Após o discurso do soldado, houve um período de silêncio generalizado. Manoela logo segurou Carminha pelo ombro e a levou para dentro de casa, deixando Horácio, Bernardo e Miguel à sós com os dois homens armados.
- Mas nós não podemos ir embora! Temos que trabalhar na terra! - Exclamou Miguel, perplexo.
- Cala-te!
Horácio deu um puxão de orelha no filho e virou-se rapidamente aos dois soldados que esperavam pacientemente. Os rapazes podiam notar que no olhar do pai residia uma preocupação enrustida, trancada a quatro chaves para não transparecer. Desejava manter a calma e a compostura, especialmente na frente de seus filhos, afinal, era mais maduro, e no fim sabia que não haveria como contestar a vontade do senhor feudal.
- Eu vou pra guerra, mas por favor, não leve meus filhos também. Eles precisam trabalhar no campo e sustentar a família.
- Sua família tem três homens aptos, permitiremos que um permaneça para trabalhar, o resto juntar-se-á ao exército.
- Senhor, eles são rapazes, não acho necessário levar eles também…
- São ordens do senhor de Sá, não devem ser quebradas.
Então Horácio sentiu uma mão apoiada em seu ombro. Bernardo, logo atrás, abriu um sorriso reconfortante e tomou a palavra.
- Não se preocupe, pai, eu vou com eles. É o mínimo que posso fazer pela gente. E além disso, o senhor não está com as forças para a guerra…
- Não diga asneiras! Eu estou muito apto! Mais que apto! Olhe para mim, meu corpo é forte e eu não deixarei que meus filhos vão ao meu lugar! - Retrucou erguendo os braços e vociferando.
Essa movimentação toda fez com que o pobre pai tivesse um forte e duradouro ataque de tosse. Bernardo e Miguel apressaram-se a pegar uma cadeira para fazê-lo sentar, mas Horácio recusou.
- Eu estou bem! Não preciso de cadeira! Olha o papelão que estão fazendo!
Porém, como ninguém era de ferro, ele logo desistiu e sentou-se, revelando uma expressão cansada e triste, um olhar fundo e aguado de ressentimento. Bernardo sabia bem que a doença que recaíra sobre seu pai no inverno passado teve sequelas e que estas refletiam seu trabalho no campo. Se já para trabalhar no campo tinha dificuldades, imagine participar da máquina da guerra? O jovem adulto, então, deu um passo para frente em direção dos soldados, tentando fazer a feição mais confiante possível.
- Eu vou pra guerra.
- Precisamos de dois homens.
- Um já basta, eu valho por dois.
- Não é assim que funcionam as coisas, rapaz. A vontade do senhor de Sá é incontestável.
- Eu vou também, não vou deixar você sozinho, Bernardo - Levantou a voz Horácio, que havia conseguido estabilizar a tosse nesse meio tempo, mas ainda mostrava-se cansado e ofegante.
- O senhor está claramente adoecido, não servirá nem como escudo humano. - Respondeu o segundo soldado, que havia permanecido quieto até então.
- Como ousa me chamar de adoecido!
O pai apressou-se a tentar se levantar, mas foi impedido por Miguel, que olhava para seu velho com pesar. Esteve apenas ouvindo a discussão em silêncio, preferiu não se envolver, mas a tristeza em seu coração se expandia na sala toda. Já havia perdido Gabrielzinho não havia muito tempo, e agora não queria perder Bernardo e Horácio também. Logo quando queria dar seu melhor para tentar fazer daquele ano um ano melhor, mais próspero para a família.
- E aquele outro rapaz? Ele me parece apto. - A voz do soldado interrompeu a reflexão de Miguel.
- Eu?
- Não, senhor, ele não é apto. Acabou de crescer, não vai servir de muito - Protestou Bernardo, colocando-se na frente do irmão numa tentativa de distrair as autoridades.
- Ele parece crescido. Qualquer um serve, contanto que consiga segurar uma espada. E se segura uma enxada, uma espada ou lança não deve ser difícil. Ele virá conosco junto de você e nossa conversa aqui terá acabado.
- Mas…
- Sem mas, preparem-se e estejam ao lado do poço. Sairemos assim que recrutarmos todo mundo.
Dito isso, os dois soldados despediram-se e saíram da casa, rumo a outras famílias para traumatizar. Horácio mantinha o olhar fixo no chão, um olhar privado de foco e de vontade. Parecia mais estátua que pessoa. Miguel olhava para seu irmão, como se buscasse uma resposta nele, mas Bernardo estava tão perdido quanto.
- Vá arrumar suas coisas, não leve nada desnecessário. - Disse gravemente, antes de andar pelo corredor na direção do quarto dos filhos.
Ambos colocaram algumas coisas numa bolsa de couro em silêncio. Não houve interação, talvez não tivessem forças nem vontade para isso. Bernardo logo terminou de se preparar, colocou o essencial. Um cantil, um pedaço de pão e uma muda de roupas. Não podia levar mais nada, até porque as ferramentas tinham que ficar em casa para o trabalho. Miguel, por outro lado, demorou mais. Não sabia ao certo o que levar. Copiou, claro, seu irmão, mas questionava se faltava mais alguma coisa. Perlustrando o quarto, encontrou um soldadinho entalhado na madeira. Foi um brinquedo que passou por várias mãos. Inicialmente feito por Horácio para que Bernardo pudesse brincar, tornou-se de Miguel e em seguida de Gabrielzinho, seu último detentor. O rapaz observou aquele objeto por algum tempo e decidiu guardá-lo na bolsa.
Ambos saíram de casa em direção à praça. Manoela, Carminha e Horácio olhavam para os dois da porta. Ninguém estava animado, parecia uma despedida de velório.
- Será que o pai vai ficar bem sem a gente? - Perguntou Miguel, enquanto olhava para trás.
- Ele é quem está mais triste que todo mundo. Perdeu um filho e agora pode perder mais dois. O mínimo que podemos fazer por ele agora é sobreviver e voltar para casa o mais rápido possível. É tudo que podemos fazer, entende?
- Acho que sim…
Chegaram ao lado do poço, onde já havia alguns outros jovens, pequenos e grandes, muitos receosos, alguns poucos animados. Não esperaram por muito tempo, mas para eles, foram horas e horas, sem saber o que fazer, sobre o que conversar. Os soldados voltaram com outros três rapazes e então dirigiram-se à frente do grupo. Um deles pegou mais um pergaminho e começou a discursar.
- De agora em diante, vós sois soldados do senhor de Sá! E a ele deveis a vida! Por ele lutareis e por ele morrereis! Esse é o vosso dever! Seguiremos para o acampamento militar, onde nos reuniremos com outros recrutas e de lá, iremos à guerra, à morte, à glória!
Dito isso, o soldado enrolou o pergaminho e guardou-o. O outro, por sua vez, foi até o final do grupo. Formaram duas fileiras e iniciaram marcha. Miguel deu uma última olhada de relance para sua família, sua casa, sua aldeia de Falst. Era possível que essa fosse a última vez que a veria, mas preferiu não pensar nisso.

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