Os dois seguiram para os fundos da loja. Era um espaço amplo, com marcas de impacto nas paredes, cortes no chão e pedaços de madeira carbonizados — cicatrizes de batalhas anteriores, deixando claro que aquilo ali era uma arena improvisada... e muito usada.
– Vamos fazer o seguinte: o primeiro a levar dano — não importa o quão pequeno — perde. Tá bom pra você, Carvão Hiperativo?
A resposta de Aki não veio em palavras, mas em espetáculo: sua espada explodiu em chamas, lançando um tornado flamejante tão intenso que quase nos atingiu, mesmo do lado de fora da arena.
Koda, o mentor, apenas balançou a cabeça. Já devia estar acostumado com os surtos pirotécnicos do aprendiz.
– Vai aquecendo as juntas aí, porque dessa vez sou eu quem vai ganhar! – gritou Aki, com os olhos em brasa.
– Vai é levar um bom cascudo – retrucou o ferreiro, estendendo a mão para conjurar uma espada pesada, robusta, com aparência brutal. Eu já tinha visto armas assim em outros jogadores, mas sempre sendo empunhadas com as duas mãos. Koda, no entanto, segurava como se fosse uma adaga. Seria essa uma das vantagens da raça Gigante?
Os dois se encaram por alguns segundos. Num instante estavam imóveis, e no seguinte... o som das espadas colidindo ecoou como um trovão. O chão tremeu. Um fragmento rachou sob os pés de Aki, que desapareceu um segundo antes. Sua lâmina flamejante cortou o ar rente à cabeça de Koda, que se moveu como se soubesse exatamente onde ela passaria. Aki tentou um ataque pelas costas — e acabou sendo lançado longe.
– Caramba... é impressionante ver os dois lutando!
– Nem tanto – murmurou Uryu, com os olhos semicerrados, visivelmente incomodado. – O Aki continua agindo do mesmo jeito.
– Como assim?
– Ele tá se segurando.
Algo no olhar do arqueiro havia mudado. Normalmente, mesmo quando criticava Aki, havia um resquício de amizade, uma pitada de ironia. Mas agora... ele parecia realmente desapontado.
Enquanto isso, Koda desviava e aparava cada ataque com uma precisão assustadora. Mesmo eu, uma novata, conseguia ver que aquilo não era só força bruta — tinha técnica, timing, domínio. Só que às vezes, os movimentos dele... eram rápidos demais. Como se fossem automatizados.
– Como ele faz isso? Quero dizer, ele se move de forma natural, mas de repente o corpo gira como se estivesse sendo guiado por outra pessoa...
– Sistema de troca de movimento – disse uma voz inesperadamente séria ao meu lado. Era Kronus. – E não precisa se sentir amadora por não entender. Isso é algo que só um punhado de jogadores conhece em Bhesda. Uryu, explica melhor pra ela.
– Em Bhesda existem dois tipos de controle: manual e automático – começou Uryu. – No manual, você comanda cada movimento do seu personagem. Anda, ataca, defende... tudo na base da sua habilidade real. Já o automático é um sistema assistido. O jogo interpreta o que você quer fazer e executa da forma mais eficiente.
– Isso é bem comum em jogos mobile, onde você não tem um controle tão preciso – completou Kronus. – Os devs só adaptaram isso pra VR. E bem... deu nisso aí.
Koda mergulhou para o lado, quase deitado no ar, escapando da espada flamejante. Em seguida, girou o corpo com elegância quase teatral e desceu um golpe de cima para baixo.
Aki bloqueou, mas dava pra ver: foi por um triz.
– Estranho... o Koda nem parece usar habilidades contra o Aki – comentei, confusa.
– Não precisa – disse Uryu. – Sabe o que diferencia o Mentor do Aki?
– Experiência?
– Sim... mas não do jeito que você tá pensando. Em Bhesda, você pode alternar entre os dois tipos de controle usando atalhos de voz. Mas fazer isso em meio a uma luta real... é quase impossível. Você precisa pensar em não morrer, em atacar, defender... e ainda trocar de controle no momento certo? Esquece.
– A maioria nem tenta – reforçou Kronus. – Mas o Koda... o Koda descobriu um jeito de fazer isso sem perder o foco. Essa é a diferença entre ele e o Aki.
Na arena, Aki era um turbilhão de fogo: ondas, bolas incandescentes, golpes imbuídos de chamas, misturados com chutes, giros, saltos... Esquiva. Bloqueio. Outro bloqueio. Aki voando de novo.
– Porra! – rosnou o ruivo, se levantando com raiva.
– O Mentor alterna os controles com tanta precisão que parece um computador humano – disse Uryu. – E isso muda tudo.
Aki passou a dançar em volta de Koda, pulando de um lado pro outro, atacando, recuando, voltando. Um padrão frenético. Até que, num salto, fugiu da zona de impacto e correu direto para o mentor, espada erguida.
Koda se preparou para um golpe horizontal.
Aki correu ainda mais rápido, a espada brilhando. E saltou.
– O Aki domina o controle manual como poucos. Mas enfrentar alguém que usa os dois sistemas ao mesmo tempo... é outra história – Uryu observava com atenção.
– Mas por que isso é tão vantajoso?
– Porque o Koda usa o manual pra defender – explicou. – E o automático pra atacar. É uma tática. Ele tem bons reflexos pra bloquear, mas não é tão rápido ofensivamente. Então ele compensa com o ataque assistido, que tem precisão quase perfeita.
– Isso não desequilibra o jogo?
– Não. Ataques manuais causam mais dano. É o jeito do jogo de equilibrar as coisas. Mas tem mais um detalhe...
– O segredo do mentor! – interrompeu Kronus, empolgado.
– A verdadeira técnica está na troca de controle no exato momento em que o ataque automático atinge o alvo. Se ele ativa o manual no instante certo, o ataque ganha o bônus de dano manual. É como... usar o melhor dos dois mundos.
– O quê?
Nesse instante, ouvi a voz de Koda. Baixa. Quase sussurrada.
– Manual.
Ele atacou.
Aki, com uma expressão de desafio, abaixou a espada e a posicionou debaixo dos pés, como se fosse um skate. O som metálico da colisão ecoou alto. E de repente... Aki sumiu.
– Ué? Cadê ele? – perguntei, procurando com os olhos.
– CÊ TÁ DOIDO!!! – Grito Kronus apontando pra cima com o dedo indicador.
Segui o olhar dele e entendi o espanto: Aki estava no céu.
Ou melhor, despencando como um míssil flamejante, espada em riste e brilho dourado nos olhos.
– Toma essa! – berrou ele, mergulhando.
Koda o encarou com a calma de quem já tinha visto aquilo antes. No último segundo, apenas deu um passo pro lado.
– Automático.
A explosão rachou o chão. Uma pedra voou rente à cabeça de Uryu, que sequer piscou. Ou estava acostumado à ação... ou estava acostumado ao Aki.
– Manual.
Essa foi a única palavra antes de uma sombra sair voando da nuvem de poeira. Era Aki.
– Ganhei – disse Koda, ainda com a perna suspensa. Tinha chutado o ruivo com força suficiente pra lançá-lo longe. – Vai começar a pagar agora?
Aki se levantou devagar. Uma mão na lateral do corpo, mais por reflexo do que por dor real. O sorriso ainda estava no rosto.

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