A rua estava tranquila. “Tranquila” nas normas daquele horário. As lojas funcionavam como sempre, os carros passavam pelo asfalto, competindo espaço com os ônibus e com as motocicletas. Os pedestres caminhavam pelas calçadas e atravessavam a rua, tudo funcionando como sempre. Até o momento em que um forte vento acertou a vitrine de uma joalheria ali perto. Os vidros se estilhaçaram chamando a atenção de todos que passavam perto.
Assim que os civis olharam para o céu, notaram duas pessoas flutuando como plumas ao vento e, levemente, pousando. Se tratava de um rapaz e uma moça, ambos usavam “uniformes” semelhantes. Uma malha preta por baixo de um macacão jardineira branca. O uniforme do garoto tinha detalhes em vermelho, o da garota detalhes em azul-claro, quase um azul bebê. Ambos usavam máscaras para ocultar suas identidades. Eles tinham cabelos loiros, o do rapaz arrepiado para cima e o da garota preso em um rabo de cavalo.
Estavam de mãos dadas quando pousaram no chão.
— Parece que vai ser fácil, La Niña. — disse o rapaz com a jardineira em detalhes vermelhos.
— Vai ser fácil, ninguém vai poder nos parar, El Niño. — falou a jovem com o uniforme em detalhes azuis.
Ainda de mãos dadas o casal levantou suas mãos que estavam livres e uma corrente de ar girou ao redor daqueles punhos. Aconteceu uma inversão, ao invés do vento gerado pelos dois repelir as joias da joalheria que se encontravam na vitrine quebrada, as mesmas foram levadas até eles e guardadas em um saco feito de tecido. Os funcionários da loja procuraram ficar seguros enquanto o assalto acontecia, o gerante apertou o botão vermelho, escondido no balcão de atendimento, que acionava o sistema de segurança silencioso. Os civis da rua também se afastaram por segurança.
Um disparo roxo acertou as costas de El Niño, mas ele e a sua parceira já haviam roubado o suficiente de coisas valiosas para eles. Ambos se viraram rapidamente porque sabiam quem poderia ser, entretanto queriam ver com seus próprios olhos. Viram o Anjo Noturno pousando com suas asas abertas, as grandiosas asas negras nem tocaram o asfalto quando o heroico adolescente fez o clássico pouso de super-herói. Seu joelho e o seu punho, o do lado contrário, tocando o chão.
— Era quem a gente estava esperando! — os dois super-assaltantes falaram ao mesmo tempo.
— Isso vai ser divertido, faz tempo que eu não enfrento um super-vilão. Ainda mais dois ao mesmo tempo… Aliás, quais são seus nomes mesmo? Tipo, seus codinomes? — questionou o Anjo Noturno.
— Eu sou El Niño. — respondeu o garoto.
— Eu me chamo La Niña! — respondeu a garota.
— É xenofobia se eu perguntar se vocês são mexicanos? — perguntou o herói os observando.
La Ninã solta a mão do seu irmão e em seguida mirou suas duas mãos para o Anjo Noturno, ela liberou uma forte rachada de vento gelado na direção do garoto. Não teve tempo do nosso super-herói pensar no seu escudo de defesa, ele apenas colocou seus braços formando um “X” em frente ao seu rosto. Ainda assim, ele sentia aquele vento gelado bater contra a sua bochecha, queimando levemente sua pele e atravessando seu tradicional traje.
— Agora eu sei porque seu nome é a La Niña, nossa… Como valeu a pena prestar atenção nas aulas de geografia e no noticiário! — disse Miguel enquanto tentava pensar no que fazer para se safar daquele ataque.
Então, El Niño fez a mesma movimentação que a sua parceira realizou e dos seus punhos saiu um forte jato de ar quente, um ar muito quente que quando se chocou com o ar gelado criou uma espécie de minitufão. Essa pequena explosão de ar fez com que o Anjo Noturno fosse jogado contra a vitrine da loja da frente, quebrando o vidro quando o adolescente derrubou os manequins que vestiam algumas peças.
— Essa foi muito fácil! — disse La Niña sorrindo.
— Não tão rápido… — a voz machucada do Anjo Noturno saiu de dentro da loja, logo ele saiu voando pelo mesmo lugar em que foi jogado, em seus punhos se podia ver a energia roxa carregada novamente. Começou a disparar contra os assaltantes.
Como se fossem leves iguais pétalas de flores, o rapaz e garota se esquivaram das esferas de energia do herói, mas rapidamente o Anjo Noturno mudou seu alvo e conseguiu atingir uma de suas esferas em El Niño que quase caiu no chão. Nesse momento, os irmãos estavam flutuando no chão. Miguel olhou ao seu redor, era uma rua pequena com muitos civis assistindo e muitos prédios, ele não podia continuar jogando suas esferas de energia de graça se não quebraria mais coisas.
— O que eu faço… — pensou o nosso super-herói.
El Niño e La Niña deram suas mãos novamente, dessa flutuaram mais para cima sem perder o Anjo Noturno de vista, então, levantaram suas mãos livres para o céu e em cima do anjo surgiu um redomoinho que descia em uma velocidade incrível para atingi-lo. O Anjo Noturno pensou que seria atingido por aquele ataque, entretanto, de repente, uma corrente de chamas passou atravessando o tal redemoinho e dissipando toda aquela ventania para longe.
— Mas o que foi isso? — se perguntou, em voz alta, La Ninã.
Os três envolvidos olharam para trás, viram O Bruxo descer do alto de um prédio e pousar ao lado do Anjo Noturno. Miguel ficou apenas olhando para o outro super-herói, sem compreender totalmente o que se passava.
— Você precisa de ajuda? — perguntou O Bruxo sem olhar diretamente para o outro.
— Não… — o Anjo Noturno virou seu rosto de uma forma infantil e mimada. — O que você tá fazendo aqui?
— Um passarinho verde me disse que você precisava de ajuda.
— Que mentira!
— Vamos sair daqui irmã, já conseguimos o que queríamos… — comentou El Niño. Então, o saco de joias roubadas voltaram para as mãos dele.
— Vamos, irmão! — disse a garota.
Em seguida um pequeno redemoinho se formou ao redor deles, a ventania era tanta que tampou os dois da visão de todos e quando desapareceu, os super ladrões não estavam mais ali.
— Que droga! Eles fugiram por sua causa! — disse o Anjo Noturno voltando a encarar O Bruxo.
Por sua vez, Maurício apenas encarou o outro mais jovem e negou com sua cabeça e disse:
— Eu vim te ajudar, pode parar de agir assim?
— Me ajudar? Da última vez que nos vimos, você não queria ajuda… — respondeu Miguel refrescando a memória do rapaz a sua frente. — Por que agora você quer me ajudar?
— Porque eu pensei no que você me disse e, realmente, é melhor a gente se entender. Eu estou em uma missão, estou pronto para aceitar que vou precisar da tua ajuda.
O Anjo Noturno levou seu olhar dos pés do O Bruxo até o topo da sua cabeça, seu corpo dizia que ele não deveria confiar naquele rapaz, entretanto, seu coração e a sua cabeça diziam outra coisa. Então, após coçar a sua cabeça, Miguel cruzou seus braços e começou a falar:
— Vamos ir para um lugar onde podemos conversar e você me diz sobre essa sua missão de uma forma mais explicativa, certo?
— Claro, você vai na frente e eu te sigo. — respondeu O Bruxo concordando.
As asas negras surgiram em uma pequena explosão de pó roxo brilhoso. Sem demorar muito, Anjo Noturno saiu sobrevoando por Porto Alegre. Usando a sua magia do fogo, O Bruxo foi atrás dele, sempre mantendo uma distância segura para não causar nenhum acidente entre eles.
…
Pousaram no topo do Morro Santana, um pouco perto da erosão que havia no mesmo, os dois super-heróis estavam a parte em que havia mais grama do morro, quem estivesse ali com eles poderiam presenciar uma visão ampla da cidade de Porto Alegre como se estivessem observando o cotidiano humano do paraíso. Conseguia se ver daquela altura os prédios residências e as casas populares do bairro. Ao mesmo tempo que tudo estava tão perto, também estava tão longe.
— Me trouxe até aqui para a gente a conversar? — perguntou O Bruxo observando com curiosidade o outro enquanto o mesmo desfazia suas asas.
— Sim. Na verdade, pensei em te levar para o meu QG, mas eu acho que é muito cedo para isso. — respondeu o Anjo Noturno apertando seus lábios e erguendo suas sobrancelhas, então, relaxou e continuou falando. — Se vamos… Cooperar um com o outro, quero e preciso saber mais sobre essa sua missão aí, então, vai me contar?
— Eu acho que preciso contar, não é mesmo… — respondeu Maurício sorrindo sem jeito. — Eu sou um bruxo… Um wicca se você preferir, sou da cadeia elemental. Isso quer dizer que meus poderes são frutos da minha ligação com a natureza, existem outros tipos de magia. Magia química, magia do tempo, magia cósmica… E eu faço parte de um coven. Recentemente um livro muito poderoso de magia foi roubado e segui o ladrão até aqui, é o “Livro Proibido dos Elementos Mágicos” nele contém rituais, escrituras e magias envolvendo os cinco elementos da vida que podem trazer o desiquilíbrio à natureza.
Miguel ficou em silêncio, absorvendo todas as informações dadas pelo herói recém-chegado.
— A coisa parece séria mesmo, mas por que você mudou de ideia? Em relação a gente cooperar um com o outro?
— Porque… Uma das minhas irmãs de coven me disse, na verdade ela me deu uma bronca, dizendo que qualquer ajuda seria bem-vinda.
— Entendi. E todos do seu coven são… Super-heróis? Tipo, é como se vocês fossem X-Men? — perguntou o Anjo Noturno em um tom profundo de curiosidade presente em sua voz.
Antes de responder, O Bruxo riu da pergunta. Coçou o seu nariz, baixou suas mãos colocando as mesmas na sua cintura, ajeitando o cinto que usava ali. Com um sorriso torto e arqueando sua sobrancelha direita, encarou Anjo Noturno. Respondeu:
— Na verdade... Apenas eu faço isso.
— Entendi. — respondeu Miguel, se aproximou de Maurício e levou sua mão direita até ele. Sorriu. — Então, vamos ser parceiros?
Maurício olhou para a mão do jovem, então, apertou a mesma com sua mão esquerda e também sorriu.
— Parceiros. Por enquanto.
Ambos sorriram.
CONTINUA…
No próximo capítulo…
COOPERAÇÃO!

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