Mesmo do céu, já dava para ver ao longe uma movimentação estranha em um campo aberto longe de qualquer residência civil daquela região da cidade. Eles estavam quase fora de Porto Alegre, deve ser por isso que chamavam de limites da cidade. Dali do alto, carregado pelo Anjo Noturno, O Bruxo conseguia ver uma grande fogueira queimado e por causa da luz desse fogo, também via alguém usando um sobretudo azul com uma capa. Quando essa pessoa se virou, percebeu que segurava um livro. Era muita coincidência, com certeza era aquele que procuravam.
— Vamos descer, mas com cuidado. — disse O Bruxo olhando para cima, onde estava o rosto do herói de asas negras.
Anjo Noturno olhou de volta, não disse nada, apenas concordou com sua cabeça e em seguida se inclinou com suas asas, descendo para uma região ali perto. Os dois pousaram com delicadeza no chão, ficaram escondidos entre as árvores que cercavam aquele campo aberto.
— O que vamos fazer? — sussurrou Anjo Noturno ao seu colega super-herói.
— Eu não posso repetir o erro que cometi ontem… — comentou O Bruxo em um tom pensativo.
— Ainda bem que você sabe. — disse o anjo rapidamente.
O Bruxo ficou em silêncio por alguns segundos depois de escutar o outro, então, voltou a falar:
— Parece que ele está começando um ritual… A fogueira, o sobretudo… Ele está preparando terreno para alguma coisa, mas eu não sei o que é. — comentou o garoto wicca voltando a observar o feiticeiro do outro lado.
— Então, ele vai fazer um ritual do livro que roubou do seu coven. — concluiu Anjo Noturno olhando para o mesmo ponto. — Não consegue pensar em qual?
— Não. O “Livro dos Elementos Mágicos” é um livro que foi proibido entre feiticeiros e bruxos pela comunidade mágica. Ele tem muitos rituais e feitiços que hoje em dia são considerados crimes por interferirem no livre-arbítrio da natureza do ser humano, entre, poder alterar realidades e mudar consequências.
— Livre-arbítrio não é um conceito meio polêmico? — perguntou Anjo Noturno pensando sobre o assunto.
— Você entendeu o que eu quis dizer. — sussurrou O Bruxo de volta. — Se ele for fazer algum ritual, temos que parar antes de começar de fato, por enquanto ele está no preparo. Para a comunidade mágica, ele está prestes a cometer um crime!
Os dois super-heróis sentiram algo se aproximando por trás, quando olharam rapidamente viram duas criaturas feitas de raízes de árvores e resto de pedras se aproximando. Não tiveram muito tempo para pensar, pois quando raciocinaram o que acontecia e se mexeram para se defenderem, grossas raízes brotaram do chão e os deixaram presos como se eles tivessem sido pegos por uma sucuri.
As criaturas que criaram as raízes levaram os dois heróis para perto do feiticeiro que havia roubado o tal livro proibido, ele estava esperando como soubesse que a dupla já estivesse ali.
— Sabiam que esse livro também contém um feitiço de espionagem? Muito útil… — disse o rapaz rindo. Ele tinha uma voz rouca e desgastada, quando tirou o seu capuz, Anjo Noturno viu a sua cara pela primeira vez. Era um garoto que aparentemente tinha um pouco mais de idade do que ele, cabelo avermelhado e pele branca, um olhar escuro e agressivo. — Você eu conheço, o super-herói local, o Anjo Noturno. Eu realmente esperava que em algum momento você fosse interferir por sempre meter seu nariz onde não é chamado! Mas você… — apontou para O Bruxo. — Eu sinto que te conheço, mas não lembro de onde…
— Você roubou esse livro do meu coven! — gritou O Bruxo tentando se soltar da prisão de raízes, mas sem sucesso.
O feiticeiro apenas riu, reconhecendo aquela voz.
— Claro! Maurício! Eu deveria ter pensado que você viria atrás de mim! — disse o garoto ainda rindo. — Ah, me desculpe Anjo Noturno. Não me apresentei, eu me chamo Isaac, mas como hoje todos estão usando seus codinomes… — fez uma pausa enquanto pensava no seu. — Podem me chamar de Wiccano. — sorriu e ficou de costas.
— Eu não vou te chamar assim… Não quero ser processado pela Disney… — comentou Anjo Noturno.
— Cala a boca! — exclamou o jovem feiticeiro de costas para os dois. — Eu vou começar…
— Droga… — sussurrou O Bruxo ainda tentando se soltar. — Você não vai fazer nada? — perguntou com um sussurro agressivo direcionado ao Anjo Noturno.
Quando Isaac soltou o livro, ele flutuou no ar em uma altura da qual ele poderia ler. Então, começou a cantar aquelas palavras em latim antigo ao mesmo tempo em que os dois super-heróis tentavam se soltar da prisão de raízes.
Anjo Noturno carregou seu corpo com sua energia roxa, concentrando a mesma como um escudo e em seguida expandindo ela, criando assim, uma espécie de lâmina energética que cortava aquelas raízes.
Isaac continuou cantando seu ritual. A chama da fogueira ficou mais forte, então, os heróis viram no chão runas brilharem, haviam sido desenhadas na terra e por causa da noite não as viram antes. Quando percebeu as runas, Anjo Noturno perdeu um pouco da sua concentração.
— Vai! — sussurrou O Bruxo para Miguel.
— Ah desculpa… — Miguel fechou seus olhos e voltou a concentrar seus poderes, criando o que havia feita antes novamente.
No mesmo instante de segundos em que Anjo Noturno conseguiu rasgar as raízes que o prendiam, Isaac conjurou a última frase do ritual e a chama da fogueira mudou de cor. Ficou rosa e em seguida levitou, deixando a madeira queimada ali, como se o próprio fogo tivesse sido apagado.
Isaac sorriu e comemorou assistindo aquilo. Anjo Noturno ficou confuso.
— MERDA! — gritou O Bruxo.
Aquele fogo cor-de-rosa girou no ar como se fosse moldável criando uma espécie de câmara. Os três que estavam ali assistiram a sombra de um corpo aparecer dentro daquela câmara esférica. Então, as chamas explodiram em uma espécie de microsupernova cor-de-rosa.
Depois que o clarão passou, viram uma mulher flutuar no local onde antes se encontrava o fogo rosado. Era uma mulher preta, vestia um tradicional vestido longo do século XIX, um vestido de alguém que somente com muito dinheiro naquele tempo poderia ter. Ela tinha seus cabelos cacheado e escuro preso em várias esferas que formavam uma espécie de trança. Ela tinha um olhar penetrante, olhos esverdeados e um sorriso malicioso enquanto observava Isaac, Anjo Noturno e O Bruxo.
— Quem é ela? — se perguntou Anjo Noturno com sua testa franzida.
Isaac se ajoelhou em frente aquela mulher que continuava flutuando, em seguida disse se atrever a olhar para ela.
— Bem-vinda de novo a vida, Madame Francesca.
A mulher sorriu para o rapaz e seus olhos emitiram um forte brilho cor-de-rosa puxado para um tom mais escuro daquela mesma cor. Esse mesmo brilho apareceu ao redor do seu corpo e em seguida foi formando algo por cima do vestido que usava, mas logo também começou a ser engolido pela luz e se transformar em algo diferente. Ela ganhou um sobretudo no mesmo tom escuro da cor rosada. Por baixo do capuz apareceu um vestido mais simples e mais opaco. Seus cabelos se soltaram e ficaram livres com o volume natural, indo até sua cintura. Por fim, na sua cabeça apareceu um chapéu de mago na mesma coloração do sobretudo.
— Então, Isaac… Quanto tempo se passou? — perguntou Francesca em um tom jocoso, sua voz era grave e poderosa.
CONTINUA…
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NO PRÓXIMO CAPÍTULO…
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A FEITICEIRA DESPERTA…

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