Não tive coragem de falar com Nara e ela mesma evitava o olhar, então preferi ficar apenas no andar mais baixo da arquibancada, vendo tudo de longe.
Mesmo com a aula de Educação Física sendo opcional, pelo menos umas trinta pessoas da classe vieram. A roupa que Nara usava parecia ser exatamente a roupa para ocasião, oficialmente falando. Apenas naquele momento eu notei que Akemi também não usava a camisa social e nem a calça de ginástica dos outros dias. Pensando agora, provavelmente não era uma calça de ginástica de fato, apenas parecia uma. A dona dos cabelos violetas foi a única que veio também com um paletó, que agora estava dobrado do meu lado.
Uma das minhas colegas de classe parecia feliz com algo que discutiu com o professor e acabou pulando. Nesse momento eu notei que elas usavam shortinho por baixo da saia carmesim, o que torna o uso da própria saia bem ambíguo. Talvez yukoponesas tivessem problemas com isso, vai saber. Não tinha nada disso em Torugal do Sul.
Não fazia ideia do nome do professor e nem me importava muito, já que eles sempre se apresentavam. O problema é que agora não havia nenhum quadro para anotarem seus respectivos nomes e eu normalmente perguntaria isso para Nara, mas... é. Ele era bem alto e magro, onde eu provavelmente ficava no seu ombro. Suas expressões eram compatíveis com a de um adulto jovem e seus cabelos eram de um verde lima que eu não pude deixar de me perguntar se brilhavam no escuro de tão chamativos que eram. Os olhos seguiam o mesmo padrão e, por conta da iluminação solar, pareciam brancos. Vestia um daqueles uniformes de ginástica completos de cor carmesim, que praticamente não combinava com ninguém e fazia você parecer uma daquelas pessoas que nunca malhavam, mas que tinham a roupa sempre pronta para a ocasião. Sei lá, não entendia muito do assunto para dizer.
Eu usava o uniforme certo, mas tudo que conseguia fazer era me remoer na arquibancada. Como sou um idiota. Diferente do que Akemi tinha dito, não era exatamente ciúmes o problema, mas sim que Nara me pediu para me afastar da garota, que achei uma boa ideia dar uma chance, porque era perigoso. Era um pedido pessoal que resolvi jogar no lixo em troca de absolutamente razão alguma. O próprio senhor Miyakawa ficaria extremamente desapontado se soubesse. Ah, mas ele vai acabar sabendo, em algum momento que eu cometer a próxima merda e acabar soltando tais detalhes no processo.
-Ei, você.
Demorei para notar que uma voz me chamava. Eu ainda olhava para os detalhes artísticos pintados na arena, como se fosse a coisa mais linda do mundo. Mais bonito que o meu dia, definitivamente.
-Você! Pedrur!
Olhei para onde todos estavam. A voz era do professor e acenava para mim. Pelo visto, todos vão ter problemas de pronunciar meu nome por aqui. Todos, menos a garota quem eu havia decepcionado, claro.
Praticamente toda a classe acompanhou o olhar do professor e me analisavam. Nara ainda olhava para o lado e com uma expressão nitidamente emburrada no rosto.
-Sim? – gritei.
-Vai participar da aula? Se sim, venha para cá! Vou falar o que vamos fazer hoje.
Demorei um tempo para levantar, suspirando. Agora vou ter que ficar por lá para ouvir o professor falar, enquanto Nara desviará seus olhares. Mais agradável que isso, impossível.
Acabei levando um tempo considerável para chegar na “roda” de alunos, mas o professor aguardou pacientemente que eu chegasse antes de começar a falar.
-Ok! Vamos ter trinta pessoas esse ano, então? Cara, isso vai ser divertido!
Não sei dizer se sua atitude era natural, mas ele parecia ser extrovertido e bastante animado.
-Vou explicar logo para os novatos aqui. Temos quantos nesse ano? Uns oito? Certo. – respirou brevemente antes de continuar. – Bem-vindos à aula de Educação Física e, se vocês são bons observadores, notaram duas coisas: a primeira delas é que essa é uma matéria considerada comum, mas que está no turno vespertino do Chikara no Kyoten. Logo está, supostamente, no turno errado! Vespertino é apenas para as matérias especiais do colégio, não é?
Era um bom ponto. Tão bom que ele provavelmente deveria repetir todo ano, mudando apenas o número de novatos do script.
-Essa é a pegadinha, meus caros. O nome da matéria pode ser comum, mas as escolas yukoponesas normalmente fazem coisas entediantes, como correr ou fazer flexões. Esse tipo de coisa chata não se faz aqui. No lugar, nós vamos ter duelos! Essa arena é especialmente feita para isso! E não se preocupem em economizar forças, porque meu poder é de cura e de altíssima afinidade.
Aquela última frase me deixou confuso por um tempo, mas logo entendi. Achava que seu poder tinha relação com a terra por ter cabelos verdes, mas era muito mais próximo do lima, uma das cores características dos poderes que não tinham relações com elementos. Era a mesma razão da habilidade da Akemi ser também cura, mesmo com uma cor de cabelo completamente diferente.
-Claro, precisamos de regras. – continuava. – Então vamos apenas seguir as dos duelos originais: você perde ao estar inconsciente, desistir ou sair da barreira. Quebrar membros, mesmo que estes possam ser consertados sem problema algum, é digno de desclassificação. Acho que não preciso nem dizer nada quanto a matar, não é? Aliás, não preciso mesmo, porque isso vai ser assunto da polícia! Só sejam conscientes.
Sua mudança brusca de humor entre a penúltima e última frase me fez sorrir. Na verdade, eu acharia engraçado por si só os seus movimentos absurdamente exagerados dele enquanto falava aquilo tudo, mas nessa situação eu estaria rindo agora e não apenas com um sorriso de canto de boca. Era difícil rir lembrando de todas as merdas que tinham acontecido.
E... ei, isso não parece tão ruim. Obviamente eu vou acabar perdendo a minha primeira batalha, mas tanto faz, não é? Ainda posso me divertir e aprender algo aqui. É irrelevante a dor que eu sinta, já que serei curado em seguida do mesmo jeito. Não é como se tivesse nada a perder.
-Porém, esse ano eu percebi algo importante! Vocês fazem parte da mesma classe que Nara Ennetsu! É uma honra, não é?
As reações não foram boas. Akemi desviou o olhar, nitidamente chateada, mas não apenas ela. Todos os que pude classificar como veteranos reagiram de forma parecida.
-Pois é! E como todos aqui sabem, a senhorita Ennetsu é mais forte que qualquer um daqui e os duelos seriam muito injustos se ela lutasse apenas contra um, então as regras são diferenciadas para todos que estejam na mesma classe que ela.
Oh, não.
Eu já sabia onde aquilo ia chegar. As palavras de Akemi ecoavam na minha cabeça, em repetição.
“Fico feliz que você esteja sendo companhia para Nara.”
“É sério que não notou, novato?”
“Ela só lhe acompanhou e falou com você durante todo esse tempo justamente porque você era a única pessoa que ela tinha pra contar.”
“Então, novato. Não adianta eu só dizer pra você, então vou lhe mostrar porque Nara Ennetsu não tem amigos aqui.”
“Aliás, é bem provável que ela mesma faça esse favor.”
A ordem era aleatória, mas cada vez que eram repetidas, um sentimento muito desconfortável tomava cada vez mais e mais conta de mim.
-Antes dos duelos do dia acontecerem, vocês têm uma missão: arranhar a senhorita Ennetsu. Todos podem ir em cima, sem pudor. Não se preocupem, ela aguenta! Só tenham cuidado, porque nada impede que ela contra-ataque!
Toda a animação do professor passava de engraçada para doentia.
Aquilo era terrível.
Como aquilo não faria os alunos odiarem Nara? Os outros sete novatos entrariam no pacote de ódio depois daquele episódio e se juntariam a toda a classe.
Uma classe unida em prol de odiar uma única pessoa.
Que tipo de ideia estúpida era essa? Nara aprovava isso? Mais perguntas se uniam as não respondidas na minha mente e, mesmo as respondidas, eram “resolvidas” da pior forma possível. Certo, o professor não estava errado. Realmente ninguém tem chance contra Nara. Ela vencia os campeonatos da forma mais fácil possível, como se todos os seus adversários fossem bebês chorões implorando pelas suas mães. Mas isso era tratar os alunos como incompetentes, no mínimo. Não importa que eles apenas fossem a uma das aulas de Educação Física, porque eles ainda presenciariam isso e criariam ódio. Se essa ideia for da escola, é como se ela estivesse tratando seus próprios alunos como um bando de lixo. E não reciclável, ainda por cima.
A razão das pessoas estarem na Chikara no Kyoten é justamente para se sentirem especiais e poderem praticar o uso de seus poderes para uso profissional. Formar aqui é um puta curriculum. Mas isso... isso não é tratar os alunos como especiais, apenas como descartáveis. Fugia de todas as propostas do colégio.
-Estou curioso pra saber como os novatos se sairão esse ano. – sua animação ainda era a mesma, mesmo que os alunos não acompanhassem. – Ficaria feliz em ver vocês batendo o recorde de vinte e sete minutos e quarenta e três segundos! Boa sorte!
Vinte... vinte e sete minutos? Vinte e sete minutos para toda uma classe arranhar uma única aluna?
Não tive muito tempo para pensar. O professor ativou a barreira e então pulou fora dela. No mesmo instante, Nara nocauteou duas pessoas que estavam do seu lado com uma velocidade impressionante, tão rápido que só notei quando o corpo inconsciente de um deles passou praticamente voando do meu lado. Os dois acabaram caindo fora da barreira, mas em lados opostos.
Ela ativou uma barreira com detalhes flamejantes, o que assumi que fosse de chamas e se posicionou para um dos cantos da arena que ainda estavam protegidos. Sua postura agora parecia ser defensiva, mas ninguém se atreveu a tentar atacar.
-E lá se vão dois novatos. Temos vinte e sete agora.
A voz era de Akemi, que estava logo atrás de mim e assumindo uma postura que eu considerei como de batalha, mas não sabia dizer se era defensiva ou ofensiva. Parecia a primeira opção.
-Entendeu agora o que quis dizer, novato?
Ela falou aquilo logo depois que percebeu que eu a olhava. Apesar de estar falando com naturalidade, sua expressão indicava tensão.
-Eu não sei o que caiu ali na frente, – continuou. – mas conheço o de cabelo azul-transparente. Minato, 8,1 de afinidade em ar. Jogado pra fora da barreira como um saco de batatas. Ao menos ano passado, ela tinha mais problemas contra os “oitinhos”.
“Ao menos ano passado”. Há quantos anos isso vem acontecendo? Há quanto tempo Nara vem chutando a bunda dos seus colegas de classe como se fossem meros objetos para aumentar sua força?
Estava completamente desnorteado, ao ponto que sequer notei quando uma rajada laranja passou voando de raspão por minha cabeça. Ao olhar para trás, notei que acertou uma das alunas, a mesma que estava pulando de felicidade por alguma razão antes da aula começar. O impacto foi forte o suficiente para jogá-la fora da barreira.
Akemi soltou uma risada nervosa.
-Entendi. Ela quer eliminar os novatos logo porque não sabe o quanto eles são perigosos. Os veteranos ela já sabe lidar. Soube muito bem no último ano.
Apesar de estar sorrindo, eu conseguia notar que tremia.
-Cuidado, novato. – continuou. – É bem provável que você vá no pacote.
O que eu sentia não era exatamente medo e sim uma mistura de emoções, todas elas desagradáveis. Decepção talvez fosse a principal delas. Aquela atividade era terrível por si só, mas Nara não fazia a menor questão de deixá-la mais aceitável para sua imagem.
Pensando melhor agora, talvez os alunos não apenas a odiassem. Eles também a temem. Eles têm medo dela, como uma gazela tem medo de leões. O respeito selvagem, adquirido na força bruta.
Então é por isso que Nara odeia o título de “rainha”?
Bem, se ela odeia, estava fazendo o completo oposto para melhorar isso. Três alunos foram jogados com uma força tão bruta para fora da arena que foi difícil não me perguntar como estavam. Pude notar o professor de Educação Física curando um deles, o que parecia ser o “Minato” que Akemi tinha dito. Ele acordou logo em seguida, nitidamente tonto. Presumi que Nara tinha experiência o suficiente para saber o nível que poderia chegar com seus poderes para acabar não matando ninguém sem querer, mas aquilo não era o suficiente para justificar o que fazia. Nem de perto.
Pela primeira vez desde que toda aquela loucura havia começado, eu olhei diretamente a garota das chamas. Sua barreira ainda estava ativa e mantinha a postura defensiva. Seu braço e mão direitos estavam estendidos para a minha direção... não, era para a direção da aluna que ela tinha acabado de eliminar do battle royale, se é que pode ser chamado assim. Sua expressão era séria e, ao mesmo tempo, confiante. Todos os sorrisos que vi de sua parte pareciam nada mais do que um sonho distante, aqueles sonhos bons que você tem antes de acordar e vai esquecendo com o decorrer do dia.
Desde que havia chegado a Yukopan, tudo parecia exatamente um sonho. Tudo estava dando certo, mesmo que das formas mais atrapalhadas e inesperadas possíveis... ou ao menos estava, até aquele dia.
Pelo visto, a hora de acordar havia chegado.
Não estava pronto, mas o “alarme” não se preocupava com isso.

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