Fiquei curiosa para saber o que ele queria manter a salvo.
Não que eu tivesse o direito.
Ele checou o relógio, lembrando-me de devolver o telefone dele. Ele ficou desesperado, mas após mexer em algumas coisas e ver que eu não respondi nenhuma mensagem, assim como não retornei nenhuma ligação, ele relaxou um pouco.
Até Hop chegar, August tentou conversar comigo, para entender como as coisas estavam por aqui. Mais um momento da minha vida que eu me senti burra. Quando Hop chegou houve um momento de confusão, seguido por euforia.
Nunca fiquei com tanta inveja do meu corpo!
Hop abraçou e deu pulinhos de alegria com August nos braços. Eles começaram a conversar, mas, à medida que os outros membros chegavam, o diálogo voltava para o começo, quase sempre passando pelas mesmas perguntas. A maior prova, em minha opinião, de que os sete eram mais do que uma família. Os meninos tentavam não me ignorar, uma vez que a situação era um problema meu, também, mas o lado positivo deles não o conseguirem foi que consegui praticar o listening diversas vezes.
O problema foi quando K chegou. Da boyband ele foi o último a chegar e como ele já havia conversado com August, ele focou em como meu coreano estava melhor do que ele pensava.
Lá se vai a minha ideia de tentar entender o que os meninos diziam sobre mim…
-Eu entender um pouco…melhor...do que...falo. - tentei. - Menos quando... fala rápido.
Recebi vários “Wah” contemplativos e parabenizações.
-E como foi a reunião? - se eu pudesse ficar indignada com ele, eu teria ficado. Contudo, ao invés disso, eu peguei o texto do meu telefone, ignorei a notificação de mensagem prioritária, e tentei ler o texto que tinha escrito para August momentos antes.
-Por que você faria isso? - perguntou MC - Isso é loucura! - todos estavam confusos, mas somente alguns pareciam ter medo.
Olhei para o líder da banda e falei em inglês.
-Porque eu posso. - depois dei de ombros - Sem contar que já estou estragando a carreira de vocês o suficiente. Um ano é pouco, mas com o meu baixo desempenho os fãs vão ser capazes de prever o fim da banda, enquanto vocês se preparam para a carreira solo.
K e MC me encararam, tentando assimilar o que aconteceu, enquanto os outros perguntavam o que eu disse. A parte interessante é que Park entendeu boa parte do que disse e passou a mensagem para os companheiros. Embora MC ainda tenha tido que complementar… Park realmente é um gênio natural, se bobear, ele vai aprender inglês antes de eu aprender coreano.
-Mas isso não é perigoso?
Dei de ombros.
Eu queria dizer que muitas coisas são perigosas, mas os tipos de perigo que eu fui criada para superar, que eu descobri ao crescer e que eles estavam falando são coisas diferentes. Não sei dizer se esta diferença era devido a nacionalidade, gênero, escolha profissional ou a outro fator que não me passou pela cabeça, mas ela era quase palpável.
-Falando em perigo, com quanto tempo de antecedência dá pra ficar sabendo da apresentação que vamos ter que fazer?
-Por quê isso seria perigoso? - perguntou K, enquanto MC traduzia.
-Tive uma ideia. - Peguei o meu computador e pesquisei “coisas que ficam melhor com ML Circo de Solieri". Sim! Foi um brasileiro que fez esta maravilha! - Pensei que poderíamos usar uma performance como desculpa para August ter cancelado vários compromissos. - procurei o tempo da cena que queria e dei play no vídeo, deixei-os apreciar a queda de um anjo e o recolhimento dos tecidos funcionando como meio de tirar as asas do ex-anjo, enquanto o artista lamentava a perda. - Não podemos usar isso, mas dar pra ter ideias.
-Waah! Você faz isso? - perguntou Hop.
-Sim. - moldei a frase para que pudesse falar em coreano - Até os 17 anos. - havia cinco anos que eu não me apresentava, porém tecido, argolas e algumas outras atividades de equilíbrio são as minhas preferidas, por isso, mesmo sem performar, sempre cuido do meu corpo para que eu possa voltar a essas atividades a qualquer momento.
-Mas você conseguiria fazer isso no corpo de August? - Olhei para Han, desviei o olhar o canto superior direito e avaliei o que eu já experimentei da flexibilidade e força de August, levando em consideração que a técnica era um conhecimento meu e que ainda sou capaz de lembrar os macetes, truques e experiências.
-Preciso praticar, mas sim. - os olhos de Han se arregalaram. Não sei dizer porquê.
Eles debateram sobre as possibilidades e começaram a fantasiar sobre a coreografia.
-Mas com quanto tempo…? - perguntei.
-Eeeh… nós recebemos a notícia ontem. - respondeu Min - Mas… dois ou três dias?
Não é tempo suficiente.
-Mas podemos usar no Coreia Show!! - argumentou Park.
A maioria concordou, alguns discordaram sugerindo usar no LunaFest.
Por mim, podíamos usar enquanto eu estivesse no corpo de August, contudo, tendo em vista que a troca pode ocorrer a qualquer momento, a melhor opção seria para os eventos mais próximos. A menos que a possibilidade do verdadeiro August aprender a subir em tecido seja considerada.
Agora, como falo isso em coreano?
Melhor não, melhor deixar eles decidirem.
Só voltei para a conversa quando estavam decidindo qual meshup usar. Fly High tinha que estar na mistura, porque era ela que estava ganhando o prêmio, mas nenhuma das músicas que combinavam com subir em tecidos fazia um bom mix com Fly High.
Eu levantei minha mão e, com um sorriso, MC me passou a palavra:
-É difícil juntar as músicas? - ele traduziu a minha pergunta e K traduziu a resposta de August.
-Depende. Algumas músicas são mais rápidas do que outras, mas já que August não vai poder participar da apresentação, ele disse que vai se dedicar a essa parte.
-Então, vocês podem usar a melodia de Notz, - uma clara referência à quebra-nozes - para a queda; Try To Be Me - a música de maior sucesso do primeiro álbum deles, que apesar de ser agressiva, tinha uma batida um pouco mais suave do que a letra -, como intermédio e finalizar com Fly High.
Eu conseguia ver a história conectando as três músicas: a queda; a raiva pelo acontecido; tentativa de se tornar melhor e a aceitação acompanhada pela felicidade, por se aceitar. Quanto à coreografia eu não fazia ideia. Nunca fui merecedora do posto de Prima.
Instantaneamente, todos começaram a murmurar possíveis combinações da melodia.
Não nego que fiquei meio assustada, mas era o MoonLight, então tudo bem.
-Acho que consigo fazer isso em um dia.
-Sério?! - A performance seria em dois, pelo que havia entendido.
-Hm. Qual parte você precisa pra coreografia?
Eu encarei o meu corpo por tempo o suficiente, para os meninos acharem que eu não tinha entendido a pergunta, levando Hop a traduzí-la para mim. Todavia, a verdade era que eu não sabia. Não havia pensado numa coreografia, apenas sabia que tinha que ser diferente do que eu havia mostrado a eles.
Respirei fundo e pedi um papel e caneta.
Apesar de achar engraçado o meu pedido, Han pegou-os para mim.
-Não sei, exatamente, qual parte da música combina com isso, mas essa é a minha ideia. - disse em inglês, antes de começar a desenhar - Eu vou ficar… enclausurada no alto. - não sabia se eles conheciam as palavras, mas o desenho seria a minha bengala - Vou testar qual queda combina mais com o corpo do August, então não posso dar certeza de como será. Mas ao invés de subir os tecidos, eu pensei deixá-los cair, mostrando que não tem volta. Neste momento, seria legal ter uma dança com tecidos, porque pra subir em neles não pode ser qualquer roupa e eu precisaria de uma distração para me adequar ao figurino sem ninguém perceber. Quando eu terminar a troca, nos livramos dos tecidos, poderia ter um teatro de eu estar inconformada, enquanto vocês tentam me animar e terminamos comigo feliz, com a minha nova realidade.
-Wahh, que incrível! - elogiou K - Você acabou de pensar nisso?
Fiz que sim com a cabeça, enquanto MC traduzia, entusiasmado, meu roteiro. No final, recebi vários elogios, mas fornecer uma desculpa era o mínimo que eu poderia fazer. A apresentação, em si, não era fantástica, já que eu havia me inspirado numa apresentação mundialmente aclamada, a minha se tornava, no máximo, um plágio bem feito. Se eu não conseguisse fazer ao menos isso, eu seria inútil.
-Sim, mas… - August pontuou alguma coisa, da qual só entendi palavras, passando longe do real significado da frase.
-Yuwon disse que ficaria melhor se a dança com tecidos fizesse parte da gente tentando te animar. - traduziu MC. Concordei sem pensar duas vezes.
Hop e Han se animaram e começaram a pensar na coreografia dos tecidos; Min, incentivando, pegou três lençóis para os três brincarem. Porque, apesar de no começo parecer algo sério, em algum momento eles estavam rindo tanto que só poderia ser descrito como brincadeira, sem contar os "olés" que ouvi vindo deles. K ligou para alguém, pedindo para preparar a sala de treino e roupas para August poder subir em tecidos. Park, MC e August começaram a pensar em como ligar as músicas de acordo com os meus desenhos.
Meus desenhos… olhando-os agora, fiz bem em ter abandonado a engenharia. Dois semestres de desenho (mais de ⅔ das aulas foram fazendo croquis!) e meus desenhos estavam a um passo de invocar uma entidade de outra dimensão por engano.
Desviei os olhos desta atrocidade.
Peguei meu telefone e vi as notificações. Gab havia me mandado algumas mensagens contando como meus pais estavam se gabando por eu ter conseguido um emprego na Coreia, enquanto ela ainda morava com os pais. Ela me perguntou se estava tudo bem dizer que eu havia sido demitida. Não vi porque negar-lhe este prazer, por isso concordei. Depois, olhei minha mensagem prioritária, era Raika marcando nossa primeira consulta para amanhã, em qualquer horário das 17h às 19h30, no hospital afiliado à Universidade Médica de Seoul.
Fiquei com um pouco de medo, mas sabia que era o esperado.
Pedi para K passar o recado para o rapper.
-Sério?! Já? - não precisei de tradução para confirmar e passar o horário.
Depois de alguns minutos de euforia, August começou a me ensinar os flows dele. Foi só quando ouvi na minha voz que eu percebi, que ele se divertia nos raps. Quero dizer, todo Astronaut sabe que ele ama música, que rap tem um lugar especial no coração dele, etc. Mas foi só quando ouvi a minha voz fazer os flows que percebi que, mesmo neste momento não tão feliz, numa música triste, ainda havia uma pitada de diversão na voz.
Aproveitei este tempo nosso para copiá-lo. Não sei como copiar a presença de alguém, mas me parece sensato que isso seria mais fácil ao copiar o original, não uma imagem.
Diga-se de passagem, em meio a esta confusão, senti como se eu tivesse cometido um crime capital, porque comecei a aprender a música original do August para LunaFest. Um crime agridoce.
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