No trajeto de casa minha cabeça funcionava de forma conturbada, meus pensamentos eram como um dia chuvoso, pancadas fortes e trovoadas cercavam meus raciocínios, não era algo fluido, como as águas de um rio, e isso era o que mais me incomodava, como se algo no meu dia estivesse faltando, em minha cabeça entre o caminho do auditório e da sala do diretor havia ocorrido algo, o qual não conseguia me recordar, como se uma peça faltasse, e no caminho de minha casa eu tentava achá-la.
— Gibb teria me acordado se eu tivesse dormido… — Pensava. — Se eu passasse mal talvez devesse ser realmente melhor alguém ter me levado ao diretor, talvez por causa disso o porta-voz quis deixar-me aos cuidados dele… Mas… Eu não lembro de passar mal…
Com minha mente lotada por pensamentos desalinhados segui repleto de dúvidas pelas ruas da cidade, cauteloso com meus passos, mas envolto em minhas ideias o suficiente para facilmente perder-me pelas vias, assim que pisquei meus olhos mal podiam acreditar no que via, minha rota atual era uma totalmente diferente da qual precisava fazer, eu sequer sabia onde estava.
Minhas feições foram tomadas por ansiedade e desespero, jamais havia estado naquela área da cidade, não sabia o endereço ou nome da rua, e, para piorar minha situação, ao tatear meus bolsos eu havia percebido que estava sem meu celular, provavelmente este havia ficado em casa quando saí correndo após o café…
Uma gota de suor escorria pelo meu rosto, o que eu devia fazer?
Sem pânico, respirei fundo, concentrando em meus arredores, o local apresentava pouco movimento, o que era compreensível visto o horário e que aquela área parecia mais residencial, movi meu olhar para todos os cantos, mas não obtive sucesso em perceber qualquer detalhe familiar ou sequer ver algum confiável por onde poderia seguir.
Mas algo estava errado...
Naquele mesmo instante um sentimento ruim começava a vir à tona, algo em meu âmago parecia forçar uma regurgitação, mas não de uma forma física, uma energia ruim preenchia meu ser, como se fosse esmagar-me igual a um pequeno biscoito da sorte, a atmosfera ao meu redor tornava-se sufocante, ao ponto de ser insuportável.
Aquela situação estava beirando o sobrenatural e meu consciente não mais acreditava naquelas sensações que faziam meu corpo suar e ofegar, num último instante, como forma de instinto, meu olhar direcionou-se para minhas costas e ali minha mente entrou em pane, uma silhueta estatística me olhava, como se fosse uma espécie de espectador, sua forma era igual a de um humano, muito mais alto que eu, aquela figura só de existir parecia sobrepujar minha própria existência, como se eu não fosse nada mais que um mísero inseto.
Sem muita apresentação a grande sombra movia-se, seu braço levantava e ficava claro que em sua mão havia algo, o qual não consegui distinguir por ver apenas de relance, a pose que ela tomava parecia ser de combate, num último momento pude reagir e subitamente saltei para o lado, apenas seguindo meus instintos de sobrevivência e reflexos corporais, deixando aquele ser misterioso, e um grande estrondo, para trás.
Eu realizei um rolamento assim que meu corpo entrou novamente em contato com o chão, virando-me e direcionando meu olhar na posição que estava anteriormente, vendo uma cratera e uma cortina de fumaça bege, e, saindo do meio daquele cenário, aparecia o ser que havia visto anteriormente, agora com minha posição favorável e visão nítida pude desta vez ver com clareza quem fora o dono daquele ataque.
Seu corpo era grande e torneado, tendo todos os músculos bem definidos, cobrindo-o apenas restavam trapos, uma saia rasgada cobria apenas sua cintura e uma parte de sua coxa direita enquanto em seus pulsos e tornozelos tiras de couro (como pulseiras) se prendiam, sua altura facilmente se igualaria à de um poste de iluminação de quase três metros, com a pele em um tom de vermelho forte, seus olhos negros de pulpílas carmesim pareciam transbordar um sentimento de ira, ao mesmo tempo que centravam em mim, chifres proeminentes em sua testa apontavam para cima e dentes salientes na mandíbula saltavam para fora de sua boca enquanto uma fumaça vinda de sua respiração escapava, como uma besta incontrolável, seu braço se mexeu, retirando do meio da cortina de fumaça sua arma, uma espécie de bastão metálico com diversas saliências sequênciadas, algo bem exótico.
Eu não podia acreditar no que estava à minha frente, mas nem mesmo tive tempo algum para pensar, visto que o ser correu em minha direção brandindo sua arma para outro ataque, não tive outra escolha senão novamente desviar enquanto ele, outra vez, acertava o chão, abrindo outro buraco, dessa vez na calçada de concreto.
Eu mal conseguia conceber o que estava acontecendo, aquele ser de feições maléficas apareceu sem nenhuma explicação, parecia sair de dentro de um mundo fantasioso ou então de um jogo de computador, sua força era tremenda, capaz de partir uma placa de concreto ao meio e abrir uma cratera no asfalto usando uma arma contusiva, não havia o que fazer ali, por isso dei início a uma corrida, tentando tomar distância daquela criatura.
Minhas pernas se moviam como nunca, uma disparada olímpica graças ao medo e a adrenalina que era liberada em meu corpo, mesmo assim aquela besta parecia me acompanhar, seus passos conseguiam ser velozes, mesmo com aquele tamanho anormal, e cada vez mais o ser se aproximava…
Chegando perto...
Muito perto…
Somente tive tempo de levantar meus braços enquanto aquela besta erguia aquela arma outra vez, recebendo um ataque direto, sendo arremessado direto para o asfalto, a metros de distância, rodopiando e batendo minhas costas na calçada, ralando meu corpo e causando muita dor, o impacto ferveu meu sangue e vibrou meus ossos, uma dor aguda parecia perfurar meus braços, cheguei a pensar que ambos poderiam ter quebrados, mas não, era apenas muita dor, meu corpo parecia não ter mais vontade de continuar, todavia, ficar no chão não era uma opção, uma vez que aquele ser voltava a se aproximar, dessa vez a passos lentos.
Em minha mente não existia nada além de medo e instinto de sobrevivência, eu não conseguia correr, muito menos defender, me esquivar não funcionaria para sempre, então eu teria que atacar, ou então morreria ali mesmo… Mas eu não fazia ideia de como lutar contra aquilo…
Meu corpo tremia de medo, mas algo interno me dizia para acalmar-me...
Minha dor era aguda, mas algo dizia para ignorar...
Minha vontade caía, mas algo dizia para levantar…
Eu lembrava de meu pai, dos treinos que era obrigado a fazer, de seus ensinamentos, suas técnicas e aulas teóricas, suas palavras e da expressão em seu rosto, meu pai nunca demonstrou medo ou insegurança, sempre esteve de cabeça erguida, até nos piores momentos, enfrentando o mundo inteiro de peito aberto, ele era um homem exemplar, um bom pai e um ótimo amigo... Eu me lembrava do porque aceitei aquele treino e aquela rotina infernal…
Uma memória surgia enquanto os olhos do jovem se fechavam, perante aquela imensidão de pensamentos desordenados e a intensidade de acontecimentos…
Uma memória de muito tempo atrás…
— Pai! Pai! — A voz de uma criança ecoava. — Eu quero ser que nem você quando crescer.
— Hahaha! — O homem ria, se ajoelhando e olhando nos olhos do pequeno. — É mesmo filho?
— É sim! O senhor acha que eu consigo?
— Filho… — O homem com um sorriso de canto olhava seu filho, o segurando. — Não precisa se preocupar com isso, porque eu vou te amar de qualquer jeito, pode ser quem você quiser.
— Quem eu quiser?
— Sim. — Ele olhava o pequeno, sorrindo. — Nunca deixe ninguém o fazer recuar.
… Abrindo novamente os olhos, o rapaz agora olhava aquela besta continuar a avançar, seu corpo se erguia, destemido e, dessa vez, suas pernas também iriam na direção dele, dessa vez era uma luta de verdade, como seu pai havia ensinado, ele não recuaria.
Eu encarava aquele monstro enquanto minha respiração, mais controlada, saía de minha boca, depois de alguns passos flexonei meus músculos, adotando uma postura de batalha, colocando uma de minhas mãos mais a frente enquanto outra permanecia próxima ao meu peitoral, estava em uma forma estável, a luta começaria no próximo movimento, eu sabia que deveria me manter atento, qualquer ataque que pudesse tomar daquela criatura poderia ser meu fim, suportei um de seus golpes, porém quanto mais meu corpo aguentaria? Meus braços ainda sentiam a dor do ataque que defendi, então todo cuidado ainda era pouco.

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