Parte 2.
— Maggie? Chegamos! — Jake anuncia nosso retorno, ao abrir a porta.
Vejo ele descansar o Javali, de cabeça para baixo, na despensa. Nossa despensa tem um tamanho considerável, suficiente para trabalhar com animais de grande porte.
Jake endireita a coluna rolando os ombros para trás, e jogando sua cabeça ruiva de um lado para o outro. Mesmo que ele tenha usado seu poder para levitar a maior parte do peso da fera, ainda são quinhentos quilos sendo carregados. Nem me surpreendo mais em ver ele fazendo isso, segundo Jake, não passa de tarefas rotineiras de um caçador. Acredito que é por isso que ele é tão forte, são poucos os humanos que vi ter dois metros e oito centímetros de altura e de puro músculo.
— Finalmente! Achei que...— Maggie trava na porta da cozinha, secando lentamente as mãos em seu vestido, com os olhos travados no Javali pendurado.
— Impressionante! Conseguiram pescar um javali de três metros... — Ela fala com seu tom venenoso olhando para Jake, que se posiciona atrás de mim.
Do que ela está falando?
— Pesc…— Tento pronunciar as palavras, mas meu pai tampa a minha boca com sua mão gigante. Pode se dizer que ele quase tampou minha cara.
— Pois é, amor... Estávamos indo em direção ao riacho, mas um javali entrou no nosso caminho.
Oh... Entendi... Dou risada tremendo os ombros. Jake me aperta mais e Maggie avalia nossa situação e sorri.
Tremo da cabeça aos pés. Sei o que aquele sorriso anuncia e Jake sente o mesmo.
— Se você me livrar dessa, eu não conto para sua mãe que você entra escondido de madrugada na dispensa — Ele sussurra.
Cretino! Se Maggie souber disso, fico sem comer mel por um mês, e eu preciso desesperadamente de minha dose diária.
Aceno em concordância e ele solta sua mão da minha boca. E agora? Como vou convencê-la a esquecer disso?! Pensa, porra!
— Olha, mãe... Jake não fez por mal. O javali entrou no nosso caminho e era um jantar mais fácil do que pescar peixes — Dou minha cartada inicial. Em partes é verdade, pescar leva tempo, paciência e cuidado.
O silêncio se aloja em casa, o casal me olha como se eu tivesse falado a coisa mais ridícula do mundo. Droga! Não sei mais o que inventar, não sou bom com mentiras. Nunca precisei mentir, nem escapar de nada.
Aparentemente isso não funciona em uma relação familiar, não importa se você é forte o suficiente, se um dos seus pais mandam você fazer algo, você faz.
— Jake, ela? — Minha mãe deve ter notado a mentira.
— Desculpa mãe, não queríamos ver você brava — Abaixo minha cabeça esperando por sua repreensão.
Ela se aproxima rápido de mim e eu curvo mais meus ombros. É assim que os pais ensinam suas crianças, correto?
Espero pelo toque pesado... Que nunca chega, não sinto a dor.
Sou recebida por braços quentes me apertando em direção a um peito trêmulo. Sinto algo molhar minha cabeça. Eu machuquei ela? Foi pela mentira?
Olho em direção ao meu pai sem entender o que está acontecendo, pedindo por ajuda. Ele sorri como se estivesse vendo o paraíso.
— Fiz algo de errado? — Sussurro.
Ele nega com a cabeça
— Você chamou ela de mãe, querida, pela primeira vez.
Oh... Eu fiz?
Aquele papo de mais cedo deve ter ficado na minha cabeça. Maggie me aperta de novo e eu retribuo o abraço.
— Ela me chamou de mãe. Minha Aurora. Meu raiozinho de sol.
Sinto um calor estranho no peito. Afasto-me dela aos poucos, me prendendo em seus lindos olhos de oceano. Maggie é deslumbrante, olhos azul-celestes, corpo de uma guerreira, um metro e oitenta centímetros e cabelos castanhos. Embora mais alta que a maioria das humanas fêmeas, Maggie é o significado de beleza.
Ela acaricia meu rosto, apreciativa.
— Obrigada — Maggie volta a falar.
— Por?
— Por estar presente aqui e agora.
— Eu... Não fiz nada.
— Você existe, já o suficiente — Maggie beija minha testa.
— É assim?
— Claro! — Ela me aperta, rindo.
Algum dia alguém já me agradeceu por eu estar vivo? Caralho! Quão quebrado eu tenho que estar para achar isso o máximo?
— Você parece não acreditar em mim — Maggie me encara com suas bochechas cheias de ar.
— Não é que eu não acredite, é só que... Eu não entendo. Não fiz nada de importante.
— Ora! Você não precisa ter feito nada para que você seja alguém importante para mim.
— Não? — Desde quando há recompensas, sem afazeres?
Olho para ela, e ela retribui com um riso. Por que ri?
— Seu rosto é uma página aberta. Dá para ler o que se passa nessa sua cabecinha, deixe-me esclarecer com uma pequena história — Ela diz, petelecando minha testa com seu dedo comprido.
Maggie senta no chão e me puxa para o seu colo, instruindo Jake a nos acompanhar.
— Sabe... Mesmo com todo o nosso amor, eu e o seu pai não pudemos ter filhos — Ela começa.
— Quando ouvimos um choro de bebê na nossa porta, achávamos ser algum truque de algum ser corrompido que queria nossa carne, seria fácil caçar duas pessoas no meio do mato. Mas seu pai, que nunca teve medo, caminhou até a porta segurando um machado. Preparado para cortar qualquer coisa ao meio. Abrimos a porta com cuidado, esperando por um ataque a qualquer momento. Porém, nada aconteceu. Cheguei a pensar que fosse algum animal ferido ou qualquer outra coisa, tudo era possível. — Ela respira profundamente e continua.
— Iríamos deixar quieto, voltar e fingir que nada aconteceu. Mas novamente ouvimos o choro, e como se fosse ensaiado, eu e Jake olhamos para o chão. Lá estava um presentinho numa cesta de doces, nos entre-olhamos, palavras não ditas foram propagadas entre nós. Com certeza só poderia ser um truque, como eles saberiam que não podíamos ter filhos? Como eles poderiam deixar um recém nascido, embrulhado e desprotegido no meio da floresta? Como eles ousariam abandonar uma pequena criatura em mãos que não conheciam? — Minha mãe começa a descrever nosso primeiro encontro.
Eles não mantiveram segredos sobre minha adoção, não era necessário, somos muito diferentes fisicamente.
— Eu e Jake refletimos a situação, ou isso era um truque, ou uma benção. De qualquer maneira, alguém estava brincando conosco. Desci a cesta para o chão com medo de ser uma armadilha, me envergonho de pensar que te deixaríamos na porta com medo de enfrentar o desconhecido. Mas você foi esperta, você de alguma forma, conseguiu tirar sua minúscula mão do embrulho e segurou a minha que estava apoiada na cesta, um toque leve, quente, real. Foi ali que decidi enfrentar as consequências. Te desembrulhei imediatamente e a sorte finalmente tinha me encontrado. Quando vi seus lindos olhos de mel e seus fios de ouro na cabeça, descobri que fui presenteada pelo mundo e banhada pela luz do sol, meu pequeno raiar do dia, minha Aurora. Naquele dia eu prometi a mim mesma que faria tudo por você. E estou tentando ao máximo. É lindo ver você crescer, desenvolver suas habilidades mágicas e menosprezar os humanos — Maggie ri entre soluços.
Meu pai vem pelas minhas costas e se junta a nós.
— Não chore pequena — Ele fala.
Me fazendo notar que a umidade no vestido da minha mãe vem de mim. Como?
— Filha, estou te contando isso porque espero que saiba que você é a melhor coisa que poderia ter nos acontecido. Eu não mudaria nada. Este é o momento mais feliz da minha vida. Te amamos — Ela finaliza.
Aceno em concordância, a confissão de algo que eu não tinha percebido até esse momento.
É possível amar quando você sabe que nunca poderia aproveitar esse amor?

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