Saímos juntos da sorveteria logo depois. O meu apartamento ficava no caminho para a casa dela, então não havia o porquê de nos separarmos. Foi uma andada curta, em torno de apenas uns duzentos metros, mas conversamos por todo o caminho e em toruguês. Quando ela disse ser “fluente”, ela não exagerava, acertando até coisas um pouco mais complexas como gêneros e até mesmo algumas gírias. Claro que os Torugais do Sul e Norte são grandes e as gírias são locais, então ela deve ter se baseado de algum local. Como não consegui assimilar um padrão, apenas pensei que ela tinha se baseado em alguma região do Norte, que eu não conhecia muito para dizer, mas a língua era a mesma, então não era exatamente um problema.
Já passava das vinte horas quando chegamos no meu destino. Admito que me surpreendi pelo tempo ter passado tão rápido, mas ainda teria, pelo menos, umas quatro horas de tempo livre antes de dormir. Por um momento me perguntei se Nara ainda iria fazer os seus exercícios diários que ela tanto tinha falado na sorveteria.
-Nos vemos amanhã, então?
A pergunta era minha e também em toruguês. Ela seguiu o padrão e respondeu sem nenhuma cerimônia.
-Com certeza. Até amanhã.
Soltou o último sorriso que eu veria de sua parte no dia e continuou seguindo na direção do colégio. Se eu dissesse que não estava decepcionado por não ouvir “Não vejo porque não” no lugar, estaria mentindo, mas... eh. Tudo tem seu tempo, eu acho.
Observei seus longos passos por um momento e então abri o portão da frente. Busquei por minhas chaves no bolso interno do paletó e achei elas sem problemas, mas fui chamado atenção por uma voz em yukoponês.
-Aquela era Nara Ennetsu?
Seu Hiro se segurava no corrimão que servia como o suporte do segundo andar e me olhava com uma empolgação de criança, esperando minha resposta como se fosse de extrema importância.
-A própria.
Falei com certo orgulho e fazendo questão de demonstrá-lo.
-Suba agora. Quero ouvir tudo.
Não pude deixar de rir. Apenas fiz o que ele pediu e em momentos já estava no segundo andar. De forma bizarramente sincronizada, seu Hiro voltou a falar logo quando botei o meu pé no piso de tal andar.
-Mas o que é isso, rapaz? – perguntou com a mesma empolgação que tinha feito a primeira das perguntas. – Você vai para o seu primeiro dia de aula e já está saindo com a jovem mais poderosa de Yukopan? Com essas habilidades eu teria me casado ao menos umas cinco vezes!
Acabei rindo mais uma vez. Só em pensar na palavra “casar”, já sentia calafrios. É aquele tipo de responsabilidade que você sempre teve a impressão que está bem longe da sua realidade e então se dá conta que pode acontecer bem mais em breve do que espera.
Dificilmente seria com Nara, porém. Vamos ser realistas aqui.
-Não é como se nós tivéssemos um encontro ou algo do tipo. Apenas quis retribuir um favor.
-Hã? Como assim?
Não me impressionava que o senhor Miyakawa estava confuso. Eu também estaria se ouvisse aquilo sem contexto.
Contei tudo para ele, detalhe por detalhe do que tinha acontecido no meu dia. Ele me ouvia calmamente, sem nenhuma intenção de interromper. Ouvia tão bem que precisei adicionar um “e foi isso” para sinalizar que havia terminado.
Seu Hiro ficou pensativo por algum tempo, como se estivesse processando tudo que eu tinha dito e buscando os detalhes mais relevantes. Não demorou muito para falar, porém.
-Se eu fosse você, eu mantinha distância dessa tal de Akemi. – falava em um tom sério, quase paternal. – Jovens são assim mesmo. Alguns só querem viver suas vidas, mas outros fazem questão de serem um pé no saco. Meu medo mesmo é se ela for além do “pé no saco”.
Em nenhum momento ele mudou o tom, como se estivesse brincando e como sempre faz. No lugar, apenas me olhava sério e preocupado.
-Falo sério, meu jovem. – ratificou. – Adolescentes podem ser muito piores do que muitos adultos por aí. Estamos falando de pessoas que já tem emoções evoluídas, mas ainda são tão inconsequentes como qualquer criança.
Ok, aquilo foi muito mais profundo do que eu esperava. Pelo visto o senhor Miyakawa estava mesmo preocupado comigo. Desde que tinha chegado a Yukopan, ele não parecia mais do que uma pessoa despreocupada e brincalhona, mas naquele momento era completamente diferente. Me pergunto se ele é... ou foi pai.
Estava me preparando para responder algo genérico como “Entendido” ou parecido, mas ele voltou a falar.
-E eu não estou me referindo somente à Akemi, mas também à Nara.
Hã?
-Nara? – minha pergunta expressava perfeitamente minha confusão. – O que ela tem a ver com isso?
-Junte as peças, meu rapaz. – apontava o dedo indicador de sua mão direita na sua própria cabeça. – Você disse que Akemi tremia de medo quando Nara foi lhe salvar. Você também disse que Nara tinha problemas com a sua fama de “rainha do fogo”. Não chegou a se perguntar que tudo isso possa ter algum motivo?
E então, notei que seu Hiro tinha um ponto. Sequer tinha falado a ele o quanto Nara parecia preocupada na conversa que tivemos no almoço, mas ele tinha entendido a gravidade da situação da mesma forma.
-E talvez isso não passe de achismo, – continuava, após uma breve pausa. – mas pelo que você me disse, Nara não falou com ninguém além de você o dia inteiro. Ela estuda na escola há cinco anos, então isso significa que ela não tem amigos?
Aquilo... fazia muito mais sentido do que deveria. Muito mais sentido do que eu temia.
Nara comentou que tinha uma amiga com poder de cura e foi ela quem lhe ajudou após seu primeiro dia desastroso. Poucos acabam com amigos após o primeiro dia, então era lógico assimilar que ninguém lhe ajudou porque ela era a novata na época.
Porém ela não está neste “posto” faz tempo. Cinco anos é tempo de sobra para nascer e crescer uma amizade. Uma boa amizade, por sinal. Talvez Nara não tivesse muitos amigos, o que é um problema comum para muitos adolescentes, mas teria alguém. Não parecia ser o caso e, principalmente, ela não é o tipo de pessoa que atravessaria um caminho de “lobo solitário” durante a época de vida que amizades nascem pelas razões mais aleatórias possíveis.
Muito pelo contrário. Seu biótipo e personalidade levavam a uma adolescente com altas chances de ser popular, até mesmo amada, eu diria. Tudo que aconteceu naquele dia, indicava exatamente o oposto. Por quê?
O que eu não sabia, exatamente?
O senhor Miyakawa me olhava, analisando minhas expressões e, por um tempo, esperou que eu voltasse a lhe dirigir a palavra. Mas logo desistiu e continuou.
-Escuta... eu não quero que você se afaste de Nara Ennetsu. O que eu quero é apenas que você tenha cuidado. A adolescência é muito pior do que deveria ser e não é à toa que muitos acabam virando adultos problemáticos depois de tal fase de vida. Escolas podem ser um verdadeiro inferno se você não estiver preparado para isso, então aja na defensiva. Não arrume briga com ninguém, fique na sua e não tente ser alguém com algum destaque que possa vir a incomodar os outros até ter certeza de saber bem onde está pisando.
Falava aquilo calmamente e com várias pausas, mas não o interrompi. Pareciam dicas dignas e, com as perguntas que atravessavam minha mente naquele instante, sensatas. Era difícil não me perguntar se ele falava aquilo por experiência própria.
-E é claro, estamos falando de um colégio em que todos os alunos tenham alta afinidade, então talvez “não brigar” não seja uma opção. – sorria, mas de forma tímida. – Mas se isso vir a acontecer, lembre-se que contra-atacar pode mais piorar as coisas do que ajudar.
Deu um tapinha nas minhas costas, com uma força bem menor do que esperava e depois sorriu para mim. Perguntas ainda voavam na minha cabeça, as mesmas perguntas que eu assumia que tinha respostas óbvias, mas que, pelo visto, não eram tão óbvias assim. Vi que o senhor Miyakawa me olhava esperando por uma resposta de minha parte e não hesitei depois de tanto tempo em silêncio.
-Ainda tenho muito a pensar, seu Hiro, mas acho que entendo o que quer dizer.
Ele não cortou o sorriso.
-É o suficiente, meu jovem. Agora não vou lhe importunar mais. Vá descansar que amanhã tudo começa de novo, para nós dois.
Acenei e comecei a subir as escadas quando ouvi sua voz novamente.
-Parabéns pelo bom trabalho, porém. Possa ser que Nara não tenha amigos simplesmente porque recusou todos eles. Você deve ser especial.
Quando olhei, pude constatar que não falava a sério, tanto que acabou rindo depois. Apenas ri junto e me despedi. Talvez estivesse bem por fora, mas minha mente estava borbulhando.
O que mais me incomodava era que eu não tinha as peças que faltavam para o quebra-cabeça. Eram perguntas relevantes e sem respostas. Costumava ouvir de meu pai que conhecimento só fazia você ficar careca antes do que deveria de tantos cabelos arrancados e sempre tinha interpretado aquela expressão no sentido de que conhecimento era superestimado ou algo do tipo, mas pelos últimos acontecimentos, acho que começava a entender o seu real significado.
E, pensando agora, eu não tinha falado com a minha família de nenhuma forma além de textos. De certo, eu liguei para eles ao chegar em Yukopan, mas não falamos nem por cinco minutos em tal ocasião. Não haveria como falar com eles agora pela diferença de horários, porém. Meu pai e minha mãe deveriam estar começando a trabalhar naquele exato momento e Cecília estaria começando seu dia de estudos. Ao fazer contas simples, notei algo que me deixou bem para baixo: eu não iria conseguir falar com eles até o quinto dia chegar. Ainda era o início da semana.
Fechei a porta do meu apartamento e suspirei. Liguei as luzes da sala, mas acabei deitando na minha cama no quarto com o uniforme vestido e as luzes ainda apagadas. Não estava exatamente com vontade de dormir, por outro lado tinha muito o que absorver do que tinha acontecido naquele dia. Aquelas dúvidas seriam terríveis para a minha ansiedade, mas tentei me acalmar o máximo possível e apenas fechei os olhos.
Dormir sempre ajuda a revigorar nos momentos de calma que vêm antes da tempestade.

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