Parte 1
Presenteio cubos de beterraba doce aos nossos companheiros de viagem. Pedi que minha mãe os fizessem, como uma variação no cardápio dos equinos, o doce feito apenas com o suco natural do vegetal, é uma excelente fonte de energia e de hidratação para eles. É muito importante que mantemos suas dietas saudáveis, e dar-lhes alimentos doces de vez em quando auxiliam não só no seus gastos energéticos, como também, nos ânimos deles.
Os dois estão transportando nossas mercadorias, nada mais complacente que agradá-los por isso. (Onde estão as asas?). Glint indaga sobre os cavalos. (Talvez tenham perdido na evolução? Não sei dizer, talvez os do Refúgio das Fadas sejam de uma espécie diferente). Aliso as costas negras, musculosas e de pelagem rasteira, dos corcéis. Decido não pensar muito sobre isso, enquanto me direciono para a carroça e subo nela.
(Pelo menos isso não mudou muito durante os trezentos anos). (As coisas nunca mudam para aqueles que não tem dinheiro). (Não vejo o porquê, existem muitas mentes brilhantes dentro dos menos favorecidos). (Porém, não são eles que utilizam de suas engenhosidades). Nunca foram.
— Pronta? — Jake sobe no transporte com as rédeas em mãos.
Ele trocou sua jardineira por uma blusa bege de mangas compridas, uma calça cinza de tecido rústico e botas de couro marrom combinando com seu cinto. Semelhante à minha vestimenta, exceto pela minha blusa — que um dia já foi branca — de tom mais claro que a sua.
— Sempre — Respondo olhando para seu colar, um cristal vermelho que brilha na mesma intensidade do seu cabelo.
Ele acena e inicia a descida até o vilarejo, seguindo o caminho de terra que corta a floresta da entrada da minha casa, até o pé da montanha.
(Para onde estamos indo?) — Glint volta a falar.
(Para o mercado aberto). (Que é?). (São como as feiras de antigamente, só que agora fixas). (Vocês têm uma barraca então?). (Sim, mas só a utilizamos por temporada de caça, a cada seis meses. Vivemos do que plantamos e caçamos. Às vezes, quando nosso estoque fica cheio demais ou quando precisamos de alguma mercadoria que não produzimos, descemos a montanha para vender e comprar). (Pelo modo que descreve, você deve gostar bastante). (Com certeza... É um estilo de vida difícil, a montanha é alta e o vilarejo longe, são poucos aqueles que querem viver isolados como nós, mas acho gratificante).
Olho para os braços de Jake que ondulam sem tinta, ritmando ao balançar das rédeas. Eu nunca imaginei que eles eram Faes justamente por não ver as runas em seus corpos e também por vê-los usando magia elemental.
Pensando bem agora…
— Pai, como você usa magia de vento?
Seu olhar se desvia da estrada para o meu e de volta para a estrada.
— Bem, é que… eu não uso o elemento vento. Não é assim que funciona com os Faes, a gente não consegue ter acesso a eles, nem fazer runas que os copiam. As runas nos dão poderes já prontos. Ou seja, eu não estava usando o elemento vento, eu estava usando a habilidade de comunicação e de levitação.
— Como assim, pai?
Ele coça a barba antes de responder.
— Certo, vamos fazer um pão.
(Imagina um pão aí). (Tô imaginando um belo pãozão). (PFF).
— Idealiza que os elementos são os ingredientes, como a farinha, leite, fermento, ovos etc. E que a magia que você faz, é a harmonia entre esses produtos. Quando você vê os Escudos, A Cascata de Fogo ou os Golens, vocês estão vendo os pães prontos. Mas os Faes não têm acesso aos ingredientes, nem ao processo de produção. Então não fazemos os mesmos pães. O que nós recebemos são as variações de pães, por exemplo, baguetes — Jake continua.
(Faz sentido?). (Um pouco... Na prática deve ser mais fácil de entender... Acredito que é como se eles possuíssem variações de armas no próprio corpo.). (Hmmm... Tipo, ao invés de pensar que eles usam magia, seria mais fácil pensar que eles possuem armas mágicas no corpo?). (Tipo isso).
— Acho que entendi... Então deve ser mais fácil para os Faes usarem os poderes, do que para o restante.
Avisto o fim da barreira, o que para muitos é apenas onde os Lírios Amarelos florescem, para mim e para os meus pais, ela é literalmente uma barreira translúcida. Semelhante à uma gota de água gigante em formato de domo cobrindo o Refúgio das Fadas, é aqui onde a proteção das Ninfas acaba.
— Fácil? Talvez... Depende muito do que é praticidade para você. Se ter a magia "já pronta" ao invés de centenas de possibilidades que os elementos podem gerar, for o ideal na sua opinião, então sim, é mais fácil.
Pelo o tom que Jake usa, não parece ser tão agradável usar as runas. Seria mais compreensível ver ele defendendo seu dote, não o contrário.
— Você fala como se não gostasse do seu dom.
— Dom... — Jake balança os pés inquieto, segurando a língua contra a verdade.
(É só eu, ou existem alfinetadas em suas palavras?). Glint, como sempre, lê o mundo simultaneamente comigo.
Talvez os pensamentos semelhantes vem do fato de termos sido um só, por situações óbvias, ou por termos tido as mesmas experiências. Seja o que for, eu me sinto ainda mais perto da insanidade.
Antes que eu possa responder, Jake corta a nossa linha de raciocínio.
— Não tem muita coisa para dizer... Apenas que não usamos a magia de forma natural como vocês. Forçamos os elementos a nos obedecerem e isso tem um custo.
Não tem muita coisa que ele possa dizer.
— Que tipo de custo? — Tudo na vida tem um custo, o que importa é o quão grande ele é. Mesmo que seja natural a gente usar a energia, ela não está em nós de graça.
— A evolução nos permitiu suportar o uso da magia. Isso significa que não estamos manipulando-a, mas sim, a compelindo. Que ao invés de ser uma troca amistosa entre os envolvidos, como com vocês, estamos frequentemente brigando num cabo de guerra. É como se administrássemos um vírus e o custo é nosso próprio corpo e mente — Seus olhos concentrados vagueiam meditativos.
Sua alegação é bruta, mas não irregular.
É comum da energia ter esse efeito nos seres gananciosos.
— Se isso força seu corpo e mente, significa que vocês vivem menos?
(Da onde você tirou isso? Eles vivem pra caralho). (Eu sei, mas meu pai não entenderia o fato de eu saber). (Ah, sim... O papo chato...). (Você já deveria ter se acostumado). (Essa foi a última vez, prometo). Uhum...
— Na teoria seria assim, mas as runas de cura nos permitem viver por mais tempo.
Evidente.
— E ela não seria um problema também? Elas não estariam sugando sua vitalidade?
Ele concorda com a cabeça. — Tudo diz respeito aos seus limites, querida. — Meu pai volta a ficar em silêncio.
Falta pouco para alcançar a entrada da vila, a partir daqui o procedimento é sempre o mesmo. Mostramos a insígnia da nossa família, comprovamos sermos cidadãos deste vilarejo, vamos para nossa barraca, organizamos nossas mercadorias e começamos a trabalhar. Mais um pouco da normalidade que é viver num vilarejo pequeno.
— Aurora, preciso que você cuide das ervas, leite e temperos.
— Entendido.
Com tudo funcionando, não demorou muito para que os clientes chegassem. Eles amam um assunto novo, suas curiosidades insanas em torno da gente chegam a ser desconfortáveis. (Sua mãe não vem com vocês?). (Ela costumava vir quando eu era mais nova, mas alguém precisa ficar em casa para cuidar das coisas por lá. Então desde que eu consegui ajudar meu pai sozinha, ela não precisou descer mais. De vez em quando revezamos). (Tudo muito bem organizado... Dez anos fez uma bela diferença em você). (O que você quer dizer?). (Nesses dez anos, você reaprendeu a se relacionar bem com as raças humanóides). É… Alguns séculos fazem você esquecer o que é um diálogo amigável. (Bom, agora tenho um objetivo. Preciso ficar mais forte do que um dia já fomos, encontrar aquele maldito e matá-lo. Então preciso estar a par com esse novo mundo).
— Uau, essa é a sua menina? Como ela cresceu!

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