Parte 1
Antes de sair de Florescer, decido passar na cozinha deles e pegar qualquer coisa que seja útil numa luta. Não dá para ficar enfrentando um por um somente com magia, as mais elaboradas levam tempo, o que eu não tenho, e as eficientes podem atingir os inocentes.
Caminho para o fundo do restaurante, perto da saída de emergência que fica entre dois cômodos. Além do salão, existem a cozinha e uma sala que imagino ser um local de descanso para os funcionários, o cômodo adjacente ocupa parte do salão, então não se passa desperdício.
Passo por ele e vou direto para o que me interessa, a porta de madeira que abre para os dois lados. Entro no cômodo de design simples dando passos lentos pelo corredor estreito, tentando não pisar nas louças derrubadas.
Nada chegou aqui, exceto o próprio desespero dos funcionários.
Ignoro a parte do corredor com forno e pia, e me direciono para a parede repleta de armários, a mesma possui uma janela de madeira que se conecta com o salão de alimentação, um retângulo perfeito que tira o detalhe privativo da cozinha. Gosto desse modelo, talvez eu consiga incentivar a mamãe a colocar uma em nossa casa. Ela com certeza vai achar o detalhe brega, é um pouco mesmo, mas é fofo. (Você deve estar com muito tempo livre para rir, nesse momento). (Nossa, uau! Não sabia que tinha um fiscal de felicidade alheia na minha cabeça). (Eu só estou te lembrando o porquê de ainda estarmos aqui). Dragãozinho hipócrita. (Para quem disse não se importar com essa raça, até que você está bem apressadinho). Sinto ele dar de ombros, com seu tom irônico. (Só estou falando). (E eu também). Retruco Glint, regressando milhares de anos de maturidade. (Chata!). Bufo uma risada, ele é o chato aqui.
Desconsidero sua colocação e começo a vasculhar os balcões, armários e caixas da parte de baixo da janela, deixando de lado panelas e talheres. Uso o vento para vasculhar a parte de cima dos armários que estão, irritantemente, muito altos. Não encontro nada importante na parte de cima, então opto por uma faca comprida de cabo curto, que achei numa gaveta do balcão. (Por que você não pega um dos cutelos?). Reviro os olhos com a ideia de Glint. (Quero avançar rápido, não esquartejar peça por peça de lobinho). (Seria sanguinário). (Ainda vai ser).
Imagino que a parte de trás já foi limpa por Jake, então saio do restaurante pela porta da frente.
O silêncio que me rodeia é estranhamente desagradável, o que me impulsiona a correr do local fechado e, no mesmo ritmo, me arrepender de ter demorado tanto com as feras.
Detenho meus passos na varanda em assombro.
Ok... isso vai dar trabalho.
Desço os degraus rapidamente, me esquivando dos destroços e sigo a trilha de sangue no chão.
Não é necessário qualquer experiência em caça para seguir pistas tão óbvias.
A rua está uma tremenda bagunça, com rastros de lutas deixados para trás e pilhas de corpos enfeitando o vilarejo num emaranhado de pessoas e lobos, mortos, jogados para todos os lados.
Casas e lojas com portas e janelas quebradas.
O estrago foi tão grande que levarão meses para se reconstruírem. Merda! O quão fraco tem que ser, para não conseguirem nem se livrar de lobos? (Você vai chegar a tempo? Tipo, eles estão levando uma surra). Tsk. (Talvez eles só estejam escondidos). (Onde? As casas parecem vazias). (Possivelmente concentrados no meio da vila). (Eles estão se amontoando no meio da vila? Que ideia de merda é essa?). (Eu nunca disse que inteligência era o ponto forte deles).
Sigo andando pela rua, pulando os corpos e evitando o meio fio sangrento das calçadas. O espaço claustrofóbico abraçado pelas construções te induz a caminhar num só sentido, não importa se você vai para frente ou para trás, se não atravessar uma rua específica você chegará ao mesmo lugar.
Amplio minha audição, deixando minha energia vagar pelos dez metros ao meu redor. Permaneço atenta a qualquer movimento, enquanto converto-a em uma fumaça pesada e invisível, que desliza em meus pés e vaga pelo espaço.
Nada de muito anormal quando você conhece os limites de sua energia. Entender que ela é mais que o abastecimento de magia no corpo, é entender como o próprio mundo funciona, já que uma rede de informações é transmitida no momento em que ambos os componentes se unem. Ou seja, sua energia recebe informações em contato com outra.
Existem outros métodos de detectar sinais, mas este é o mais senciente.
Eu não quero apenas localizá-los, eu quero saber todos seus traços técnicos, a quantidade de indivíduos e a própria densidade corporal de cada um. Tem muitos buracos para se esconder, seria fácil criar uma emboscada e, ainda mais, acertar um inocente no susto. Portanto, não posso correr o risco de confundir um humano com um lobo.
Mesmo com tudo isso, nada chama a minha atenção, ouço apenas os pequenos sons das aves e dos cães presos nas casas. E pela quantidade de corpos espalhados e com o fato dos animais ainda estarem inteiros, só pode significar que o foco dessa invasão foi as pessoas desse povoado. (Alguém fez uma merda muito grande). Sim. (O que resultou na morte de inocentes).
Paro o meu avanço pelas ruas estreitas, vasculhar lixo não vai me ajudar em nada. Relaxo levemente o joelho, e com o uso do vento, me impulsiono para o telhado da casa à minha direita. Me equilibro no barro e corro entre eles, as casas na parte domiciliar possuem basicamente a mesma altura. Distribuo o vento ao meu redor, mantendo meu peso o mais leve possível, evitando quebrar as telhas e lançando-me o mais rápido que posso em direção ao centro. Em direção ao barulho.
Em menos de dez casas, visualizo uma onda de ataques canis impedindo as pessoas de entrarem em seus domicílios. Desço do telhado e avanço neles. Me apresso em direção à três lobisomens que vasculham a redondeza, dois no lado direito da rua e um no lado esquerdo, se intercalando. O mais próximo de mim, me nota e corre para o ataque.
Ateio bolas de fogo em sua direção, distraindo-o suficientemente para estar quase colada nele. Esquivo para trás de uma de suas investidas, aproveito do tempo de atraso de seu corpo, me impulsiono num salto e cravo a faca em seu pescoço, seguido rapidamente de mais facadas em seu peito e barriga, desfrutando do meu tempo de queda ao chão.
O lobisomem despenca no solo, atrás de mim.
Sem dar espaço para o raciocínio dos outros dois, avanço jogando minha faca no pescoço acinzentado de um, pulo em sua direção, alcanço a faca e deslizo ela para a esquerda, um corte nada limpo em sua jugular. Caio de pé próximo do último e ateio-o chamas, assistindo-o queimar até seu... colapso. Decido deixá-los para trás, pode ser que se recuperem, mas levarão o dia inteiro para isso.
Continuo avançando as ruas, salvando algumas pessoas de ataques brutais e vendo a vida se esvair de outras. Não tem muito o que fazer, usar poderes explosivos estaria só aumentando o risco para os humanos.
— Aurora? — uma cócega sussurrada clama por reconhecimento.
Finalmente um sinal de vida.
— Pai? — Respondo-o quase demorado demais pela sua pressa.
— Preciso que você corra para casa, o líder deles está aqui. Sua mãe vai conseguir te proteger. — Rápido e alto demais para um pedido.
Jake emitiu uma ordem.
E o que você acha que vai acontecer quando os lobinhos passaram por todas essas pessoas, seu idiota?!
— Tô indo te ajudar! — Continuo pulando as casas por cima, sem a necessidade de parar.
Eu teria chegado mais rápido no centro, se não fosse pelas interrupções.
(Cadê as ninfas?). Glint considera a ausência das pequenas. (As do Refúgio das Fadas não ultrapassam a barreira). Esqueci de mencionar as regrinhas burocráticas das três. (Mas e a do seu pai?). A barreira que se estende pelo povoado? (Ela só impede o acesso aos portais. A responsabilidade delas é somente com floresta).
— Não, Aurora! Você vai… — O som de uma explosão, próxima de mim, interrompe o protesto de Jake.
Sua voz tornou-se distante como se eu tivesse sido jogada no meio de um ciclone, exceto pela sua ação destrutiva. Consequência do meu ouvido ter perdido sua capacidade auditiva por alguns milésimos de segundos.
Recuo meus passos, sentando no telhado e esperando que a onda de vertigem passe e que leve embora essa maldita dor de cabeça que se formou.
Porra! Esqueci de recuar minha energia.
— Filha? O que foi isso? Aurora?! — Ouço a voz de Jake abafada, aumentando de tom gradativamente, conforme o zumbido em meu ouvido diminui.
— Nada demais, pai. Como estão as coisas aí? — Foco no assunto de prioridade, ignorando como essa porra é irritante.
Não quero preocupá-lo à toa, ele já estava me intimando para sair da vila, não posso permitir que ele volte ao assunto, nem vacilar com seu voto de confiança.
— Eu e alguns caçadores estamos evitando o avanço dos lobos, mas não vamos conseguir por muito tempo... eles estão em grande número.
Ou nós que estamos em pouco.
— E o líder?
— Ele está parado, inspecionando ao redor.
— Ótimo!
— Auro… — Jake é interrompido novamente.
Que fantástico conveniente.
— Saí de perto, porra! — Ouço uma criança gritar na mesma direção que ocorreu a explosão.
— Já chego aí, pai! — Corto seu meio de comunicação comigo, usando uma barreira de vento.
Ele iria insistir em eu ir para casa e isso não está acontecendo.
Volto a correr e viro a esquina à minha esquerda, em direção ao protesto.
Noto de longe, uma barreira vermelha iluminada por ramificações elétricas da mesma cor com corpos de lobos espalhados ao redor dela. Dois licantropos marrons, ainda vivos, circulam por ela. Enquanto um lobisomem, da mesma cor, tenta quebrá-la com suas garras.
A barreira treme, mas não vacila.
— Eu mandei você se afastar! — A criança grita novamente, de dentro da barreira, com seu pequeno corpo em chamas.
É impressionante que exista uma criança neste povoado com tamanho nível de poder, não esperava encontrar nenhuma depois de ouvir tanto do meu pai sobre a disfunção de seus núcleos. É igual encontrar uma Gápia, que só é possível de achar quando ela está caçando, já que do nada tem um roedor morto voando na sua frente.
São ótimas testadoras de ataque cardíaco.
Sempre me perguntei como elas conseguem achar um par, tipo, elas estão completamente envoltas de escamas invisíveis, NÃO TRANSPARENTES, INVISÍVEIS! Fodidamente insano!
Minha euforia dura pouco com a emergência da situação, a segurança da criança é prioridade, vou deixar as perguntas para depois.
A criança tropeça nos próprios pés, seus olhos pescando mais que um litorâneo, com seu poder chegando ao limite. Ele atuou bem até agora.
Sem qualquer aviso, a barreira se desfaz num movimento espectral, presenteando os lobos com a brecha que eles precisavam para avançar imediatamente.
Me aproximo rapidamente dos lobinhos e uso o *Aprisionamento D'água*, semelhante ao que eu fiz no restaurante. A esfera que começa espaçosa, se comprime até apertar os lobos em filetes de água.
Alcanço o local onde a barreira estava, notando duas pessoas, um adulto e uma criança. Um garoto e uma mulher de cabelos negros. O garoto ainda brilha intensamente em vermelho, mas sem a dança do fogo de antes, enquanto a mulher se apoia na parede segurando o ombro e chiando de dor.
Esse deve ser o motivo do desespero da criança e também o da explosão mais cedo. Muitos magos despertam seus poderes através da pressão psicológica, sua mãe em perigo é um ótimo incentivo.
— Pare onde está! Quem é você? — O garoto mantém a postura defensiva, mesmo parecendo que tomou litros de Licor Feérico.
Se tem uma coisa que aqueles filhos da puta sabem fazer, além de te induzir a enfiar sua cabeça na própria bunda, é álcool.
Evito a exigente voz aguda, me viro e dou fim ao sofrimento dos lobos, explodindo as criaturas. Ao contrário dos anteriores, não dou chance dessas sobreviverem. Nada pessoal, apenas equilibrando as mortes que eles levaram.
O garoto observa, recuando e segurando sua boca. Mesmo tendo matado alguns, ele ainda não está acostumado a ver corpos se explodindo. Se não fosse por essa situação, talvez ele nunca teria presenciado um massacre. Tsk. Preciso ser rápida aqui, se não os lobos logo matarão a todos.
Uma pontada de raiva fisga em meu peito, um aviso para chegar até meu pai.
— Sua magia não durará por mais tempo, você precisa de uma arma — Digo ao moleque, inclinando a faca em sua direção, fazendo-o recuar mais um passo.
(Só acho, que você está assustando o menino). Glint tem razão, mas estou com pressa demais para me importar. (Eu o salvei, ele deveria se sentir aliviado). (Não com uma doida ensopada de sangue, apontando uma faca para ele). Urgh.
— Quem é você? — Ele repete, ignorando minha instrução.
— Alguém que está ocupada — Agacho e jogo a faca para ele.
A criança espera a arma parar de pular nos paralelepípedos e a segura, indecisa sobre o que fazer com ela.
Vamos lá, o que você faz com uma faca num atentado?
— Direcione o poder daquela barreira em seu corpo e transforme-a numa armadura. Isso vai evitar o esgotamento de sua magia e facilitará sua aproximação aos lobos. Degole-os. — Aponto para a faca e simbolizo o passar da faca no pescoço, com meus dedos.
Dou meia volta, em direção ao centro; se eu for rápido lá, nenhum lobo chegará aqui. Dois javalis com uma espadada só.
— Por favor, diga seu nome pelo menos. — A criança pede em tom apressado, parando meu avanço.
Inclino meu rosto por cima dos ombros, assistindo as chamas se apagarem lentamente do corpo do menino.
— Aurora. Transforme-a em armadura. — Aviso novamente, notando seu interesse em desfazê-la.
Ele prende seus passos no chão, abaixando o rosto e forçando os punhos ao lado de seu quadril. — Ah sim... É claro.
Noto seu olhar se prender ao chão, enquanto suas mãos abrem e fecham, buscando pelo elemento dentro dele.
— Você consegue? — Tenho que saber antes de prosseguir.
— A-acho que sim! — Sua voz, incerta, gagueja.
Ele acha?
— Argh! — A mulher geme de dor, fazendo-nos direcionar para ela.
— M-mãe! Você está bem?
(Hã…). (Shiu! Ele sabe). (Ok...)
— Mãe! — A criança esperneia novamente.
— E-Estou, querido. Logo vai passar — A mulher mente, como se sua criança fosse cega.
Me aproximo aos poucos, em passos leves, para não despertar o medo dos dois. O garoto fica entre eu e sua mãe, tentando evitar que chegue perto.
— Eu posso? — Pergunto ao garoto.
Ele me olha com dúvida em suas feições.
— O quê?
— Eu posso me aproximar?
— Pra quê? — Ele se posiciona em modo de ataque com a faca que lhe dei, tentando proteger sua mãe.
Ok... Isso é fofo. É como assistir um felino eriçado.
— Talvez eu possa ajudar. — Dou de ombros.
— Como eu poderia confiar?
— Você pode escolher entre confiar em mim, ou deixar sua mãe perder o braço. A escolha é sua. — As palavras me escapam um pouco insensível demais.

Comments (2)
See all