Breno permaneceu em silêncio. Ele confiava nos pais, mas era só que tudo parecia super irreal e abstrato naquele momento e ele nem sabia como descrever o que estava acontecendo.
― Você quer conversar sobre a festa? – Nando tentou. ― Por que você sabe, eu realmente não tenho que gastar minha tarde de sábado escrevendo essa crítica para o meu blog quando meu filho me oferece uma boa história para ser contada. Eu também adoro analisar a mente de pessoas confusas, foi como eu conheci seu pai.
― Eu estou bem. – Breno disse tentando não ter que pensar nisso de novo. ― Cadê o papai?
― Foi pegar uma xícara de açúcar na casa da sua tia Camila. Ele quer fazer um bolo.
― Bolo? – Breno perguntou. ― Hoje é alguma data super importante que exige bolo?
Nando começou a digitar algo no notebook como se fosse urgente, como se a resposta para a pergunta do filho fosse óbvia, e meio que era, Anderson gostava de inventar comemorações só pelo prazer de ver a casa cheia e barulhenta, então Breno deu alguns goles no chocolate e ficou esperando o pai terminar de escrever para continuarem sua conversa sobre nada.
Mas Nando estava demorando.
― Pai? – Breno chamou. ― Por que o papai vai fazer um bolo? Não é mais fácil comprar? Todo fim de semana já tem alguma festa mesmo, ninguém vai se importar se o bolo for comprado.
Nando digitou por mais alguns segundos antes de levantar a cabeça um pouco distraído.
― Não é para hoje, seu pai decidiu que a gente começaria a organizar a festa de aniversário do nosso casamento.
Breno achou estranho.
― E por quê? Não é só em dezembro ou algo assim?
― É em setembro.
― Mas já estamos em novembro, até o meu aniversário está mais perto.
― Eu sei, eu sei. – Nando finalmente o olhou no olho por mais que alguns segundos. ― Mas esse ano foi nosso aniversário de 10 anos e não conseguimos fazer uma festa por conta de toda a questão com do seu avô Robson, então eu dei uma ideia algumas semanas atrás para fazer uma festa antes do mês acabar, para compensar o cancelamento de setembro.
― E vai ser onde?
― Na chácara da nossa família, acho que você já foi lá, mas ainda era muito pequeno, fica quase no limite de Docas do Sul, perto de um hotel bem famoso da cidade.
― E o bolo não pode ser encomendado? Isso não seria melhor? – Breno sugeriu.
Nando suspirou cansado. Mas também quase divertido.
― Você conhece seu pai, ele se empolga demais com festas de família, eu não sou tão diferente, mas você sabe... Ele se empolga demais, decidiu que o bolo tem que ser feito pelas mãos dele para demonstrar todo o amor que sente por mim.
Breno bebeu mais de seu chocolate e comeu mais um biscoito salgado.
― A tia Gina disse que o papai costumava ser mais calmo, tipo quando vocês ainda não eram casados, é estranho pensar nele assim quando é sempre ele quem puxa uma festa do nada. Ela também disse que vocês são meio doidos, porque vocês se animam mais com uma festa em família do que com uma festa entre amigos.
Nando riu.
― Não deixe seu pai saber disso... Ele iria passar uma semana repetindo como nada disso é verdade toda vez que formos visitar sua avó.
Breno e Nando riram. Era incrível como só de olhar para os pais, Breno podiam ver que eles faziam sentido juntos, mesmo sendo seres completamente independentes e completos à sua maneira. Ele lembra sobre quando era pequeno e suas avós falavam que os pais de Breno eram almas gêmeas e que por isso Breno havia nascido tão perfeito.
Claro, era só elogio de avó e mãe. Mas Breno sentia cada palavra.
― Por que o senhor e o papai se empolgam mais com festas em família do que com festas entre amigos? – Breno perguntou depois de um bom tempo dentro de sua própria cabeça.
Nando tirou os óculos que usava e pediu para Breno sentar na cadeira ao seu lado.
― Se lembra das histórias que a gente te conta sobre como eu e seu pai nos conhecemos? Sobre como nos casamos e depois termos você?
Breno acena a cabeça.
― Acho que você já está grandinho para saber alguns detalhes que a gente te ocultou.
― Como assim, tudo o que vocês me contaram sobre o casamento era mentira? – Breno perguntou confuso.
― Não era mentira...– Nando tentou. ― Era uma versão mais suave do que aconteceu, eram os anos 90 e tinha toda a questão do preconceito, da cidade pequena e estávamos no meio de uma crise de saúde que todo mundo pensava que era culpa da comunidade LGBTQIA +...
Breno se ajeitou melhor na cadeira.
― E então?
Nando suspirou e olhou para os olhos do filho antes de começar a falar. Um sorriso cansado e nostálgico acompanhou os desenhos de seus lábios finos semelhantes ao de Breno.
― Era o fim do verão de 1999, eu e o seu pai tínhamos reatado o namoro depois de mais uma ida e vinda, eu pensei que eu nunca recuperaria ele porque ele parecia absolutamente mais feliz com um tal de Nick, ou seria André? – Nando parou um instante antes de prosseguir: ― O fato é que seu pai e eu tínhamos voltado a namorar, só que tudo parecia com um ar novo, como se a gente se conhecesse e tivesse nesse relacionamento há anos. No fim de agosto, eu e seu pai tomamos sorvete olhando as estrelas e ele disse algo como 'imagina se pudéssemos ser assim pra sempre', ele estava falando sobre nós durarmos eternamente. Aquilo ficou na minha cabeça, eu pensei muito nisso nos três dias seguintes, sobre como eu realmente queria ficar com seu pai para sempre. Então, no primeiro dia de setembro, eu planejei um fim de tarde glorioso e refiz aquela noite do sorvete, quando a gente sentou no mesmo banco ao lado da sorveteria para ver as estrelas, eu pedi ele em casamento.
Breno olhou para Nando meio chocado.
― Mas essa é literalmente a mesma história que vocês vêm me contando desde que eu me entendo por gente!
Nando riu.
― Calma, ainda não acabou. Como você sabe, o casamento entre pessoas do mesmo gênero só foi legalizado no Brasil em 2011. – Breno assentiu. ― A gente queria desesperadamente casar, tentamos falar com a prefeitura para ver se não conseguíamos ao menos algo como união estável, eles nos cozinharam por semanas numa fila de espera para uma audiência legal comunitária apenas para negar nosso pedido. Eu e seu pai não queríamos desistir, queríamos nos casar, era nosso sonho, então descobrimos que nos Países Baixos a lei para o casamento igualitário estava em processo, por isso conseguiríamos um relacionamento estável por lá. Juntamos todo o dinheiro que tínhamos, mais o de uma série de rifas e doações, e nos casamos numa noite estrelada nos Países Baixos, mesmo que o documento diga que era apenas uma união estável. Em 2008, a Argentina foi o primeiro país da América Latina a fazer casamentos igualitários e eu e o seu pai renovamos os votos por lá.
― Parece ter sido... complicado. Em nenhum momento vocês pensaram em só esperar até 2011 para se casar?
― Naquela época, a gente achava que seríamos mortos por gostarmos de homem todos os dias, principalmente vivendo em cidades pequenas. Aquele período foi realmente um 'carpe diem' para qualquer um que fosse fora do padrão que conhecemos hoje.
Breno ficou em silêncio, Nando também. Breno observou quando os olhos do pai o analisaram como se Breno fosse sua maior vitória.
― Brê...– Nando o chamou. ― Eu não sei se você precisa ouvir isso, mas seu pai e eu lutamos por anos para ter os mesmo direitos que pessoas héteros tinham, e faríamos de novo se isso significasse chegar até onde chegamos. Pode parecer louco seu pai e eu nos empolgarmos com festas em família, mas é que nem sempre tivemos a oportunidade de sonhar construir uma com todos os documentos comprovando isso, entende?
Breno assentiu.
― Só continue em frente, querido, às vezes é um dia ruim, mas não uma vida inteira ruim. – E com o sorriso fraco, Breno guardou todo o diálogo com o pai em seu coração, por mais piegas que isso pudesse soar. Nando pigarreou e adicionou mais uma coisa: ― Agora, não pergunte para o seu pai sobre o bolo ou vai passar as próximas horas ouvindo sobre sabores estranhos de bolo e ele só ganha mais ideias. Imagina querer fazer sabor de pistache e tapioca só porque foi o sabor daqueles sorvetes que a gente tomou em setembro de 1999?
― Ok, sem perguntas. – ele disse seguido de uma risada.
― E outra coisa, vamos jantar fora hoje, em família, você acaba de me deixar nostálgico.
Breno pega uma garrafa de água que deixou dentro da geladeira e pega um saco de biscoitos de polvilho antes de voltar para o quarto, responder algumas mensagens malucas de Kenai sobre a noite anterior e dormir mais duas horas. Quando ele acorda, seu pai Anderson diz que eles vão sair e que Breno deveria se trocar rápido.

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