O local o qual podia ser visto era apenas uma sala circular repleta de inumerás estantes abarrotadas de livros, como se fosse uma grande biblioteca, ela podia não ser muito grande em diâmetro, mas em altura era praticamente infinita, sumindo em um ponto negro que não parecia ter fim, fazendo-me perguntar onde estávamos naquele exato momento, no meio da alta biblioteca havia um homem sentado de pernas cruzadas, suas roupas eram as mesmas que o homem anterior, seus cabelos eram negros e longos, seus olhos estavam fechados e sua feição era calma, transmitindo uma grande paz para quem olhasse para aquela figura, que por um acaso estava flutuando.
E foi naquele momento eu senti que algo estava errado, uma estranha sensação percorreu meu corpo à medida que encarava aquela pessoa e só então preocupei-me com meus arredores, percebendo destarte que a minha volta não havia mais nada, apenas eu, aquele homem e a biblioteca, ninguém e nada mais.
— O q… — Perguntei-me, após dar mais de uma olhada à minha volta, rodando minha cabeça. — Ei! Quem é você?! - Apontei para o outro presente.
— Eu? — Questionou o tal, de maneira surpresa e apontando com o indicador para si próprio, embora sua voz fosse suave e agradável. — Claro, onde estão meus modos? — Ele dizia mais sereno, como se lembrasse de que deveria introduzir-se. — Muito prazer rapaz, me chamo Sitra.
— Ah… — Disse, sendo pego de surpresa pela cordialidade. — Err…
— Gostaria de perguntar onde você está?
— Sim, eu ia, obrigado por lembrar. — Agradeci.
O clima dentro daquela sala não parecia ser natural, muito menos agradável, dado que parecia ser isolada do mundo, uma vez que eu não via entrada ou saída, mas, ignorando isso, a companhia daquele homem era inegavelmente harmónica.
— Bom, esse local é uma simples projeção de minha mente, uma ilusão.
— Pera, o quê? — Disse sem entender. — Como assim? Eu estava andando em um corredor bem real até ainda agora. — Falava, apontanto para trás.
— Isso, uma ilusão parte desse princípio, enganar a mente.
— Então é tipo aquelas mágicas com jogo de espelhos?
— Não. — Ele sorriu. — Eu fiz tudo isso somente com a minha mente.
— Tipo… Como um feitiço?
— Podemos dizer que sim. — Ele parecia olhar curioso para mim, com um pequeno sorriso no rosto, como se soubesse cada passo que eu iria dar. — Diga-me, sabe o que está acontecendo aqui?
Eu fiquei em silêncio, o homem parecia tão enigmático que era difícil dizer o que queria saber, mas ao mesmo tempo ele parecia tão confiável, como se fosse meu amigo de tanto tempo, era ao mesmo tempo, simples, e difícil, manter o assunto.
— Nem se eu nascesse de novo. — Respondi, seguido de um suspiro.
— Você esperava uma escola normal, indo direto para a sala e começando com perguntas sobre as férias, estou errado?
— Não. - Concordei com a afirmação, ficando um tanto desconfiado de como ele me entendia tão bem. — E agora estou em uma tal classe especial, a qual nem sei sobre o que se trata.
— Oh! Isso é raro. — Ele disse, ainda com seu sorriso de canto de rosto. — Alguém inscrito na classe especial sem saber o que ela é.
— É que… Foi meu pai quem me inscreveu. — Disse, com um certo amargor em minha garganta.
O homem coçou seu queixo, reflexivo.
— Diga-me, desejas que eu lhe ensine sobre a classe especial?
— Agora? — Respondi surpreso.
— Neste exato momento. — Sitra sorria.
— Então eu quero. — Disse feliz. — Adoraria.
— Ótimo, então perguntarei algo simples…
O homem moveu seu braço lentamente, esticando-o para o lado com uma mão aberta, fazendo com que um livro de uma das estantes viesse diretamente para sua mão, ao mesmo tempo que abria, folheando diversas páginas e parando em uma aleatória, ele trazia o livro para perto e parecia olhar para mim.
— Tentarei ser simples e breve, então… — Ele passava o dedo sobre a página que havia aberto. — Você já jogou algum jogo de RPG?
— Err… Já. — Respondi um tanto quanto confuso com o porquê da pergunta.
— Acredita que as coisas neles presentes possam existir? Armas mágicas e bestas místicas?
— Bom, eu duvidaria muito, mas a conversa está tão estranha que estou mais inclinado a acreditar.
Ele sorria, como se ouvisse algo engraçado.
— E se eu lhe falar que alguns desses conceitos existem em nosso mundo?
— Existem? — Perguntei, animado. — Pera, que? — Refleti comigo, minha animação não fazia sentido.
— Por exemplo, o que me possibilita realizar essa ilusão é minha energia, minha mana.
— Então, isso aqui é realmente um feitiço. — Disse, coçando a cabeça. — Tá, isso explica esse lugar, o senhor estar flutuando e esse treco com o livro. — Eu apontava para uma das diversas estantes com livros voando de um lado para outro. — Mas no que exatamente essa explicação se encaixa com a classe especial?
— Bom, pelo mundo existem diversas instituições como a A.H, academias que recrutam jovens e os treinam para serem futuros Shielders, para assim proteger o mundo das ameaças que existem, pessoas com poderes incríveis e que podem ajudar a todos. — Ele passava a página. — Como guildas de aventureiros, cheias de guerreiros, ladinos e magos.
Minha cabeça ficava ainda mais confusa, mas eu tentava digerir as informações que eram passadas.
— Então todos aqui são como aventureiros de RPG, mas e essas ameaças? Seriam tipo… Dragões e Goblins? — Disse, em um tom cômico.
— Sim, mas a nomenclatura que damos para essas criaturas é Abyss walker. — Sitra respondia, de maneira séria.
Eu olhava ao redor, tentando encontrar algo que pudesse tornar aquela conversa mais natural, mas não tinha nada o que fazer, os livros daquele local não pareciam ter nenhum título ou algo parecido, mesmo suas capas tinham cores diferentes, alguns voavam e por vezes eu jurava ver as estantes girando de lugar.
— Tá… Mas por que? Essas criaturas fazem o que exatamente? Só tentam destruir o mundo?
— Os Abyss walkers surgem através de singularidades, que são criadas através da grande concentração natural de mana, infelizmente essas singularidades causam muitos problemas ao mundo, senão as eliminarmos, elas podem acabar causando uma catástrofe, e centenas de mortes inocentes.
— Então o trabalho dos tais Shielders é ir até essas singularidades e destruí-las?
— Precisamente.
A conversa começava a ficar cada vez mais complexa, eram muitas informações para compreender, portanto eu evitaria perguntar sobre, ao menos nesse primeiro momento, deveria tentar pensar nas informações que já me eram ditas.
— Tudo bem, mas existem seres que não causam nenhum problema ao nosso mundo? Que vivam em paz conosco.
— Infelizmente não, caso esteja se perguntando sobre Elfos e Anões, nunca vimos Abyss walkers como estes.
— Então apenas as criaturas ruins surgem.
— Lamentavelmente.
— Então a classe especial seria como aventureiros em treinamento?
— Correto.
Depois de tanta estranheza, as explicações pareciam fluir de forma natural, eu podia sentir que a comunicação estava mais fácil e de uma maneira que minha compreensão não era sacrificada, mesmo com assuntos complexos como aqueles.
— Então como exatamente funciona a seleção de pessoas para a classe especial?
— Geralmente é da maneira mais tradicional, pessoas que sabem da existência dela, mas há um método menos ortodoxo, onde recrutamos jovens que pareçam demonstrar muita aptidão para serem Shielders.
— Existem pessoas que não podem ser Shielders? Apenas treino não basta?
— Para pessoas comuns, a mana vem de forma muito abaixo da média, então apenas pessoas com uma boa quantidade de mana são consideradas elegíveis.
— Entendo… — Respondi um tanto desapontado. — Então porquê estou aqui?
— Hmmm… — O homem pensava, esticando seu outro braço e trazendo outro livro, que vinha girando de uma estante detrás dele. — Creio que deva ter essa resposta em seu âmago.
Demorei para responder essa afirmação, era verdade, se o que Sitra dizia era verdade então só poderia significar que meu pai tinha conhecimento sobre a existência da classe especial.
— Sim. — Disse, mas perdendo-me em meio a vários pensamentos.
— O que me diz? — Sitra perguntava, fechando o livro e despertando-me de minha inércia.
— Sobre? — Questionei, ainda tentando situar-me em que parte da conversa estávamos.
— Gostaria de fazer parte da classe especial?
Eu fiquei em silêncio por alguns instantes, pensava sobre tudo que havia passado até o momento, os momentos infernais de meus treinos, as coisas que meu pai me ensinou, os momentos que ele me fez rir, e todas as horas que passamos juntos…
— Responda de forma sincera, quero que diga com seu coração. — Completava Sitra.
Talvez aquele homem à minha frente, já soubesse a resposta, mas era interessante que mesmo assim insistia em ouví-la da minha boca, ele era alguém misterioso, parecia alguém bom, um sábio, mas não parecia poder ler minhas emoções e não sabia como eu me sentia.
— Senhor Sitra... Eu estou rejeitando seu convite. — Disse realizando uma reverência, em respeito. — Agradeço a boa vontade de suas palavras, mas não quero fazer parte da classe especial.
— Hmmm… — O homem, que mais parecia um monge, ponderava, entregando-me um singelo sorriso. — Compreendo sua vontade jovem, por favor, sinta-se à vontade para retirar-se.
— Obrigado por entender.
— Talvez nunca mais nos veremos, mas foi bom pode-lo conhecer rapaz.
Sitra erguia sua mão direita até mim, de palma para cima, como se deseja-se tocar minha mão, e, antes que eu pudesse fazer qualquer ação, outro brilho incandescente ofuscou minha visão, obrigado-me a fechar os olhos…
Quando recobrei minha vista o ambiente a minha volta havia mudado completamente, em minha memória eu ainda estava dentro do auditório, em meio ao discurso daquele homem sobre a instituição Adam.
Contudo, naquele instante, eu me encontrava dentro de um escritório, uma grande mesa de madeira estava a minha frente, uma pilha de vários papéis organizados estava a esquerda, canetas tinteiro estavam dispostas em cima da grande mesa e duas estantes de livros estavam nas extremidades opostas da sala, junto de vasos de plantas, que enfeitavam o local, a cadeira à minha frente estava livre e de lado, indicando que provavelmente alguém estava sentado nela, mas teve de sair.
Eu não sabia sequer como havia chegado até tal situação, talvez tivesse caído no sono durante as explicações daquela palestra de boas-vindas, maldito seja Gibb que não me acordou.
— Bom dia garoto. — Irrompia uma voz, grave como uma trovoada. — Sou o diretor dessa escola, Christor Steiheil, muito prazer.
O homem que se introduziu era alto, apenas um pouco mais que eu, seus cabelos eram negros, porém já perdiam parte de seu espaço para o branco, e presos por um baixo rabo de cavalo, ele parecia ser uma pessoa de mais idade, talvez algo próximo dos 45 ou 50 anos, sua barba era cheia, bem feita, e seu cavanhaque era loiro dourado, provavelmente um sinal de nascença, um monóculo acompanhava seu par de olhos castanhos e suas roupas seguiam o padrão daquele mesmo homem na palestra, porém este usava seu sobretudo apoiado nos ombros enquanto estava preso por um acessório dourado, que parecia uma grossa corrente de ouro, em seu pescoço.
— Você veio parar na minha sala por ter desmaiado durante a palestra introdutória. — O diretor tinha uma pasta em suas mãos, nela haviam papéis que folheava ao mesmo tempo que andava de volta para a cadeira que estava livre. — Estou vendo seu registro médico, parece que esse episódio nunca ocorreu anteriormente… — Ele passava mais algumas folhas, voltando sua atenção para mim, ao final, sentando. — Sente-se bem? Tomou um bom café antes de sair de casa?
Acabei por responder com o silêncio, no primeiro momento, meu cérebro ainda processava, ou tentava, os últimos acontecimentos, a falta de algumas pontas me deixava preocupado, não era comum eu desmaiar ou sequer dormir em momentos importantes como estes, graças a isso eu estava ocupado tentando juntar as peças daquele quebra-cabeças.
— Perdão, me perdi por alguns segundos. — Respondi saindo de meu estado catatônico. — Sim, tomei café, mas não faço ideia do que possa ter ocorrido… Talvez tenha caído no sono.
O diretor olhava em meus olhos por alguns segundos, coçando o cavanhaque.
— Quem o trouxe a minha sala foi o próprio porta-voz, ele disse que o encontrou ainda sentado na cadeira mesmo após o fim da palestra, como ficou preocupado com você não acordando ou respondendo, ele se apressou e tratou de deixá-lo aos meus cuidados. — O diretor levantava um sorriso ao final da frase. — Que bom que você acordou, estava me preparando para realizar uma ligação para o hospital.
— Nossa… Que sorte a minha então. — Sorri, rendendo-me da bondade que aquele senhor emanava. — Perdão por quaisquer incômodos que eu possa ter causado.
— Não há pelo que se desculpar jovem, nós devemos preservar por sua saúde em primeiro lugar. — O homem pegou uma de suas canetas tinteiro e em um papel começou a escrever. — Por conta disso acho melhor retirar-se no dia de hoje, volte para casa, como é o primeiro dia não há problema. — No final ele destacava o papel e entregava-me. — Descanse por hoje.
O papel que o diretor havia me entregado tratava-se de um documento que relevava minha falta naquele dia de aula, como uma espécie de passe livre, seu rosto era verdadeiro, parecia que a preocupação com minha pessoa era genuína, então apenas pude julgar que deveria ser melhor voltar para casa e tirar o dia para descansar.
Eu sorri para o senhor Christor, levantando no após, olhando para o papel, virei meu rosto para o dele, e com uma rápida troca de olhares, ele estendeu sua mão para mim, e como reflexo a apertei.
— Descanse garoto, trate de se recuperar 100% para o dia de amanhã, estaremos o esperando. — Ele sorriu.
— Obrigado senhor Christor, vou aproveitar o dia de hoje para tentar descobrir o que aconteceu.
Assim que saí da sala do escritório dei de cara com uma grande sala administrativa, papéis, bancadas, computadores e estantes recheadas por livros e pastas estavam por ali, as pessoas ali estavam vestidas com roupas que lembravam, vagamente, o uniforme do porta-voz, todos trabalhando, digitando, organizando e assinando papeladas, minha saída pela porta nem mesmo deve ter sido notada pelos demais membros, apenas dei continuidade a meu caminho.

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