Em casa, peguei meu computador e chequei para ver se tinha alguma mensagem ou e-mail.
Gab havia me enviado o currículo de uma médica alemã com especialização em genética e que começaria a pesquisa de doutorado com enfoque nos efeitos neuropsicológicos que as mutações genéticas podem causar, na Faculdade de Seoul - bolsa de 100%. Mais do que qualquer coisa, como Raika (com um sobrenome que eu nunca vou conseguir pronunciar) parecia ser perfeita para resolver o problema, se fosse biológico, me assustou. Ela saber falar coreano foi um bônus que quase não se destacava. Nem a piada sem graça de Gab entrou no meu radar.
-Tenho uma sessão de fotos agora, já que Yuwon não pode dirigir, vou ver se alguém já está chegando para te levar.
-Posso pegar uber? - a frase seria uma afirmação, mas eu não faço ideia se uma figura pública, que vale alguns milhões, pode, simplesmente, pegar um carro de passeio.
-Você sabe chegar lá? - me senti ofendida pelo comentário! É só eu descobrir o endereço e colocar no aplicativo, qual a dificuldade nisso? Ele falou com August que concordou com o que foi dito, no entanto a parte mais chocante disso foi ouvi-lo usando “oppa” para falar com o meu corpo. Isso NUNCA havia acontecido numa entrevista antes. Até cogitei ter ouvido errado, mas quando nos despedimos ele se referiu a August como oppa mais uma vez. Minhas análises devem estar valendo menos do que dois cruzeiros rasgados.
August e eu pegamos um táxi, com ele dando as instruções ao motorista. Deve ser bem estranho ver uma mulher negra dando as instruções para a corrida, com um perfeito sotaque de Seoul, enquanto que um homem, no mais clássico disfarce coreano se escondia as sombras dela. Se não fosse estranho, seria a mais pura prova de empoderamento feminino - embora, nesta situação, com certeza é estranho que deve prevalecer.
Chegamos na empresa faltando meia hora para a reunião com o CEO, a princípio tinha pensado em focar em músicas ou cenas que aflorassem meu lado pétreo, indiferente e, se possível, desumano. Infelizmente, August tentou estabelecer um diálogo e eu, como fã, não consegui rejeitar a oferta.
Espero poder rir dessa situação depois, mas no momento isso apenas serviu para me mostrar o quanto estava desperdiçando o tempo dos meninos.
Eu conseguia me comunicar, mas se August fosse um pouco menos paciente ou incapaz de entender minhas mímicas, não conseguiríamos manter um diálogo. Minha conversação ainda parecia estar no nível de uma criança.
Meu tempo de lamúria foi um pouco maior do que meia hora, já que a reunião que o CEO estava se delongou, mas tentei encarnar todas as dores que já senti - numa tentativa de torná-lo o alvo de meus ressentimentos. Infelizmente, muitas das minhas lástimas tinham nome, sobrenome, endereço e perfil em redes sociais.
-O que ser tão importante? - disse o CEO com um leve desprezo. Justo.
Abri meu computador na frente dele.
Só quando August se ajeitou entre o CEO e eu, que percebi a presença dele.
-Isto é um documento no qual minha melhor amiga me deu direito de comprar e vender ações no nome dela. Atualmente ela tem 5,76% em ações nominais da WoW Entertainment, enquanto eu tenho 4,8%.
-O que você querer dizer?
-Simples: o cara que foi buscar o meu corpo disse que se não trocássemos de volta até o LunaFest, o MoonLight seria desfeito. - a menção do LunaFest e MoonLight, August me olhou - Se vocês fizerem isso, como August, farei um depoimento público que afetará a imagem da empresa e, em seguida, venderei todas as ações em meu poder. Mesmo que não sejam as ações do August, vendendo mais do que 6% em ações nominais, tenho certeza que acarretará numa perda astronômica para a empresa. Especialmente se levarmos em consideração, que a sua maior fonte de arrecadação terá ido embora. Falência não me parece impossível.
-Você não faria…
-Por que não? - Fiz a minha melhor voz cínica.
-Você sabe o que isso significa?!
-Você se refere a destruir os sonhos de milhares ou a, potencialmente, causar uma crise econômica, além de arruinar a vida profissional de centenas, a sua inclusa? Não ligo muito pra isso. - Bizarro! Os olhos dele pareciam esbugalhados. August perguntou o que estava acontecendo, mas não dei tempo para a resposta vir: - Mas se você está preocupado com eu estragar o MoonLight, bem, sou forçada a concordar que a banda não vai durar muito comigo nela.
-SE SABER POR QUÊ? - ele estava mais vermelho do que tomate maduro.
Dei de ombros, do mesmo jeito que August, quando se cansava de debater.
-Dois motivos. Primeiro: August, no meu corpo, terá dificuldade em continuar sua carreira musical. O máximo que ele conseguiria são algumas músicas de quem conhece a situação dele. - mexi numa mexa - Infelizmente, não acredito o suficiente no capitalismo para achar que alguém vá pagar o preço justo pelo trabalho dele, quando Amanda não tem experiência musical. - ele ficou mudo. Mesmo se ele quisesse reconhecer, financeiramente, o que estava dentro da casca, não tinha como explicar para os acionistas ou os chefes dele o gasto que ele teria com alguém sem nome no mercado - Segundo: - peguei meu computador e naveguei pelas abas deles até achar o currículo que Gab me enviou e o virei de volta para eles - Raika é a médica perfeita para nos ajudar. Ela tem qualificações melhores que o médico da banda.
-Como saber? - ele estava mais calmo.
-Leia e descobrirá. - ele baixou os olhos para a tela. Minutos depois, bem mais do que acreditei ser necessário para ler, ele explicou para August a situação.
Não interrompi. Apenas prestei atenção para tentar entender.
Surpresa. Incredulidade. Medo. Confusão. Uma clara dúvida da minha saúde mental, foram apenas algumas das expressões que identifiquei no meu rosto. Pensei que a confusão prevaleceria, mas me enganei. August parecia estar com muito medo de mim.
Sinceramente? Não o culpo, apesar de achar curioso.
Por que o medo prevaleceu? Era por que eu estava ameaçando a empresa ou por que ele tinha algo que eu estava prestes a destruir algo precioso? … não sei… de forma geral, o ML é muito apegado a WoW Entertainment, por tudo que eles passaram juntos, mas não acho que seja ao ponto de um deles colocar a empresa acima do futuro deles… o que eu fiz que o deixou com tanto medo?
Não sei, mas ele não devia ter mais medo de perder a música dele? Era unânime que a música é o mundo dele.
-Ela não contar? - bom, muito bom. Ele perguntar isso significa que está disposto a negociar.
-Não. Mesmo que ela conte, quem acreditaria? É mais fácil fazê-la de louca do que sermos descobertos. - Além do mais, ela tinha muito a perder. Não que pudesse vociferar isso.
-O que é "geneticist"? - ah, isso explica a demora em ler. Expliquei-lhe o campo de atuação de Raika.
-Isso é loucura! O que acontece se vocês trocarem depois de publicarmos algumas músicas no seu nome?
-Hm? Só há 2 opções possíveis, não? A primeira seria eu tentar manter uma carreira musical, de forma que se trocarmos de novo, ele poderá atuar no que gosta. A segunda é eu desaparecer, garantindo que a troca nunca mais ocorra.
-Você tem como prevenir a troca? - perguntou cético, desconsiderando a opção óbvia.
-Claro. - Se ficarmos em nossos respectivos corpos por pelo menos meia hora, isso era tempo mais que o suficiente para eliminar uma das variáveis do problema e quando se tem apenas uma incógnita, o resultado tende a ser mais previsível.
-Mentira.
-Não tenho porque mentir sobre isso. Estou com todas as cartas. Se eu quisesse, poderia te obrigar a me debutar. - dei um meio sorriso - Mas como sou uma pessoa muito legal, estou te pedindo tempo para lançarmos projetos para que August não saia prejudicado.
-Quanto tempo?
-Até o LunaFest do ano que vem.
-O que me garante? - Esta frase ficou muito mal feita, mas entendi o que ele quis dizer.
-Hmmm… Minha palavra? - fiz o meu melhor sorriso inocente. Verdade seja dita, eu não confio na minha palavra, embora não vá falar isso pra ele. Mas não há muito o que fazer, né? Quero dizer, como seria um contrato disso? - Só aceite, você não tem muita opção.
-Para cada música que for lançada, devolva 1% das ações.
-Ha! Quão idiota acha que eu sou? - Sei que não sou um gênio, mas me considerar burra assim era uma afronta! Mesmo Beyoncé poderia não ter sucesso numa música, se não tivesse o marketing bem feito - Posso até devolver, mas só para cada hit de sucesso.
-O que você considera sucesso?
-Vou deixar para August decidir. - dei um sorriso sem mostrar os dentes, o sorriso de August.
Ele contou a August o que discutimos e pude ver na minha cara a surpresa e o espanto, a cada descoberta. O medo ainda estava ali, mas muito mais sútil. Talvez, se não fosse o meu rosto, eu não o teria percebido.
Meu rosto é bem mais expressivo que o dele...
Tenho a impressão de conhecer a maioria das palavras usadas por August, mas ele falou tão rápido que parecia até um mineiro perguntando se o ônibus passa na Savassi.
-Vamos fazer um contrato. - Eu preciso ler esse contrato!
-Claro. Por quê não? - pergunta boba: eu tenho que assinar como Amanda, né? Eu não faço ideia de como é a assinatura de Lee Yuwon, o máximo que já vi foram autógrafos de sua persona, geralmente em má qualidade ou com flash.
Houve mais algumas trocas de palavras entre ele e August. Sério, só pode ser de propósito! Não pode ser normal alguém falar tão rápido assim! Eu estava quase entendendo ele antes!
-Amanhã você assina o contrato.
-Okay~. - cantarolei feliz, esperando para ver o que seria escrito.
Pensei que iria para o dormitório sozinha, mas, por algum motivo, August me acompanhou. Enquanto esperávamos o carro, ele fez perguntas numa velocidade normal. Consegui entendê-las, mas não peguei todas as palavras. Tentei explicar que não queria afastá-lo do sonho dele, mas não conhecia palavras o suficiente, por isso, dentro do carro, eu escrevi meus sentimentos, coloquei no tradutor e mostrei-o.
Ele leu fazendo pequenas caretas e comentários, perguntando-me sobre algumas palavras, mas ele mesmo respondeu as próprias dúvidas.
Não que tivesse conhecimentos linguísticos o suficiente para encontrar sinônimos ou entender o porquê da palavra indicada pelo tradutor estar errada ou não fazer sentido. Afinal, do jeito que eu sabia falar, ele já não tinha entendido.
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