Parte 2
POV Nim
Hoje, eu gostaria de ouvi-la me pedir, gostaria que por mais uma vez eu fosse útil para ela.
— Gente, ainda não acabou — Cam nos avisa o óbvio.
O tempo de descanso chega ao fim, o corpo da criança espalhado no pano vermelho, finalizou a transformação. O cubículo que ela chama de quarto, agora está ainda mais reduzido com o aumento de sua altura e da pressão de sua existência.
Vapor quente emana de sua pele e com ele veio um tom dourado.
Não como sua própria aura — normalmente um brilho de luz — é mais como se sua pele estivesse se transformando em ouro. Mais precisamente, emergiram escamas de ouro em seu corpo.
Isso é possível? Como a pele se transformaria em metal?
— Uma transformação licantropa? — Cam supõe.
— Não acho que seja. O licantropo se transforma num outro ser vivo de origem animal, coisa que ela não fez. Apenas se revestiu de ouro. Os únicos seres vivos que possuíam tal capacidade, eram os dragões e Aurora nitidamente não se transformou em um — Mil responde.
— Do mesmo jeito que ela simplesmente não seria capaz de transformar sua pele em ouro — Cam ainda tenta defender sua tese.
— Sim, algo de tal magnitude nunca ocorreu. Não tem haver com uma modificação licantropa, isso possui sinais de uma transformação Berserk — Mil declara sua hipótese.
— O qu-que é o-o mo-modo be-berserk? — Pergunto à Mil.
Mil é a mais velha de nós, além dela possuir algumas memória antigas, ela faz parte da primeira demanda de ninfas e é nossa fonte de informação.
— Nada mais do que a armadura. Alguns seres ultrapassam o limite de seus corpos conforme suas necessidades, fortalecendo músculos, ossos e pele até criar uma armadura própria. Alguns viram monstros, outros apenas selvagens e...
— E como o dela criou metal? — Cam a interrompe.
De fato existem guerreiros que despertam seus modos brutos e selvagens. Mas criar ouro? Isso é impossível.
— Eu não tenho uma boa resposta para isso. Além de seus dotes.
— Está me dizendo que ela fez o ouro através de sua magia? — Cam pergunta.
— Algo do tipo — A voz de Aurora nos surpreende.
Alívio se derrete em mim, finalmente posso respirar, mesmo que nada ainda tenha sido esclarecido. Estávamos tão distraídas em descobrir o que estava acontecendo, que nem reparamos que ela tinha acordado.
Minhas irmãs param a conversa para observá-la.
Aurora se levanta, ignorando suas impurezas e reparando em sua nova conquista. Ela está revestida dos pés à cabeça em ouro. Seu corpo inteiro possui escamas douradas, com detalhes mínimos que demonstram ser uma armadura e não uma segunda pele. Seus pés estão fechados numa espécie de bota que chega até sua canela, pelo menos é o que parece, com as escamas maiores que as outras cobrindo seus joelhos.
O mesmo padrão acontece em seus ombros, seios e nas costas de suas mãos. Embora as que estão nas costas de suas mãos sejam mais propensas a um quadrado, do que um círculo. Assim como em sua pélvis que as escamas ganham um detalhe triangular. Ignorando as formas geométricas, garras são projetadas no lugar de unhas e escamas menores sobem por seu pescoço até a altura do seu rosto.
Ouro substitui sua face angelical por uma mais animalesca, com presas longas e chifres.
Dou a volta por seu corpo, hipnotizada pela beleza de seu novo avanço. Isso tudo é tão assustador e magnífico. Se eu não tivesse presenciado toda a cena, acharia ter sido feito artificialmente.
Suas costas e pernas também estão cobertas de escamas douradas. Nas costas de seus joelhos, nuca e em seu tornozelo até o tendão de aquiles, contém uma escama protetora. Preservando áreas importantes que geralmente são esquecidas numa luta. Uma armadura inteligente, eficaz e útil.
Ainda que o material pareça desconfortável, pesado e de pouca mobilidade, os movimentos suaves de Aurora jogam todo nosso senso comum no lixo.
Vejamos... Por algum motivo sua coluna vertebral está desenhada. É bonito, uma particularidade interessante, mas por quê? Aliso distraidamente o declínio no meio da coluna... É... Sem objeções. De fato é metal, não tem nada da maciez da pele.
Em discordância, o metal treme com meu toque. Tem sensibilidade? Seria útil numa armadura?
O metal vibra novamente e por um momento eu esqueço que não estou sozinha, esqueço que não estou tocando de fato numa armadura e sim em Aurora. Interrompo meu passeio e olho para cima.
Aurora está com seu rosto levemente inclinado em minha direção, ao mesmo tempo que seus olhos — um brilho dourado no fundo da máscara — perseguem meus movimentos.
Eles sempre possuíram tal cor, porém hoje estão ainda mais evidentes com suas pupilas de réptil. Seu rosto na forma de uma caveira animal me faz estremecer, eu nunca precisei ter medo dela, cuidamos e vimos a Aurora crescer. Não é a menina de dez anos que me preocupa, é a energia primitiva que ela emana.
Seu corpo age como se estivesse em transe, como se avisasse seu interesse predatório. E talvez esteja.
Semelhante a uma presa avistada, eu paro no lugar, não ouso mexer um músculo.
Ela aproxima sua mão de mim, a qual deveria ser pequena para sua idade. Que não deveria ter garras.
Aguardo seus movimentos, espero pelo toque bruto. Ao invés disso, sua mão continua o trajeto até sua coluna, alisando-a como eu fiz, demonstrando ter notado a mesma diferença que eu.
Subo meu rosto em direção ao de Aurora, ela mantém suas expressões ilegíveis, no entanto, atentas. Seus fios dourados combinando mais do que nunca com sua nova face.
Deço meu olhar para a sua coluna, ela passa a mão na base perto de seu glúteo e como se não fosse o suficiente de demonstração, a coluna desenhada se solta da armadura e se projeta na mão da garota.
— Um chicote — Ela esclarece e reparo que sua boca não se mexeu.
Ela olha para mim.
— Um chicote no formato de uma cauda.
— Do esqueleto de uma cauda, você quer dizer — Cam fala se aproximando.
Verdade, eu nunca estive sozinha aqui.
— Isso é incrível! — Cam se entusiasma, pouco antes da surpresa acabar.
— O que está acontecendo aqui Aurora? Por que seu corpo foi destruído? Por que você desmaiou e o que essa transformação significa? — Mil interroga a criança.
Sua falta de consideração, tornou-a em uma biblioteca ambulante. Mil não tem aptidão para formalidades, se ela se interessar por algo, ela vai fazer uma investigação minuciosa, mesmo que seja inconveniente.
Aurora brinca com o chicote em mãos, antes de esclarecer as dúvidas da Mil.
— Eu já falei, eu precisava aumentar minha força. Aparentemente o que minha energia e meu corpo entendeu com isso é que eu precisava da armadura.
— Por que seus ossos e músculos quebraram e romperam-se?
— Para adaptar meu corpo ao modo berserk.
— E o desmaio?
— Eu não aguentaria passar pelo processo estando acordada.
— E...
— Olha, não me leva a mal, Mil. Estou ciente do quanto vocês me auxiliam, mas isso aqui não é uma entrevista. Você está me fazendo perguntas óbvias, se quer saber de algo relevante, pergunte logo.
Aurora está certa, estamos rodeando o assunto. Temos perguntas, mas talvez não seja a hora de fazê-las. A garota fugiria de nós e isso não é uma opção.
— Vo-você es-está bem? — Digo, ela é uma garota de dez anos que passou pelo inferno.
— Não sinto dor, se é o que te preocupa. Mas estou cansada. Podemos deixar as perguntas para depois? — Ela profere em tom pesado, exausto.
Sua armadura se desfaz aos poucos, entrando em sua pele, trocando as escamas pela maciez humana.
— Claro...— Mil desiste.
Ela deve ter percebido que pressionar Aurora não nos levará a lugar nenhum, nunca levou.
— Mas antes disso — Mil continua.
— Sim? — Aurora recolhe o tecido vermelho e com seus dons, ela começa a limpar o quarto.
Para aqueles que sabem aproveitar a vista, isso aqui é um show de elementos.
A água sendo usada para tirar os resquícios de pele e do sangue no chão, o vento para guiar e manter a sujeira num vórtice e fogo para apagar os vestígios.
Estou assistindo uma criança brincando.
A garota não manipula seus dons e poderes, ela os controla. Eles a ouvem e obedecem.
Esse simples ato tosco, nos causa inveja. Nunca poderíamos usar tantos elementos ao mesmo tempo com tamanha facilidade.
Claro, somos fortes, temos nossos dons e habilidades. Contudo, mesmo que sejamos conectadas diretamente com a natureza, a sensação que sentimos ao usar nosso dom é de alguém que está manipulando uma arma e não de quem nasceu com ela implantada no corpo. Os papéis sempre se invertem aqui.
— Lembra que suspeitamos do envolvimento dos Faes com o transtorno na floresta? — Mil continua, puxando-me de meu estado absorto.
— Lembro — Aurora dá atenção ao assunto.
— Precisamos que você descubra o quão envolvidos seus pais estão nisso.
Espera... Por que o assunto está sendo tratado levianamente? O plano não era marcar a reunião primeiro?
— O que você quer dizer com isso? Por qual motivo meus pais teriam envolvimento com os Faes? — Aurora fala, fazendo o assunto pesar.
— Seus pais não possuem núcleo, Aurora.
Um balde de água fria é jogado na menina. Essa notícia não deveria ser posta na mesa dessa forma, é um assunto sensível, que não cabe a nós.
Mil, um ser de milhares de anos, está descontando sua frustração numa criança de dez anos. Tolice em seu grau extremo.
— Bem maduro, Mil — Cam fala em tom enojado, é plausível seu desconforto, também não gostei nada.
Aurora abre a janela, um sinal claro de que é para a gente ir embora.
— Entendido.
Não! Não quero ir, deixando esse clima para trás.
— A-Aurora.
Ela termina seus afazeres e coloca um conjunto confortável para dormir.
— Está tudo bem, Nim, só preciso descansar. Amanhã a gente se vê.
Não parece estar nada bem.
— Vamos! — Mil ordena e sai pela janela, Cam olha para trás, frustrada, mas a segue.
Fico para trás.
— E-eu — Eu não quero ir.
Algo me prende no lugar e mesmo que meu coração se aperta ao ver elas indo, não posso sair daqui assim.
Aurora lê meu desconforto, ela sempre leu o mundo ao seu redor com maturidade. Seu corpo jovem se aproxima e estende a mão para mim. Eu me deixo levar e me apoio nela, descansando minha asas em seus dedos macios.
— Está com fome? Quer comer algo?
Aceno, mesmo não estando com fome, da mesma maneira que Aurora também não está. A refeição é a formalidade que anuncia que tudo está bem, então é em busca dela que iremos.

Comments (1)
See all