Já era noite de sexta-feira e Caio ainda se recusava a falar com Dominique, que decidiu não insistir muito enquanto procurava por respostas, ele realmente não conseguiu descobrir muito e nem achar a Eleonora sem o curso dela. Agora ele já estava na cama pensando em tudo que aconteceu e em todas coisas não deram certo, como, a declaração ter sido um desastre e desencadeado algumas reações inesperadas, ou a Paolo não ter descoberto o curso ainda, e que ele estava cada vez mais triste com essa situação. Ele sabia que o Caio estava em uma relação com alguém antes e que as coisas acabaram de uma maneira desastrosa, mas ele não sabia que seu amigo tinha criado essa repulsa por relacionamentos, mesmo que pensando ele lembrou de umas pessoas que ele tinha se afastado sem um motivo aparente nos últimos dois anos desde que se tornaram próximos.
O sábado passou monótono, porém esse seria um dia para estar com Caio, conversarem, ficarem juntos e fazer qualquer procrastinação da faculdade que eles quisessem. Estar assim sozinho na sua casa parecia de alguma forma errado, talvez ele devesse ter procurado saber mais sobre o que o amigo passou antes de se declarar, mas também ele não tinha ideia de que algo assim podia acontecer. No final do dia ele recebeu uma mensagem da Paola, ela disse que demorou principalmente por ter esquecido, mas que conseguiu descobrir que a Eleonora estava no curso de teatro e que entrou no mesmo ano que o Caio. Com isso ele finalmente tinha algo mais solido para procurar respostas.
No domingo acordou mais disposto, apesar de ainda estar meio para baixo. Passou o dia pesquisando horários dos veteranos de teatro na página do curso e conseguiu descobrir onde deveria poder conseguir respostas. Agora ele de repente se pôs animado, tudo iria melhorar logo, realmente uma onda de positividade inundou seu ser e parecia que tudo ia se resolver.
Logo na manhã de segunda Dominique começou sua procura por Eleonora na universidade, porém não foi tão complicado achar ela, já que sabia de qual curso ela era, mesmo assim algo inesperado estava por surgir dessa conversa e poderá frustrar sua positividade. Ficou de fora de uma sala, que supôs que a Eleonora estava matriculada, esperando a aula acabar e quando foi finalizada, ele criou um momento de coragem para chegar na frente da turma, incrivelmente grande para uma turma de último ano, e falar.
– Olá, gente. Queria saber se a Eleonora está fazendo essa disciplina. – Disse na frente de todos, ficando extremamente envergonhado. Ele estava descobrindo um novo nível de timidez que preferia nunca ter testado.
Após seu momento de coragem, uma garota loira de cabelos compridos se levantou, então começou a arrumar suas coisas se preparando para sair da sala enquanto falava.
– Eu sou a Eleonora. O que você quer comigo? – Perguntou a garota de forma rude, alguns alunos da sala mostraram interesse nesse diálogo, o que só deixava Dominique mais tímido, mas apesar do interesse a turma ficou quieto, pelo menos a maior parte.
– Quero conversar com você sobre um amigo em comum. Mas podemos conversar em particular? – Ele se aproximou dela e respondeu baixinho, mas todo nervoso, sem saber como agir na frente de tantos alunos, uma sala com pelo menos trinta alunos que pareciam curioso da vida alheia naquele momento.
– Vamos nessa então, tenho que passar na biblioteca. – Disse Eleonora saindo da sala, ela parece exalar raiva do simples fato de ter que interagir com alguém, isso parecia intensificado por ser alguém desconhecido. – Mas vai ter que me acompanhar, não pretendo parar o que tenho que fazer.
Após essa situação Dominique pensava em como faria Caio pagar por forçar ele a passar por isso apenas para obter respostas, que deveriam ser o básico que ele conseguiria em diálogos, mas ao mesmo tempo ele começou a pensar que talvez tivesse algum problema de medo de palco e que estaria encrencado em futuras apresentações em congressos e eventos, e caramba, ele ainda não tinha horas complementares suficientes, então isso seria uma realidade logo.
Ele seguiu a Eleonora em silêncio durante um tempo, parte porque pensava no que dizer e parte porque esperava chegar em algum lugar para discutirem sentados, até que na metade do caminho para a biblioteca ela parou e olhou fixamente para ele com uma cara zangada, franzindo as sobrancelhas.
– Você tá esperando um convite pro chá, é? Acha que vamos parar e conversar com calma? Só diz logo o que quer, que eu estou muito ocupada e ainda nem são dez horas da manhã. – Falou da forma mais rude que conseguiu aparentemente, parecia estar curtindo descontar alguma irritação sobre algum estranho.
– Certo... – Disse Dominique continuando a seguir ela, que havia voltado a andar em direção a biblioteca, ele estava tão interessado na informação, que nem se importou com o tom rude dela. – Queria saber se você era próxima do Caio? – Após Dominique dizer isso ela parou repentinamente e ele surpreso quase não parou rápido o suficiente, evitando por pouco trombar nela, então recuou um pouco e a observou um instante antes dela começar a falar.
– Que que tem aquele estrume? – Questionou Eleonora com um olhar furioso, parecendo que sua irritação, aparentemente matutina, se transformou em puro ódio.
– Ou, ou, ou. Olha o jeito que fala do meu amigo. – Disse Dominique agora bravo com a forma como ela se referiu a Caio. – Não me importo com seu jeito rude já que estou procurando você do nada, mas não fale assim do Caio.
– Ele te descartou junto com sua amizade assim que você começou a namorar? E não de qualquer forma, ele usou as palavras mais duras que conseguiu, certo? – Indagou ela com uma expressão presunçosa, parecendo saber o que tinha acontecido. A proximidade da fala dela com a realidade o deixou pasmo por um segundo antes de falar.
– Como você... não foi bem assim, eu só me declarei pra ele e... – Disse Dominique triste não conseguindo terminar a fala rapidamente, então ela aproveitou o momento para lhe interromper.
– Uou. Isso deve ter sido bem doloroso então. Parabéns, você se apaixonou por uma pedra. – Disse Eleonora irritada, mas com um sorriso divertido, como se a situação fosse apenas uma piada.
– Do que você tá falando? Você... ah, eu não devia ter vindo aqui para começar. – Dominique comentou, quando pareceu se encaixar, ela não é simplesmente uma amiga dele, foi dela que ele desabafou. Ele virou as costas e começando a sair de lá, quando de repente ela segura seu ombro para chamar sua atenção.
– Eu não sei se você já sabe, mas ele é um psicopata, então suas chances com ele são tipo... zero. – Contou Eleonora. – Seu cupido tem uma bosta de mira, em.
– Do que você tá falando? De onde diabos você tá tirando essa merda? – Perguntou ele incrédulo pela forma que a garota falava de seu amigo. Se essa foi realmente sua última namorada (talvez única?), então fazia muito sentido a forma que ele reagiu, essa garota falava dele como se ele não fosse o cara o mais doce e gentil que ele já conheceu.
– Você não sabe, ele mesmo me disse que era um psicopata ou algo assim, são basicamente pedras incapazes de amar e ele é uma. Mas ele em específico é um tipo estranho, fica amigo de alguém até essa pessoa se apaixonar, então ele abandona esses amigos. Foi assim comigo e tá sendo assim com você. – Disse ela de maneira fria parecendo ressentida. – Só queria ter descoberto isso antes deu namorar aquela coisa, mas não pensei que quando nossos amigos foram embora era culpa deles, mas depois descobri que o Caio era o responsável, tarde demais eu diria.
– Então ele não correspondeu meus sentimentos por que não se apaixona por ninguém? – Perguntou confuso mais para si mesmo do que para essa garota que já gastou cada cota de paciência que ele tinha no momento, ao mesmo tempo, ele começou um pequeno sorriso com a esperança de reverter a situação.
– Parabéns, alecrim. Você finalmente tá nascendo no campo que não foi semeado com inteligência. – Disse ela de forma agressiva, parecia que essa conversa despertou todo o ódio que estava adormecido dentro dela. – Não importa quem fosse, não iria conquistar ele, um psicopata, incapaz de sentir, ele pode ter usado outras palavras, mas foi mera desculpas ao vento, porque eu já não aguentava mais aquela relação.
– Sabe, eu entendo por que ele fez isso com você. – Disse Dominique internamente explodindo de raiva ao lembrar não só que ela estava aqui, mas também o que ele contou dela, mesmo assim deixou seu exterior o ambiente mais calmo e controlado possível. – Com uma amiga como tu, também preferiria ficar só.
Após isso Dominique foi embora estressado com aquela garota, parecia que ela estava despertando uma raiva que a muito ele não sentia. Mas agora ele estava mais perdido do que nunca, mesmo que com essa nova informação fosse ajudar e, também, agora pensava na possibilidade que seu amigo nunca iria corresponder seus sentimentos. Então ele lembrou que a irmã de Caio, Paola, estava na cidade e decidiu conversar com ela, ele realmente ficou feliz de ter mandado mensagem para ela recentemente.
Essa segunda, que naturalmente já não é tão boa, passou incrivelmente lenta, fazendo-o desejar faltar a maioria das aulas, principalmente pela dor de cabeça que surgiu da conversa com aquela garota. Durante a noite, naquele dia, ele pesquisou mais sobre o que ela tinha falado, não se apaixonar, isso era algo que ele nunca sequer teria sonhado ser possível. Ele sempre foi um romântico incorrigível, apesar de seus começos sempre serem diretos, preferindo saber se reciproco antes de preparar qualquer coisa extravagante. Foi uma pena ser rejeitado, ele já tinha preparado toda uma onda romântica para um primeiro encontro oficial, mesmo que não se importe muito com isso, ser direto é a defesa dele para superar rejeições e preservar amizades, ele valoriza muito ser sincero com quem ele gosta.
Entretanto, ele descobriu que existe um grupo de pessoas que não se apaixonavam, eles falavam sobre formas de atração, que essa no caso, era a atração romântica. Em especifico, a ausência de atração, por isso que, em geral, essas pessoas não queriam namorar e não se apaixonavam, mas isso só o deixou mais bravo com a Eleonora por descrever ele de forma tão cruel, mesmo nada levando a crer que ela estivesse falando a verdade.
Depois de muita pesquisa ele decidiu ir dormir, porém ainda pensando sobre o que pode ter acontecido nessa relação, Eleonora pareceu alguém terrível, falou de forma incrivelmente pejorativa, além de que, algumas das falas foram bem genéricas e preconceituosas pelo que ele achou online. Mas mesmo apesar de tudo que aconteceu, ele ainda conseguiu ter um respingo de felicidade, pensando que tudo ficaria bem, melhor que bem, pois ele estava conhecendo mais de seu amigo, mesmo que se isso fosse de fato confirmado, ele nunca teria uma chance com o Caio, só que isso não importa até que as coisas voltem ao normal.

Comments (0)
See all