Em apenas dois minutos a arena já tinha menos da metade dos participantes. Praticamente todos foram eliminados com um golpe só, como se nunca tivessem batalhado em todas as suas vidas.
Nara começou jogando para fora todos os novatos, exatamente como Akemi disse. Todos os sete foram os primeiros a sair, em que eu era o único que continuava por lá. Sinceramente não sabia dizer se Nara me mantinha na arena por conta do nosso “princípio de amizade” ou se por saber que eu não representava ameaça.
Os veteranos restantes ofereceram um pouco a mais de resistência, em que, pelo menos, dois deles tentaram um ataque simultâneo misturando os elementos de água e terra. Não teve absolutamente efeito algum, mas a tentativa ainda era válida.
A barreira de chamas que Nara tinha criado deveria ser, ao menos supostamente, fraca contra água, mas uns três colegas diferentes tentaram o uso da água, em que o terceiro foi até mesmo criativo: uma espécie de tornado aquático. Os efeitos foram mínimos, se é que sequer existiram. O quanto seria necessário para que causasse ao menos uma rachadura? Não sabíamos e era difícil não ficarmos frustrados.
A simples capacidade de criar uma barreira deveria requerer uma quantia absurda de vigor. Nenhuma pessoa normal conseguiria manter uma por mais do que alguns segundos sem causar danos físicos a si mesmo. Pois é, nenhuma pessoa normal. Não estávamos falando de alguém “normal” aqui.
Os sobreviventes estavam completamente catatônicos e não pareciam ter nenhuma estratégia na cabeça. Akemi sequer tinha tentado atacar e permanecia do meu lado, na mesma pose que há dois minutos atrás.
-Acha mesmo que essa pose vai lhe proteger de alguma coisa?
Não, não era alguém falando com Akemi. Quer dizer, era alguém sim, só que esse alguém era eu. Normalmente não seria a pessoa a falar aquelas coisas, mas a frustração se misturava com a decepção anterior e a raiva que sentia no momento.
Ela me olhou com uma mistura de também frustração e raiva. Deveria estar sentindo o mesmo que eu, só sem a razão de estar decepcionada.
-O que você sugere, novato? Quem sabe você consiga vencer beijando sua namorada. Será que “coração partido” conta como arranhão?
Sua ironia me incomodava na maior parte do tempo, mas naquela vez eu não dava a mínima.
-Não vai resolver nada ficar parada aí. Você já venceu Nara, não foi? Pense em algo útil, droga.
Ela desviou brevemente o olhar, como se estivesse com certa vergonha.
-Sim, eu venci ela há quase cinco anos atrás. As coisas mudaram, novato.
-Como você vai saber se mudaram se tudo o que faz é ficar parada feito uma estátua aí? – retruquei, com a voz alterada. – Acha que Nara não vai lhe atacar apenas por não estar se mexendo?
Akemi voltou a olhar para mim.
-Vai ficar dando bronca ou sugerir algo?
-Eu sugeria se soubesse de algo. – olhei ao meu redor. – Droga! Vocês conhecem ela mais do que eu! Pensem em algo útil!
-Quem ficou almoçando com ela foi você, cara. – um garoto de cabelo espetado ruivo respondeu. – Você que deveria estar nos ajudando aqui!
Aquilo era inútil. Eu não sabia absolutamente nada de batalhas na prática para pensar em algo parecido com uma estratégia e todo o resto estava atordoado sem também saber o que fazer. Era só questão de tempo até que fôssemos eliminados, um por um.
Não estava ignorando o quão fantástico era estar sendo odiado tanto quanto Nara era por meus colegas de classe. Tanto faz. Todo aquele dia tinha sido um maldito desastre e isso era somente o murquilo¹ do topo do bolo.
-Você não precisa lutar se não quiser, novato.
Akemi me olhava com decepção e tristeza.
-Você sabe disso, não é? A opção de desistir existe, basta sair da barreira.
Não, não sabia. Me perguntei se era o único, já que ninguém parecia ter desistido até então. Não faço a menor ideia sobre os meus colegas, mas...
-Desistir?
-Sim. Você não precisa lutar contra sua amiga, se não quiser. Sei que é difícil pra você e deve estar sendo pra Nara também.
Não eram apenas as palavras que ela usou, mas também o tom de sua voz. Akemi falava como se estivesse preocupada comigo. Foi impossível não dar uma risadinha mental. Aquele dia não parava de me surpreender.
Bem, se é assim, acho que deveria valorizar os esforços no quesito surpresa.
-Não me faça rir, Akemi.
Olhei para ela com um sorriso que nem sei de onde havia saído. Um sorriso de confiança.
-Não irei pular pra fora da arena como um maldito fracote. Se Nara quiser, ela vai ter que me eliminar ela mesma.
Seus olhos roxos me fitaram e parecia estar com uma mistura de curiosidade e confusão.
-Se era pra ficar correndo das coisas difíceis, era melhor ter ficado em Torugal do Sul. Não vou correr.
Ela acabou sorrindo junto.
-Muito bonito e inspirador, mas vai ficar só nas palavras ou vai ter ações também?
Sequer tive tempo de pensar em uma resposta. Outra rajada laranja vinha em nossa direção com uma velocidade absurda. Estava muito a minha esquerda para que eu fosse o alvo e logo percebi quem era.
Akemi.
Não sei se em algum momento de toda a minha vida eu pensei tão rápido, mas provavelmente ficaria orgulhoso do que tinha feito naquela hora. Não, eu não pulei na frente. Dar todo aquele discurso lindo para se sacrificar no final era anticlimático demais para fazer efeito.
A última vez que tinha usado meus poderes foi em um copo com água no avião de Torugal do Sul para cá e antes disso... sei lá? Talvez tentando gelar alguma coisa? Não lembrava e não me importava. Mirei na rajada laranja de Nara, tentando acompanhar sua velocidade, o que não sei dizer se realmente consegui, mas não tinha muito espaço para cálculos. O pouco controle de vigor acabou me causando uma leve tontura, porém não impediu a minha rajada de gelo defensiva.
Em questão de milissegundos, os dois poderes se encontraram e causaram uma reação explosiva. Akemi tentava se defender da suposta inescapável rajada das chamas de Nara e acabou sendo surpreendida pelos eventos inesperados. Um pequeno show de luzes ocorreu na arena, mesmo sob a luz do sol, mas não durou mais do que alguns poucos segundos e foi o único efeito colateral, além do vento que a pequena explosão tinha causado, claro.
Demorou um tempo até que alguém reagisse. Uma breve olhada para Nara foi o suficiente para ver a expressão de surpresa em sua face. A garota, que era o seu alvo e deveria estar eliminada, não conseguia entender o que tinha acontecido e todo o resto? Sei lá, não me importava com todo o resto. Provavelmente compartilhavam uma reação parecida de confusão e surpresa.
Já eu estava orgulhoso. Eu tinha defendido, realmente tinha defendido um ataque de Nara Ennetsu. Só ignoremos o fato que ela ia gostar menos ainda da situação, principalmente por quem eu havia defendido, mas isso seria um problema para se resolver depois.
Não era apenas orgulho, também. A razão de tentar defender aquele ataque foi muito além de proteger Akemi e comprovou algo que eu suspeitava.
-Não tem resistência.
A garota dos cabelos violetas não sabia exatamente como reagir a toda aquela corrente de bagunças. Apenas me observou, esperando que tivesse uma resposta para pelo menos uma questão.
-O... o quê?
-Não tem resistência. – repeti, esperando que desse a devida ênfase. – As rajadas de Nara não tem resistência. Só força.
Ela tentou ajeitar sua postura.
-O que quer dizer com isso? – parecia menos confusa agora.
-Que ela está lançando rajadas simples e rápidas para economizar vigor. Aquela barreira deve estar destruindo completamente sua energia.
Os outros começaram a me observar e poderia jurar que alguns pareciam até mesmo esperançosos, mas não analisei o suficiente para confirmar.
-Ela também não pode atacar toda hora. – continuei, sabendo que estava sendo ouvido. – É por isso que os ataques são intermitentes. Mesmo para ela, ainda é demais atacar tão rápido, só que a barreira é fundamental para que se defenda. Nossa missão é arranhar ela e não vencer no mano-a-mano, afinal. Há quanto tempo vocês não conseguem?
-Ela venceu todas as batalhas dos últimos seis meses do último ano contra toda a classe. – uma das veteranas, com um cabelo curto e de um vermelho transparente, disse.
-Com a mesma estratégia?
-Sim.
Parecia tão irônico que eu admirava Nara por sua capacidade estrategista agora. Ela sequer tentou inovar, achando que venceria todas as vezes. Não sei se era a minha decepção atual, mas aquilo parecia bem... patético.
-Seguinte, essas são nossas opções. – comentei, após um breve pensamento. – A primeira delas é nos defendermos até que seu vigor esteja baixo o suficiente para que não sustente mais a barreira e então a atacamos até que alguém consiga arranhá-la. A segunda é destruir a barreira antes e então finalizar da forma devida.
-Parece simples demais pra funcionar, novato. – Akemi que questionava agora.
-É simples na superfície. – respondi, diretamente. – Os nossos ataques precisam ser em conjunto e sincronizados, algo que eu não faço a menor ideia de como organizar porque não tenho experiência em batalhas... não na prática, ao menos. Tentar destruir a barreira vai levar menos tempo, mas vai baixar a nossa guarda e muita gente pode cair. Se for feito da forma correta, porém, vai ser muito mais rápido, porque Nara usa vigor quando se defende com seu muro de chamas.
Se antes eu tinha a impressão que todos estavam esperançosos, agora tinha a certeza. Muitos sorriram com a expectativa de que finalmente aquilo teria um final diferente e não pude deixar de sorrir junto.
-Defender não tem graça alguma. – o mesmo colega com o cabelo espetado ruivo de antes era o que respondia agora. – Se for pra fazermos isso, vamos destruir a barreira dela.
-É!
-Isso aí!
As vozes vinham de todos os restantes e pareciam estar completamente revigorados com a conquistada confiança. Aquilo podia funcionar. Não sabia como, mas podia.
Não era uma questão de fazer aquilo tentando ser amado pelos meus colegas ou para me vingar da decepção de Nara.
Era muito além.
Não tinha falado palavras vazias para Akemi. A partir do momento que eu tomei a difícil decisão de abandonar meu país de origem, estava focado em que tudo fosse diferente. Era exatamente por isso que eu sentia medo, o medo de estragar tudo, de repetir os mesmos erros. Estava determinado a não tornar essa parte da minha vida apenas uma história curta e irrelevante.
Não passei mais de um ano estudando uma língua que não conhecia e viajando pela primeira vez ao exterior para agir na defensiva. Talvez fosse por isso que desafiei Akemi no meu primeiro dia, que lutei para fazer um pedido direto para Nara, que me “reconciliei” com Akemi hoje...
...e também que estava aqui, me recusando a desistir de uma batalha que sequer os experientes sabiam como vencer.
E tudo quase foi jogado água abaixo quando notei que Nara tinha lançado outra rajada, só que dessa vez em minha direção. Me virei com a esperança de defender, mas não daria tempo. Por mais que estivesse diretamente em minha frente, eu precisaria juntar vigor para criar uma defesa.
Era tarde demais.
¹murquilo: fruta pequena azul e redonda, muito parecida com a cereja fisicamente e típica de países tropicais e subtropicais como Torugal do Sul. Seu gosto era amargo e era muito utilizada como complemento de bolos pois tinha a função de neutralizar o gosto doce do mesmo.

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