Quase cuspi a comida que estava mastigando com a subtaneidade da pergunta. Além da própria pergunta em si, claro.
-Se tá falando de Nara, ela não é minha namorada.
-Bom, se não é, tá se encaminhando pra ser. Vocês andam tão agarradinhos que é até bonitinho.
Não, eu não queria corar. Que diabos, cérebro?
-Pelo menos você não parece se incomodar com isso.
Não a olhava no momento, mas aquilo era praticamente a confirmação que ela tinha notado a minha reação.
-N-Não é isso... é que...
-Oh, agora até gaguejou. – e soltou uma risada breve. – Que fofo.
Mas que droga, eu preferia que ela estivesse me ameaçando. Isso é terrivelmente constrangedor. Por que aquele assunto agora?
-Então, onde e quando você conheceu Nara? Vocês não parecem irmãos ou parentes. Oh, por favor, me diga que não são, porque isso deixaria tudo mais complicado.
Sua pergunta veio rápida o suficiente para que eu não tivesse muito tempo para pensar e mudava completamente o clima. Agora eu estava mais confuso do que nunca. Por que ela tinha feito uma pergunta que sabia a resposta?
-Como assim? – olhei para a sua direção para analisar se seu rosto estava acompanhado de alguma ironia, mas não tinha nenhuma. – Você não sabe disso?
-Claro que não sei. – uma das suas sobrancelhas se levantou. – Não acha mesmo que somos amigas, acha?
-Não... eu quero dizer que você estava lá.
Akemi me olhava confusa.
-O que você quer dizer? Eu nunca saí com Nara ou algo parecido. Ela não lhe disse que não somos exatamente próximas?
Bem, ela tinha dito, mas aquilo não era tão relevante assim na questão. Para ser sincero, tinha quase a certeza que o que estava acontecendo era duas pessoas que imaginavam respostas diferentes para uma mesma pergunta, então respondi da forma mais óbvia e desnecessariamente detalhada possível, tentando voltar a um denominador comum.
-Eu conheci Nara no mesmo dia que conheci você, só que logo depois. Sério que não se lembra?
Ela só me olhou, ainda confusa, por um tempo. Então sua expressão foi mudando aos poucos e abriu sua boca lentamente, como se percebesse, pouco a pouco, a resposta para uma pergunta que lhe atormentava por toda a vida. Adoraria dizer que era exagero, mas foi exatamente a impressão que passou.
-Então... você não conhecia Nara antes?
Oh, agora eu acho que entendi. Mas...
-Não. – apenas respondi, ainda com detalhes vagando na mente.
E então Akemi me observou, colocando o dedo indicador de sua mão direita na boca, como se aquilo fosse lhe ajudar a pensar.
-Ora, ora... – falou. Com um sorriso no rosto. – isso levanta uma porrada de perguntas.
Agora quem estava confuso era eu. O que tinha de mais saber que eu não conhecer Nara antes?
-Isso me faz pensar que eu estava sendo injusta com você, novato. – continuou. – Não se incomoda que eu lhe chame de “novato”, não é? Não é que eu queira lhe ofender ou parecido, apenas que seu nome é complicado demais.
Estaria mentindo se dissesse que me importava. Ao menos seria melhor ouvir aquilo do que o meu nome sendo pronunciado incorretamente. O que realmente me importava era o quão confuso estava naquele instante.
-Não tem problema.
-Ufa. – e sorriu. – Você provavelmente já saiba meu primeiro nome, mas me chamo Akemi Sunohara. Pode chamar apenas de “Akemi”. Se você não liga para o “novato”, é o mais justo.
Não estendeu sua mão como Nara tinha feito no primeiro dia, mas não interpretei como falta de educação. Apenas estávamos distantes demais e ela deve ter chegado à conclusão que me daria um certo trabalho para que levantasse, arrumasse a bandeja do meu lado e tudo mais que precisava para completar o cumprimento.
-Apesar de tudo, prazer em lhe conhecer, Akemi.
Isso causou uma risadinha de sua parte.
-Que cortês.
Não é que estivesse realmente com prazer em finalmente ter me apresentado à garota que poderia ser um problema da minha vida escolar, então ela não estava errada em dizer que eu estava sendo cortês. Ao mesmo tempo, não tinha razão alguma para ser hostil. Ela não parecia ser má pessoa... ao menos considerando a forma que agia depois de ter sido ameaçada por Nara no primeiro dia. Desde que ela me deixasse em paz, não vejo porque ter nenhuma inimizade.
É, o senhor Miyakawa disse que o melhor seria que eu me afastasse de Akemi, mas ele também disse que deveria agir na defensiva. Se saísse daquele ginásio depois de sua insistência, definitivamente não estaria jogando na defensiva, já que poderia ofender a garota em questão. Era uma contradição e precisava fazer uma escolha do que fazer. Até aquele momento não parecia ter sido uma má opção. Não é como se aquilo fosse início de uma grande amizade também. Era bem provável que, no máximo, passasse a ser mais educado com Akemi, o que não parecia gerar um grande impacto na situação.
Apenas sorri com educação e voltei a comer o resto do meu almoço. Ela não me interrompeu mais até terminar e passar um tempo descansando. Percebi que aquela era a melhor oportunidade de poder sair dali, já que precisava levar a bandeja de volta ao refeitório de qualquer jeito.
Levantei e me despreguicei. Já passavam das quatorze quando tinha feito aquela decisão e não demoraria muito para que a aula começasse. Olhei para Akemi e pude constar que ainda mexia no seu celular, mas continuava com um dos fones tirados, como se estivesse de sobreaviso caso eu começasse a falar. Foi exatamente o que fiz.
-Vou levar a bandeja pro refeitório. Se você não for almoçar, vai acabar ficando com fome.
Ela voltou a sua atenção para mim, mas sem muito interesse.
-Não se preocupe. Não tô com fome mesmo.
E então voltou a mexer no seu celular como antes. Apenas suspirei e continuei andando.
-Então tá.
Não sei dizer se ela tinha me ouvido, mas não me importava o suficiente para saber, apenas carregava minha bandeja preocupado em não deixar os pratos ou talheres caírem. Se tudo isso tivesse acontecido alguns minutos atrás, provavelmente estaria aliviado em ter uma desculpa para sair dali, mas não tinha mais nada que sustentasse minha tensão agora.
-Novato, espere!
Ou talvez não tivesse.
Virei lentamente, com todo aquele incômodo de antes recuperado. Ela vai realmente tentar algo depois de tudo?
Olhei para seu rosto e mais uma vez não consegui ler sua expressão. Aquilo havia se tornado um padrão, não é? Me perguntava se ela fazia aquilo propositalmente.
-Eu não quero comer, mas não me incomodaria se você trouxesse uma sobremesa.
E sorriu. Um sorriso que não combinava em absolutamente nada com a sua personalidade. Quase infantil, eu diria.
Apenas ri de nervosismo. Vá matar outro do coração.

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