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Aurora Espelhos Vazios

Mais afundo do fundo do poço

Mais afundo do fundo do poço

May 27, 2023

This content is intended for mature audiences for the following reasons.

  • •  Mental Health Topics
  • •  Cursing/Profanity
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Existe uma crença propagada por inúmeras civilizações e cantada por povos já esquecidos que ao cair na escuridão, sua consciência imortal depara-se com a imensa energia branca, esta seria responsável por te conduzir ao vale da Casa Estrelada. 

Bom... Não sei dizer sobre as estrelas, ou sobre a tão esperada Casa, mas certamente há muita luz aqui. Muita luz e vários nadas. Nada que seja de real importância. Nada além de muitos espelhos.

Os velhos conhecidos me dão as boas-vindas. 

Centenas de espelhos retangulares se encontram espalhados na imensidão branca, pendurados no nada, encarando meu novo fracasso. 

Porra! 

Encaro meu reflexo mais recente, meu dragão dourado, a magnitude selvagem enrolada em suas belíssimas escamas impenetráveis. Esse foi o mais perto que cheguei da perfeição. 

Um predador nato, poderoso, cheio de energia e lotado de experiências. Cacei e brinquei com diversas vidas. Roubei suas terras, seus ouros, suas amadas e seus amantes. Construí com minha própria força um refúgio perfeito, na montanha mais alta, isolada e com barreiras naturais. Para alguém chegar até a mim, precisaria enfrentar o fim do mundo e mesmo que me alcançasse, enfrentaria aquele que governa o fim.

Ou era o que eu pensava. 

Não sei como ele me alcançou, essa foi a primeira vez que nos encontramos, mas dá para deduzir que ele conhece o motivo de eu estar aqui, o porquê de eu ter que ficar repetindo esse processo e como pôr um fim nisso. Se ele tem as informações que preciso, eu as terei um dia. Nem que seja necessário eu arrancá-las de sua garganta e fazê-la cantar para mim.

Navego entre os espelhos em meu estado natural, leve, intangível, uma bola de energia amarela sem um corpo físico. Uma energia viva, senciente, acordada. Um fio de luz circulando o vazio de cascas desabitadas. Analiso as minhas imagens, as milhares de representações em corpos diferentes, presos em suas cápsulas refletoras.

Provas de que já vivi muitas vidas, de que acumulei muitas experiências e vivenciei diversos tipos de tragédias. Situações que acreditei ter deixado para trás, na fé de que meu dragão seria suficiente para viver confortavelmente. E foi, por alguns séculos de hibernação, apenas existindo e aproveitando o silêncio do tempo. 

Mas não para encontrar enfim a paz, não a ponto de me sentir satisfeito, não quando ao circular pelos meus tantos fracassos ver que tudo foi em vão. Assisto eles dormirem pacificamente, em seus estados preservados, sem terem que lidar com minha autodepreciação. 

Seres tão antigos quanto a vida, quanto ao mundo que me abrigou. Espécimes de todos os tipos — insetos venenosos, animais rastejantes, aves, répteis, mamíferos extintos e alguns seres que sequer lembro de existir — Cada um com seus próprios instintos e energias da vida. 

Alguns se tornaram existências de segundos, outros me parasitei em vidas mais longas, capacidade que construí conforme eu fui renascendo. 

Com as experiências passadas de vida em vida, eu fui me adaptando ao ambiente até que minha consciência foi gerada.

Estive presente na evolução das espécies, testemunhei a energia afetar o mundo ao meu redor e cada criatura que foi influenciada pelo processo da adaptação. Alguns perdendo completamente seu formato de origem, outros ganhando habilidades e características essenciais para suas sobrevivências. 

Foi lindo, eu vi acontecer, eu senti na carne. 

A princípio eu atravessei os espelhos sem pensar, por instinto, pela necessidade de viver. Eu quis existir um pouco mais, de sentir tudo de novo, de ir além do limite de meu corpo, onde eu poderia expressar minha evolução e desafiar espécies que um dia me foram oponentes. Eu sempre segui em frente com a sede de respirar o ar limpo da existência.

Até que eu me tornei uma humanóide. 

Um Ser de beleza pelada, que anda sobre duas pernas e de orelhas inteligentes e pontudas. 

Com a parede da racionalidade derrubada, passei a pensar, a sentir além do instinto. Criei esperanças, fé e desejos. Descobri as emoções — sensações involuntárias contraditórias do desejo inato — ao invés de seguir meu corpo, segui meu coração. Senti medo, amor, felicidade e raiva. 

Experienciei a existir além da carne. 

Me tornei falho. 

Nasci um pouco depois da era em que os seres mais fracos evoluíram suas capacidades de pensar. Aqueles com maior inteligência e menor resistência física começaram a se agrupar e criar clãs, uma imitação barata do que já existia entre os mais selvagens, mas que houve êxito pela ganância que nasceu junto aos seus neurônios egoístas.

Estes seres se vangloriavam pelas suas culturas, cultos e conflitos que criavam. Cada um mais diferente que o outro em termos estéticos e assimilação com a natureza, porém iguais demais em arrogância. 

Foi até engraçado assistir como espécimes tão diferentes, eram tão similares. Talvez seus cérebros foram desenvolvidos iguais, ou talvez as circunstâncias foram as mesmas. Independente de como foi que surgiram as novas espécies pensantes, foi com elas que o mundo em si se transformou. 

Aqueles que viviam pela fome foram transformados em nada, em objetos viventes. Enquanto os que antes morriam para eles, agora são a soberania. 

Foi nessa brincadeira de egos que eu morri, mais precisamente, na tentativa dos humanos de subjulgar os elfos. Humanos que perceberam quão fácil seria dominar um pequeno clã élfico. 

Um irrelevante clã isolado, formado por trinta homens e vinte e duas mulheres, incluindo as crianças. Vivíamos do que produzíamos. E quando um dos nossos se aventurava em terras distantes, ele aprendia novas funções e trazia novas tecnologias. Era uma experiência mútua, aprendíamos o que era necessário para nós e implantávamos em nosso meio. Nossa gigantesca afinidade com a natureza era o bastante para vivermos saudavelmente. Mas não foi o suficiente para a energia destrutiva que nos atingiram. 

Aqueles que sempre viveram em paz, nunca estariam prontos para a guerra.

Em algum momento a ganância da vida virou inveja, dor, raiva e possessividade. Comecei a atravessar os espelhos com pura energia negativa, nascendo em cascas tão perturbadas quanto meu ser. Enfrentei um mundo de corrupção, de ódio e medo.

Enfrentei os espelhos como um touro em perseguição.

Reiniciei o processo até que minhas emoções não valessem de nada. 

Até que me dei conta de que nada do que eu fizer vai me salvar das minhas próprias frustrações. 

Nada me salvaria de mim mesmo. 

Meu desejo de construir e destruir foram mortos. Sem eles eu não valia de mais nada. 

O que eu poderia fazer se tudo o que me movia já não me move mais?

A sensação de morrer dentro de si mesmo foi avassaladora, me tornei uma casca vazia, uma energia esgotada. Já tinha passado por tanto. Por que eu continuaria a me arriscar? O que eu conseguiria com isso? Vidas e mais vidas de puro nada.

Foram tantas tentativas, conheci tantos seres e acumulei tanta energia. E onde cheguei com isso? 

Não havia mais o que fazer, não teria nada do outro lado que me satisfaria.

Eu desisti.

Finalmente enfrentei o vazio branco, me acomodei entre espelhos mortos e me entreguei à solidão. 

Fiquei aqui perdido no tempo, congelando minhas entranhas fantasmagóricas e os meus cacos quebrados. 

Nada existiu, nem deixou de existir. 

Talvez esse seja o significado da morte, algo que está lá, mas também não está.

Eu preferiria não ter existido, eu implorei tanto.

Aos poucos eu fui me esquecendo, esquecendo os motivos que um dia tive para seguir em frente, os motivos que me motivaram a atravessar e os motivos que me fizeram desistir disso também. Eu fui esquecendo de sentir.

Minha existência se reduzindo ao nada, o que tanto desejei se tornando realidade. Eu finalmente me tornaria apenas um pingo de luz.

Eu por fim deixaria de chorar, sofrer, morrer, rir, amar, contemplar a vida. Era tudo o que eu queria, não era? Deixar de sentir, existir ou até mesmo de pensar?

Eu estava mais afundo do fundo do poço.

Até que um espelho vazio me chamou, uma energia quente e selvagem atravessou por ele e me cobriu de calor. Um calor confortável, seguro e sincero. Um fio de esperança, do que exatamente eu não sabia. 

A sensação me abraçou, como a primeira vez que me vi envolto de luz. Eu queria ter abandonado, eu sabia que aquele calor me queimaria um dia. Eu sabia que o que trás felicidade também trás dor.

Mas eu abracei de volta. 

Qual outra alternativa eu teria? Nada me levou daqui, nada veio me ver, nada e mais nada.

Foi também, o que vi ao renascer. 

Contudo o fio de esperança permanecia, eu cavei, esmurrei, me debati em busca da vida e vi mais do que a luz branca um dia já me trouxe.

Eu vi poder, eu senti a glória.

Nasci um dragão.

Finalmente voltei às minhas origens selvagens, finalmente eu poderia ligar o foda-se para o mundo e viver da minha maneira. E eu o fiz. Novamente vi o tempo passar, o mundo mudar e a vida evoluir. Seres vivendo seus preciosos segundos da melhor maneira que poderiam. Espécimes curiosas descobrindo as leis da natureza, o limite do mundo e da vida. Criaturas dividindo seus limitados tempos com seus cônjuges e multiplicando sua presença no mundo com mais vidas. Eu vi tudo. 

Assisti os outros viverem o que eu não poderia. Não sem me quebrar em mil pedaços novamente. Mas está tudo bem, eu poderia coexistir com essa ideia. Eu ganharia o mundo por outras mãos. Eu teria a porra de uma vida em paz, certo? Eu conseguiria respirar a liberdade?

Não.

Eu não ganhei esse direito. Eu não sei o que eu sou, por qual razão eu tenho repassado infinitamente o mesmo processo. Eu não faço a mínima ideia do motivo da minha existência ou por que caralhos eu não posso simplesmente deixar de existir. 

Maldição!

Mas dessa vez eu terei um motivo para reencarnar, para vagar pelo mundo e passar por todos os transtornos novamente. Eu encontrarei o ser que me trouxe aqui, encontrarei o ser que me criou, descobrirei a razão da minha existência, como quebrar esse ciclo e farei ele passar pelo o que passei. Arrancarei sua cabeça, comerei sua carne, esmagarei seu corpo, drenarei seu sangue, arrancarei suas estranhas, esfolarei  sua pele e com ela vou criar um manto. 

Me vingarei. 

NobaraRose
NobaraRose

Creator

Jogado ao ciclo

#magic #Reincarnation #species #evolution #Dragon #Revenge #portugues

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"Nunca pare de evoluir". Foi o que eu ouvi antes dele me matar e me condenar ao ciclo infinito de renascimento. Seria graciosa sua atitude, se eu já não tivesse dado tudo de mim em todas minhas vidas, porra!
Quantas vezes mais terei que repetir esse processo? Quantas vezes mais morrerei em solidão? Quantas vezes mais perderei tudo o que já construí? Quando finalmente terei paz? Novamente eu fui jogado no vazio, no desespero de minha alma angustiada, repetidamente entregue ao acaso.
Em toda a minha existência eu lutei contra o oculto, mas diferente de antes, agora eu sei quem me amaldiçoou. Enfrentarei meu novo destino, dessa vez eu não farei tudo em vão, não irei lutar para sobreviver, eu não vou ser um fantoche. Eu serei o caçador e a caça é o maldito que me acordou.
Ele verá o que é evolução.
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