Aguardei pacientemente o meu adversário fazer seu próximo movimento, que veio assim que estávamos o suficientemente perto, seu braço levantava e agora girando o corpo ele vinha em minha direção em um ataque horizontal, projetando seu braço para trás, virando seu corpo para o lado direito, procurando ganho de força, realizando um golpe brutal visando acertar meu tronco, nesse instante foi que saltei, deixando com que seu bastão passasse por debaixo de meu corpo, errando-me totalmente, aterrisando no chão e em seguida propulsionando meu corpo em alta velocidade para a frente, na direção de meu atacante, rapidamente levantando meus punhos e usando do treino de meu pai realizei uma das técnicas que havia sido ensinado.
"Dragon Claw"
Com a mão aberta e os dedos flexionados direcionei meu ataque para o abdômen daquele ser, acertando-o com força total, sua pele era densa e espessa, parecia que minha mão tinha acertado uma parede, porém isso não me faria recuar ou diminuir a força de meu golpe, pelo contrário, eu sabia que apenas deveria continuar e forçar ainda mais, meu braço continuou a pressionar e ao final meu golpe lançou-o mais a frente, mas ainda não era o suficiente para fazê-lo cair.
Meu adversário voltou a avançar, desta vez com passos mais pesados e erguendo seu braço totalmente para cima, abaixando-o com violência, para tentar fazer com que seu bastão me afundasse no asfalto, mas eu conseguia aguardar o tempo certo, era como treinar com meu pai, apenas precisaria ter percepção para achar a abertura correta. Quando seu bastão baixou, num salto para longe, consegui esquivar totalmente de seu ataque, outra cratera surgia, bem como outra cortina de fumaça, ali via a abertura que precisava e contra-ataquei, dessa vez socando seu rosto enquanto sua cabeça ainda estava próxima do chão, e isso o fez virar o rosto e levantar irado.
A criatura parecia cada vez mais perder a paciência, cada golpe que eu acertava fazia-o ficar cada vez mais forte, e isso preocupava-me, seu bastão movia-se, num ataque vindo do chão para acertar-me por baixo, por reação consegui erguer meus braços em defesa, porém não rápido suficiente para desviar, pela cortina de fumaça ainda não ter dissipado-se totalmente eu não tinha total noção do tamanho de sua arma e isso custou um ataque direto.
Senti o impacto em meu queixo, minha mandíbula bateu contra o maxilar e forçou minha cabeça a olhar para cima, levantando meu corpo no processo e jogando-me para longe, batendo de costas contra o chão, minha visão tremulou e turvou enquanto que a dor percorria cada osso de minha cabeça, fazendo com que eu ficasse contorcendo-me ao chão com a pesada dor que ressoava em minha cabeça, eu devia ignorar aquilo se quisesse ficar vivo, mas era difícil de fazer e fácil de falar, meus dentes rangiam e a dor era como se meus ossos estivessem sendo martelados, um por um, precisei me conter para não continuar no chão, levantei-me e senti, além da tontura, o gosto metálico em minha boca, cuspi e consegui ver sangue sair, aquela luta não era brincadeira… Era para me matar.
A besta outra vez veio em minha direção, mas dessa vez eu ataquei antes, sabia que deveria parar de estar na defensiva, não estava dando certo, quando ele exibiu o mínimo espasmo muscular em seu braço dominante, avancei sem pensar duas vezes, mais uma vez abrindo minha mão e golpeando-o, mirando em seu peitoral.
"Dragon Claw! Impact!"
Eu usava uma das formas que meu pai havia me ensinado, um ataque que concentra mais força na palma da mão, dessa forma criando uma espécie de segundo impacto, nessa forma ao invés de eu apenas golpear uma única vez também ocorreria da palma de minha mão realizar um segundo impacto, impulsionando tanto eu, quanto meu adversário para trás, esse golpe desgastava-me mais, porém precisava usá-lo, ou provavelmente perderia.
O ataque foi bem sucedido, tanto eu quanto aquele ser éramos jogados em direções opostas, meu braço direito começou a latejar, meu corpo estava chegando ao limite, provavelmente não conseguiria usar esse golpe uma segunda vez, aterrissei sem grandes problemas além da dor, já meu oponente tinha a parte superior do corpo jogada para trás, infelizmente para minha alegria ele logo se recuperou, voltando a ter equilíbrio, endireitando sua postura e olhando diretamente para mim, com raiva.
As feições da besta mudavam e seu músculos começavam a inchar cada vez mais, fazendo-o ficar ainda mais robusto, suas veias saltavam e um urro animalesco saiu de sua garganta enquanto o mesmo voltava a estar na ofensiva, levando seu braço para trás e começando uma sequência frenética de golpes, jogando de forma brutal seu bastão para todos os lados, acertando tudo no caminho, eu estava perdido, forcei minhas pernas a continuar e saltei para longe, recuando a cada balanço aplicado, os golpes erravam por pouco, até que um deles acabava acertando pela lateral, me jogando em um prédio próximo.
Meu corpo foi de encontro a parede de forma violenta, cuspi mais um pouco de sangue quando choquei-me contra a parede, junto a minha saliva, ao mesmo tempo que meus músculos enfraqueceram, minhas pernas cederam e ali mesmo tombei, estava com sorte de estar inteiro ou sem nenhuma fratura aparente, em compensação tudo doía, meus músculos e membros nem mesmo queriam responder, salve poucos espasmos, não restava-me muito mais energia, a criatura se aproximava, parecendo exibir um sorriso vitorioso e selvagem, erguendo aquele bastão uma última vez…
Para finalizar aquela batalha…
Tudo que eu vi foi um brilho, o brilho do sol, um que cegava minha vista e turvava ainda mais minha visão, as formas dos objetos pareciam distorcer-se, aquela figura à minha frente apenas virava um borrão rubro, como uma sombra, mal conseguia reagir, mas naquele momento de execução, pude ver algo, uma última abertura de esperança, o pescoço daquela besta estava exposto, até demais, era a chance que eu precisava para sair vivo.
Meu corpo podia estar cansado e destruído, mas minha vontade de viver falou mais alto, a chama que aquecia meu peito brilhava mais forte do que nunca, tinha uma última chance, e decidi naquele momento a agarrar, a segurar o mais forte que podia e não deixá-la ir.
Minhas pernas tremiam, mas eu as forcei mesmo assim, não podia deixar o momentum passar, concentrei toda a força que restava naquele salto, com minha mão direita já preparada, o bastão daquela besta estava em seu ápice, era agora ou nunca.
Então pulei…
Minhas pernas conseguiram impulso o suficiente para me fazer diminuir em poucos segundos a distância entre mim e ele, seus olhos arregalaram-se, a criatura estava surpresa.
Eu só teria uma chance…
Projetei meu braço para trás, arqueando meu corpo enquanto preparava um poderoso soco, meu punho fechava-se com força, eu apertava meus dedos e minhas feições também acompanhavam o sentimento, queria gritar de euforia, meu peito se enchia e meus pulmões se comprimiam com uma voz muda de desespero.
Naquele instante eu sentia algo correr em meu corpo, uma energia que nunca havia sentido antes, era como se o mundo entregasse suas forças para mim, a natureza e a fauna, partículas azuis começavam a voar na direção do meu punho e então meu braço, cobrindo-os como um manto, logo essa energia parecia chocar-se e com isso gerar atrito, seguido de faíscas, meu braço direito começava a esquentar e logo estava parcialmente em chamas, curiosamente elas não me machucavam, apenas davam a sensação de como se algo morno estivesse envolvendo-me, desde a ponta dos dedos até o final de meu cotovelo, as labaredas crepitavam ao que meu braço movia-se na direção de meu alvo, eu via a imagem daquela criatura crescendo e crescendo, até que um forte soco era encaixado em seu rosto, as labaredas que antes cobriam meu braço moviam-se na mesma direção do meu golpe, concentrando-se no meu punho e sendo liberadas em seguida, fortalecendo ainda mais minha investida, acertei-o pela lateral e graças a tremenda força que era gerada, através da soma das chamas e minha própria força corporal, o monstro era empurrado para o lado oposto o qual vinha meu ataque, indo diretamente para o chão, chocando-se com força.
Eu estava cansado, aquela era a última gota de energia que conseguia usar, estava esgotado e com isso me sentava no chão quase apagando instantaneamente, já havia passado do meu limite, nem mesmo sabia como havia feito tudo isso, apenas que não me restavam mais forças para questionar, mas ainda sim estava feliz que a criatura estava nocauteada, no fim, eu tinha ganho aquela batalha.
— Que bom vê-lo. — Uma voz estranhamente familiar invadia minha mente logo que meu suspiro de alívio era dado, quando olhei aos meus arredores para ver a origem da mesma pude ver um homem de feições calmas e um sorriso alegre em seu rosto.
Encarei o homem por alguns segundos, tentando desvendar sua identidade, mas sem muito sucesso, em minhas memórias jamais lembro de o conhecer, contudo algo dentro de mim dizia que ele era familiar.
— Acho que também é bom lhe ver? — Questionei, tentando afirmar.
— Não faz ideia de quem eu seja, ou faz?
— Não senhor, sinto muito.
Seu curto sorriso logo se aproximava, algo dizia que ele não iria me machucar, mesmo assim não deixava de estar na defensiva, seus dedos vinham na direção de minha testa e assim que seu indicador encostou em mim, foi como se uma dor sumisse, uma flor desabrochasse, e então eu lembrava daquele homem, não só dele, mas de todo o resto.
Era Sitra, e ele sorria para mim.
— Diga jovem, como se sente no momento?
— Cansado. — Dizia quase caindo no chão. — E quebrado. — Completei.
— Eu imagino que no momento deva estar com muita dor, então lhe levarei para ter um tratamento adequado, você lutou muito bem aqui, agradeço.
O homem me entregava outro sorriso, levando a mão até seu bolso para pegar seu celular, isso até eu o interromper antes dele fazer qualquer outra ação.
— Espere, senhor Sitra, isso foi planejado? Eu acabar vindo parar aqui?
— Não, jamais. — Ele dizia, um tanto sério. — Nunca colocaria a vida de um civil em risco.
— Tudo bem. — Disse já sem muitas forças.
Eu tinha entendido, Sitra estava ali para cuidar daquele local, aquilo devia ser obra de uma singularidade e muito provavelmente ele tinha que tomar providências quanto a mim, anteriormente ele conseguiu retirar minhas memórias, fazendo-me esquecer sobre toda a nossa conversa e meu conhecimento sobre o mundo que havia conhecido, provavelmente ele teria que fazer o mesmo agora.
— O senhor irá apagar minha mente? — Indaguei preocupado, mas pronto para a resposta.
Sitra olhou para minha pessoa com um olhar curioso, como se não esperasse que eu conseguisse ligar os pontos.
— Oh, sim, infelizmente eu devo fazer isso, apenas devolvi essas lembranças a você para tornar mais fácil a explicação do que ocorreu aqui.
— Entendo… Isso é o que um Shielder faz então?
— Hm? — Ele murmurou, como se não houvesse escutado.
— Um Shielder, você disse naquela hora que Shielders são pessoas que protegem o mundo, pessoas incríveis. — Repensava o que Sitra havia dito anteriormente naquela biblioteca infinita. — Ser um Shielder é isso?
— Basicamente garoto, existem muitos pensamentos sobre o que é ser um Shielder, mas creio que o que falou é um bom resumo sobre.
Fiquei em silêncio por alguns segundos, até que respirei fundo e olhei na face daquele homem, ao redor tudo parecia tomar a forma que era antes, e até mesmo a criatura que antes estava ali, sumia como cinzas…
— Vocês lutam para isso? Manter a paz?
— Precisamente, jovem.
Ambos ficamos em silêncio, até um sorriso surgir de Sitra.
— Diga garoto, você antes parecia inseguro de sua resposta, antes você negou minha proposta, e agora? Após vivenciar na pele a vida de um Shielder, o que me diz? Saber que sua ação foi capaz de salvar muitas vidas.
Pensei um pouco, lembrando de todas as minhas ações até aquele momento.
— Eu tenho medo, quero ajudar os outros, fazer isso todos os dias que posso… Quando você me disse que eu poderia ajudar eu achei que me orgulharia e faria meus pais sentirem felicidade por saber disso, mas…
— Mas?
— Mas eu tenho medo de não ser como meu pai, que é forte, tenho medo de não lhe trazer felicidade ou orgulho… Hoje eu quase morri, e pelo que? Nem mesmo fui eu que escolhi ir para a Adam Highschool, simplesmente poderia ter morrido por nada...
Ficamos em silêncio por um instante.
— Rapaz, eu dei a você uma chance extra, que não se dá a ninguém, seu pai ficaria orgulhoso disso, não? Ou quem sabe se soubesse do seu feito de hoje? Você tem medo de ser um fardo ou de não ser igual a ele? — Ele sorria. — Pode não achar, mas o que fez hoje ajudou o mundo, mesmo que não ache.
Olhei para Sitra por um momento, ele apesar de parecer jovem era muito sábio, talvez pudesse ver mais do que eu pensava.
— Somos todos diferentes, ninguém é igual, se tentarmos estaremos fugindo de nossa natureza, e não tem nada de errado nisso. — Ele se abaixava e se ajoelhava junto comigo. — Diga-me, você vive por você ou seus pais? Acha que eles prefeririam lhe ver feliz ou amarrado em tristeza e amargura? Você deve fazer algo que se orgulhe, e só você pode dizer o que é isso.
Sorri para Sitra, no final das contas ele era sábio e sabia exatamente as palavras certas.
— Senhor Sitra… — Dei uma pausa. — Nada disso foi armado, não é? Apenas foi azar meu?
— Infelizmente. — Ele sorria. — Não é uma obrigação, é uma oferta, dizer não é uma resposta tão válida quanto dizer sim, você pode não ter escolhido ir para a Adam Highschool, mas se manter nela é uma decisão sua.
Demorei um pouco para responder, mas o senhor Sitra fazia parecer que havia todo o tempo do mundo naquele lugar, sua presença era calmante, até minhas dores pareciam sumir um pouco mais, deixando minha mente mais clara, mas para ele já devia ser claro a resposta que eu daria.
— Acho que… Seria bom dar uma chance para isso, ser um Shielder. — Sorri. — Tem algo mais que eu deva saber sobre isso?
— Não é um caminho fácil, seu potencial é grande, mas precisa de polimento, você ainda precisa treinar duro, estudar e saber as regras desse novo mundo que está entrando. — Ele olhava para mim como se me analisasse. — E também fazer bons amigos.
— Amigos?
— Uma jornada árdua torna-se sempre mais amena com companheiros que pode sempre contar. — Um sorriso era entregue a mim. — Aconselho.
— Entendo. — Disse confiante.
— Jura que protegerá a todos? Independente de sua classe ou qualquer outro fator? Que fará de tudo para que a paz possa prevalecer?
— Tentarei senhor Sitra, tentarei ser um bom Shielder e proteger a todos.
Ele sorriu para mim, feliz com minha resposta, que agora era a definitiva.
— Então me diga jovem, qual o seu nome?
— Meu nome é Kai, Kai Hakuryū.
— E a partir de hoje Kai, seja bem-vindo a classe especial. — Sitra disse, tocando em meu ombro, me dando um sorriso confiante.
Eu sabia que aquela havia sido uma cerimônia improvisada, mas Sitra deu tanta importância quanto se fosse uma cerimônia completa, me sentia honrado, gostaria que fosse de uma outra forma.
Ali eu sentia que algo mudava minha vida para sempre…

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