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Khaplin - Tempos mais modernos ainda

Capítulo 1.1 - Entre o chapéu e a bengala

Capítulo 1.1 - Entre o chapéu e a bengala

Jan 06, 2023

— Bom dia, Chico! — Henzzo era um jovem negro, morador de um condomínio localizado em uma das regiões nobre de Guarulhos. Chico era seu porteiro. 

— Olha só, bom dia, Seu Henzzo, que milagre hein, primeira vez essa semana que vejo você indo pro colégio.

— Pois é, não consigo suportar as aulas de segunda e terça, mas sem problemas, indo bem nas provas já termino o "terceirão" e me livro dessa bomba.

— Hahahaha, eu pensava que nem você e hoje estou aqui, então vê se não abusa da sorte e foca na escola.

— Por mim, está ótimo, qualquer coisa é melhor do que continuar na escola.

— Hahahahaha, deixa a vida adulta chegar que você vai mudar de ideia fácil.

Henzzo riu, ele sabia que a vida adulta não era fácil, mas ter nascido em uma boa família, com uma mãe referência na área médica e ter um renomado engenheiro como pai tornava tudo bem mais fácil. Não sendo suficiente, sua genética milagrosa fazia com que ele tivesse um porte atlético sem esforço algum. Em resumo, sua vida sempre foi repleta de atalhos.

Mas isso não fez com que Henzzo crescesse como alguém convencido, acreditando ser melhor que outros, na verdade, Henzzo pode ser definido como alguém neutro. Ele definitivamente não se acha melhor que ninguém, mas, simultaneamente, não se sente inferior a ninguém, ele só tem uma boa vida e gosta de aproveitá-la.

— Talvez o mais chato é que mesmo depois da escola vou precisar acordar cedo — Aquilo era desanimador para Henzzo.

— Falando nisso, já são 6h40, se eu fosse você ia andando. Logo sua aula começa e até você chegar já passou das 7h00, acelera o passo. — Disse Chico, colocando um fim na conversa.

Henzzo então se despediu e seguiu seu caminho até a escola.

Ele estudava em um Colégio Presbítero, colégio este que tinha uma grande popularidade por conta de seus preços baixos, ensino de qualidade, sua estrutura avançada e acessibilidade, mas tudo isso era só da porta para fora. Quem estudava lá sabia que era mentira, eles se nomeavam "Presbítero" só por realizarem orações antes das aulas. Os problemas eram diversos, desde câmeras de segurança de enfeite até a inexistência de saídas de emergência. Isso sem falar da estrutura mal planejada, por exemplo, todas as salas eram equipadas com quadros brancos usados para aulas com retroprojetores, mas só havia um projetor para a escola toda.

O colégio ficava próximo a uma das principais avenidas de Guarulhos, a Avenida Brigadeiro Faria Lima, popularmente nomeada apenas como Brigadeiro. Essa avenida cruzava um enorme número de bairros e interligava todos esses bairros ao centro do município. Mesmo naquele horário tudo já era extremamente movimentado, seja para o lado dos pedestres quanto dos motoristas.

Henzzo sabia disso e tomava caminhos alternativos, buscando andar uma rua à esquerda da Brigadeiro, onde o fluxo era menor, e assim ele ia costurando seu caminho até o colégio. Mesmo que sua escola ficasse em um bairro mais perigoso, ele fazia aquilo tantas vezes que não temia tanto assim, e o perigo começa quando o medo acaba.

Em uma de suas mudanças de trajeto, Henzzo notou que alguém o seguia.

O sujeito tinha cabelo descolorido, usava uma bermuda maior do que seu número ideal, estava de chinelo e com a camisa sobreposta no ombro.


Será que eu não estou enganado?


Pensou Henzzo.


Não deve ser nada, tenho certeza que é coisa da minha cabeça, tem que ser.


Suas mãos começaram a suar frio, seu coração palpitava forte.


Só preciso chegar até a próxima esquina e voltar pro movimento, tudo vai fic...


— AE TIO, PODE IR PARANDO! — O grito daquele estranho cortou os pensamentos de Henzzo. Em um reflexo de sobrevivência, Henzzo começou a correr.

— NÃO CORRE NÃO, NÃO CORRE QUE É PIOR! — Continuava a gritar o sujeito, que agora o perseguia.

Ao se aproximar da esquina Henzzo sentiu um puxão, o sujeito conseguiu agarrar a alça de sua mochila e o jogou contra um muro de um terreno abandonado.

— Tá querendo morrer?! — Esbravejou o bandido.

— Na… não, mano, eu s… — Henzzo tentou falar, mas o medo o dominou.

— CALA A BOCA! — Gritou o bandido — É o seguinte: passa o celular, só isso, irmão!

— SOCORRO! SOCORRO, POR FAVOR! SOCORRO! — Henzzo gritou por ajuda.

— FALEI PARA CALAR A BOCA! — O bandido puxou e jogou Henzzo novamente contra o muro.

O pânico da situação era tamanho que tanto Henzzo quanto o ladrão não perceberam a presença de outras pessoas no local.

— Assaltando moleque? Vagabundo! — Três sujeitos que estavam conversando na frente de casa viram tudo e foram ao resgate daquele adolescente. O primeiro a chegar deu um chute no tornozelo do ladrão, fazendo com que ele tombasse no chão. Após a queda, o movimento do ladrão foi colocar as mãos na frente do rosto, para se proteger dos próximos chutes desferidos pelos outros dois rapazes. 

Em uma brecha, ele se levantou e começou a fugir, sendo perseguido pelos mesmos que o chutaram no chão.

— Você tá bem? Ele te machucou? — Perguntou o sujeito que chegou primeiro.

— Tô bem, eu tô bem, só preciso me acalmar um pouco. — Henzzo estava assustado, mas gradualmente foi se estabilizando — Poxa, muito obrigado, de verdade.

— Você fez certo em gritar, mas evite ficar andando por aí sozinho, deu sorte que a gente estava por aqui.

— Nem com celular eu estava na mão, não sei por que ele veio.

— No mínimo ele viu seu uniforme e pensou “estudante de escola particular, deve ter algo de valor com ele”.

Era a explicação mais lógica, e após agradecer mais uma vez, Henzzo decidiu seguir seu caminho. Voltar para casa não parecia ser prático, já que estava tão perto da escola e de lá poderia pedir ajuda.




Henzzo notificou a secretaria do colégio assim que chegou, eles prontamente tentaram contato com seus pais.

— Não consegui falar com ninguém — Afirmou Aline, coordenadora do colégio. Os pais de Henzzo eram muito ocupados, dificilmente atenderiam o telefone.

— Não tem problema, consigo ir para aula.

— Vou continuar tentando contato com eles, mas sugiro o mesmo. Não podemos deixar que você volte sozinho até seus pais estarem ciente de tudo. Sem contar que entre ficar aqui na minha sala e ficar com seus amigos, imagino qual será sua escolha. Aline tinha total razão, e assim Henzzo seguiu para sala de aula. 


A escola que Henzzo estudava era composta por uma torre única de nove andares, com cada andar tendo de quatro a cinco salas de aula. Seus arredores no térreo possuiam pátio, quadra de esportes, cantina, secretaria e estacionamento. Sua sala ficava no terceiro andar, mas era comum que ocorressem mudanças de sala com o passar dos anos.

Embora a aula já tivesse começado, o professor ainda não havia aparecido. A sala estava uma confusão, como toda sala de aula sem supervisão, e com isso Henzzo não foi destaque ao chegar atrasado. 

Ele mal pode se sentar e já foi alvo de seus vizinhos de mesa.

— O cara falta dois dias, no dia que ele decide vir, chega atrasado! — Dizia seu amigo Daniel, de um jeito irônico. Daniel era um jovem pardo. Tinha uma tentativa de corte de cabelo no estilo samurai e uma barba falhada, que se recusava a crescer na parte da frente do queixo.

— Fica brincando, fica. Tentaram me assaltar hoje, estava na secretaria falando com a Aline.

A resposta de Henzzo fez com que Daniel ficasse surpreso, enquanto chamou a atenção de outros dois amigos, João era um jovem pardo de cabelos cacheados não tão longos e uma barba que lhe trazia um aspecto mais velho. Mikael era um jovem branco, de cabelos longos e escorridos, usava um óculos de armação simples e sempre usava um agasalho preto.

— Mas levaram alguma coisa? — Perguntou João, curioso, chocado e preocupado.

— Nada, uns caras pararam para me ajudar e espantaram o ladrão, tive sorte — Respondeu Henzzo, enquanto tirava o celular da mochila para mostrar aos amigos.

— Engraçado essa escola, o aluno é assaltado e eles dizem “tá bom, vai lá estudar” — João dizia isso enquanto dava leves risadas — Aqui o ensino é ruim, mas a diversão é garantida.

— Lembro que uma vez tentaram me assaltar. O cara disse “Passa o celular!” e eu respondi “Não, obrigado” e fui embora — A história contada por Mikael era novidade para todos, e a situação absurda fez com que o pequeno grupo risse.

— Fiquei até mal de ter feito piada — Disse Daniel, com um pedido mascarado de desculpas para Henzzo. — Eu já fui assaltado e lembro que fiquei com medo de reagir. Mas meu medo maior foi outro.

— Qual? — Perguntou João, curioso.

— Ah, eu fui assaltado voltando do colégio, estava usando o uniforme. Vai que acabo reagindo, o cara descobre onde estudo e vem atrás de mim.

Nesse momento um barulho estrondoso pode ser ouvido por todos.


Era um som de impacto metálico seguido de um desmoronamento, em seguida, gritos vindo do térreo ajudaram a compor aquela melodia de caos e destruição.

— MEU DEUS! — Gritou uma das meninas da sala, assustada.

O alarme de incêndio começou a soar, mas como a escola não possuía saída de emergência, os alunos precisavam fugir pela escadaria principal. 

— Ai, meu senhor, será que algum carro bateu no portão da escola? — Disse Daniel, enquanto corria com seus amigos em direção a porta.

O corredor estava uma verdadeira confusão, centenas de alunos tentavam correr, causando um congestionamento.  Henzzo, assim como o restante da sua turma, rapidamente se uniu aos outros alunos e trilhou seu caminho pelas escadas, sem saber o que estava acontecendo.


Ao chegar no térreo, Henzzo se deparou com o caminho para a secretaria completamente bloqueado pela multidão.

Mas o que lhe chamou a atenção foi algo que surgia pela entrada lateral da escola: uma enorme figura formada de barro estava no colégio, destruindo tudo que via, tinha por volta de três a quatro metros de altura, era difícil definir, pois ele não tinha pernas, era um rosto abstrato e monstruoso gigante, que criava várias ramificações para se locomover. 

Sua força era intimidadora, ele chicoteava tudo ao seu redor com grandes tentáculos de barro, destruindo paredes, janelas, portas e qualquer um que estivesse pelo caminho.


— MAS O QUE É AQUILO?! — Gritava Daniel, enquanto procurava alguma brecha para entrar na multidão e escapar.

— Com todo mundo tentando sair pelo mesmo lugar, nós não vamos conseguir sair daqui nunca! — Respondia Mikael, desesperado.

— O João já está lá na frente, como ele conseguiu? — Daniel observou que dos quatro ali, apenas João estava perto de ter uma fuga bem sucedida.

Foi quando Henzzo teve uma ideia, ele agarrou o braço de seus dois amigos restantes e os puxou para outra direção.

— O que foi, Henzzo? — Daniel não estava entendendo suas intenções.

— Tem uma saída por trás da escola, lembra? Onde fica a caixa d’água! Não deve ter ninguém lá, a gente consegue escalar o portão e fugir. — Henzzo explicava tudo enquanto insistia em puxál-los, mas não levou muito tempo até que os dois entendessem tudo e corressem com ele. Todos os três foram para o fundo da escola.


Aquele rosto abstrato de barro estava parado, observando toda a multidão, tentáculos laterais demoliam paredes enquanto tentáculos menores se projetavam para sustentar aquela coisa no ar, alguns serviam como pernas, enquanto outros se agarravam em paredes. O rosto observava toda aquela multidão, mas por algum motivo ele não atacava ninguém. Ele tinha poder para varrer todo aquele grupo sem dificuldade nenhuma, mas não o fazia, sua ação era apenas observar.

Dentre toda aquela confusão, um detalhe chamou sua atenção: um grupo de três jovens se separou dos outros estudantes e correu em direção aos fundos da escola, em uma área muito mais isolada.


Finalmente te achei, moleque.


danipita00
Danizito

Creator

Henzzo finalmente decidi ir a escola, sem saber que seu dia seria repleto de surpresas.

#brazil #brasil #Misterio #urban #Action #Fantasy

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Henzzo é um jovem do ensino médio que tem sua vida virada de cabeça pra baixo quando uma bengala mágica o escolhe para ser um herói.

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