Bhesda: Reino de Daemon, 17 de Abril de 2047
Estava caída.
O chão sob minhas costas era áspero, úmido, pulsando uma estranha energia que parecia rir do meu fracasso. Diante de mim, a criatura se aproximava lentamente, como se saboreasse cada segundo antes de me eliminar.
Era... grotesca. Um híbrido de homem e serpente, com escamas negras que reluziam sob a luz azulada das tochas mágicas. Seus olhos — dois abismos fincados em um rosto alongado — me encaravam com uma malícia tão viva que meu corpo inteiro congelou. A boca, larga demais, não parava de salivar.
Meus companheiros... todos estavam mortos. Ou melhor, deslogados à força. Achávamos que seria uma missão rápida. As últimas informações que tínhamos mostravam essas criaturas como oponentes de nível médio. Ninguém nos avisou que a força dos monstros podia variar conforme a região do mapa.
E aqui, em Daemon... tudo era mais cruel.
Senti meu coração acelerar, mesmo sabendo que não era real. Mesmo sabendo que era só um jogo. As lâminas da criatura reluziam. Meu corpo se recusava a se mover. Tudo indicava que aquele seria o fim. Até que...
— Uryu, cuide dos xamãs! Kronus, esmague os berserks! Eu ajudo a garota!
A voz cortou o ar como um raio. Firme, direta. Alguém que sabia o que estava fazendo. Uma silhueta coberta pela sombra do sol, que escondia seus detalhes, surgia em meu campo de visão. Uma pose heroica: uma perna esticada, a outra dobrada, mostrando o esforço de um salto; uma das mãos próxima ao corpo, a outra apontando a espada em direção ao peito de uma das criaturas. Aquele salvador era diferente do que eu esperava. Quando pensamos nesses heróis, imaginamos homens altos, fortes, de cabelo curto e barba que demonstra experiência e maturidade. Já o meu salvador da vez era um garoto menor que eu, mais novo que a minha idade, cabelos ruivos gigantescos e arrepiados como o de um protagonista de desenho japonês. Era inacreditável a situação.
— E desde quando é você quem dá as ordens?! — outra voz respondeu, mais rouca, impaciente.
Ele usava óculos; seu cabelo era de um azul quase negro, com uma franja lateral passando pela testa e o resto, comprido, trançado como o de um viking moderno. Sua pele era mais clara que a do ruivo espadachim; suas roupas eram brancas, quase cerimoniais, iguais às minhas, e seu olhar exalava uma seriedade intimidadora. Era mais alto, da altura da minha personagem, e carregava um arco tão grande quanto ele mesmo, do qual emanava uma flecha que parecia conter uma força mágica.
— Agh! A gente vai discutir isso agora?! — O garoto perdeu sua pose, arqueou as costas, relaxou os braços e suspirou, mal-humorado, como se suas brigas com o outro garoto fossem recorrentes. Ele demonstrava ser mais imaturo do que sua coragem parecia descrever.
Eles soavam como velhos conhecidos — e como se aquilo tudo fosse apenas mais uma terça-feira comum. Era estranho. E, de alguma forma, reconfortante.
Flechas cortaram o ar acima de mim. Não eram flechas comuns. Brilhavam, como se forjadas com magia pura. Assim que tocavam os inimigos, explodiam em luz. Os homens-serpente sequer tiveram tempo de reagir.
Ao fundo, ouvi estrondos. O chão vibrava a cada impacto. Era como se uma força colossal estivesse em ação. Mas eu não conseguia olhar. Meus olhos estavam fixos na criatura à minha frente... até que ela caiu, derrotada.
Uma sombra se aproximou.
— Ei, você tá bem? — perguntou uma voz jovem, calorosa, enquanto guardava sua espada na cintura.
Meus pensamentos ainda estavam presos ao medo. Quando levantei o rosto, me deparei com ele: olhos castanho-avermelhados, vivos e intensos; cabelos ruivos desgrenhados; pele levemente bronzeada e um porte atlético. Parecia ter... no máximo, dezoito anos.
— S-sim... obrigada — respondi, tentando parecer menos envergonhada do que me sentia. Não conseguia encará-lo nos olhos, então desviei o olhar, fixando-o em um terceiro garoto que entrava em cena.
— Aí, Aki, será que dá pra parar de namorar e dar uma mãozinha aqui? — o mesmo jovem interrompeu em tom sarcástico.
Olhei por cima do ombro dele... e vi algo que me fez duvidar da realidade. Um garoto de estatura infantil, mas com músculos definidos, cicatrizes de batalha e cabelos loiros quase brancos. Ele segurava um machado que parecia maior que o próprio corpo.
— Que?! E-eu não tô namorando! — o ruivo respondeu, corado, antes de sacar sua espada e avançar contra o que restava dos inimigos.
Foi um massacre.
O campo, segundos atrás dominado por monstros, agora estava vazio. O trio havia derrotado todos em... oito segundos. Eu contei.
— Ok! Hora das apresentações! — disse o ruivo, guardando a espada. Ele caminhava até mim com os outros dois logo atrás. — Deixa eu ver... seu nome é Emma, né? Nível 42, Sacerdotisa... Uau, lugarzinho perigoso pra vir sozinha, hein?
— E-eu não estava sozinha... Eu estava em um grupo de amigos, mas todos foram atacados, não sobrou mais ninguém além de mim. — Ainda falava do chão, mas tentava me levantar aos poucos, para recuperar um pouco de dignidade.
— O nível deles também era abaixo de 60? — perguntou o de voz mais grave. Era alto, sério. Seu olhar parecia atravessar minha alma. Se não fossem os óculos, talvez eu tivesse entrado em pânico.
— Eles disseram que a missão era tranquila. Achei que... daria conta. — Segurei meu cajado firme, enquanto com a outra mão pressionava meu ombro, mostrando insegurança, mais uma vez desviando o olhar como um cachorro que sabe que cometeu um erro. O contato visual sempre foi difícil para mim — essas reações são bem recorrentes.
Minha voz falhou um pouco. Nunca fui boa nesses jogos. Entrei no Bhesda por causa dos meus colegas de classe — queria ter algo em comum com eles. Agora estava aqui, no chão, sendo resgatada por completos estranhos.
— A clássica história dos novatos que acham que são mais fortes que o próprio jogo... — murmurou o ruivo. — Eu vou te contar, viu... — Ele revirou os olhos com desdém. Sua confiança era um pouco irritante, mas de certa forma ele estava certo. Meus amigos viam esse lugar como uma missão qualquer, apenas mais uma forma de adquirir XP e tesouros para comprar novos equipamentos.
A missão não era recomendada para nosso nível, mas achávamos que, por sermos um grupo grande, ela não seria tão desafiadora. Não esperávamos que Bhesda fosse um jogo severo em relação ao balanceamento.
— Hã... posso saber o nome de vocês? — perguntei, tentando mudar de assunto.
— Ué, não viu no Registro? — o garotinho fortão me olhou com um ar confuso, quase inocente.
Naquele momento, quis cavar um buraco e me esconder. Neste jogo temos algo chamado Registro, onde todos os dados dos jogadores podem ser revelados: nome, nível, classe, raça... E quando formamos um grupo, podemos ver até mesmo seus pontos de vida e mana. Como esse menu visual só aparece se encararmos outro jogador por três segundos, acabo sempre esquecendo dele, já que na maior parte do tempo evito fazer isso por educação.
— P-perdão! Eu... sempre esqueço disso — tentei disfarçar com uma risadinha, mas o clima constrangedor permaneceu no ar por mais tempo do que eu gostaria.
Abri o Registro de Jogador.
O de cabelos azuis era Akira Uryu, arqueiro, meio-elfo. O pequeno bárbaro atendia por Kronus, humano. E o ruivo, o líder improvisado do grupo, era Akiguya, cavaleiro humano.
Algo me chamou a atenção: o nível deles era mais baixo que o meu. Mesmo assim... venceram os monstros com uma facilidade absurda.
— Kro-nus... Aki-guya... Uryu... — Franzi as sobrancelhas e repeti os nomes em voz alta, tentando gravá-los.
— Isso aí! Muito prazer, Emma! — disse Akiguya com entusiasmo, apoiando os braços na cintura e estufando o peito, enquanto os outros apenas assentiam com sorrisos simpáticos. — Então... que missão você e seus amigos pegaram aqui?
— Se não me engano... matar um tal de “Lorde Serpente”. — Apoiei-me no cajado, recuperando o fôlego após o estresse.
O nome soava ridículo agora, comparado ao que havíamos enfrentado.
— Então é a mesma missão que a gente! Teus amigos só podiam estar malucos hahaha! — Kronus caiu na gargalhada, segurando a barriga como se fosse explodir. Ele parecia um jovem bastante energético, o que contrastava um pouco com os outros garotos.
— O caminho de volta pra cidade é perigoso. Já que pegou a mesma missão, quer se juntar a nós? A gente te leva pra capital depois. — Akiguya estendeu a mão, sorrindo.
— Não posso usar o teleporte?
— Zona de PvP ativo — explicou Uryu, enquanto cruzava os braços e guardava o arco. — Teleportes são desativados pra evitar fuga durante combates.
Seu tom era calmo. Quase terapêutico. Com ele por perto, dava até vontade de confiar no mundo.
— Nesse caso... aceito. — Coloquei a mão no peito, indicando que confiava. — É o mínimo que posso fazer como forma de agradecimento. — Deixei um sorriso escapar para assegurar que confiava neles. Eles poderiam ter me matado ali mesmo, pegado meus itens... mas, em vez disso, me ofereceram ajuda. Então, acho que posso lhes dar o direito de confiança.
Eles sorriram. Um sorriso que parecia dizer: “Vai dar tudo certo.”
Levantei-me, sacudi a poeira das roupas e segui atrás deles, pronta para retribuir o que fizeram por mim.
— Muito bem, vamos nessa! — exclamou Akiguya, apontando sua espada para a entrada da masmorra. Fui logo atrás, enquanto os garotos iam de peito aberto, sem quaisquer preocupações.

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