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Gothopia

Episódio 1

Episódio 1

Apr 13, 2021


Rodeado de livros, dentro de uma biblioteca, dando autógrafos e sorrindo para as fotos, Bram se encontra entediado. Debruçado em sua mesa, ele olha para a lâmpada, quase esquecendo da multidão que estava ali por ele. O romancista fantasia uma outra situação, uma em que ele poderia estar sorrindo.




- Senhor, pode nos dizer de onde você tira inspiração para tantas histórias profundas? Costuma ler seus próprios livros? O caminho da arte exige um amor do artista ao fazer suas obras. – Perguntou uma repórter, e ela não poderia ser mais precisa. Muitos leitores acreditavam no desgosto do autor pelos seus livros, por suas histórias. Isso se deve ao seu posicionamento nas demais entrevistas do qual participou, no entanto, ele sempre fugiu de perguntas como esta.

Bram então, lentamente, revirou seu olhar em direção à moça e soltou um suspiro. Ao ajeitar o seu cabelo e levantar-se da mesa com um ar de desinteresse, ele respondeu a pergunta sem muito se importar. O rapaz de vermelho, ao notar o crucifixo no pescoço da repórter, disse – Você é religiosa, não é? Pois então imagine comigo um lugar feliz. Todas as pessoas podem sorrir e aproveitar a vida sem medo do dia de amanhã. Comida e... um teto sobre suas cabeças.

A repórter permanecia calada desde que Bram havia começado a falar, prestando atenção em suas palavras, sem nada questionar. O escritor se levantou e caminhou até uma das janelas, onde se debruçou e ficou a contemplar a neve caindo. Por longos dois minutos, todos ali permaneceram calados, até que Bram voltou com seu monólogo – Olhem as plantas lá fora. Estão mortas. Nem todos os criadores gostam de suas criações. Cá estamos, todos abandonados no planeta azulado. Se até mesmo um deus deixa de ligar para a sua obra, qual o sentido em me criticar? Cobram tanto essa informação, sendo que de nada altera a experiência em ler meus livros saber se eu sinto carinho pelo que escrevo ou não, é apenas um encher de saco. Eu também sou um criador, não sou? - Disse Bram, rindo.

- É uma comparação besta, mas está no mesmo nível das suas perguntas. Eu não quero mais saber desse assunto. Eu escrevo porque posso escrever, afinal escrever me mantém vivo.

Sem reação alguma, o público ficou apenas a olhar para Bram. O rapaz, com uma expressão de cansaço, levantou-se e foi em direção à saída. O motorista já o esperava com as portas abertas. A noite estava calma, foi uma viagem não muito longa até o seu lar. Naquele passeio, Bram pensava sobre o que aconteceu enquanto observava a lua no decorrer do caminho.





De repente, um senhor trajado aproximava-se da cratera. Suas vestes eram formidáveis, muito provavelmente pertencia à uma linhagem nobre. O homem olhou o que estava ali, notando se tratar de uma figura humanoide e visivelmente desgastada. Em menos de 24 horas, todos do vilarejo em que o rapaz viva já tinham ouvido falar sobre a figura grotesca que se encontrava em um pasto, muitos associavam à uma espécie de animal. Estavam abismados, o padre não estava na cidade, logo foi proibido o contato até que se houvessem respostas do clero.

- Eu duvido você atirar uma pedra! Essa coisa não se mexe faz muito tempo, o papai teve sorte de encontrar antes que outro espertinho pegasse o crédito.

Disse Elizabeth, a filha mais velha do nobre.

- Você tem certeza disso? Não deveríamos nem estar aqui... - Retrucou Jonathan, o caçula.

Era tarde da noite, os dois haviam fugido de casa escondidos para espiar a cratera enquanto ninguém do vilarejo estivesse acordado ou, ao menos, nas ruas. Eles estavam hesitantes em chegar perto, mas o lampião de Elizabeth ajudou a suprimir o medo da noite. Fazia frio, muito provavelmente uma das noites mais frias do ano. Os agasalhos dos irmãos não eram o bastante para conter isso, no entanto a curiosidade fazia com que os mesmos nem notassem.

- Vou te mostrar que não se deve ter medo, olha só... vou aproximar o lampião dele, assim poderemos ver com mais clareza essa cara feia. – Disse a garota, enquanto descia cada vez mais pela cratera, em direção ao corpo, mas sem se aproximar muito. Jonathan tentou segui-la, mas suas botas eram grandes demais, ele estava desconfortável e não conseguia se conter, seus passos foram tão tortos que o levaram à uma queda, ou quase.




Elizabeth largou sua lamparina e segurou seu irmão mais novo pelo braço, impedindo que ele caísse no fundo do buraco. Ela o puxou e o colocou em segurança. O terreno estava muito íngreme, sendo assim, após se abaixar para pegar seu lampião, tudo que pudemos ouvir foi um suspiro. A garota estava deitada sobre o corpo sem vida, tão apavorada que sequer poderia gritar. De cima, seu irmão observava a cena, também aterrorizado.

Eis que então começam os sussurros:

- Oh, glorioso São Bento, modelo sublime de todas as virtudes, depósito puro da graça de Deus! Eis-me aqui, humildemente prostrado diante de ti. Imploro ao teu coração cheio de amor, para que intercedas por mim diante do trono de Deus. –

Oravam juntos, irmão e irmã. Elizabeth estava se levantando lentamente.


- A ti recorro em todos os perigos que me rodeiam. Protege-me dos meus inimigos, do mal inimigo em todas as suas formas, e inspira-me a imitar-te em todas as coisas.


De repente, a cabeça dela é agarrada pela figura sem nome, aproximando então seus rostos. Quando a garota olhou de perto a face da criatura, ela temeu. Não por estar perto demais... não por ter sido agarrada tão rapidamente por algo que deveria permanecer imóvel... mas sim porque a coisa respirou. Encheu seu pulmão de ar e abriu sua boca ao liberar, ecoando um suspiro que pôde ser ouvido em todo o vilarejo, baixinho no ouvido de cada um.

Ao escutar o som da morte, o patriarca da família acorda. Fascinado com o que acabara de escutar, Dorian pega uma lamparina e sai pelas ruas. A neblina só deixava a noite mais estranha, uma atmosfera sem igual de mistério e medo. Não demorou muito para que o homem ligasse os pontos e fosse correndo até a cratera.


- Que tua bênção esteja comigo sempre, de modo que eu possa fugir de tudo que não for agradável a Deus e evitar, assim, as oportunidades do pecado.


Os irmãos sussurravam de olhos fechados enquanto choravam de pavor. A criatura começou a tocar em Elizabeth, como se não pudesse enxergar. Sentiu seu rosto, sentiu seus ombros, acariciou seus cabelos. Ela estava imóvel.


- Docemente eu te peço que consigas de Deus os favores e graças de que eu tanto necessito nas provas, misérias e aflições da vida.


Dorian estava ofegante. Ele topou no ombro de Jonathan e perguntou o que estava acontecendo, mas o garoto não parava de sussurrar a oração. Ele perguntou se Elizabeth estava com ele, e o menino simplesmente apontou para o buraco.


- Teu coração sempre esteve tão cheio de amor, compaixão e misericórdia aos aflitos ou àqueles com problemas de qualquer tipo.


A besta então abriu a boca da jovem à força, fazendo um sorriso com seus polegares imundos enquanto dava risadas com uma voz extremamente falha. Após um breve silêncio, tudo que se pôde ouvir foi um "amém".


Ah! Look at all the lonely people! – Bram estava escutando Beatles, sempre o fazia após dias difíceis. Com suas mãos fingia tocar um violino enquanto rodava pela casa. Os quartos eram enormes e cheios de tranqueiras das quais eu não tenho a disposição para listar. O jovem escritor prodígio poderia, por um instante, esquecer de que era um jovem escritor prodígio. Ele estava procurando por seus remédios.


Eleanor Rigby


Picks up the rice in the church where a wedding has been Lives in a dream


Aquela noite não era como qualquer outra noite. Fazia frio, a neve estava por toda parte. A fome daqueles que não tinham oportunidades estava pior nesta noite.


Waits at the window


Wearing the face that she keeps in a jar by the door Who is it for?


Lá estava seu frasco, em uma das gavetas velhas. Era comum que seus comprimidos se perdessem pela casa, afinal sua irmã  sempre os pegava numa espécie de checagem.


All the lonely people


Where do they all come from?


Robin Hood é um herói mítico de contos ingleses. Suas façanhas consistiam em roubar dos ricos e distribuir entre os mais necessitados. Aqueles que tem de mais dariam falta de algo que já não lhe serve mais?


All the lonely people Where do they all belong?


Dois comprimidos eram o bastante. A música continua, Bram segue em direção aos seus aposentos, sua cabeça estava cheia de coisas que já não tinham tanta importância. Por outro lado, era possível ouvir passos pelo enorme jardim da mansão. Desajustados, barulhentos... 


- Um presente especial? Que tal esse? Eu comprei na semana passada e estava morta de ansiedade para ver a cara dele ao receber isso... Bram adora máscaras, afinal...


Lenore demonstra em sua face que se recordou de algo que não queria lembrar. Seus olhos perdem o brilho que tinha antes, e por alguns segundos, só restou silêncio. Quem quebrou o gelo foi a garota com quem estava conversando. Era Véspera de Natal e as duas se despediam uma da outra. Um quarto não tão iluminado, com músicas não tão barulhentas e um clima extremamente confortável. Sentadas na cama enquanto falavam sobre o fabuloso presente para Bram.


- Olha, você não precisa de tantos detalhes se não quiser. Tenho certeza de que ele vai adorar o seu presente. Você se esforça muito para fazer o seu irmão feliz... eu poderia dizer que adoraria ter uma irmã para fazer isso por mim, mas estaria sendo ingrata por tudo que você me faz também. – As duas começam a rir, sendo assim, um sorriso sincero se esboça no rosto de Lenore, e um maior ainda em Gardênia, sua namorada. O seu olhar envergonhado não queria aceitar essa felicidade boba, mas ela desmancha sua pose séria e parte para um abraço aconchegante. Era Véspera de Natal.

A família de Idárquia Bram não era muito unida. Este Natal, no entanto, era o primeiro que ambos passariam sozinhos, ou quase. Lenore estava preocupada sobre isso, mas estava feliz de imaginar uma maratona de filmes natalinos horríveis e umas pizzas para curtir a noite, era esse o sombrio destino dos dois.

Confinado em um quarto, passando por maus bocados pelo simples fato de seus comprimidos terem sido trocados, estava Bram. Sua cabeça não parava de girar, seus olhos já não conseguiam enxergar bem o que estava a sua frente. Estava pálido, o suor descia pelo seu rosto. Muito provavelmente, a primeira que Bram ficara tão mal. Sendo assim, ele desceu as escadas para telefonar à sua irmã. Luzes apagadas, um lugar morto e sem muita cor ou enfeites exagerados de natal, não era comum a casa estar tão desarrumada em uma época como esta, no entanto, um ano a menos de decorações não iria matar ninguém. Bram acende as luzes com muito esforço, mal consigo dizer se ele conseguiria discar o número de Lenore. Apoiando-se nas paredes, o jovem vira o corredor e então se depara com uma visão inusitada, seguida de um silêncio ensurdecedor que só foi rompido com os dizeres de uma criança mal vestida:

- E-Eu não quero ferir você, só viemos atrás de... – Assim, a arma na mão do garoto é tomada por um dos mais velhos do grupo, que o retruca chamando-o de lerdo. O jovem menino fica calado, o medo em seus olhos não o deixava fazer nada além de assistir o seu irmão mais velho prosseguir com o trabalho sujo. Teriam eles a coragem de disparar contra Bram? Esse imprevisto poderia facilmente ser resolvido num diálogo, uma conversa natural e nesta ocasião ninguém precisaria chamar a polícia. Mas o romancista não estava em condições de discutir com ninguém, tanto que, após um breve momento, o mesmo teve uma recaída.


- Você não vê que ele não está se sentindo bem? Abaixe a porra da arma!


Disse angustiada uma garota dentre os inquilinos. Ao que parece, se não fosse a mais velha do grupo, era uma delas. Seus cabelos eram bagunçados, e suas roupas velhas, como os demais. Em seu rosto havia um sentimento de culpa e empatia pelo homem que estava caído ali, ela sabia o erro que estava a cometer, no entanto, também sabia que às vezes não temos outras alternativas. Ela caminha lentamente até Bram, sentindo sua febre e avisando aos demais que ele precisa de ajuda.

- Afaste-se dele, Alberta... Dos males de um senhor que desconheço nada me importa. Afaste-se deste rapaz para que eu possa sentir o gostinho de puxar o gatilho... – Mas apesar dos pesares, Alberta continuou com o romancista em seus braços, com um olhar entristecido. O rosto de Bram lhe trazia o conforto de alguém que parecia inofensivo. Ela não sentia medo algum de seu irmão emburrado.

Nos braços daquela jovem, Bram abre seus olhos e se assusta com a cena em que estava inserido. Um menino metido à malandro, com lágrimas de raiva escorrendo pelo seu rosto, apontando uma arma. A raiva não era causada por sua irmã, mas sim por ele mesmo. Estava irritado por ter que se fazer de durão, quando na verdade, estava tão amedrontado quanto qualquer um. Ele se sentia fraco, se sentia errado, se sentia alguém ruim, apesar de que o garoto não passava de uma vítima. Bram se ergue do colo da menina, ainda confuso. O silêncio no corredor só causava mais aflição à Victor, que por sua vez, atirou na direção do romancista, acertando na parede que estava atrás dele.


- Anda logo, porra!



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Gabriel Maki

Creator

O início da conturbada história de Idárquia Bram e Lúcifer.

#Fantasia #sombrio #goth #dark

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