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Contos dos Heróis Silenciosos

Despertar

Despertar

Feb 26, 2023

A história poderia ter acabado aqui. Miguel poderia ter sucumbido à dor e à guerra e, quebrada sua promessa de sobrevivência, teria descansado eternamente no leito da morte. No entanto, esse não foi o destino reservado a ele. Por motivos que minha mente ignorante nunca poderia explicar, sua jornada não acabou, muito pelo contrário, esse foi meramente o começo do que está por vir, pois àqueles que desejam viver mais que tudo, o destino garante uma efêmera possibilidade.

A batalha acabou. O exército do senhor de Sá perdeu. Alguns sobreviventes conseguiram escapar das garras do inimigo e fugiram para terras seguras. Outros, no entanto, foram capturados e levados para os calabouços, ou simplesmente executados na hora. Miguel, porém, não estava em nenhum desses grupos, pois desmaiado numa pilha de corpos, nem foi percebido, confundido por mais um desafortunado. Os soldados se retiraram e o rapaz foi deixado lá, à espera da morte, à espera dos braços frios e reconfortantes da morte.

Foi então que alguém passou pelo campo de batalha. Sorrateiramente indagou através dos corpos que restaram – Ou seja, que não foram enterrados – em busca de pertences carregados pelos mortos. Esse sujeito parecia ser bastante velho, carregava uma barba grisalha e bagunçada, bem suja, até mesmo com um graveto emaranhado entre os fios. Era baixo, talvez um pouco corcunda, e usava roupas bem velhas e desleixadas, que deixavam aberturas de onde era possível ver o corpo raquítico e mal cuidado. O velho começou a coletar coisas como espelhos, dedos decepados, unhas e pentes. Nessa busca, ao revirar uma pilha de corpos, encontrou Miguel, ainda inconsciente. Entretanto, ao contrário dos soldados, o sujeito percebeu na hora que ele respirava, mesmo que fracamente. Estudou brevemente as feridas e revirou um pouco os bolsos, pegando apenas o soldadinho de madeira que ele carregava consigo. O velho continuou vasculhando em outros corpos, ignorando o fraco sinal de vitalidade do rapaz, mas após um tempo breve de indecisão, voltou o olhar para Miguel e, após um suspiro, segurou aquele corpo e começou a arrastá-lo lentamente para fora do vale, na direção do pântano situado próximo dali. Ao chegar na região pantanosa, colocou o corpo do fazendeiro num pequeno barco atracado na margem de um dos riachos rasos que compunham aquele ambiente. Então o velho remou, remou e remou. Remou lentamente, sem fazer barulho e movendo a água com gentileza, espantando só os peixes muito próximos do barquinho. Remou até chegar numa cabana de palafita situada no centro de um pequeno lago que se formou no pântano. Amarrou a corda num dos pilares de madeira e carregou o corpo moribundo para dentro.

Miguel recobrou a consciência após não sei quanto tempo. Poderia ter sido uma hora, um dia, alguns dias, porém definitivamente menos que uma semana. Ao abrir os olhos ele se deparou com um teto de palha sustentado por tábuas rudimentares de madeira. Pelo canto dos olhos pôde vislumbrar objetos estranhos para ele, como máscaras coloridas que replicaram expressões exageradas e objetos de madeira cuja função o rapaz desconhecia. Sentia uma leve dor de cabeça e um pouco de tontura, como se estivesse no meio de uma ressaca. Subitamente, sentiu uma espécie de alívio. Estava vivo, não sabia como, mas estava. Havia mantido sua promessa, sobreviveu, agora podia ir para casa, finalmente…

– Acordou? Já era tarde, não acha? – Uma voz ecoou pelo interior daquele lugar, assustando Miguel, que levantou um pouco o torso e finalmente se deparando com aquele velho raquítico, parado no que parecia ser uma entrada para aquele cômodo. Não havia porta, apenas uma cortina, que estava aberta e possibilitava uma entrada intensa de luz. Miguel gritou mais assustado e confuso do que antes.

– Cala a boca! Quer que eu te mande pra fora? – Retrucou o velho irritado, que fez Miguel se calar e tentar se acalmar.

– Onde… estou? – Perguntou timidamente, tentando não olhar diretamente para o homem estranho, ao invés disso, preferindo observar os detalhes daquela cabana.

– Na minha casa, e não por muito tempo, assim que você se recuperar te quero pra fora. – Resmungou enquanto apoiava uma vasilha cheia d’água ao lado de Miguel, que se encontrava deitado num leito de folhas e palha.

– Mas… onde? – Insistiu, visto que não se lembrava muito bem o que ocorrera para chegar ali.

– Já falei! Na minha casa! Agora para de fazer perguntas e só descansa pra se recuperar.

– Mas eu não estava num vale? E… teve uma batalha… Bernardo! Onde está Bernardo? E Leo também…

– Ou morreram ou fugiram, eu não me importo. Agora deita.

– E por que você me levou pra cá? Por que me salvou?

– Porque você era o único vivo que encontrei, e achei melhor não deixar um jovem como você morrer tão cedo. Agora deita logo!
O rapaz imediatamente abaixou o torso e deitou-se sobre o leito, um pouco intimidado pelo vozeirão do velho. Por mais que parecesse frágil, raquítico e fraco, aquele sujeito passava uma estranha sensação de autoridade que fazia com que Miguel não pudesse deixar de obedecê-lo, por receio. O velho então pegou um pano, molhou-o na água e em seguida passou-o na cabeça de Miguel. A água era morna e fez com que ele relaxasse, mas de uma maneira que nunca tinha provado antes. As feridas, enfaixadas e tratadas, agora doíam menos, e pareciam não existir para ele nesse momento de tranquilidade. Será mesmo que era água? Ou teria alguma propriedade desconhecida?

– Será que Bernardo morreu…? – O rapaz pensou em voz alta, num estado similar a um leve transe.

– Não sei e também não me importo. O que me importa é saber de onde você vem.

– Falst… – Respondeu, um pouco desnorteado.

– Falst é? Hmm… não é muito perto daqui. E vai ser difícil chegar lá no meio da guerra. Você tá em maus lençóis, garoto.

– Eu não quero voltar ainda…

– E por quê?

– Meu irmão… Bernardo… tenho que encontrá-lo.

O velho deu uma risada um pouco arranhada, que virou uma tosse e, por fim, um espirro.

– Encontrar um morto é idiotice! Desista! Volte pra casa. – Disse secamente o velho.

– Ele não está morto… ele pode muito bem estar vivo… Até eu ter certeza, eu tenho que procurar.

– Escuta o que eu digo, rapaz, você está perdendo tempo. Volte para casa enquanto pode.

Miguel não respondeu, ou por raiva ou por estar relaxado demais para conseguir formar uma frase. O velho então suspirou, um suspiro longo cheio de sabedoria, e então disse mais tranquilamente.

– Você parece saber muito pouco sobre o mundo, garoto. Muito pouco mesmo. Desse jeito, mesmo se eu te mandar embora, vai acabar morrendo no meio do caminho, e eu vou ter perdido tempo e recursos te ajudando em vão. Não gosto disso, então antes de te mandar embora, vou te ensinar algumas coisas. Com sorte, em um ou dois meses você já estará pronto para partir. Vou começar te contando uma história, talvez já tenha ouvido falar, ou talvez nunca a conheceu, mas é um conto que foi passado ao longo das gerações e naturalmente chegou até a mim. Ele se chama “O Conto de Prospero”, e ele começa assim…

matteomoreira48
MethWhite

Creator

Depois de muito tempo, finalmente voltei a escrever. Espero que volte a ter uma rotina agora.

#Fantasy #journey #adventure

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