Só levantei meus dois braços e os cruzei, com a esperança que fossem o suficiente para que eu até tomasse o golpe, mas ainda caísse na arena. Ainda assim isso só aconteceria com pequenas probabilidades... ou por um milagre.
Apenas observava a rajada laranja chegar no seu esperado destino e, pela primeira vez, notei que ela tinha também detalhes em vermelho. Se eu tivesse tempo para sorrir, provavelmente teria feito. Como não tinha, apenas esperei pelo iminente impacto.
Tal impacto não veio.
Assim como o último ataque de Nara antes desse, uma explosão aconteceu quando a rajada já estava a menos de um metro de distância. A reação me fez cair para trás e precisei me apoiar no chão. Quando olhei para cima, ainda meio atordoado e com os efeitos luminosos da explosão ativos, percebi um braço direito e pequeno estendido na direção de onde vinha o projétil... se é que você podia chamar um ataque de energia daquele jeito.
Quando as luzes cessaram, identifiquei de quem era o braço.
-Parece que estamos quites agora.
A visão de cabeça para baixo do rosto de Akemi era confusa, mas não o suficiente para não identificar o seu estampado sorriso. Retribuí a feição sem cerimônias como agradecimento.
-Os ataques dela estão mais demorados. – continuava, agora mudando para uma expressão mais séria. – A barreira não vai durar muito tempo.
-Não.
Me levantei, dando tapas na calça folgada que estava vestindo para tirar a poeira do chão. Lancei um breve olhar para Nara e pude jurar que sua expressão agora era além de apenas séria, mas estava muito longe para confirmar.
-Ela está demorando mais de atacar porque está priorizando a barreira. – voltei a olhar para meus outros colegas. – Se for necessário, ela vai apenas se defender.
Akemi levantou uma de suas sobrancelhas roxas.
-Ela vai se defender por duas horas?
-Pouco menos que isso, mas sim. – toquei no meu bolso buscando pelo celular e poder confirmar o tempo, mas lembrei que tinha deixado ele em cima do paletó de Akemi, na arquibancada. – É a nova estratégia dela depois de ver que podemos nos defender de seus ataques.
-Faz sentido. – uma garota, com um penteado de Maria Chiquinha e fios de cabelo de coloração azul-marinho, concordava. – Ela deve precisar de muita energia para os ataques por causa da barreira, mas a barreira em si pode a defender por muito tempo se não fizer esforço.
Bem, isso significava que os meus planos iniciais tinham ido para o espaço. Alguns notaram isso praticamente ao mesmo tempo que eu e ficaram frustrados novamente.
-É, foi uma boa tentativa, novato.
Akemi desviou o olhar, também decepcionada.
-Então? – o garoto de cabelo ruivo questionou. – Vamos ficar aqui apenas esperando as duas horas passarem?
-Eu não vou esperar as duas horas. – a de cabelo vermelho transparente que falava agora. – Se for pra ser assim, Nara venceu. Não é muito diferente das outras vezes mesmo.
Droga. Não desistam. Isso ainda não acabou.
Adoraria falar tudo aquilo, mas de nada adiantava se tudo fosse apenas um conjunto de palavras vazias. A falta de experiência em batalhas pesava toneladas agora.
Pense, Pedro! Pense! Você podia não lutar, mas você era um espectador assíduo dos campeonatos de duelos. Nenhuma barreira era intransponível, mesmo se tal tática defensiva viesse de alguém de alta força e afinidade. Existia alguma fraqueza.
Água parecia não funcionar. Talvez causasse um dano maior ao seu escudo, mas ela ainda teria vigor o suficiente para recuperá-lo durante algum tempo. Se os ataques fossem contínuos demais, destruiria a energia de quem estava usando e seria inútil do mesmo jeito. Era uma estratégia arriscada demais e, mesmo que funcionasse, alguém ainda precisaria arranhar Nara para vencermos. Destruir sua barreira não a faria perder muita energia, apenas a faria não usar mais a barreira e, nessa situação, não teria problemas em eliminar os restantes. Um plano precisa ser “completo”. Essas falhas eram muito simples para considerar tais opções.
Olhar ao redor me fez perceber que muitos já ponderavam a desistência. Se já era difícil com pouco mais de dez pessoas, ficaria ainda mais difícil com menos. Porra! Ao menos tentem, seus molengas! Precisava pensar em algo rápido.
Algo... rápido...
Espera. Tinha algo que poderia funcionar. Poderia mesmo. Só precisava ser organizado.
-Ei! – chamei a atenção da maior parte das pessoas que pude chamar. – Eu pensei em algo, mas preciso de quem controle o elemento da água.
Não é como se eu precisasse que eles se apresentassem, apenas queria chamar suas devidas atenções para que não desistissem antes. Contei pelo menos uns quatro, mas me tirei da lista porque meu poder não permitia controlar água em estado diferente de sólido e aquilo não serviria para o que pensava.
-Certo. – comecei quando os quatro já estavam reunidos. – Akemi, destrua qualquer ataque de Nara, caso ela ainda resolva atacar.
-Você não acha que manda em mim. Não é, novato?
Akemi, cacilda. Essa não é a hora de ser um maldito porre.
-Brincadeira. Deixa comigo.
Só naquele momento que a olhei e notei que ela tinha intenção de encher o saco desde o início. Obrigado.
-Ok, – voltei a me concentrar no pequeno grupo em minha frente. – listem suas devidas afinidades.
-7,8. – disse a garota de cabelo em Maria Chiquinha e azul-marinho.
-8,0. – falou um garoto mais baixo que eu com um cabelo longo em azul-cobalto.
-7,7. – respondeu um garoto com sardas no rosto e cabelo curto e penteado de coloração azul-denim.
-8,3. – complementou uma garota com um cabelo parecido com o de Akemi em azul-índigo.
Como é ótimo ser o café com leite do grupo, não é?
-Deve servir. – sorri para esconder a chateação de ter, provavelmente, a pior afinidade da minha classe. – Quais de vocês conseguem controlar a umidade?
Apenas a garota com o cabelo azul-índigo levantou a mão. Não me impressionava, era uma habilidade que somente pessoas com uma afinidade parecida aprendiam naturalmente. Isso não significava que quem tivesse um nível menor não pudesse aprender, porém.
-Ok, você...
-Misaho.
Fez questão de dizer seu nome, mesmo que eu não perguntasse. Aquela dica do “não o chamar pelo primeiro nome ‘em nenhuma ocasião’.” parecia, cada vez mais, uma completa e exagerada desinformação.
-Certo, Misaho... – complementei depressa. – consegue ensinar para seus outros colegas como fazer isso? Não precisa ser de forma complexa, apenas o suficiente para que eles consigam transformar parte da umidade em água líquida e que possam fazer isso em uma distância considerável.
Ela sorriu, com certa empolgação.
-Claro!
-Perfeito. – me virei para os outros três. – Depois de aprender com a Misaho aqui, o plano é simples: vocês vão jogar água em Nara. Quanto mais, melhor.
Akemi olhava para o outro lado para se certificar que Nara não atacasse e virou sua cabeça para minha direção com uma expressão de negação.
-Esse é o seu grande plano?
-O que é que tem?
-O Ren ali jogou um maldito tornado de água na barreira de Nara. – apontou para o garoto das sardas. – Você acha mesmo que transformar um pouquinho da umidade em água líquida vai fazer mais efeito?
-E quem disse que eu vou jogar na barreira?
Acabei sorrindo. Akemi não ter entendido nada só me fazia sentir ainda mais superior e tudo ficava melhor quando ela parecia ainda não saber onde eu queria chegar.
-Você sabe que tudo que você lança em alguém ainda precisa passar por uma barreira, não é? – me questionou.
-Exato. Poderes lançados em alguém. O que os quatro aqui vão fazer é transformar a umidade de dentro da barreira de Nara em água no estado líquido. Controlar algo já existente não é lançá-lo.
Ela não acompanhou meu sorriso.
-E então eles vão jogar um jato na cara de Nara ou parecido? Pode ser o jato mais rápido possível que a sua barreira não vai nem tremer.
-Não tremeria, de fato, se a afinidade de Nara fosse muito menor. – respondi, triunfante. – Ela tem um nível tão absurdamente alto que suas fraquezas também estão acentuadas. Molhar ela vai ser o suficiente não só para que sua barreira trema, mas que dissipe.
Admito que precisei parar um tempo para pensar nas traduções das palavras “acentuadas” e “dissipe”. Não foi tanto tempo assim, porém. Estava mesmo ficando bom nisso.
Aquele foi exatamente o assunto que tivemos no primeiro dia de aula, mas não aprendi na ocasião e sim bem antes. Todo poder tem seu ponto forte, onde faz o maior efeito e também o seu ponto fraco, onde sofre maior dano. É um conhecimento que poucos sabem e lembram, porque se sua afinidade for inferior a, pelo menos, uns oito pontos, tais vantagens e desvantagens são praticamente irrelevantes. Só que no caso de Nara, aquilo era relevante até demais. Se seu nível for tão alto como penso, uma ducha na sua cara seria o suficiente para que perdesse o total controle de seus poderes e enfraquecesse, ao menos por um tempo. Tempo o suficiente para arranhá-la.
Sim. Aquilo podia funcionar. Mesmo se não funcionasse, não haveria um plano melhor que pudesse ser pensado em tão pouco tempo. Aceitaria minha derrota de bom grado se tudo desse errado.
Akemi apenas abriu os olhos, impressionada. Me encarou por um tempo e depois virou para onde estava olhando e continuar a sua “guarda”.
-Se isso funcionar, – começou a falar, concentrada em observar Nara. – eu prometo que não irei lhe causar nenhum problema até você se formar daqui.
Akemi, sua boba. Você não pode prometer algo que você já vai fazer.
-Prepare-se para cumprir a sua palavra, então.
E sorri. Ela não olhava para mim, mas também sorriu.
Provavelmente o sorriso mais sincero que tinha visto em seu rosto até então.

Comments (0)
See all