Como eu já tinha dito antes: aquele dia era muito estranho.
Eu já esperava que Nara gostasse de sorvete, já que gostava de milk shake e milk shakes são criados com sorvete, afinal.
Mas certamente não esperava que ela pegasse quatro bolas.
Não eram bolas pequenas, mas sim colheres de sorvete entupidas. O sorvete quase transbordava da sua cumbuca, sendo que aquilo tinha sido feito propositalmente maior para que aguentasse até mesmo os mais exagerados. Bem, parece que o “nível Nara Ennetsu” era um pouco além disso.
Ela fez questão de pagar pela própria sobremesa, algo que não me incomodou. Não era exatamente caro, mas tinha sérias dúvidas se ela ficaria chateada ou incomodada se eu me oferecesse para pagar, o que acabei fazendo do mesmo jeito, porém ela insistiu. Já que é assim, tudo bem. Ao menos eu tentei.
Pegamos uma mesa livre que ficava do lado de fora. A noite já tinha chegado e o céu estava completamente limpo. Sabia que a partir daquele ponto só ficaria mais frio, mas tal frio não chegaria tão rápido assim. Quer dizer, tenho minhas dúvidas em relação a isso, já que tomar quatro bolas de sorvete deve levar um bom tempo.
Não havia um padrão para os sabores que ela parecia gostar, exceto que uma das bolas que ela pegou era de menta com chocolate, que também tinha os pedaços de chocolate, como flocos. Os outros dois pareciam apenas creme e frutas do alto oriente¹, mas tinha a certeza que era algo além disso, já que aquela sorveteria tinha sabores bem mais criativos e sabia que Nara aproveitaria o momento e ocasião para pegar sabores que não encontraria em todo lugar. Pelo menos eu faria isso sem pensar duas vezes. O último deles era, claro, flocos.
Eu tinha pego apenas duas bolas, uma de brigadeiro e outra de flocos. Eram simples, mas brigadeiro era meu sabor predileto e não seria um lugar com opções criativas que me fariam mudar de ideia. Quem sabe algum dia eu arriscasse os sabores mais “exóticos” do lugar. E quanto ao de flocos... bem, ela mesma disse que eu tinha que provar o de flocos.
Nara parecia ter notado que eu estava impressionado com o quanto ela tinha pego de sorvete, já que retribuiu o olhar com uma certa expressão cínica. Apenas sorri e balancei minha cabeça em negação antes de falar.
-Desse jeito eu fico impressionado que o convite não tenha vindo de sua parte.
Ela sorriu, enquanto colocava em sua boca uma colherada do sabor que parecia o de creme.
-Pode não parecer, mas eu adoro sorvete.
E riu bem mais do que deveria. Ah, Nara... o segredo de tal atitude era não rir junto, exceto quando você tinha a certeza que a pessoa não ficaria embaraçada ou incomodada. Valeu a tentativa, de qualquer forma.
-Nota-se. – debochei. Sem a intenção de ser rude, porém.
-Ei. Eu ainda irei andar mais três quilômetros para chegar em casa, então eu mereço um pouco de calorias.
Não pude esconder a impressionada com aquela declaração. Ela morava tão longe assim?
-Você mora tão longe assim? – repeti meus pensamentos.
-Dois quilômetros do colégio, mas hoje uma certa pessoa aumentou tal distância para três.
É claro que a sorveteria tinha que ficar no caminho oposto para sua casa. As coisas não seriam perfeitas se não fossem assim. Apesar de tal afirmação, ela não parecia nervosa ou incomodada, então notei que era uma daquelas atitudes sarcásticas, algo que eu não tinha visto ela fazer até chegarmos aqui.
Então aquilo significava que ela considerava que estávamos um pouco mais próximos?
Claro que não, Pedro. Só um dia havia se passado. Pare de pensar em coisas estúpidas, seu estúpido.
Dessa vez ela não se desculpou e apenas sorria em deboche enquanto pegava a segunda colherada do seu amontoado absurdo de sorvete. Já que aquilo não era intimidade, então... ela estava mesmo chateada?
-Sinto muito.
Eram palavras sinceras de minha parte, mas teriam um efeito muito maior se eu não estivesse olhando para o meu, ainda intocado, sorvete. Levantei a cabeça e pude notar sua confusão.
-Pelo quê? – tinha parado a terceira colherada para falar. Ainda me olhava confusa.
-Por ter lhe afastado de sua casa. Andar três quilômetros depois de um dia cansativo desses não é nada legal. Ao menos eu deveria ter dito para onde íamos.
Ela finalmente tomou a colher, após ver que o sorvete já estava derretendo no processo. Degustou pacientemente antes de responder.
-Você acha mesmo que andar três quilômetros é o maior esforço que eu faço no dia? Não percebeu que eu estou tomando quatro bolas de sorvete?
Oh, eu notei, Nara. Com toda a absoluta certeza.
-Acha mesmo que eu tomo tudo isso aqui e não faço nada pra queimar? – continuou, mais solene do que eu esperava. – Andar é apenas parte do meu dia. Sempre passo, pelo menos, parte da noite em uma academia. Não acha mesmo que tenho esse corpo aqui porque fui magicamente abençoada pelo poder de não engordar, não é?
Enquanto ditava a última parte, ela abriu os braços para lados opostos, como se quisesse mostrar seu busto. Ainda pensava na ironia do uso da palavra “queimar” para um sentido diferente do literal quando lembrava de quem ela estava falando, mas tinha razão. Talvez o uniforme não fizesse jus direito, no entanto dava para notar certas definições nos seus braços por baixo da camisa social que vestia e mais fácil ainda com o seu paletó não atrapalhando, já que estava pendurado na sua cadeira. Isso sem incluir certos detalhes femininos seus que, bem... não acho que preciso falar.
Vendo tal tipo de coisa, pude perceber que Nara era basicamente o meu tipo, fisicamente falando. Não tinha notado até então e, sinceramente, sequer tinha pensado no assunto, mas agora que ela tinha abordado tal questão, era difícil não ver que a compatibilidade dela com meus gostos era praticamente cem por cento. Sua altura a fazia parecer esbelta, o que tendia perigosamente para uma “vareta” se a pessoa fosse magra demais ou para um “monstro” se tivesse mais peso do que deveria. Não sei se ela sabia disso, mas estava em um ponto de “perfeito equilíbrio”, o que a fazia ter um corpo de causar inveja a outras garotas.
Pensando naquilo tudo, foi impossível não corar. Nunca havia olhado para esse lado e tinha um respeito muito grande por ela para não ficar incomodado pelo meu cérebro tentar rebaixar tudo a um ponto que eu não iria conseguir mais deixar de olhar para suas curvas. Desviei o olhar instantaneamente e fiz questão de deixá-lo assim por um tempo.
“Que idiota” era o pensamento que ecoava na minha cabeça se referindo a mim mesmo.
-F-Faz sentido.
Gaguejei sem querer e sequer pude notar sua reação, já que não estava olhando para ela.
-Ainda assim, obrigado. – voltei a dizer, ainda olhando para o lado.
-Pelo quê?
Voltava a olhar para Nara, ainda meio sem jeito. Ela não parecia ofendida ou confusa.
-Por hoje. Por ter me defendido de manhã, por ter almoçado comigo, por ter aceitado o meu convite... por ter conversado comigo já é o suficiente. O novato aqui não tem o que reclamar.
Sorriu mais uma vez, como já tinha feito inúmeras vezes naquele dia. Começava a notar que seu sorriso era a sua forma de demonstrar que estava satisfeita.
-Disponha. – e pegou mais uma colherada de seu sorvete. – Não precisa me agradecer por ter feito apenas minha obrigação.
“Apenas minha obrigação”? O que diabos ela queria dizer com isso?
-Como assim?
-Eu te disse. – estava prestes a dar mais uma colherada no seu sorvete, mas parou. – Se eu não fizesse nada para interromper sua discussão com Akemi, as coisas iriam acabar muito mal pra você. Eu sabia disso e não podia simplesmente ignorar como se não fosse meu problema.
Deu uma pequena pausa para respirar antes de continuar.
-O resto... bem, o resto eu acho que aconteceu. O convite eu não poderia negar após ver que você se esforçou tanto em fazer. Talvez negasse se não fosse uma sorveteria, admito, mas você foi salvo pelo seu bom gosto.
E sorriu enquanto esperava por minha reação. Diabos, ela estava ficando bem melhor nisso em tão pouco tempo. Mal posso ver seus movimentos.
Dessa vez eu que ri.
-Obrigado, eu acho.
¹Frutas do alto oriente: frutas vermelhas escuras, do tamanho de uma maçã, que crescem em árvores dos climas temperados amenos, como o de Atarashi. Seu gosto é uma mistura entre nosso morango e framboesa.

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