que Akemi no início do dia. Nara me olhava meio desconcertada, mas não me interrompeu.
-Você não quer fazer alguma coisa?
-O quê?
Não era uma expressão de surpresa e sim por não ter entendido. Falei tão baixo que ela precisaria ter uma audição de um animal para poder ter ouvido.
-Você... não quer fazer alguma coisa?
Repeti, dessa vez em um tom normal e rezando para que o mínimo de pessoas ouvisse. Se pudesse, eu passaria uma mensagem para o celular de Nara com tal texto, mas ainda não tínhamos trocado os telefones.
Ela parece que me ouviu. Inicialmente apenas continuava a olhar para mim, mas logo desviou a visão para cima, como se estivesse pensando em alguma resposta...
...ou desculpa.
Demorou apenas alguns segundos para responder, mas parecia facilmente que eu estava esperando por alguns minutos por conta da tamanha expectativa em saber como reagiria a algo tão direto e sem cerimônias.
-O que você sugere?
Não chegou exatamente a sorrir, mas eu conseguia notar que não tinha nenhuma atitude defensiva ou de esquiva. A depender da minha resposta, ela estaria disposta a aceitar, mas eu teria que ter algum cuidado ou tudo iria por água abaixo.
Pensei em um método que tinha grandes chances de funcionar, pelo menos considerando o quão pouco sei sobre Nara.
-Presumo que a senhorita Ennetsu goste de sorvete, certo?
A escolha do uso de tais palavras era proposital, como uma tentativa de aliviar a tensão. Aliviar minha tensão, eu digo, já que ela não parecia estar sofrendo tanto como eu... ou escondia muito bem. Quase tudo deu errado quando notei que ainda não tinha pronunciado seu sobrenome, mas felizmente ele não era tão difícil assim.
Sua resposta foi rápida e precisa.
-Quem não gosta?
Dessa vez sorriu com sinceridade.
-Então... o sul-toruguês aqui descobriu uma sorveteria próxima que é uma maravilha dos deuses. – continuei a “atuação”. – O que acha de apreciarmos tal obra divina que vossa senhoria provavelmente já conheça, já que é daqui e esta pessoa não?
Admito que não sei se tinha traduzido “vossa senhoria” da forma certa para o yukoponês, mas lembrava a tradução para as duas palavras e me virei da forma que deu. Pensei em falar aquilo em toruguês, o que não seria nenhum esforço, mas ainda não fazia ideia do quanto Nara sabia da minha língua.
Ela me olhou meio confusa por um momento, mas logo riu. Ou eu tinha acertado e ela achou tal atitude engraçada ou eu tinha errado e estava caçoando de mim. Mais provável a última opção. Era um ótimo sinal que tenha rido, porém.
-Se for para você parar de falar desse jeito, eu aceito o convite.
Ai.
Ok, eu precisava de um tempo para me recuperar daquilo. Respirei e tentei fazer o meu melhor.
-Não prometo nada, mas posso tentar.
Poderia ser menos cliché, mas parece ter funcionado. O sorriso ainda estava presente no seu rosto quando falou.
-É bom que tente mesmo. Não tem sorveteria boa o suficiente para me fazer aguentar ouvir você falando desse jeito. Eu sequer sei se algumas palavras que você falou existam.
Não tinha sorrido até então e fiz questão de esboçar naquele momento.
Pra ser bem sincero, Nara... nem eu sei.
A sorveteria que levei Nara era exatamente a que eu tinha descoberto no meu primeiro final de semana em Yukopan. Não era tão próxima da escola assim, então não havia muitos alunos do Chikara no Kyoten a vista, afinal não era como se o uniforme fosse tão comum assim que você não conseguisse diferenciar. Estava bem mais cheio de gente do que na última vez que tinha passado por lá, mas ainda tinha uma boa quantia de lugares vazios.
Nós andamos por quase um quilômetro. Por um momento eu me preocupei se a garota quem havia convidado iria cansar ou reclamar, mas ela não fez nenhum dos dois. Na verdade, eu acho que quem cansou um pouco fui eu e escondi o máximo possível meu sedentarismo. Tivemos algumas conversas breves, mas a maior parte do caminho foi em silêncio.
Sei que era cedo demais para tirar algumas conclusões sobre Nara, mas eu tinha notado duas características suas bastante relevantes: ela não iniciava uma conversa na maior parte das vezes e, principalmente, não gaguejava. Poderia passar um tempo formando as palavras para falar comigo, mas quando elas saíam, eram nítidas e diretas. Me perguntava se aquilo era somente comigo ou se fazia mesmo parte da sua personalidade e também como seria se eu fosse uma daquelas pessoas que não tem paciência de esperar a resposta das outras. Eu odiava tal tipo de pessoa, então presumo que ela também odiaria.
Quando chegamos, o sol desaparecia no horizonte. As luzes já estavam acesas na própria sorveteria e em toda a cidade, o que causava aquele efeito desconfortável da penumbra misturada com iluminação não natural do fim do dia. Felizmente ele não costuma durar mais do que alguns minutos e em breve minha maior preocupação seria qual sabor de sorvete eu iria querer.
O lugar não era exatamente grande, mas devia caber ao menos umas cinquenta pessoas. Talvez não fosse o local para tomar sorvete mais famoso do país, porém parecia ter alguma fama, ao menos em Atarashi. Por esse mesmo fator que eu duvidava bastante que Nara ainda não conhecia.
Quando chegamos no portão de entrada, ela me olhou com um certo desdém.
-Acho que eu esperei demais que o sul-toruguês me levasse para algum lugar que eu não conhecesse?
É, não me surpreendi, mas não quer dizer que não doeu.
Ela riu.
-Ei, não se sinta mal. Em uma coisa você tinha razão: essa sorveteria é mesmo uma maravilha dos deuses.
Poderia até ser uma impressão, mas era ela que tentava reduzir a tensão agora?
Não é como se aquilo já não tivesse saído dos meus planos, porém. Claro que tomar sorvete agora era uma ótima ideia, mas estava longe de ser o que eu realmente queria naquele momento. Sendo bem sincero, minha real intenção era pedir um milk shake. De flocos. Por que tão específico? Porque aquilo parecia, de certa forma, ser algo especial para Nara.
Posso ter me surpreendido em conhecer tal garota e sua personalidade, no entanto você podia descobrir muitas coisas se fosse um bom observador. Notícias de jornal, ou na rede internacional, ou em revistas, o que for, tinham fotos. As manchetes eram variadas. “Prodígio adolescente destrói seleção com idade média superior a dez anos a sua” era uma delas, ou então “Chikara no Kyoten vence facilmente o campeonato estudantil yukoponês de duelos mais uma vez”, ou quem sabe “Nara Ennetsu completa dois anos sem nenhuma derrota nos duelos estudantis”, não importa, o que importa de verdade era que Nara estava quase sempre lá, seja por obrigação ou por vontade própria e segurando um copo plástico grande com algum líquido dentro. Em fotos de baixa resolução era praticamente impossível notar, mas tudo ficava mais claro quando você abria uma notícia de alta qualidade na rede internacional e que continha um valor absurdo de imagens dentro, todas elas seguindo tal padrão de qualidade.
O tal líquido era milk shake, o mesmo milk shake de flocos que pretendia pedir. Seria muito mais difícil notar o sabor se a característica dos flocos não fosse algo visível e físico: os pedaços de chocolate.
Meu plano era simples: eu pediria o milk shake de flocos, Nara provavelmente se surpreenderia pelo meu gosto ser, supostamente, parecido com o dela. Aquilo daria um assunto, algo como “aposto que nunca tinha provado um milk shake tão bom, não é?” e eu aproveitaria tal assunto para chegarmos no ponto principal da coisa: o meu pedido a ela se poderia me ensinar algo de duelos.
Tudo muito lindo e fofo, mas que dependia de uma porrada de fatores e praticamente todos eles não estavam sob meu controle.
Aquele dia foi estranho. “Estranho” é a palavra mais leve que posso imaginar, porém. Foi um festival absurdo de acasos. Conheci Nara da forma mais inesperada possível, ao mesmo tempo que ela é bem diferente do que esperava. Ela parecia ter problemas com a sua fama, algo que eu também não esperava e já me deixava muito embaraçado em passar para o próximo nível da saga “aventuras de Pedro em Yukopan”. E então eu tento por tudo no controle novamente, fazendo um pedido para que ela viesse comigo para a sorveteria, já que seria um lugar que eu tinha tomado um milk shake de flocos dias atrás e parecia bom o suficiente, mas o pedido funcionou pelos motivos errados. Para finalizar, ela já conhecia a tal sorveteria, então meu plano se tornou completamente inútil e tudo estava fora dos trilhos mais uma vez.
Parando pra pensar, esse era o meu melhor plano? Achar que ela provar do melhor milk shake de flocos de sua vida faria ela automaticamente aceitar meu pedido de ser minha professora, mestra, educadora, enfim, qualquer palavra que seja adequada para isso?
Que estúpido.
Em nenhum momento eu me preocupei com os sentimentos dela. Se ela iria gostar do pedido, ou então se ela se incomodaria em saber que eu sei tudo sobre a “poderosa Nara Ennetsu”. Fui apenas um maldito egoísta e ingênuo que achei que poderia ganhar uma professora de “lutinha” em troca de um milk shake.
A vida real não funciona como suas historinhas de era uma vez, Pedro.
Respirei e daquela vez eu estava disposto a não achar que o mundo girava ao meu redor.
-Que droga. Não vai ser tão especial como eu achava que seria.
Ela manteve o sorriso.
-Um sorvete ainda é um sorvete, não é? – desviou sua atenção para a sorveteria em si. – Você precisa provar o de flocos.
Ouvir aquilo me fez acompanhar o sorriso. Ao menos eu havia acertado em alguma coisa.
-Lidere o caminho. Os mais experientes vão na frente.
Nara riu. Se tinha alguma coisa que eu poderia me gabar de fato era que eu conseguia fazer ela rir com certa facilidade, mesmo que pelos motivos errados ou improvisados.
Não era muita coisa, mas certamente me ajudava em achar que ainda tinha um certo controle da situação.

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