― Vai contar para eles agora? – Sol o pergunta baixinho. ― Tem certeza?
― Uhum, a festa já acabou, na verdade, e por mais que eu tenha medo, eu sei que eles me amam do jeito que eu sou... Eu meio que passei a semana toda tentando dizer para eles, mas aí essa sensação de que tem algo entalado na minha garganta me impede de falar.
― Breno, você não precisa fazer isso, talvez você não esteja preparado.
― E quando é que eu vou estar? A gente nunca está preparado para falar sobre a nossa sexualidade com os pais, mas às vezes a gente faz porque quer que as pessoas que a gente confia conheçam a gente por inteiro.
― Boa sorte, então... Eu te beijaria, mas acho que esse é outro assunto que você tem que tratar com eles, né?
― É... Mas que fique registrado que eu também quero te beijar agora, viu? – e os dois riem, tentando dissipar a tensão que paira no local antes de Breno chamar seus pais com a desculpa de que quer mostrar algo para eles.
Anderson e Nando parecem seguir o filho apreensivos, como se soubesse que Breno estava prestes a pular de um penhasco, um penhasco metafórico, porque Breno tremia cada vez que chegava mais perto do quarto, e provavelmente já era perceptível que estava prestes a chorar quando conduziu seus pais para dentro de seu quarto e fechou a porta, pedindo que se sentassem na cama.
Era difícil distinguir quem estava mais afetado, se era Breno que segurava as lágrimas com toda a força que tinha, se era Anderson que tremia da cabeça aos pés roendo as unhas, ou se era Nando, que não parava de coçar a sobrancelha e esticar o elástico de sua pulseira contra a própria pele.
― O que foi, filho? – Nando decidiu quebrar o silêncio, sua expressão calma era tão quebradiça quanto vidro falso. ― Sabe que pode contar qualquer coisa para gente, não é? É só falar... Ou perguntar, não sei qual a situação aqui ainda...
Breno respirou fundo. Ele tinha praticado tantos discursos dentro da sua cabeça, tantas citações que tinha tirado de filmes, séries e de vídeos no YouTube sobre sair do armário para os pais, mas naquele momento, tudo o que ele queria falar estava engasgado na garganta. Ele não conseguia falar tudo de forma tão direta para os pais.
Talvez ele pudesse tentar de uma forma indireta, ou pelo menos começar assim, não é?
― Brê, você está começando a nos assustar… – seu pai Anderson lhe alertou.
― O que vocês diriam se eu, filho de um casal gay, me considerasse hétero e ridiculamente atraído por garotas?―
Silêncio.
― É isso que você queria dizer? Que você era heterossexual? – Nando pergunta. ― Porque a gente te ama de qualquer maneira, você é o nosso bebê perfeito e sempre será.
― Eu sou hetero romântico, mas não heterossexual. – Breno diz de olhos fechados, seu cérebro diz que ele precisa falar tudo o que é antes que sua ansiedade o pare. ― Eu sou assexual, eu nem sei direito em que espectro da assexualidade eu me identifico, mas a verdade é que eu sinto sim uma atração por garotas, e isso me faz hétero, mas eu não sinto e nem me imagino tendo qualquer vontade sexual por alguém que eu não considere íntima de mim, e mesmo assim é difícil eu me imaginar nessa situação algumas vezes. E eu sei a diferença entre o que é uma fase e o que não é, porque isso não é uma fase. É o que eu sou. Eu sou ace.
― E nós estamos muito orgulhosos de você por isso, bebê. – É Anderson quem fala algo, Nando está chorando abraçado a Breno e dizendo que o ama demais, ele imaginou que seu outro pai reagiria assim, mas Anderson parece apenas emocionado. ― E nós já sabíamos que você gostava de garotas, só de garotas, inclusive tínhamos uma pequena aposta sobre isso, sobre você um dia querer revelar sua sexualidade para a gente independente de qual fosse porque você confia na gente. Foi assim que te educamos, Brê, para você confiar na gente no que der e vier.
― Eu amo vocês. – É o que Breno consegue dizer, sua voz está completamente embargada.
― E nós amamos você ainda mais. – seus pais dizem ao mesmo tempo.
Breno suspira fundo.
― Tem outra coisa também.
― O quê? Por favor, me diz que você não estourou o cartão de crédito que a gente te deu para emergências. – Nando diz tentando dar um pouco de comédia ao clima.
― Não... É que eu e a Sol estamos namorando... Faz alguns dias.
Silêncio.
― Ok, disso eu realmente não sabia! – Anderson diz animado. ― Posso fazer uma festa para vocês antes de irem acampar?
Breno ri.
― A gente vai acampar amanhã, pai.
― A gente faz depois então! – Anderson exclamou. ― Eu já estou vendo tudo, vou até chamar sua tia-avó, eu ouvir ela dizendo na festa de formatura da Dolores que você nunca arrumaria namorada com esse cabelo grande e esse jeito meio tímido, e eu também duvidei um pouco, mas agora eu posso jogar na cara dela!
― E a Sol é muito bonita, a gente tem que chamar as vizinhas também, elas vão morrer de inveja, porque eles formam um casal lindo!
E depois disso, Breno perdeu o controle das coisas, os pais começaram uma festa em cima da festa surpresa de Breno para comemorar a entrada de Sol na família. Mostraram fotos de cada membro da família, fotos de Breno bebê fazendo cocô no vaso de plástico e começaram a falar todos os planejamentos para uma festa que estava longe de acontecer.
No fim, a festa terminou tão tarde que os planos de chegar antes das duas da tarde na área de camping foi adiado e Breno e seus amigos só chegaram lá perto das quatro da tarde.
***
Era a primeira noite deles ali, a área onde eles haviam armado as barracas ficava mais perto da floresta do que da água do mar, mas ainda sim estavam na areia da praia. Era doido como as estrelas ali pareciam brilhar mais do que na cidade, mesmo na cidade de Breno que já era no interior.
Eles haviam montado cinco tendas, uma que seria dividida entre Luna e Marisol, outra que seria apenas para Theo, outra que era para Kenai, e a terceira para Sol e Breno. A ideia inicial era que Sol tivesse uma barraca própria, mas quando montaram, tinha peças demais faltando e Breno até disse que dormiria com um dos meninos para que Sol ficasse com a barraca dele, mas foi um consenso grupal que Breno e Sol dividissem a barraca. E pelo casal tudo bem, não é como se fosse acontecer algo além do planejado.
Com o álcool e os fósforos que tinham trazido de casa, foi fácil juntar gravetos e fazer uma fogueira bem a tempo do jantar. O jantar que era composto de mistos quentes regados a vinho barato e batata frita de saquinho.
Aquela noite foi a melhor noite de todas as viagens, não só porque Theo e Kenai tinham comprado fogos de artifício escondidos para estourar de noite em homenagem a Breno, mas porque ele conseguia se sentir completamente ele mesmo ao redor dos amigos, tendo a confiança dos pais e os beijos de sua namorada.
Ele não sonhava com nada melhor para seu aniversário. Ele já não tinha mais nenhum segredo para guardar para si mesmo, ou para qualquer outra pessoa, e esse era um ótimo começo de maioridade.

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