Parte 2.
(Magia?). (É como os seres inferiores chamam o uso da energia). (Oh).
— Sabemos, querida — Minha mãe dá o passe para eu seguir a conversa.
— Acontece que ultimamente eu estou sentindo um desequilíbrio no ambiente.
— Que tipo de desequilíbrio? — Ela pergunta.
— Como se a magia elemental daqui estivesse tentando dar espaço para outra que não faz parte desse plano — Acho que simplifiquei bem, é exatamente o que está acontecendo.
— Oh, que estranho — Minha mãe desvia o olhar do meu, com um leve tremelique no olho esquerdo.
Sinal claro que algo a incomodou, eu o conheço bem, passei anos evitando esse gesto curto.
Merda, então é verdade?
— Elas te contaram, não é? — Meu pai me pergunta diretamente.
— Não sei do que você está falando — Não é como se eu pudesse admitir, ele sabe disso.
— Contaram o que? Quem? — Maggie aumenta a voz e meu pai toca em sua mão, tranquilizando-a.
— Querida, eu sei que é difícil. Mas precisamos contar para ela.
— Contar o quê, querido?
— Maggie... — Ele pressiona.
— Não, Jake. Ainda não é o momento.
— Amor, ela já sabe. Não podemos deixar a garota no escuro.
— Ela ainda é uma criança, ela não vai entender.
(Uau, isso tá ficando tenso). (Concordo, mas não tem o que fazer. Te contei das ninfas, se alguma coisa acontecer aqui, vão achar que meus pais têm envolvimento e não posso permitir isso). (E se eles tiverem?). (Eu sei que eles não fariam nada errado. Mas se for o caso, transformo essa floresta em cinzas, antes de alguém tocar nos meus pais). (Isso seria bom de ver).
— Aurora — Meu pai me chama.
— Sim?
— O que iremos te contar é segredo, nada e nem ninguém pode saber disso. Você entendeu? — Isso significa que nem as ninfas podem ter conhecimento.
— Entendido, pai.
— Ok — Jake passa a vez para minha mãe.
— Bom… Como posso dizer? Você já ouviu falar dos Faes?
Sim, mas ela não sabe disso.
— Não.
— Certo, então seus informantes são inúteis.
— Querida!
— É irritante eu não ter tido espaço com a minha própria filha, Jake.
Eu entendo ela, eu também não tive o prazer de descobrir tudo naturalmente.
Ela tosse se recompondo.
— Certo, desde o começo então. Existem diversas raças espalhadas pelo mundo.
— Uhum... — Me concentro em sua explicação.
Talvez minha mãe saiba sobre o Ser de antes.
— E dentro delas têm os Faes. Os Faes são criaturas parecidas estruturalmente aos humanos. A diferença é que os humanos possuem núcleo e os Faes não. Portanto, para que os Faes possam usar poderes, eles têm que criar runas.
Isso é voltar demais para o começo.
— Vocês já viram os Faes? — Avanço no assunto.
Minha mãe olha para mim e prende a respiração. Não deveria ser tão difícil admitir que é um.
— Querida, eu e seu pai somos Faes.
Respiro em alívio, eles escolheram a verdade.
— Você quer dizer que não somos da mesma espécie?
— Isso mesmo.
Viu? Não foi difícil, mas por que parece que estamos de luto?
— Entendi. Então por que vocês estão tão nervosos sobre isso? Por que manter segredo?
Sua boca torce num sorriso triste, enchendo seus olhos de lágrimas.
— Somos fugitivos, querida — A voz de Maggie tremula.
— Estamos nos escondendo nessa floresta — Jake termina por ela, abraçando Maggie que desaba em lágrimas.
É a segunda vez que a vejo chorar, em menos de uma semana. Merda! (Eles são sempre tão… Sentimentais?). (Sim, é o dote dos humanos). (Sério?). (Não, mas eu considero). (Idiota). Me concentro ao máximo para não rir no meio dessa situação.
— O que sua mãe quer dizer, Aurora, é que a energia estranha que você está sentindo, são nossos poderes impedindo que alguém nos ache. É só um bloqueio, não afeta a natureza daqui. Só fica uma impressão estranha.
Bom, pelo menos recebi alguma resposta útil.
— Então por qual razão ela estava agitada ultimamente?
— Bem, por algum motivo nossas proteções deram uma enfraquecida. Tivemos que reajustá-la. Esse reajuste, e o fato de que outros estão tentando nos alcançar, deve ter alertado a magia ambiente.
As minhas sessões devem ter enfraquecido a barreira. Coleto muita energia com minhas meditações, o processo deve ter puxado os elementos que estavam na barreira. (O que você está pensando?). (Que vou precisar de outro espaço para meditar). (Para não enfraquecer a barreira?). (Sim). (Faz sentido).
— Filha, no que você está pensando? — Jake me pergunta.
— Por que vocês estão fugindo? — Do que?
Minha pergunta faz minha mãe estremecer. Não gosto disso, mas também não posso fingir que não existe.
— Pode parecer idiota, mas foi porque eu e sua mãe nos apaixonamos — Ele cora, tingindo seu rosto de vermelho.
— Sim? — Era para ser uma coisa ruim?
— Eu já fui Capitão do exército Fae e sua mãe é a quarta princesa Fae, nosso relacionamento nunca poderia ser permitido.
— Então vocês fugiram?
— Resumindo, sim.
— E por que eles continuam te caçando?
— Por que eles precisam de todo o sangue real que existe.
— Pra quê?
— Somente os de sangue nobre podem produzir Faes fortes — Minha mãe responde amargamente.
— Mas vocês disseram que não conseguem se reproduzir. E o papai é forte.
— Não tanto quanto sua mãe, querida, os de linhagem pura são abençoados por runas superiores. Além do quê, o problema está em mim, não em Maggie.
— Você não tem nenhum problema Jake — Maggie implica.
Eu sempre achei ela mais forte que nós, só não pensei que fosse ser real. Mamãe consegue ser ameaçadora sem levantar nenhum dedo.
— Para que a barreira?
— Para que esse lugar fique fora de seus radares — Minha mãe aperta a mão de Jake.
— Eles não conseguem subir nessa montanha?
— Estamos em continentes separados, querida, eles não achariam essa montanha tão facilmente — Jake esclarece.
— Continentes? — Finalmente vou poder me localizar.
(Desde quando essa conversa virou um questionário?). (Se não for desse jeito, nossa pesquisa seria interrompida por lamentações). (Credo. E eu achando que você tinha consideração por seus pais). (Cala a boca, estou fazendo isso por eles).
— Sim, bem, nosso mundo é dividido em cinco continentes. O Continente Central, governado por humanos. O Norte, governado pelos Bárbaros; raças com pele grossa o suficiente para aguentar o calor, como Orcs, Ogros, alguns dragões e muitas outras espécies. O Leste, comandados pelos elfos, fadas, feéricos e outras raças com maior afinidade da natureza. O Sul, recheado de vampiros, alguns licantropos, demônios, bruxas e qualquer espécie de sangue frio... — Meu pai começa a discursar energicamente.
(Você se lembra do Sul?). Pergunto ao Glint no meio da explicação. (Sim, tenho calafrios só lembrar das maldições). (Nós éramos bons nisso). (Claro, quando não fomos bons em matar?). Dou risada. De fato, os habitantes do sul aprenderam que para não morrerem, eles precisavam matar primeiro. A magia ficou tão corrompida que nem os elementos escaparam. Dizem que foram os seres do sul que criaram a magia corrompida. Eu duvido muito.
— E, por fim, no extremo oeste fica o Continente dos Faes. O continente é cercado por oceanos e protegido pelos desastres naturais que circulam nele. Ninguém consegue chegar lá sem a companhia de um Fae. Eles mesmos para conseguir alcançar o continente, precisaram enfrentar o inferno — Mais um dos motivos deles serem tão fortes.
— E a única forma deles saírem de lá foi ao desenvolver a runa de teleporte — Meu pai fala algo interessante.
— Teleporte?
— Nós conseguimos viajar pelo mundo atravessando camadas — Jake explica desenhando um trajeto imaginário na mesa.
Isso seria?
— Que seria?
— Um meio de viagem quase instantâneo, pelo menos no nosso caso, no qual a gente corta o caminho de um lugar para o outro
— Atravessando as camadas?
— Sim. Bem... É difícil de explicar, as camadas são semelhantes à uma sala roxa, cheia de imagens. E conforme pensamos no lugar que desejamos chegar, as imagens vão diminuindo até restar somente o nosso destino.
(Isso não soa como a sala branca?) — Glint se intromete na conversa.
(A ideia de acessar uma sala fora do nosso plano astral é bem parecida). (Talvez aquele Ser seja um Fae?). (Ou isso, ou eles possuem a mesma forma de acesso ao outro plano. Precisaríamos de provas mais convincentes).
— Vocês poderiam me mostrar? — Pergunto diretamente aos meus pais, que trocam olhares nada animadores.
— Infelizmente não. Isso chamaria a atenção do reino Fae. Precisamos manter discrição — Maggie responde primeiro.
— A única maneira deles te alcançarem é teleportando? — Pergunto para ela.
— Em suma, sim.
(Bem, terei de encontrar outra forma). (Vai levar um tempo). (Não é como se eu pudesse fazer muito com meu corpo de dez anos. Preciso ficar mais forte).
— Oh, e em qual continente estamos?
— No continente central — Jake responde, entendendo isso como parte do seu discurso.
Era de se imaginar, meu corpo humano só poderia nascer no continente governados por humanos. (Estamos bem longe da nossa antiga casa). (Sim). (O que você dirá para as ninfas?). (Qualquer merda relevante). (Hahahaha elas vão pirar).
— Filha — Minha mãe aproxima sua cadeira da minha e me puxa para seu colo.
Me aconchego em seus braços.
A ação não me surpreende, esse corpo gosta de carinho.
— Espero que você não fique brava conosco — Aliso seu braço direito sem pintura.
— Por que eu ficaria?
— Porque eu e seu pai estamos presos nesta floresta, não poderemos te acompanhar em suas aventuras.
Esse é seu medo?
— Quem disse que eu vou sair daqui? — Brinco com sua preocupação.
— É claro que vai. Você precisa ver o quão lindo esse mundo é. — Maggie responde indignada.
— Aqui já tem beleza o suficiente.
— Essa é a minha gatinha do mato — Meu pai zomba do meu esforço.
Mostro a língua para ele em protesto.
— Vocês dois não têm jeito… — Maggie apoia levemente o queixo na minha cabeça.
— Mais alguma pergunta, querida?
Já que perguntou…
— Na verdade, sim. Se vocês são Faes, onde estão suas runas?
— Oh — Os dois cantam.
— Bem, estamos usando acessórios de disfarce — Minha mãe responde e meu pai tira um colar do pescoço, colocando na mesa.
Minha mãe o acompanha.
Assim que os colares deslizam de suas mãos, letras em tinta preta emergem em suas peles. As marcas por si só já transmitem imponência, mas nesses dois são deslumbrantes. Meu pai carrega pelo menos cinco em cada braço, enquanto minha mãe está repleta.
— Posso ter uma? — Pergunto ao tocar na runa da mão de Maggie.
— Por que você quer ter runas, querida? — Jake pergunta.
— Quero viajar nas camadas — Respondo parte do motivo.
— Seria impossível — Minha mãe diz.
— Por quê?
— O corpo humano não suporta as runas, isso poderia te matar. E não posso correr o risco.
O único motivo de eu não ter aprendido as runas, foi porque nunca nasci um Fae. E para tê-las, é necessário um corpo humano. Eu tenho a chance agora, preciso correr esse risco.
— Eu sou forte, mãe.
— Eu sei, mas não o suficiente.
— Quando vai ser suficiente?
— Nunca. Não tem como o corpo humano aguentar — Minha mãe quebra minhas esperanças, ao colocar uma coleira simbólica em meu pescoço.
— Querida, eu também acho que seria possível com Aurora.
Levanto meu olhar, indo de encontro ao do meu pai. Há um brilho de esperança ali que reflete no meu.
A coleira balança.
— Enlouqueceu, Jake? Você sabe o que acontece com os corpos dos rejeitados.
— Eu sei, mas Aurora não se encaixa no mesmo padrão que eles.
— Como você pode ter certeza?
— Você já viu algum ser vivo dominar os quatro elementos? Olha para a menina, Maggie, ela cresceu vinte centímetros da noite para o dia.
É... Acho que ele não ignorou esse fato.
— Hum, talvez seja a puberdade? — Minha mãe tropeça nas palavras, me colocando de pé de frente para ela.
(Hahahaha vejo da onde você aprendeu a mentir tão facilmente). (Engraçadinho).
— Maggie, a Aurora matou um javali adulto sozinha, sem usar qualquer habilidade mágica. Você vai me dizer que isso também é a puberdade?
O aperto em meus braços me surpreende.
— O que você quer dizer que ela matou o javali sozinha?
Boa, pai! De tantos argumentos?
— Não desvia o assunto, estou te falando que ela não é uma humana fraca.
— Eu sei que ela é forte, mas ela ainda é um bebê — Minha mãe volta a olhar para mim.
Jake suspira.
— Deixa eu ensinar esgrima para ela. Se ela ganhar da gente, você ensina as runas, tá bom?
Que porra? Por que isso virou um duelo?
— Por que você não me ensina as runas, pai?
— Porque eu perdi minha jóia na fuga. Só sua mãe tem a dela
Pra quê uma jóia?
— Eu já te vi usando magia, você não precisa de uma jóia.
— Eu não preciso usá-la para ativar as runas, a jóia serve para criar as runas.
- Oh…
— Jaque…
— Nos dê uma chance, Maggie.
Ela pondera, pensativa.
Minha mãe é teimosa, eu posso até ser mais. Mas, Jake? Ele é o inferno da teimosia. Quando ele quer algo, não tem quem o faça desistir.
A coleira se dissipa.
— Céus, vocês vão me importunar com isso. Certo, Aurora, se você me provar que pode ganhar de dois Faes adultos, eu te ensinarei a usar runas.
Isso, porra!
— Mas...
Merda. Mas o que?
— Você terá um prazo de cinco anos somente. Enquanto isso, você estudará comigo
— O quê? Por que cinco anos? E estudar para quê?
Ela se levanta, guardando o café da manhã.
— Quando completar sua maioridade aos quinze anos, você irá para a escola.
A coleira se transformou numa algema segurando minhas mãos atadas nas costas.
(Puta que pariu hahahahaha).

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