A besta tenta se desvencilhar lutando com suas garras, deixando rastros fantasmagóricos na água, o que não resulta em nada. Pena para ele. Quanto mais ele lutar, mais vai gastar energia e consequentemente morreria afogado após sua exaustão. Eu deveria esperar por isso, porém o tempo é um empecilho.
Abaixo a bolha e comprimo a água em volta do cachorro, apertando-o até quase explodir. O lobo se ajoelha com a pressão exercida, braços e pernas trancados, choramingando em sua prisão.
— Maldita! É fácil brincar quando você só vê sua magia fazer o trabalho sujo, criança mesquinha! — Ele provoca.
Oh, por favor!
A manipulação que ele está tentando fazer é nojenta pra caralho.
Forçando o papel de vítima que não existe aqui. Se fosse qualquer outro combatente, outra criança, talvez a criatura teria criado uma distração suficiente para enfraquecer minha magia.
Me afasto dele, fazendo-o pensar que ganhará algo com isso, assisto o lobisomem expressar um leve sorriso, aumento o meu. Fofo.
Não estou tentando provar nada a ninguém, mas posso brincar um pouco.
Chego perto das mesas estilhaçadas pelo lobisomem. Pego uma lasca perdida, improvisado-a em uma estaca e me aproximo do lobo caído.
Uso a mesma habilidade no licantropo, espremendo ele como um limão. O corpo adormecido se contorce e estica, buscando pelo alívio da dor.
(No que pensa?). Não tinha percebido meu devaneio, até Glint me chamar de volta.
Por um milésimo de segundo, viajei para o passado.
(Você se lembra da nossa primeira vítima?). Pergunto de modo despretensioso. Ele reflete rapidamente. (Com certeza não). Sim, eu também não. (Qual o motivo disso? Se sente insegura?). Insegurança? (Não. É mais como… Eu deveria me importar? Tipo, sempre foi uma questão de vida ou morte). Eles trouxeram a briga até nós, eu poderia evitar matá-los. Entretanto, isso resultaria na morte dos cidadãos daqui. (Você pensa demais). Sim...
Estar torturando ele, me põe no papel de vilã, mas imagina só se eu realmente deixasse isso para trás. Se eu o soltasse, o que será que ele iria fazer? Abandonar a luta e ir embora? Não! Ele simplesmente iria fazer novas vítimas, realçando a possibilidade de uma delas ser da minha própria família. Essa é a realidade. Tirar a vida de um ser, independente do contexto, te leva a pensar se era realmente necessário. Contudo, evitar matar pode ser ainda pior do que controlar o real problema.
Nem sempre sua boa intenção, te levará a resultados satisfatórios. Quase nunca.
Com a estaca em mãos e sem prorrogar o objetivo, me aproximo do lobinho espremido. Com um pouco de esforço a mais, penetro seu coração pelas costelas. O sorriso da criatura linguaruda se desfaz, ah sim, agora ele entendeu. A criança insegura e inexperiente que ele imaginou, nunca existiu.
— Monstro! — O lobisomem chora, fazendo meu sorriso aumentar.
Tenho certeza que meu sorriso está de orelha a orelha, quando noto o medo no reflexo de seus olhos.
— Sua vez, amigo. Saiba que eu valorizo sua fidelidade, mas será inútil, eu chegarei ao seu líder.
Ele abaixa a cabeça em reconhecimento, não há chances de uma matilha denunciar seu alfa, e nem de eu recuar.
Comprimo ainda mais a água, modificando de uma barreira apertada, para filetes. Instruindo a água circular pelos ligamentos, articulações, tendões... como o pescoço, os joelhos, cotovelos, punhos, axilas e outros pontos frágeis do corpo canil.
— Adeus.
Aperto a mão em punho, forçando a água a obedecer independente do volume da criatura. E— puf — ele explode. Pedaços de lobisomem em todo canto de Florescer.
Uma verdadeira bagunça.
(Do que ri?). Consigo visualizar Glint levantar umas de suas sobrancelhas. (Imaginei o corpo se espatifando como se fosse um "puf"). Sorrio novamente. (Perverso... Eu não diria que o som foi tão fofo assim). Perverso?... Será que foi pelo fato dele saber falar? Tipo, ninguém liga quando as cobras são fatiadas ainda vivas, ou quando os peixes são abertos, sufocando em busca de oxigênio... (Realmente, fofo não é a palavra certa). (E agora?). Agora? (Vamos caçar o líder deles).
"Nunca pare de evoluir". Foi o que eu ouvi antes dele me matar e me condenar ao ciclo infinito de renascimento. Seria graciosa sua atitude, se eu já não tivesse dado tudo de mim em todas minhas vidas, porra!
Quantas vezes mais terei que repetir esse processo? Quantas vezes mais morrerei em solidão? Quantas vezes mais perderei tudo o que já construí? Quando finalmente terei paz? Novamente eu fui jogado no vazio, no desespero de minha alma angustiada, repetidamente entregue ao acaso.
Em toda a minha existência eu lutei contra o oculto, mas diferente de antes, agora eu sei quem me amaldiçoou. Enfrentarei meu novo destino, dessa vez eu não farei tudo em vão, não irei lutar para sobreviver, eu não vou ser um fantoche. Eu serei o caçador e a caça é o maldito que me acordou.
Ele verá o que é evolução.
Comments (1)
See all