Após sair da área onde a plantação externa se encontrava, a dupla podia ver o portão da cidade, Secilia respirava fundo ao ver a muralha da cidade que embora não fosse tão grande como a da capital ainda era considerada grande, afinal Riou era um ducado.
— Os guardas não estão meio, lerdos hoje? Nem me viram passar…
Helena olhou de relance com um olhar inquisitivo para a garota quando a mesma falou sobre os guardas, Secilia não percebeu o mesmo e seguiu andando.
Ao chegar ao portão os guardas estavam distraídos com documentos das caravanas e dos mercadores que chegavam ao ducado.
— Onde estão os reforços para guarda e verificação? Achei que o duque havia ordenado que houvesse ao menos quatro de vocês
O guarda que estava lendo um documento se assustou ao ver a duquesa parada em sua frente, antes mesmo que ele pudesse responder a mulher continuou
— Envie uma guarda extra para a área sul e encontre os dois… preguiçosos que “sumiram”.
A duquesa fez uma breve pausa olhando em volta. A area sul não possui nenhuma muralha devido a maior quantidade das plantações de Riou se encontrar proximo a um despenhadeiro.
— Senhorita Helena! Não há necessidade de tanta preocupação, somos apenas comerciantes
A voz estava vindo do de um senhor gordo parado a alguns metros de Helena, a mesma reconhecia a voz como um dos comerciantes exportadores de vinho, que era a principal especiaria de Riou sendo, a cidade, a única fabricante dos vinhos Modrika e Farvayn devido as uvas e maçãs únicas da cidade.
— Senhor Jofrey, sei que os comerciantes em si não representam perigo, porém não podemos dizer o mesmo sobre os mercenários e aventureiros que se reúnem nesta época comemorativa.
Após dizer isso Helena realizava uma breve reverência e seguia andando calmamente pelo portão com os guardas tensos e angustiados.
A entrada era composta por duas pontes sobre um pequeno rio que passava pela cidade, uma das pontes era pequena por onde pessoas normalmente passavam e a outra grande por onde as carroças transitavam transportando mercadorias.
Após ultrapassar a ponte, as mulheres podiam ver o longo corredor de casas feitas de madeira e pedra moldadas que se estendia até o centro da cidade.
— O que acha de irmos até a Senhorita Ana?
Perguntou Helena com um sorriso para sua filha que concordou com um aceno e seguiram caminho até o centro.
O centro da cidade normalmente era bem movimentado, no centro se encontrava uma estátua moldada para lembrar um anjo encapuzado segurando uma lança, a estátua dividia a rua principal em uma encruzilhada, cada lado da rua possuía diversas construções e abriam rotas para outras ruas da cidade, na área principal do centro estavam as lojas principais da cidade, o atelier, a floricultura, o armeiro e outros, porém o que mais se destacava era a central da guilda de aventureiros que se encontrava em uma esquina.
Enquanto passavam pela cidade, Sicília e sua mãe podiam ver uma movimentação diferente dos dias do resto do ano. Elas se aproximavam da florista da cidade que preparava alguns buquês de rosa e colocava a exposição do lado de fora da loja.
— Olá senhora Ana, como tem passado?
Perguntou Secilia fazendo uma breve reverência com as mãos na lateral do vestido, a senhora de cabelos ruivos escarlates respondeu com o mesmo comprimento e um sorriso largo, após isso ela entregou uma rosa branca para cada.
— Estou bem, Aliana tem me ajudado a tomar conta da loja e com a chegada do festival Kronblade, as pousadas já estão lotadas!
A senhora respondia com uma risada leve ao falar sobre as pousadas.
O festival Kronblade, ou festival das pétalas brancas, era um evento anual que acontecia durante um mês e reunia pessoas de toda Edel e de outros reinos além do continente de Valandor servindo como uma comemoração a vitória do rei Hargar sobre o exército caído do feiticeiro sem nome que aconteceu ao norte da montanha descanso heroico. Um festival repleto de comidas, rosas e tecidos brancos espalhados pela cidade; barracas de iguarias de vários cantos do mundo se reúnem ali e nos acampamentos que rodeiam a cidade transformando aquele lugar em uma área quase tão importante quanto as capitais, a família Laffrey é a responsável por sediar e organizar o evento desde que as pessoas se lembram.
— Ah, senhorita Helena, o Duque Bargosa vem para o festival?
A senhora perguntava com um sorriso no rosto até perceber que Helena não estava com uma boa expressão, a mulher desviou o olhar para sua filha que parecia distraída com um grupo de aventureiros que adentravam a guilda, ela soltou um suspiro e se aproximou cochichando no ouvido de Ana
— Melhor não comentar sobre ele agora, mas sim… ele está vindo com seus cavaleiros.
A senhora ficou em silêncio por um instante e olhou para a garota que mantinha uma expressão sorridente olhando para as pessoas da cidade trabalhando na organização do festival.
Secilia se virava para as duas com um sorriso e então percebia que a senhora estava um pouco mais séria que antes.
— Aconteceu algo, senhora Ana? Está se sentindo bem?
Perguntou enquanto se aproximava dela, mas antes que a tocasse a senhora balançou a cabeça pegando um regador de madeira e começou a regar as flores
— Estou bem, só um pouco cansada, que tal você ir para casa e descansar um pouco? O festival começa em dois dias, você deve aproveitar bastante ele.
Ana virou seu rosto para ela com um sorriso menos aberto que antes enquanto regava as plantas. Secilia assentiu um pouco, mas entendeu que ela devia estar cansada de tanto trabalhar
— Não exagere! se precisar pode me chamar!
A garota sorriu abertamente colocando a mão direita no peito.
Dizer aquelas palavras fez sua mãe cruzar os braços e abrir um sorriso diabólico no rosto
— Você tem outras coisas para fazer, Secilia, não se esqueça que fugiu das aulas de história, dança e música hoje.
Helena andou à frente da garota olhando para a mansão mais ao fundo da rua com uma expressão um tanto séria e com um olhar distante, por um instante Secilia se lembrou de seu irmão mais velho, Teodor, o dia que ele se juntou a ordem do rei.
— Vamos, o que será que Katherine possui neste ano? Talvez algum comerciante trouxe algo de outras terras e vendeu para ela.
A mãe se virou para a garota abrindo um sorriso e mantendo os olhos fechados, pouco após retomou seu olhar rumo a encruzilhada, porém para o lado direito do outro lado da mesma onde se encontrava um prédio de dois andares que ocupava um espaço considerável, embora não ocupasse toda a quadra, em sua frente estava uma fachada com Kattepels escrito e uma pata de gato ao lado.
As duas andavam calmamente até o outro lado da calçada, cumprimentando os caçadores e comerciantes de vários lugares que passavam por elas, incluindo um grupo de Elfos vestidos com túnicas brancas que passavam olhando para Secilia.
Helena abre a porta para sua filha que por um instante se distrai olhando na direção dos elfos
— Eles fazem parte do diplomatas, devem se encontrar com seu pai e os outros em breve. Vamos entrar, não é gentil ficar encarando pessoas.
Helena dizia com a voz calma observando sua filha que sorria e virava o rosto novamente para sua mãe a acompanhando.
O lado interno da loja era uma sala de recepção com dois arcos de portas, um sem porta no lado direito e um com uma porta vermelha nos fundos atrás do balcão, ao redor existiam algumas roupas comuns que eram compradas diariamente pelas pessoas, porém a recepcionista estava guardando as roupas tradicionais e trocando por modelos mais decorados e belos.
— Ah, sejam bem vindas senhoritas Laffrey! O que desejam hoje
A garota loira com uma roupa branca comum e um colete azul escuro se virava para elas com um sorriso aberto fazendo uma breve reverências para as duas
— Olá Victoria, sua mãe não está hoje?
Helena perguntou com um sorriso leve fazendo uma reverência simples junto de Secilia.
— Não senhora, ela saiu para ajudar o senhor Tales a organizar os estandes dos visitantes, mas eu posso ajudá-las hoje.
A garota retomava a colocar no cabide o vestido amarelo que carregava e então apontava para o arco sem porta, Helena e Secilia seguiam em direção ao outro lado observando um grande acervo de roupas.
— Algum comerciante trouxe roupas de outras regiões?
Helena perguntou olhando algumas roupas com um sorriso no rosto enquanto passava os dedos sobre um vestido.
— Sim senhora, deseja vestir algo diferente este ano?
A garota ficava parada próximo à porta observando as duas mulheres
— Não, como sempre sou eu que quero algo diferente, você sabe como minha mãe é.
Victoria soltava uma risada baixa
— Talvez eu arrisque algo esse ano, o que tem para nos mostrar?
Helena soltava a roupa e se virava para a recepcionista, que por sua vez indicava para elas seguirem em direção a porta vermelha na sala anterior.
Após as três chegarem no local era possível ver algumas roupas, tanto femininas quanto masculinas, ambas robustas e detalhadas.
A garota retirava lacres de algumas caixas com roupas distintas em estilo ocidental (lembrando o estilo chines e japonês tradicional).
— Esse ano as cinco ilhas resolveram se juntar à comemoração, eles estão em um acampamento na área norte da cidade.
Enquanto a garota falava Secilia pegava um kimono branco com um desenho de raposa nas costas
— Percebi que muitos aventureiros de Bessua vieram esse ano, mais curiosos querendo explorar o descanso?
Perguntou Helena observando o interesse de sua filha pela estranha roupa.
— Provavelmente, Merida informou que ouviu uma conversa de um grupo sobre a lenda da estátua de jade… Sério, de onde eles inventaram que existe uma estátua totalmente feita de jade perdida na região sul do descanso do herói?
Victoria colocava a mão direita sobre a testa soltando um suspiro
— De qualquer forma, pedi que ela ficasse de olho nos trilhadores, ouvi boatos sobre o surgimento de uma união de ladrões em Besua.
Helena retirou seu leque e o pôs frente ao rosto.
— A guarda foi notificada? Seria bom colocar alguns guardas próximo ao muro exterior sul da mansão, algumas árvores ficam muito próximas dele… seria fácil para alguém entrar por ali.
Helena olhava de relance para Secilia quando a garota dizia aquilo, ao perceber os olhos de sua mãe a garota se vira para ela colocando a roupa pouco a frente do rosto, deixando apenas seus olhos visíveis e desviando o olhar para o chão
— N-Não é como se eu já tivesse usado isso alguma vez… eu só percebi isso. Ah! eu gostei desse, vou querer levar
A garota erguia a roupa cobrindo completamente seu rosto, por trás da mesma ela soltava um suspiro audível por ambas as mulheres.
Victoria soltava uma risada enquanto Helena fechava o leque e o usava para bater levemente contra a cabeça de Secilia
— Vou querer um vestido especial para a cerimônia, esse ano será a vez da Secilia se apresentar.
— Pode deixar! Irei preparar tudo e enviar para a mansão.
Secilia e Helena após se decidir seguiam em direção a porta de saída quando Victoria aparecia sobre a bancada chamando por helena
— Eu ia esquecendo! Fiquei sabendo que alguns alunos da academia Kalamit e quem vai acompanhá-los será a professora Auderin.
Helena esboçava um sorriso feliz no rosto e agradecia com um aceno antes de sair com sua filha.
— Vamos, Seu pai já deve estar agoniado nos esperando.
Secilia suspirava e seguia ao lado de sua mãe perguntando sobre quem seria Auderin.
As duas seguiam calmamente em direção a rua principal que levava do portão diretamente a mansão, era visível o desânimo no rosto da garota.

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