Não passei muito tempo no refeitório e não tive problemas em pegar uma segunda sobremesa. Aquilo me levantava questões sobre o nosso real limite de comida e o quanto o colégio estava disposto a oferecer para seus alunos. Não li as regras em relação a isso, só não queria que fosse cobrado por ter pego um doce a mais.
Poderia deixar Akemi esperando até às quatorze e meia, o horário que eu precisava estar no ginásio de qualquer jeito. Ela mesma disse não estar com fome, afinal.
Só achei isso... rude.
Não é como se tivesse muito o que fazer no refeitório também. Até dei uma olhada ao redor para ver se achava por Nara, mas... sem sorte. Onde diabos ela estaria agora? Deveria ter perguntado quando disse que não almoçaria no colégio.
Voltei ao ginásio e Akemi ainda estava lá, sozinha. Ela ficou bem mais feliz do que esperava quando percebeu que trazia a sobremesa. Não me impressiona que ela duvidasse que eu trouxesse, já que, bem... circunstâncias.
-Obrigada, obrigada, obrigada! Você é um amor de pessoa.
Ok, aquilo estava me deixando incomodado já. Não fazia a menor ideia porque ela agia completamente diferente de antes e nem porquê fazia isso. Era difícil pensar que fosse algo bom, porém.
Independente se era uma ação característica sua ou se estava atuando, abriu a sobremesa e começou a comer com a mesma empolgação que tinha agradecido. “Não estava com fome” uma ova. Doces também não são muito bons em saciar, então voltaria a sentir fome logo, logo, o que me fez pensar que eu poderia oferecer para pegar o seu almoço, mas logo hesitei.
“Uma conversa sem brigas não significa que eu ainda não esteja desconfiado de você”. Isso aí, cérebro. Seja útil.
Terminou sua “refeição” em tempo recorde e voltou a me observar. Eu ainda estava de pé do seu lado e indeciso se deveria sentar ou não.
-Valeu. – ainda limpava sua boca com um guardanapo. – Por um momento eu achei que você só fosse ignorar meu pedido.
-Não sou esse tipo de pessoa.
Apesar de suas reações estarem bem mais amigáveis do que antes, eu ainda estava desconfiado e, pelo visto, não escondia muito bem. Por um tempo ela também me olhou desconfiada, mas logo voltou a sorrir.
-Não é mesmo, não é? Acho que não dá pra discutir com ações.
Ficamos em silêncio. Poderia ser uma escolha estúpida, mas sentei ali do seu lado. Até esperava que ela lançasse alguma ironia direta, mas não comentou nada sobre. Não faço a menor ideia de como responderia algo do tipo, já que a minha própria escolha era questionável.
Observei o resto do ginásio. Não era apenas formado pela arena e arquibancadas, mas também tinha um dispositivo próximo ao teto que logo reconheci: era o mesmo formador de barreiras usado nos campeonatos de duelos para impedir que os poderes acabassem atingindo o público. Mesmo falando de um colégio daquele porte, ainda era impressionante que tinha investido em algo desse tipo.
Então o ginásio era usado para duelos? Iríamos duelar? Bem, aquilo não era nada bom. Sequer tive a oportunidade de treinar com Nara e não sei dizer se teria. Educação Física ser facultativa começava a fazer sentido na minha cabeça e estava mais para o lado das pessoas que optariam por não vir. Era tarde demais para fazer aquilo naquele dia, porém.
-Fico feliz que você esteja sendo companhia para Nara.
O quê? Eu ainda estava pensando nos detalhes do ginásio e aquilo veio do nada.
-Er... o quê?
-Eu disse que fico feliz que você esteja sendo companhia para Nara. – repetiu, calmamente. – Ela não merece ficar sozinha. Ninguém merece.
Akemi dizia aquilo com naturalidade e não parecia querer ofender, o que era muito diferente da ação que teve quando nos encontramos no primeiro dia. Claro que era muito pouco para me basear, mas quando ela queria ser maldosa, ela era em todos os sentidos, incluindo o sorrisinho. Nada disso estava acontecendo ali e ela apenas me fitava com curiosidade, apoiando seus braços no andar de cima da arquibancada e esperando por minha resposta.
As suspeitas de seu Hiro eram verdade, então? Nara era mesmo um “lobo solitário”? Tudo levava a isso, mas era pouco para dizer com apenas três dias e meio de convivência. A coisa muda quando alguém que a conhece há quase cinco anos faz essa confirmação e sem que você peça.
Ao mesmo tempo, não dá para ignorar que elas sejam rivais... ou o mais próximo de “rivais” que você pode dizer, então não dá para esquecer a tamanha parcialidade envolvida.
Se aquilo fosse uma armadilha, eu estava mordendo a isca. Só que sabia disso e agi cautelosamente.
-O que você quer dizer? Claro que Nara tem amigos.
Não sei dizer se estava acreditável o suficiente, porém, já que nunca fui um bom ator. Os olhares de curiosidade de Akemi só aumentaram.
-É sério que não notou, novato?
Não sabia dizer se ela estava na “defensiva” e buscava por um modo de me responder que satisfizesse um “Pedro ingênuo” e um “Pedro esperto” ao mesmo tempo, mas sua resposta foi compatível com isso.
-Vocês estão andando juntos por toda a semana. Nara não falou com ninguém além de você durante todo esse tempo. Achou o quê? Que você era especial?
Apesar do aspecto rude da resposta, ela não parecia estar querendo ofender.
-Ela só lhe acompanhou e falou com você durante todo esse tempo justamente porque você era a única pessoa que ela tinha pra contar. Bom, ao menos aqui no colégio. Não sei a vida dela fora daqui.
Era possível notar sua mudança de atitude pela rapidez que Akemi tinha em tentar especificar que era apenas no colégio. Se sua intenção fosse apenas ofensiva, não acho que ela faria questão de adicionar tal detalhe.
Não parecia uma mentira ou boato e aquilo só fez minha cabeça fervilhar. Por quê? Olhei para frente, incrédulo com tal constatação e tentando arrumar toda aquela mistura desagradável. Sabia que não era possível, mas ainda pensava com força o suficiente para doer a cabeça.
-Mas... não faz sentido...
Minha mente estava tão ativa que falei aquilo involuntariamente.
-Faz. É só juntar as peças.
-Não é isso. – minha resposta foi quase instantânea, causando surpresa em mim mesmo. – Ela é, provavelmente, a pessoa mais poderosa de Yukopan, é bonita, é legal... por quê?
Sequer olhei para a sua reação e apenas continuei, praticamente no automático.
-Por que ela está sozinha? Isso não faz sentido algum. É contra todas as situações lógicas.
Só naquele momento que eu notei o quanto tinha falado demais. Ótimo, Pedro, agora Akemi sabe que você realmente tem desejos carnais por Nara. Aquilo vai ricochetear no momento que você menos espera, com toda a certeza.
O mais assustador é que ela não reagiu. Nenhum comentário irônico, nenhuma risadinha, nada. Aquilo me incomodava muito mais e precisei olhar para a sua direção.
Ela parecia apenas pensativa e também olhava para a arena a nossa frente, distraída. Por um momento esperei que não tivesse ouvido o que falei, mesmo que aquilo fosse impossível e a razão de estar pensativa fosse justamente por isso.
O sinal tocou em seguida. Não sei dizer se era intencional, mas era bem mais audível no ginásio do que era em todo o resto do colégio, o que me fez dar um pequeno pulo. Nem sabia dizer se o mesmo aconteceu com Akemi, já que o som veio do lado oposto de onde ela estava.
Então eram quatorze e meia. Absolutamente nenhum sinal de Nara ainda.
-O que eu disse antes mesmo?
O susto anterior com o barulho do sinal me impediu de assustar novamente, mesmo com Akemi falando de forma tão repentina.
-Ah, é. Não dá para discutir com ações.
Olhei para ela e percebi que já tinha se levantado. Despreguiçou seu pequeno corpo e comecei a ter dúvidas se ela era apenas dez centímetros a menos que eu.
-Então, novato. Não adianta eu só dizer pra você, então vou lhe mostrar porque Nara Ennetsu não tem amigos aqui. Aliás, é bem provável que ela mesma faça esse favor.
Não sorriu. Parecia estar bastante tensa, na verdade. Olhava em direção à entrada do ginásio, com certa ansiedade.
Como se fosse cronometrado, a porta de metal abriu com um rangido absurdo, o que me fez pensar, mesmo que de forma breve, que Akemi me ouviria de qualquer jeito, com fones de ouvido ou não. Ao mesmo tempo não lembrava de ter feito tanto barulho assim.
Quem entrou foi alguém bem familiar, mas demorei de reconhecer.
Nara estava com seu cabelo preso em um rabo de cavalo ridiculamente longo e compatível com o tamanho real de sua cabeleira. Era possível notar o dégradé do laranja com vermelho com maior detalhe agora, já que antes estava apenas nas pontas e agora também estava presente onde estava amarrado. Vestia uma camisa comum, com mangas e que tinha o símbolo bordado do colégio. Usava uma saia carmesim, mas que parecia ter um material diferente da saia padrão do uniforme, mesmo que tivesse o mesmo tamanho. Não tinha nenhuma calça de ginástica e, no lugar do mocassim preto, usava um tênis laranja com detalhes em vermelho. A cor do tênis era parecida demais com a do seu cabelo para achar que era apenas uma coincidência.
Como no automático, o primeiro lugar do ginásio que ela olhou foi para onde eu estava. Acenou, mas apenas brevemente e eu acabei respondendo o aceno quando não olhava mais para a minha direção. Estranhei que fosse apenas uma reação tão rápida.
-Oh, parece que você arrumou uma namorada bem ciumenta, novato.
A voz de Akemi era do seu velho deboche e passei um tempo processando o que ela quis dizer. Nara tinha me visto próximo a mesma garota que ela tinha me protegido e pedido que eu me afastasse dias atrás.
Mas que droga. Como sou um maldito imbecil. Não havia nem como dizer que apenas estávamos no mesmo lugar, porque achei simplesmente brilhante a ideia de sentar ao lado de Akemi.
Para quê se preocupar com alguém me sabotando quando eu mesmo posso fazer o serviço? Fantástico, Pedro. Fantástico.
-Relaxe. – Akemi voltava a dizer. – Você está prestes a presenciar o que Nara mais gosta de fazer nesse colégio. O que mais lhe acalma. Quem sabe ela aceite seus pedidos de desculpa depois de extravasar o stress.
Traduzi o “extravasar” por eliminação e porque tinha visto seu significado recentemente no dicionário. Não era uma palavra que eu mesmo usava com frequência nem em toruguês e acabou sendo um caso à parte, como o “irrisório”.
Aliás, “irrisório” era uma palavra perfeita para demonstrar a minha situação agora.
Pena que Akemi era a única que estava achando graça da piada.

Comments (0)
See all