Parte 2.
Puta merda, eu morri? Tudo bem, eu sabia dos riscos, mas isso nunca aconteceu. Fui precipitado com meu corpo humano?
Olho ao meu redor, reconheço a imensidão branca, mas diferentemente do que das outras vezes, eu não vejo milhares de espelhos, somente um. Um único espelho a cem metros de distância. Que porra? Corro em direção à ele, meu corpo já não dói mais aqui, finalmente é possível respirar. Espera, corpo? Por que estou num corpo?
Um arrepio sobe por minha coluna. Diminuo minha velocidade, caminho com cuidado, prestando atenção no meu novo ambiente. Chego ao espelho, sem reflexo, um espelho falso. Me aproximo inspecionando seu material, toco com as pontas dos meus dedos esperando por algo tangível, mas minha mão atravessa.
Um portal? Uma armadilha? Paro em silêncio, espero por uma reação, qualquer coisa. Nada acontece. Os sinais dentro de mim alertam o perigo, preciso sair daqui, mas para onde? Olho em volta procurando por algum outro portal, algum com menos probabilidades de dar muito errado. Nada além do branco. A única forma de encontrar algo é seguir em frente. Merda!
Entro lentamente no que era para ser um espelho, a nostalgia de nadar na lama me cumprimenta desagradavelmente. A sensação horrível de ter o corpo sendo inteiramente sugado na lama invisível, sem nenhuma partícula, apenas o vácuo transparente. É a mesma impressão de levar um tapa na cara mas não saber da onde veio, sua única prova é a dor.
Em questão de segundos atravesso o espelho e caio no abismo escuro, um breu cegante. Por que não uma imensidão branca? Chamo minha magia de fogo na busca por iluminação. Sem respostas. Tenho que voltar, não tem como isso dar em boas notícias. Recuo um passo, espero pelo toque energético do portal, mas não o encontro. Merda, merda, merda!
Continuo recuando até dar de costas numa parede. Ok, tem paredes aqui, significa que pode ter uma porta, né?
Aliso a parede tentando encontrar uma saída ou qualquer coisa que possa resultar na minha evasão. Passo a mão por suas oscilações, continuo alisando a parede, enquanto caminho para alguma direção. Sem poder enxergar e sem magia, meus únicos suportes passam a ser meu olfato e tato. Não me ajuda muito que meu tato seja tão jovem, a sensação de toque de quando eu era um dragão é diferente da sensação que sinto com os dedos minúsculos de uma humana.
Prossigo massageando a parede, o movimento de vai e vem dela me faz parar no lugar. Tenciono. As paredes não se mexem. Merda! É muito tarde para eu tirar minha mão?
Um sopro quente cobre meu corpo e depois de mais cinco minutos ele se repete. Foda-se! Seguir em frente é o caralho! Dou um passo para trás, me viro no que deduzo ser o caminho de onde vim e começo a correr. Acabei de alisar algo tão grande quanto uma parede, minhas probabilidades são de morte, ou morte. Chamo minhas habilidades, meus dotes, qualquer merda, nada. Porra!
Sigo correndo sem saber para onde ir, passos atrás de passos, movimentos agindo antes da razão, o desespero me fazendo quase levitar. Era melhor se eu realmente conseguisse voar.
Sinto algo bater em meus pés e minha cara ir de encontro ao chão. Urgh.
Me levanto rapidamente, mesmo com meus joelhos tremendo de dor e com o gosto de cobre na boca, me endireito para voltar a correr.
— Não tem para onde fugir — Ouço uma voz grave e familiar.
Me viro em direção a ela, em meio à escuridão predominante, olhos dourados se abrem à distância.
Reconheço meu lugar aqui, definitivamente não sou o caçador.
— Onde estou? — Pergunto sem saber para quem.
Eu não deveria tentar dialogar, mas que outra opção eu tenho? Continuar correndo sem saber para onde ir? Sem magia? Não, não sou idiota. Vamos encurtar a baboseira injustiçada.
— Na nossa câmara de inatividade — Ele responde com rouquidão.
— Nossa?
— O que um dia já fomos.
Isso é a merda de um enigma?
Reconhecendo a ausência de compreensão por minha parte, o indivíduo faz centenas de fagulhas surgirem, criando luminosidade o suficiente para eu enxergar uma criatura gigantesca, ainda deitada e me olhando com atenção. Um ser belo, em detalhes dourados.
Agora sim faz sentido o falso enigma, estou de frente ao meu eu anterior.
— É estranho estar aqui embaixo — Declaro em voz alta.
— Concordo, é estranho eu ter consciência. — O Ser belo bufa o que era para ser uma risada.
É estranho eu apreciar minha antiga forma? Tipo, era eu. Um majestoso eu.
— Como? — É a minha pergunta do século.
— Gostaria de saber, apenas acordei quando você se afastou da nossa cela e iniciou sua nova jornada.
Em alguns séculos então.
— Como você sabe sobre a iniciação?
— As memórias de quando éramos um, permanecem em mim.
— Como isso é possível?
— Também me faltam informações.
Claro.
— Como vim parar aqui?
— Parece que nada mudou... — O Dragão suspira cansado — Eu sabia que você ia tentar ter acesso ao meu poder, fizemos isso antes com os outros. Quando senti algo me sugando, eu puxei de volta.
Assim, tão fácil?
— Por qual motivo?
O que um corpo meu iria querer?
— Assinei um questionário e não me lembro? — O Dragão me pergunta com seu humor sarcástico de merda.
Nosso humor sarcástico de merda.
— Bom... Você me puxou aqui. O que esperava? Chás e bolos?
— Tsk! Não é tão difícil de entender. Acordei na escuridão e não quero ficar preso aqui.
Que merda de resposta é essa? E como ele pode usar magia aqui e eu não?
— Você pretende trocar de lugar comigo? — Volto ao quest... Assunto.
— Não. Não tenho esse tipo de controle. Você não está fisicamente aqui. Apenas sua energia.
Isso não explica muita coisa.
— Então o que você quer?
— Simples. Quero fazer um acordo.
Sim... Mamão com açúcar...
— Que tipo de acordo?
— Quero estar acordado em sua consciência. Quero ver o mundo pela sua perspectiva.
— Em troca de que?
O que você tem que me interessaria?
— Em troca de meu corpo.
— Seu corpo?
Como isso me ajudaria?
— Você veio buscar a energia desse corpo. Mas sem a resistência de um dragão, seu corpo humano definharia. Estou te oferecendo uma conexão entre nós. Você no seu mundo, comigo nesta cela.
"Uma alma por outra alma". Seu corpo resistente, por minha sanidade nada prejudicada.
— Como?
— Basta você dizer sim.
E a vida, enfim, seria mil maravilhas...
— O que impediria você de tentar dominar meu corpo e me trair?
— Já te falei, eu não conseguiria. Só quero mentalmente sair daqui.
— Como posso confiar que você não foi corrompido?
Por que do nada ele está acordado?
— Eu não possuo qualquer sinal de magia corrompida. Além de que eu sempre estive em você, só que sem acesso ao seu consciente. Se eu estivesse corrompido já teria te afetado.
— Por que tudo parece tão fácil?
— Porque é. Da mesma maneira em que usamos fogo e não precisamos pensar em sua fórmula. É natural. Você só precisa sentir nós coexistindo.
— Se é só sentir, por que não posso usar o fogo aqui e você pode?
— Mesmo que eu esteja em seu consciente, aqui ainda é meu território. Eu posso usar, pois é onde minha energia está guardada dentro de você.
É tudo muito estranho, muito suspeito, muito incerto e poderia resultar em tragédia.
Porém é intrigante, eu preciso de um corpo resistente e pouparia muito tempo — coisa que os humanos não tem — de cultivo.
Quem não arrisca, não petisca...
— Vou logo avisando, não estou de passeio neste novo corpo, meu objetivo é matar o Ser que nos matou. Não será uma vida confortável como a que vivemos, pode dar tudo muito errado. Apesar disso, prometo vingança.
Ele se levanta, aumentando a distância entre nós, a ponto de eu não enxergar mais seus olhos e sopra um bufo que chega levemente em mim.
— Aquele inseto de merda, ele merece pior que a morte. Irei te acompanhar novamente, dessa vez vou te ajudar a consumi-lo.
É estranho conversar com ele, é como se eu estivesse falando comigo e ao mesmo tempo com um ser totalmente diferente, os anos de separação entre nós, de alguma forma me afetou.
— Só uma pergunta antes.
— Sim? — Ele pergunta hesitante.
— E os outros corpos? Mais alguém acordou?
Ele suspira
—Tudo permanece em silêncio, exceto por eu estar consciente.
Sua consciência é a porra de uma incógnita.
— Iremos investigar isso também. Certo dragão...
— Me chame de Glint — Ele me interrompe rápido com uma entonação aguda.
— Oh, você se deu um nome?
Sua cauda balança com o constrangimento.
— Bom, digamos que você ficar pronunciando minha raça é meio rudimentar. E acredito que combinamos com o nome — Ele fala virando seu rosto de lado.
Eu nunca tinha pensado em um nome para minha forma dracônica, era indiferente ter ou não, eles sempre me chamavam de monstro. E os da minha espécie não se familiarizaram comigo.
Ainda assim, o ser na minha frente parece se importar, eu respeitarei seu desejo.
— Bom, acho que agora não posso mais errar meus pronomes, meu antigo eu, já não me pertence mais — Dou risada da situação.
Sua postura se enrijece e sua cauda deixa de se mover. Glint volta a me dar atenção.
— Sempre pertenceremos um ao outro.
Sim...
— Certo, Glint, temos um acordo.

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