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Gothopia

Episódio 2

Episódio 2

Apr 13, 2021

Os olhos de Alberta ficaram arregalados ao ouvir, com tanta certeza em sua fala, o grito de seu irmão. Sua expressão de desaponto e medo foram traduzidas numa resposta mecânica. A jovem se levantou e puxou Bram pelo braço, correndo até o jardim da casa. As luzes da cidade atormentavam a mente perturbada do escritor, os comprimidos pareciam drogas alucinógenas para ele. Bram pôs as mãos na cabeça e então começou a ficar ofegante. Cada barulho de carro, moto ou até mesmo o som dos irrigadores o causavam desconforto, era uma espécie de pesadelo do qual ele não poderia simplesmente acordar, tudo lhe parecia... ofensivo. Alberta compreendeu o estado do rapaz e então o levou até uma parte isolada do vasto jardim, deixando-o próximo às inúmeras flores que ali eram plantadas. De todos os tipos, por assim dizer. Poderia eu passar horas listando cada tipo, mas temo cansar o leitor.


- Fique calmo... uma hora ou outra, o que quer que tenha de errado com você vai passar. Eu vou entrar lá dentro... ser a irmã mais velha exige algumas responsabilidades e espero conseguir cumprir as minhas. Alguém precisa acalmar os ânimos daqueles meninos amedrontados... e por último, peço-lhe desculpa por tudo isso. Não iremos pegar muito, apenas o que precisamos. Nós não temos outra escolha a não ser essa... – Disse ela.

Ao ser deixado ali, Bram tentou fechar seus olhos e esquecer toda a confusão que acabara de ocorrer, algo que já não sabia mais se era real ou não. A neve caia sobre o mesmo, apesar de agasalhado, o frio era tanto que o forçou a se conter. Abraçando seus joelhos, Bram esperava que tudo aquilo passasse. No outro lado da mansão estaria sua irmã. Era chegada a hora de passar os últimos minutos de natal com o seu velho irmão. Ao menos, deveria ser assim. Entrando pela casa, ela notou o desarrumar das coisas, uma cena bem incomum quando se tratava da casa do romancista. Não demorou muito tempo para que ela ligasse para a polícia, enquanto temia pela situação de seu irmão. Há tempos, Bram havia se levantado diante de tanta perturbação, os sons da rua lhe ameaçavam e o obrigavam a fugir, para onde? Talvez nem ele soubesse. Mas foi o que o rapaz fez, saiu pelas ruas.

Lembram de Elizabeth? A filha mais velha de um dos condes de Vandoma. Se seus olhos pudessem expressar algo, seria um medo profundo. O corpo sem vida estava a sugar, pela boca da garota, seus últimos suspiros de vida. Talvez o nome mais apropriado para isso deva ser "alma", mas chame-a como desejar. O importante é que esta foi uma visão horrível para o conde, e não só para ele como também para seu irmão mais novo. Juntos, os dois rapazes viram o corpo de Elizabeth ficar cada vez mais seco, sem vida, pálido. Seus cabelos, se não embranquecessem de imediato, caiam. Em seu rosto já não havia mais seus belos olhos, apenas buracos. Seus lábios, jovens e bonitos, já não exalavam a mesma beleza. A juventude que lhe fora tomada resultou na ressurreição da criatura sem face, ou melhor dizendo, que costumava não ter uma. O corpo nu, agora jovem e esbelto, estava vivo. Morrer de uma maneira tão unicamente inexplicável na frente de um pai e um irmão certamente não é um bom jeito de se partir, é algo desrespeitoso com a vida. Difícil imaginar algo mais trágico para a dama, acredito.

- Hum... quelle saveur est-ce?  Franceses! Fico feliz em saber que avançaram tanto em tão pouco tempo. – Disse o homem. Seus cabelos longos e de cor inusitada, verde água ou ciano? Esses nomes desnecessariamente específicos.




- Diga-me, meu bom rapaz. – Ao terminar a frase, a expressão do homem mudou. Ele se deu conta de que já tinha as respostas para todas as perguntas que aquele nobre poderia responder. Para sua sorte, Elizabeth era uma entusiasta, adorava saber mais sobre as coisas que lhe encantavam, portanto, sabia de quase tudo que lhe fosse permitido saber. O desconhecido se deu conta de que ao roubar a alma de alguém, adquiria também para si as suas características e conhecimentos, adquiria para si as suas vidas.

- Entendo, não há nada que eu possa fazer. Lamento a morte de sua filha, conde! Era uma garota espetacular, devo admitir. Mas não se preocupe – Dizia ele ao sair da cratera, jogando no chão o corpo de Elizabeth. – Eu irei fazer com que a encontre em breve. Na verdade, todos vocês poderão visitá-la. – O conde ficou confuso com as frases ditas por ele, mas o seu medo o impedia de expressar qualquer coisa que não fosse apavoro. Com "todos vocês", o ser da cratera estava se referindo àqueles que observavam pelas frestas das portas e janelas. Ao abrir seus braços, todas elas foram destrancadas e escancaradas, para que assim ele pudesse os ver bem.

O rapaz que portava uma beleza divina começou a se apossar de todos os corpos que visse pela frente, devorando sua carne, tomando para si suas almas, suas tristezas, alegrias e devaneios. A cidade, em chamas, clamava a Deus por ajuda, pois o Diabo que tanto temiam havia chegado. Com o passar dos anos, não preciso dizer que Vênus, ou como ficou conhecido... Lúcifer,  se apossou de cada vez mais almas. Estava fraco, já não era mais um ser imortal e imponente como antes. A sua maneira de sobreviver assemelhava-se à de um vampiro, tendo que se alimentar gradualmente para continuar existindo.


- Eu não diria que é uma vida vergonhosa. Tenho tudo que preciso ter e as pessoas estão começando a me temer... Sou um Drácula mais bonito que o habitual. – Disse ele enquanto observava seu próprio reflexo no espelho. Os questionamentos eram comuns para Lúcifer. Deus o privou de qualquer sentimento que não fosse ódio ou rancor, no entanto ao roubar almas, ele adquiria também os traços de personalidade de suas vítimas.


- O dia está belíssimo... não devo me perder em pensamentos tão irrelevantes quanto os que tenho agora. Se estou vivendo assim, certamente é culpa de Deus. Eu não posso me cobrar, sou a vítima! Pois assim está decidido. – Almas carregam memórias tristes e bonitas, e com essas memórias estão os sentimentos. A primeira vez foi bem estranha, foi quando ele se deu conta de que poderia sentir. Ao assassinar friamente um casal de camponeses e comer sua carne, Vênus sentiu pela primeira vez, em muito tempo, a empatia. Naquele momento uma luz pairou sobre a mente do demônio. Ele estava começando a ser afetado por aqueles que consumia e isso o fascinou de uma maneira única. Passou a viver dentre os homens, aprendendo com eles e apaixonando-se pelas almas mais bonitas que encontrasse. Lúcifer não deixou de matar, mas ao invés de uma carnificina descontrolada, passou a analisar melhor o seu cardápio. Gênios, muitas vezes compositores, o interessavam mais que tudo. Muitos foram aqueles que, em troca de um talento pecaminoso, deram suas almas para o diabo.


- Violino? Eu devo dizer que aprecio bastante a sua arte. Deixe-me te ajudar... quando acabar, não fará diferença se você toca como um anjo ou como o pior dos demônios, todos irão amar sua melodia como amam a Deus – Disse ele, encarando um rapaz pálido e de longos cabelos encaracolados. - Tenho certeza de que não irá se arrepender, senhor Paganini. - Com um aperto de mãos, a alma do brilhante violinista era agora propriedade do diabo. E foi assim por muito tempo. Lúcifer só procurava os mais talentosos para compor a sua coleção de almas, acreditando que conseguiria de volta a sua própria genialidade caso se apossasse de outras. 


E por onde o diabo vaga atualmente? Difícil saber. O século XXI é relativamente estável quando comparado aos tempos sombrios. Por outro lado, nosso amigo Bram está no mesmo lugar que eu o deixei ao pular de narrativa. A sua cabeça não parava de girar, a dor era imensa e as luzes o deixavam tanto desnorteado quanto assustado, era um pesadelo se tornando realidade. As ruas eram espeças e o frio estava de matar. A noite estava movimentada, a neve era tenebrosa.


- Mas que desgraça, é difícil enxergar... é difícil andar! Eu não sei o que me causou tanto desconforto, mas espero que pare o mais rápido possível. – Eis então que, nas vitrines das lojas, um vulto caminha. Seus cabelos cobrem o seu olhar, suas roupas são escuras e o seu caminhar é quase teatral. Bram repara na anomalia que estava acontecendo ali e então questiona a veracidade do que seus olhos mostravam, como se já não acreditasse em si mesmo.


- Acalme-se, meu bem. Não sou uma mera alucinação, tampouco algum mal-intencionado pregando peças. Sou tão real quanto você. Só espero que tu sejas tão sincero quanto eu.


Ao dizer isso, o vulto estende a mão através do vidro da vitrine. Suas unhas eram grandes, mas ainda sim charmosas. O seu braço era delicado, certamente alguém que não se esforça fisicamente. A voz que ecoou na cabeça de Bram o deixou instigado, era suave e singela, mas também carregava uma dor descomunal. Já havia se passado dois minutos que o romancista estava encarando a mão que fora estendida, era uma cena difícil de se assimilar. O louco pensamento de que através do espelho o barulho da cidade iria cessar, nem que fosse por um instante, ajudou Bram em sua decisão de conhecer o desconhecido. Ele apertou a mão e então entrou pela vitrine.


- Fico feliz que tenha feito sua escolha, iria congelar se ficasse por mais tempo naquela calçada!

Disse o homem de cabelos longos.


Bram olhou ao redor, entusiasmado com que acabara de acontecer. Entrar em uma sala enorme, rústica e chique após passar por uma vitrine de loja? Certamente uma experiência curiosa, mas esse não era o ponto da visita. O anfitrião sentou-se em uma cadeira e então sacou um cigarro, acendendo-o sem nem precisar de um isqueiro. Ele olhou para Bram e então ajeitou o cabelo, revelando seu rosto.


- Eu sou um grande admirador das suas obras. Sabe, eu também já fui um escritor! Bom, não só um escritor... também pintor e escultor, eu já fui muitas coisas... É divertido, não é? Por as suas sensações no que você cria, causar catarse em quem quisermos. Para mim, essa é a melhor coisa do mundo. Poder criar coisas bonitas. – O homem esbelto levantou e começou a caminhar em direção a Bram, jogando fora o seu cigarro no caminho. O romancista estava calado há um bom tempo. Suas dores de cabeça haviam passado como um truque de mágica, ele estava confuso.

- Lucy. Esse é meu nome. – O homem estendeu a mão, mas Bram nem se mexeu. O diabo olhou com uma cara emburrada e então suspirou. – Talvez esteja sendo muito rápido para você, eu imagino. Receio que a história que você queira saber seja a que eu menos gosto de relembrar. Mas discutir isso de nada vai nos ajudar agora. Eu estive observando você ultimamente. Não me refiro somente aos seus livros, apesar de serem todos excepcionais. Observei sua vida, seus costumes e seus gestos. O senhor detém uma das coisas que eu mais aprecio, a genialidade. Eu já pude ver muitas pessoas brilhantes de perto, alguns mais educados que os outros, mas todos extremamente fascinantes. – Bram se afastou um pouco e encarou o rapaz.


- Lucy? Eu já tenho problemas demais em minha mente, não necessito, portanto, de outro para me aborrecer. Deves pensar que sou um tolo qualquer, alguém que certamente não o conhece bem. Mas eu conheço. Muitos foram os relatos que li sobre suas aparições, um homem benevolente que de bom grado dá luxúria e riqueza àqueles que o pedem! Tamanha baboseira. Para mim, não passa de um farsante que se aproveita dos fracos de mente para roubar-lhes a alma com falsas promessas. No entanto, se já estou aqui, receio que não há nada que eu possa fazer...


Os dois estavam frente a frente, Bram expressava uma enorme insegurança e o seu suor era gélido. Apesar de se forçar ao ceticismo, suas crenças eram fortes e agora mais do que nunca. Ele estava com medo e com raiva. A lareira não parava de queimar, as brasas do fogo dançavam pelo ar. A paisagem da janela daquele cômodo não era de neve, mas sim de chuva. Uma chuva forte acompanhada de trovões. A ventania sacudia todas as árvores e todas as folhas, era uma noite peculiar. Lúcifer começou a rir enquanto se aproximava do romancista, seus olhos expressavam uma admiração pela coragem do rapaz. Ele estava certo, afinal. Era de conhecimento dos dois que Bram não sairia dali com vida, e se por algum acaso saísse, não seria a mesma coisa.


- Não gosta de adiar o inevitável, Bram. Devo parabenizá-lo por isso. Geralmente me respondem com "Oh, por que?", "Socorro, alguém me ajude!" ou "Deus, que porra é essa?". – Lúcifer gargalhou ao dizer essas frases. Ele estava apaixonado, mas não por Bram, e sim por sua aura. Uma paixão obsessiva, um tipo de interesse que sempre lhe surge em determinado momento do século. – É uma pena que eu não possa simplesmente pegar para mim... Quem faz muita bagunça geralmente toma bronca, não é? – Além de não poder roubar como antes, Lúcifer só poderia se materializar por completos em lugares que ligassem o céu, a terra e o inferno. Templos, igrejas... ele estava acorrentado a isso. A casa rústica em que se encontravam, na verdade, era uma catedral reformada por ele. O mais próximo de uma casa que ele poderia ter.


- Eu adoraria pegar para mim uma essência tão bela quanto a sua! Mas infelizmente preciso seguir regras. Matar não é uma opção, ele disse. – Lúcifer se aproximou de Bram, que estava imóvel. – Mas sempre existem exceções. Observe, eu sou um coletor de almas, tenho para mim todas as que eu já cheguei a admirar, no entanto, não posso matar. Como as consegui? Não vai dizer que acha que eu esperei até que todos batessem as botas por causas naturais...não. Eu proponho jogos. Infernos pessoais, por assim dizer. É um nome elegante. Bom, todos temos nossos próprios infernos, camadas e camadas dentro do nosso subconsciente. Eu só preciso extrair as informações que necessito e trazê-las à tona, um belo espetáculo! Quem eu quero, morre. E eu nem preciso matar! Mas você... não preciso estudar você... Eu já sou um grande fã, afinal. Por isso, criei algo que deve ser considerado uma de minhas obras primas!


Lúcifer agarrou o rosto de Bram e o encarou fundo. Seus olhos vermelhos e brilhosos observaram o fundo do abismo da alma do escritor e então ele estava desacordado. A fenomenal criação do diabo era um dos infernos mais extraordinários, e certamente atrairia o interesse do romancista. Um lugar sombrio e macabro baseado nos contos do próprio Bram, com monstros aterrorizantes e paisagens fascinantes. O escritor de fantasia gótica seria jogado em uma outra realidade, agora baseada em seus próprios livros.


- Quando finalmente morrer dentro de sua própria criação, eu enfim poderei tomar sua alma para mim. Aproveite o show de horrores, Bram. – E lá se foi o romancista, atravessando mais um portal de vidro. Num passe de mágica, suas memórias acerca dos livros foram apagadas. O que lhe reserva o vasto mundo sombrio? O espetáculo seria um enorme agrado para o diabo.


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Gabriel Maki

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Alguém saiu da cratera.

#goth #Fantasia #sombrio #romance

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