A música começou a tocar e comecei minha contagem. Em quatro, pude ver os milhares de olhos esperando o meu erro; com mais dois, comecei minha queda. Ouvi alguns gritos de medo e um arfejo microfonado - provavelmente o apresentador.
Cair ainda é divertido.
A adrenalina e o vento pareciam um saboroso recheio para os giros.
Senti o baque da queda, muito feliz por estar de máscara. Não por causa do ombro, mas, talvez, porque as joias de August estivessem em perigo real…
Terminei a queda de cabeça para baixo, então meu primeiro movimento foi reposicionar meu corpo numa "tentativa de voltar". Comecei a fingir que tentava subir de volta, enquanto, na verdade, desprendia-me completamente dos panos. Quando meus pés tocaram o chão, fingi medo e nojo, pisando com a ponta dos pés. Olhei de um lado para outro, para baixo e para cima. Ensaiei mais uma tentativa de subir, até escorregar e cair de bunda no chão. Enquanto brincava com os panos, preparando-me para subir mais uma vez, os panos finalmente caíram, deixando-me devastada no clímax da primeira música.
Segurando os tecidos como se fossem minha vida, ouvi antes de ver os elevadores trazendo os membros da banda e os dois dançarinos para o nível do palco.
Não foi nenhum pouco planejado, ao menos que eu saiba, mas os tecidos se estendiam para além dos poços de três elevadores. O que cobria Min, escorregou por ele, deixando apenas Park e MC cobertos. Parando para pensar, isso vai gerar rebuliço na internet.
A presença deles me assustou o suficiente para me fazer soltar meus preciosos tecidos. August e o dançarino se aproveitaram para tomá-los de mim, enquanto os demais dançavam para animar-me. Sério, quem não se animaria com os membros do ML dançando exclusivamente para ele?
Logo começou a dança de tecidos - minha brecha para trocar de roupa e tirar a máscara.
Juntei-me ao grupo que dançava com os panos.
Quando a segunda música terminou, August, assim como o dançarino sobressalente, levaram os tecidos e para podermos começar a performar Fly High. Errei dois passos, mas acredito ter disfarçado bem ou, ao menos, de forma rápida. No passo que substituía o mortal, fui assolada por mais uma rajada de culpa, embora não saiba se era por ter tomado os holofotes de August ou por meu estúpido bloqueio para a acrobacia.
Ao final da música eu queria chorar.
Não sei bem o porquê, mas parecia certo chorar. Talvez por ter roubado o palco de August. Talvez por enganar milhares, que logo se transformarão em milhões. Talvez por alívio. Embora o mais provável seja pela diversão que preenchia meu peito.
Tenho quase certeza que a última vez que me senti tão realizada, tão eufórica foi na minha última apresentação d'O Lago dos Cisnes.
Meu estômago estava enjoado, queria apenas poder me recolher em algum canto e me lembrar de quem eu realmente sou. Lembrar-me de que eu nunca pertenceria a este mundo. Recordar-me de que eu escolhi ser o que sou. Porém, ao invés disso sorri para acelerar o coração de milhares, enquanto nos despedimos da plateia.
Juntamo-nos às demais bandas e esperamos as premiações, na qual minha ansiedade e excitamento não foram fingimentos.
Com o microfone desligado, eu recebi vários elogios (o que me fez lembrar que eles não deveriam ser para mim) e me passaram algumas instruções para a entrevista que eles sabiam que viria.
Depois do programa fomos entrevistados e eu esperei ansiosa, fingindo plenitude, pela pergunta mais óbvia de todas:
-...mas quem subiu os tecidos? - perguntou a repórter.
-Não tenho certeza. - respondi mexendo em uma mecha de cabelo - Acho que Sang-Tae conseguiria fazer isso. - repeti o que me foi passado.
-Waa! Eu sou velho demais para isso. - Nunca gostei deles se sentirem velhos, pois conheço um tanto de "jovens" que não conseguiriam dançar três músicas, deles, seguidas. Sem contar que Chaves já me ensinou que juventude depende apenas do coração - Talvez Park…?
-Eh? Ah… acho que os Astronauts já sabem a resposta.
-Ya! Vocês não vão falar que pode ser eu? - brincou Min.
-Mas Hyung, você estava… - 'na frente de todo mundo', eu suponho.
K falou alguma coisa e Han completou. Hop quase não conseguia conter a gargalhada, mas o repórter pareceu não ligar - aposto que ele pensou que a ação é apenas um traço da personalidade do membro mais feliz e extrovertido da banda.
Aposto que Astronauts, que estão assistindo ao vivo, e entendem o que está sendo falado, estão morrendo de curiosidade para descobrir a verdade.
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