Aquele dia continuava sendo uma caixinha de surpresas para todos os entusiastas do esporte que prestigiaram confrontos incríveis com resultados impressionantes. E a batalha final não seria diferente. O embate entre Ray Bolt, conhecido como "Clarão de Luz", e o lutador em ascensão, Floyd Lewis, "Braço da Justiça", foi a luta que durou mais tempo na noite, indo até os cinco rounds, que era o máximo permitido no torneio. A luta foi vencida por decisão técnica, com quatro rounds para Floyd Lewis e dois para Ray Bolt. Sendo assim, todas as vagas para as semifinais estavam preenchidas. As próximas lutas do Torneio do Caos seriam: Vitor Davies, "Punhos da Vitória", contra Floyd Lewis, "Braço da Justiça", e Clarisse Ali Silva, "Mãos Flamejantes", contra Alex Couto, "O Campeão".
Após o término das quartas de finais, as coletivas de imprensa aconteceram e todos os quatro lutadores dedicaram palavras diante das câmeras. Como Clarisse e Alex já haviam preparado seus discursos dentro do ringue após a vitória, eles apenas reforçaram o que disseram. A novidade ficou por conta de Floyd Lewis e Vitor Davies, que foram cercados por repórteres ávidos por provocações que gerariam burburinho nas redes sociais e emissoras de televisão. O primeiro dos dois a cruzar o corredor, cercado pelas luzes e diversos microfones, foi Floyd Lewis.
— Ei, ei. Com licença, Floyd! — Um repórter esportivo tentava chamar a atenção do lutador em meio à multidão de profissionais. Sendo assim, o homem de queixo quadrado parou, tornando a tentativa do jovem bem-sucedida.
— Segundo muitos espectadores, a palavra que definiu seu combate foi "Intensidade". Cinco rounds, bastante resistências dos dois lados, mas bastante trocas de golpes deferidos entre vocês. Principalmente, por você. — Floyd assentia para a descrição do jovem — Seu próximo oponente, o Vitor Davies, hoje, se destacou pela finalização extremamente rápida. Você já elaborou uma maneira de adequar seu estilo de luta para vencê-lo nesse próximo confronto?
— Se eu já pensei... Bom, posso dizer que tenho uma hipótese. Respeito e me cativei com o desempenho do Vitor no ano passado, só que independente disso, ele tem que saber que aqui é uma competição que promove muitos desejos, de pessoas tão apaixonadas quanto ele pelo esporte. Então, estou pronto para lutar por esse cinturão usando minha forma de combate! Irei fazer o possível pra vencer e comemorar esse vitória com minha família. — Completou, seguindo o seu caminho para longe dos holofotes.
O último a dar a palavra naquele corredor demorou um tempo considerável para cruzá-lo. Essa demora gerou fadiga e ansiedade nos repórteres, que esperavam com toda a estrutura montada para conseguir um furo. Essa individualidade era característica do atual campeão, devido à sua mania de elaborar grandes diálogos em situações inoportunas.
Nos arredores da arquibancada, Vitor discutia profundamente com seu treinador sobre algo que o incomodava. Talvez estivesse questionando se seus próximos passos valeriam a pena ou não. Quase uma hora depois, o atual campeão finalmente começa a percorrer os corredores. Nesse momento, todos os repórteres que estavam quase dormindo acordados perderam a oportunidade para os mais experientes, que permaneciam atentos a qualquer movimento.
— Vitor, Vitor! Teria um minutinho? — Questionava a famosa repórter esportiva Renata, que já havia entrevistado o atual campeão no ano em que ele saiu vitorioso. Em reação à chegada da profissional que ele já conhecia, Vitor deu um leve sorrisinho simpático, esperando as perguntas dela.
— Primeiramente, parabéns pela sua vitória sensacional de hoje. Queríamos saber quais são suas expectativas para a próxima luta contra o Floyd, que mais cedo falou que te respeita muito e já arrumou uma maneira de vencer você. Está confiante na busca desse cinturão? —Completava ela, recebendo uma resposta que começava com uma respiração profunda para conter algum sentimento; Vitor estava nervoso para iniciar suas palavras.
— Bom, Renata. Estou entusiasmado para o confronto com o saudoso Floyd, adorei as últimas batalhas dele que acompanhei, independente do resultado, certamente o esporte sairá vitorioso. — De repente, sua fúria se intensificou, sutilmente, no tom de voz — Diferente do que acho sobre esses jovens que estão dando um péssimo exemplo com estúpidas palavras cheias de arrogância e desrespeito. Eles precisam saber que não importa o lugar onde eles chegarem, primeiro tem que respeitar quem chegou antes.
Naquele momento, a atmosfera começou a pesar, conforme as palavras daquele homem ficavam ainda mais afiadas. Enquanto conduzia seu discurso, flashes passavam na mente de Vitor, que relembrava as falas ousadas que Clarisse e Alex fizeram após suas vitórias.
— Chega a ser nojento a displicência de jovens mal educados que gritam feito cachorros sarnentos que vão "esmagar" lutadores mais velhos. Coloquem-se no lugar de vocês! —A acidez na condução daquela expressão era inesperada, pois estava sendo feita pelo lutador que, dentre a maioria, era o mais polido nas palavras em todas as suas falas antes de se tornar campeão. Para chegar àquele nível de estresse, ele teria que estar transbordando de cólera — Inclusive, achei que havia visto um absurdo quando aquela pirralha estava gritando que representava a cidade dela, desrespeitando o próprio lugar onde ela cresceu falando daquela forma. Só que... quando aquele moleque que não deve nem limpar o próprio rabo direito gritou que queria vencer pelo desejo idiota dele daquela forma imunda, me deu ânsia...
Vitor respirava fundo e alterava seu tom estressado para a mansidão que normalmente conduzia seus discursos. No entanto, havia algo diferente: a conclusão que chegara após desabafar naquela entrevista criou algo divergente de tudo o que ele sentia. Era uma vontade, na verdade, uma certeza...
— Por isso, eu digo, independente se o vencedor for eu ou o Floyd, espero que dar uma dose de derrota para essa juventude mal criada faça eles repensarem suas atitudes, notarem quem são e com que tipo de gente estão lidando!
Aquelas palavras reverberaram rapidamente em todos os cantos, seja no boca a boca ou no virtual, dando um impulso à popularidade do Torneio. Na realidade, a série de momentos inacreditáveis viralizou ainda mais do que o esperado, levando as pessoas a despertarem interesse na competição.
Essa manifestação do atual campeão também foi percebida pelos jovens atacados da mesma forma. Clarisse assistiu ao vídeo imersa na banheira cheia de espuma, enquanto relaxava. Já estava acostumada a ouvir esse tipo de coisa devido ao seu jeito de ser. Portanto, não era novidade que mais uma pessoa se tinha incomodado com a forma destemida que ela tinha de ser. Só que...
"Esse cara é muito frescurento! Eu hein... nem parece que é lutador. Quer tranquilidade, aluga uma casa no campo e não enche. Agora quer reclamar de gritaria e provocação no boxe? Por favor..."
Toc-toc
— TEM GENTE!
— Eu sei, querida. Só queria saber se está tudo bem com você, já faz mais uma hora que você está aí dentro! Pensei que tinha morrido. — Aquela voz masculina, abafada pela porta, fez com que Clarisse percebesse sua situação atual e ficasse vermelha ao notar que estava demorando demais ali.
— E-e que... aqui está tão gostosinho que quase não dá vontade de sair... D-desculpa! — O tom de voz da garota tornava-se cada vez mais sussurrante, e, assim, frequentemente, ela afundava quase toda a sua cabeça sob a água.
— Ha-ha! Tudo bem, minha flor. Aproveita seu banho, só estava preocupado mesmo.
"Tão fofo, que droga!"
Clarisse balançava a cabeça para tentar desvincular aqueles pensamentos de admiração em relação ao seu mestre, evitando corar cada vez mais ou sentir-se excessivamente emotiva. Afinal, estava refletindo sobre o discurso de Vitor.
"Bom, por mais que eu não ligue... Tenho certeza que aquele outro garoto que ficou se doendo todo por conta do meu discurso, não deve ter gostado nadinha do que o Vitor falou dele..."
Alex assistiu à entrevista por acaso, enquanto estava deitado na cama do hotel, pronto para descansar em uma boa noite de sono. No entanto, ouvir aquelas palavras de puro ego o deixou transtornado.
— Que papo é esse? Respeito? Esse cara está confundindo as coisas! — Alex resmungava enquanto batia levemente no colchão com a mão direita.
— Relaxa, Alex. Ele só disse bobagens, nada que não vai ser resolvido no próprio ringue.
— Não são bobagens, Sheila! O cara me chamou de "moleque que não sabe nem limpar o rabo" em rede nacional! — O jovem citava aquele momento com raiva, enquanto olhava para a mestra de cabelos azuis, vestida com pijama, sentada na cadeira do canto do quarto, mexendo no computador — Além disso, ele vem com esse papo de "respeito", confundindo respeito com submissão! Esse cara tem noção de como o boxe funciona? Ah, pelo amor!
— ...
— Eu vou acabar com ele! — O silêncio da resposta de Sheila fez com que o garoto redirecionasse o olhar para baixo, deixando a raiva um pouco contida — Vou vencer a Clarisse... e vou... provar que ele não sabe nada do esporte!
A raiva presente no interior de Alex se transformaria em um impulso para uma semana árdua de treinos, que Sheila conduziria de acordo com a vontade do aprendiz. A dedicação e o estudo que Alex dedicava às poucas lutas de Clarisse e às táticas para alcançar a vitória chamavam a atenção da mulher de cabelos azuis.
"Talvez ele esteja indo um pouco longe demais..."
Ela refletiu. No entanto, invejava aquela marra dele. Assim como no passado, também invejou a coragem de Ângelo quando decidiu abrir uma escola de Boxe. De alguma forma, havia algo naqueles dois que a fazia querer ficar perto, mesmo achando um pouco imaturo da parte deles. As palavras de Clarisse também voltaram à memória dela. Ter sido elogiada por "ser treinadora de alguém tão incrível" originou o pensamento de que seu aluno estava começando a surpreender as pessoas. Talvez aquela multidão de gritos não tenha sido suficiente para isso, mas ouvir aquelas palavras sussurradas sim. O que era bizarro, mas curioso.
"Estou torcendo por você, Alex"
A montagem de uma linha narrativa de embate entre a juventude ousada e o atual campeão chamou a atenção de diversos comentários nas redes sociais.
A repercussão e a ansiedade do público fizeram aqueles dias parecerem intermináveis para todos que almejavam assistir a esses dois confrontos densos. Enquanto isso, a dedicação e o foco fizeram esses dias passarem voando para os quatro lutadores que treinavam incansavelmente.
Uma semana se passou... o clima em Dioégiusto era de pura festa; turistas de todas as partes vinham para lotar ainda mais o estádio. Além disso, mais repórteres e agora, influenciadores digitais cobriam o evento. Do carro que a levava para o estádio, Clarisse observava os outdoors com as fotos dela e de Alex estampadas, e seus olhos brilhavam como meteoros.
"Isso é demais!"
Em contrapartida, também se locomovendo para o estádio, dentro de um carro junto com sua tutora, Alex continuava focado e pronto para vencer Clarisse e fazer Vitor engolir as palavras idiotas que ele soltou.

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