Parte 2
Santo céu, o que eu fiz para merecer isso?
— E quem disse que estou triste?
— É só olhar para você, não tem como uma dama ficar feliz se vestindo dessa forma. — Seu olhar desagradado desliza pela minha vestimenta.
Me posiciono na defensiva com os braços cruzados sobre o meu peito, dando alguns passos seguros para frente, evitando olhar para minhas roupas. Não por vergonha, longe disso, apenas não quero satisfazê-lo com suas intenções sujas. Não tem nada de errado em eu me vestir com calça e blusa de mangas compridas.
Compreendo que elas possuem cores opacas, tonalidades que meninas espertas passariam longe, mas essa é a intenção, estou aqui para trabalhar e não por diversão.
— Algum problema por aqui? — Jake se aproxima das minhas costas, parando meu avanço com uma mão no meu ombro direito.
Eu poderia resolver isso, mas eu estaria criando um problema que deve ser evitado por mim.
— O cliente deseja uma porção de encontro — Respondo sarcasticamente, mordendo algumas palavras no processo.
Jake olha para mim surpreso, seja pelo motivo ou pela escolha de palavras e imediatamente olha para o verme.
— Oh? E qual foi o preço que ele ofereceu?
— Que eu não precise mais trabalhar nessa barraca nojenta.
(Você passou o facão para o seu pai?). Glint pergunta exasperado. (Ele é o adulto aqui). Dou de ombros e isso parece ter sido um evento do caralho para ele. (Hahaha filha da puta).
— Uhum... E como ele pretende fazer isso? — Meu pai dá passos lentos em direção ao magricela.
O nojento dá um passo para trás com o avanço de Jake, mas mantém postura.
Devo dar-lhe os créditos pela coragem, não é qualquer um que fica parado diante uma montanha de músculos.
— Eu sou Henry, filho de Minerva e de Brimp, o Devorador. Tenho uma boa linhagem e um nome renomado, sou o melhor pretendente desse vilarejo e posso dar uma vida luxuosa para sua filha.
Quanta asneira.
— Não me lembro de ter perguntado algo para você, garoto.
— Vamos, você não precisa bancar o pai protetor. Estou oferecendo uma vida farta para sua filha, o que mais ela poderia querer?
— Ela não precisa de ninguém para bancar seus luxos — Jake tem se segurado bem nessa situação.
Aceno com minha cabeça em concordância, Henry me observa de soslaio. Ignorando minha opinião, o canto de sua boca se ergue num sorriso irônico, abrindo-a apenas para profanar seu posicionamento de lixo
— Sim? E como ela pretende fazer isso? Vendendo plantas?
Meu pai morde o maxilar, direcionando toda sua raiva para a mandíbula. O fio de sua paciência se dissipando.
— Isso não te interessa, garoto. Se manda daqui, antes que você precise gastar seu mar de dinheiro em reparos na sua cara — Jake passa para o outro lado da minha bancada, a ameaça se tornando cada vez mais real.
— Minha proposta é irrecusável, senhor.
— Sua proposta não me vale de nada.
— Valerá futuramente para sua filha, quando as opções se reduzirem a um carpinteiro de segunda.
— O que te faz pensar que ela está procurando alguém?
Pensando bem, essa não é a segunda proposta só hoje? Qual é a desse povo em querer-me arranjar um companheiro?
O garoto desliza seu olhar pelo meu corpo, e como se as coisas não pudessem ficar ainda mais nojentas, ele passa a língua pelos lábios, dividindo-os como se estivesse me saboreado. Argh! Eu vou vomitar.
(Ah, cara, que nojo). Glint fala simulando sons de refluxo, o que só piora minha situação.
Aurora pense em flores, jardins, cachoeiras, noites estreladas... Ordeno a mim, respirando fundo e ignorando qualquer odor.
Volto a prestar atenção.
— Com todo o respeito, senhor.
Por que eu tenho a impressão que ele quebrará todos os protocolos da cordialidade?
— Temos assistido vocês descerem da montanha a cada seis meses, e a cada passar de temporada, ela tem ficado ainda mais bonita. Seja lá o que vocês estejam fazendo, cara, está funcionando bem. — O garoto se sentencia.
Merda! O filha da puta tem que escolher as piores palavras possíveis? (Quem está assistindo você?). (Sei lá, porra!).
Em uma fração de segundos, interrompendo qualquer linha de raciocínio de Glint, eu me lanço no espaço entre o garoto e meu pai, o movimento sendo sutilmente mais rápido que o avanço de Jake, mas não o suficiente para impedi-lo de puxar o peso leve pela gola da camisa.
Ficando entre os dois, um espaço confortável garantido pelos braços longos de Jake estendidos acima de mim, decido negociar com meu pai, tentando impedi-lo de fazer alguma besteira.
— Pai, solte o garoto!
— Eu deveria matá-lo aqui mesmo.
— Ele não vale a pena.
— Você não pode! Meu pai é o Devorador, ele... — O garoto guincha como um rato, ao ser levantado ainda mais, finalmente parecendo notar a merda que fez.
A única explicação para a ousadia desse moleque, é que o pai dele também é grande.
O garoto não se assustou pelos trinta centímetros de diferença entre os dois, mas sim pelo um metro que ele está distante do chão.
Jake gira afastando-se de mim e joga o rapaz no meio da rua de paralelepípedos, fazendo-o voar até quase atingir outra barraca.
— Eu sei quem é o seu pai, garoto, e ele não me é um oponente desafiador.
Henry olha para mim, atordoado pela ação do meu pai e decide não apostar na sorte.
— Ela ainda será minha!
E finalmente a representação de lixo vai embora, correndo com as mãos nas costas.
Meu pai suspira alto, balançando a cabeça de um lado para o outro.
— Sua beleza é um problema.
— O quê?
— Você só tem dez anos.
— Sim?
— Eu vou acabar envelhecendo dez vezes mais rápido, se isso continuar.
— Pai?
— Sinto que eu tenho treinado minha vida inteira não para entrar na tropa, mas sim para te defender de abutres.
(Ele não está me ouvindo). (Talvez tenha enlouquecido?). (Não fale bobagens). (É uma opção). (Sim, claro...).
Jake se vira para mim, medindo minha altura com os olhos.
— Talvez eu devesse te isolar no alto da montanha?
Urgh.
Acordo-o de sua epifania, jogando água em sua face. Um leve movimento que não poderia ser notado por ninguém.
— Pai!
Dessa vez ele volta a me enxergar de verdade.
— Sim, desculpa — Jake enxuga o rosto com seu antebraço.
— Por que você só não me dá uma dessas pedras? — Pergunto, indicando o dedo para o colar.
Ter algo que disfarça minha aparência, pode ser útil no futuro.
— Hã... Não é assim que ela funciona. Ela não muda sua forma, apenas cria uma ilusão — Ele massageia o local onde a pedra está escondida.
Também?
— Mas não consigo ver suas runas.
— Sim. Isso é porque você não está reparando direito. A pedra te ilude com a ideia de que tudo está normal e você só desvia o olhar.
— Impossível — Contesto não acreditando nisso, não sinto magia de ilusão nela.
Ele volta para o seu lado da bancada e vira para mim.
— Certo, você está focando muito seu olhar onde você já sabe que elas estão. Quero que você tire essa ideia da mente, você vai olhar para qualquer outro canto perto de mim e tentar me enxergar com seu olhar periférico.
Lá vamos nós com seu treinamento disfarçado de conversa... Se bem que dessa vez fui eu que o induziu a me dar aulas, então não posso julgá-lo.
Ok, isso deve ser fácil.
Me endireito no meu lado da bancada, a qual é dividida em duas partes, uma sendo de minha responsabilidade e outra do meu pai, separadas por um viga com animais pendurados que caçamos.
Concentro-me num coelho de ponta-cabeça, situado bem no meio onde eu me separo de Jake, foco em seu corpo esticado, mais especificamente, em suas orelhas. Consigo ver o coelho perfeitamente, porém não é isso que quero enxergar. Uso a visão periférica, olho de relance para meu pai, seu corpo está embaçado para mim, mas partes onde não haviam nada, agora estão mais escuras. Ainda estou olhando para o coelho, me inclino levemente para o lado, me concentrando nos pelos brancos. Foco minha atenção para atrás do coelho, como se eu dividisse minha visão em duas partes, uma borrando o coelho e a outra parte ampliando os detalhes por trás dele. Diretamente para meu pai.
Meu olho se ajusta às novas informações e aí... Aí, está! Consigo ver as runas perfeitamente desenhadas. Caralho, que bagulho sinistro.
(Como conseguiu?). (Você consegue ver também?). (Sim, eu assisto tudo o que você faz). Ah, ok. (Usei o foco que aprendemos com o quarto corpo). (Os olhos de águia?). (É... Não necessariamente a visão, mas a conjuntura). (Por que não usou os meus?). (Porque minha pupila mudaria). (Hm... E foi difícil adaptar a ideia?). (Ridiculamente fácil). — Não sei como não vi isso antes — Penso alto.
— Você deve ter visto, mas assim como nas outras pessoas, a magia fez o trabalho de ilusão, você só ignorou essa nova informação que recebeu e seguiu com a vida.
Oh então é assim que essa pedra funciona.
— Mas eu não entendo, de qualquer forma, não seria bom que eu usasse? Tipo, as pessoas iriam ignorar minha aparência distinta.
— Realmente. Elas não dariam importância para o dourado de seus cabelos e olhos, mas isso não é nem um terço da sua real beleza, Aurora.
O problema não seria o interesse pelo ouro do meu cabelo? (Seu pai tem razão). (O que? Por quê?). (Sua nova aparência é deslumbrante. Mesmo entre nossos antigos corpos, essa é a que mais se destaca). (Se o problema é pela aparência e não pelo ouro, isso faz menos sentido ainda. Eu só tenho dez anos). (Você esquece como os humanóides são nojentos). (Não entendo isso, me vejo bem normal).
— Eu deveria pintar o cabelo? — Pergunto à Jake.
— Na verdade, não, vou te treinar para matar qualquer um que te tocar, não precisa se preocupar com isso. E de qualquer maneira, se você tiver notas altas nas provas, eu mesmo te dou uma dessas — Ele aponta para o peito, onde descansa o colar.
Se é sobre alguém me tocar, eu já posso me virar sozinha.
— Deixando isso de lado, por que não vamos tomar um café? Nunca é tarde demais para encher a pança — Jake fala como se tivesse uma.
— E fechar as vendas? Ainda temos bastante produtos. — Meu pai começa seu trabalho, ignorando meu protesto.
— Vamos voltar o quanto antes, e aquele restaurante que você tanto gosta está com novo cardápio, quer mesmo deixar a oportunidade passar? — Uma runa em seu antebraço brilha em luz branca, enquanto ele conjura a barreira.
Não mesmo.
(Então essa é a runa para barreiras?). É o que parece. (Vou ter que estudá-las, mas tudo indica que sim). (É interessante). (Sim, também acho). Já nos encontramos com Faes antes, mas éramos arrogantes demais para prestar atenção em detalhes insignificantes.
Bom, antigamente eles eram.
— E como você descobriu isso?
— Você não ouve o que seus clientes falam, né?
— Se eu parasse para ouví-los, eles nem respirariam mais
— Certo, senhorita "meu ouvido não é penico".
— Isso mesmo — Empino meu nariz arrogantemente.
(Por que você mesmo não faz a barreira?). (Seria demais para esses velhos assistirem uma criança de dez anos usando magia). (Oxe! E com quantos anos os humanos despertam-na?). (Doze, eu acho). (Então até lá você esconde seus poderes?). (Sim). (Cansativo, por isso a criança de mais cedo te menosprezou). (Infelizmente, sim, para os dois).
— Incrível, não é mesmo? — Jake se envaidece do seu trabalho.
— Com certeza é, mas não para todos, aparentemente — Noto os olhares dos outros vendedores ao nosso redor, perfis de raiva, inveja e medo.
Um charme sem validade.
— Não liga para isso, são apenas mentes ignorantes.
Com certeza são.
— Por que eles nos olham assim? Por qual motivo eles não constroem suas próprias barreiras?
Incomumente, o povo desse vilarejo não usa seus poderes para nada.
— Eles não conseguem.
O quê?
— Como assim não conseguem?
Demos início à nossa caminhada até o restaurante, distância de três quadras da onde estávamos, nada muito longe. Na verdade, tudo nesse lugar não é nada muito longe. As ruas foram construídas em formato anelar com pequenas divisas entre elas para a passagem dos transportes e das pessoas.
Quatro ruas se afunilam até o centro do vilarejo, — lugar que aloja o mercado — lotadas de casas e construções de madeira aglomeradas uma do lado da outra. Uma única rua mais ampla atravessa a pequena cidade e se conecta às estradas até a capital, com por uma bifurcação que se abre próxima da entrada do vilarejo que liga a estrada principal à da montanha.
Devo ter demonstrado estar muita surpresa, pelo modo que Jake encolheu os ombros
— Eu não sei o quanto sua mãe te explicou. Você ouviu sobre como a sociedade aqui é avaliada?
— Hã, sobre títulos e rankings?
Avistamos o restaurante, que se destaca entre os outros estabelecimentos em tamanho e cores. Florescer possui paredes de madeira pintadas de um amarelo claro, com a entrada rodeada de Lírios laranjas e lilás. É bonito, de um jeito quase exagerado.
— Isso! Exatamente! — Jake abre a porta me dando passagem.
Nosso caminho até a mesa, perto da janela longa de vidro, gera um silêncio coletivo. O vilarejo não é de alta sociedade, mas sua população tenta o máximo parecer minimamente elegante.
— Basicamente, depois que os humanos nobres, de sangue puro, perceberam que seus títulos estavam enfraquecendo por causa do novo método de avaliação, começaram a investir em melhorar suas linhagens com humanos de ranking alto. Ou seja, os fortes começaram a casar com os nobres, sobrando os plebeus para os de ranking baixo. Diminuindo, assim, a chance dos plebeus competirem com nobres, já que agora, até suas habilidades foram enfraquecidas pelo sangue. Isso não se tornou uma lei, afinal, existem os de poderes medianos. Mas também significa que existem os humanos com níveis de poderes baixíssimos, quase inexistentes — Jake volta a falar, depois que a garçonete nos entrega o cardápio e sai para atender outros clientes.
— Aparentemente é o caso dessa vila? — Pergunto encostando as costas na cadeira, lendo o cardápio.
— Sim. Os humanos daqui não possuem títulos, nem poderes para terem uma vida melhor.
(O que você vai pedir?). (Acho que algo doce, talvez panqueca de mirtilo? É um dos novos pratos). (Parece bom). (Mudaria alguma coisa para você?). (As emoções que você emite são diferentes para cada tipo de comida. Meio que me alimento de suas sensações). (Legal). (Poderia ser melhor). (Hahaha, de fato).
— Por isso eles te olham daquela forma?
Jake repete meus movimentos, lendo um segundo cardápio em mãos.
— Quando você não tem nada, você deseja que ninguém tenha também, para que sua dor seja a mesma que a do vizinho. Mas quando alguém está numa situação melhor que você, seu desejo é de ter a mesma vantagem.
— Isso é nojento — Deixo escapar e Jake me olha, abaixando o papel.
— Eles não têm culpa, querida, o sistema tornou-os assim. Eles nasceram sem a oportunidade de lutar, de ter uma vida mais fácil e divertida. Só porque alguns temeram ter menos ouro.
Essa situação toda é nojenta.
— Você disse que eles nasceram fracos... O que exatamente isso significa?
— Significa que seus núcleos nasceram menores.
Meu peito se contrai em repúdio aos nobres.
Desgraçados mimados nojentos.
(Caralho!). (Pois é, não parece ter sido uma coisa tão boa agora). (Sim).

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