Sentia uma grande inquietação, talvez eu precise de um banho, o cheiro de brejo estava grudado em mim e não era nem um pouco agradável, Roy me olhou com certo desprezo enquanto a limpava os coelhos:
一 Deveria ir se lavar, está fedendo mais que um brejo sujo.
一 E aonde eu poderia ir me lavar? 一 perguntei ainda mantendo uma boa distância entre nós, não queria abusar da sorte.
一 Tem um lago ao final da clareira. 一 Roy respondeu sem nem me olhar.
Bem, pelo menos o seu lado maníaco por limpeza me ajudou. Olho para a minha situação e a primeira pessoa que vem à minha cabeça é a Chiara, bem talvez ela tenha alguma roupa limpa... Me aproximo dela de maneira discreta perguntando envergonhado:
一 Yani, você teria alguma roupa limpa para me...
一 Eu tenho, aqui está! 一 Mark soltou um berro se aproximando de mim, ele tirou o colar do pescoço o tirando um pingente em formato de baú o deixando em um tamanho enorme, ele separou uma muda de roupa, sendo elas de boa qualidade da cor verde escuro e me dando algumas essências.
Não tinha uma opinião formada sobre o Mark, não sabia se ele fingia ser bom ou se ele realmente era, queria acreditar na segunda opção.
Por hora só bastava ser grato por ele ser legal comigo:
一 Obrigado Mark.
O vi sorrindo antes de ir em direção ao suposto lago, não foi difícil de encontrá-lo, era um lago pequeno e sua água era cristalina, haviam enormes pedras espalhadas entorno do mesmo onde deixei minhas roupas limpas. Ao entrar no rio tirei minha roupa ficando nu, a água gelada ao tocar minha pele causava um certo arrepio, mas não desgostava da sensação.
Estava distraído me lavando que só percebi a chegada de outra pessoa quando ela se aproximou.
Era Zadiel, ele estava se aproximando de mim, sua cintura para baixo estava coberta pela água do pequeno rio, ele estava com o cabelo solto o molhando com as mãos cheias de água.
Não acreditava no que os meus olhos viam e então o perguntei o olhando fixamente em seus lindos olhos acinzentados:
一 Zadiel?
Zadiel parecia ter me escutado perguntou de maneira calma olhando para mim:
一 está se lavando?
一 Sim, o odor de brejo ficou encalacrado, Mark me deu essas essências, ele garantiu que elas funcionam. 一 dizia o mostrando um pequeno frasco.
一 elas funcionam, a dois dias atrás eu e Casspion ficamos presos em uma raiz fedorenta. 一 Zadiel disse se aproximando mais ainda de mim.
E agora estou com a cena dos dois ficando repletos de raízes fedidas perto do Roy, não saia mais da minha mente o quão engraçado devia ter e acabo sorrindo com esse pensamento então comento passando a essência de sândalo em meu corpo:
一 isso é bom, quero dizer, eles funcionam.
Zadiel abria suas asas molhadas me jogando água, com toda a minha maturidade bato minhas mãos na água com força fazendo a água espirrar nele que não deixou barato, quando me dou conta estávamos em uma guerrinha de que molharia mais o outro até que Zadiel começou a olhar fixamente para um ponto em meu braço.
一 Seu braço está machucado? 一 Zadiel questionava apontando para o machucado em meu braço.
一 Ah, isso... Não incomoda. 一 respondo só lembrando agora daquele machucado, ele realmente não incomodava.
Zadiel olhava para minha cara com se não acreditasse no que eu disse, ele abriu e fechou a boca quando ia falar algo pudesse ouvir um estrondo vindo da floresta, Zadiel fica alerta na mesma hora me questiona:
一 Você escutou isso?
一 Parece ter vindo da floresta... 一 disse olhando para o outro lado do lago onde tinha uma floresta mais fechada.
一 Fique aqui... 一 antes que pudesse pensar Zadiel saiu correndo em direção a floresta.
Porém o Zadiel saiu tão rápido que esqueceu de vestir suas roupas novamente, fui à beira das pedras e peguei suas roupas e as minhas e o segui em direção a floresta o chamando enquanto corria:
一 Ei, voltei aqui querido príncipe!
一 Eu falei para ficar lá, pode ser perigoso. 一 Zadiel falou parando no meio do caminho para me esperar.
一 Eu até que ficaria lá, se você me ouvisse! 一 dizia indignado o olhando e só agora que reparei que seu corpo era bem definido, a parte do tronco e seus ombros eram bem largos.
Zadiel me olhou por alguns segundos ficando completamente corado e disse com uma certa vergonha por fim:
一 Eu sempre te ouço... Demetri, você está nu...
一 Que engraçado o principezinho também. 一 dizia ficando corado, não como se eu não quisesse colocar uma roupa, mas entre sair correndo desesperadamente atrás dele e botar uma roupa... bem eu saí correndo.
一 Bem, eu precisava ver o que estava fazendo barulho. 一 Zadiel dizia cobrindo sua parte íntima com uma de suas asas.
一 E sua ideia genial era sair por aí nu pela floresta. 一 disse em um tom zombeteiro.
一 Você não está em condição de criticar. 一 Zadiel respondeu me olhando indignado.
Nos aproximando de um salgueiro, ele reluzia uma luz dourada, a sua volta tudo parecia estar com mais vida, parecia um lugar sagrado, desvio o olhar para Zadiel o perguntando:
一 O que é aquilo?
一 Não faço a mínima ideia... 一 Zadiel dizia olhando com muita cautela, eu sentia vontade de tocar no salgueiro e quando dei um passo em sua direção Zadiel me puxou para trás com tudo 一 Não se aproxime disso, pode ser uma maldição.
Não havia visto o círculo de cogumelo ao redor do velho salgueiro, ainda sentia uma necessidade imensa de tocá-lo e então ouço Zadiel falar:
一 Vamos voltar para o acampamento, depois voltaremos vestidos.
一 Certo...
Como nossas roupas estavam em minhas mãos, acabamos vestindo ali mesmo, Zadiel como sempre estava belíssimo em seu traje aristocrático azul escuro. Quando voltamos para o nosso acampamento Yani se aproximou de mim com um sorriso malicioso perguntando de maneira insinuativa:
一 Você demorou! O que estava fazendo lá?
O nervosismo me dominou e então acabei falando e Zadiel arqueou a sobrancelha como se dissesse em silêncio "isso não soou nada legal":
一 Com certeza não saímos andando nus pela floresta e encontramos um círculo de cogumelos brilhantes em volta de um velho salgueiro.
一 Só eu achei isso muito específico? 一 Bjorn dizia segurando o riso ao lado de Casspion.
一 O que vocês estavam fazendo nus pela floresta? 一 Casspion perguntou me olhando.
一 Não sabia que eram amantes. 一 Mark dizia de maneira inocente tirando o riso de Yani e Roy que começaram a gargalhar alto.
Zadiel estava mais vermelho que o cabelo de Roy, ele deve ter se sentido ofendido e então digo os olhando com a cara feia:
一 Não somos amantes!
Yani levantou as mãos em rendição enquanto Roy me lançou um olhar indecifrável.
一 Venham comer antes que eu coma toda esse coelho... 一 Casspion falava tentando deixar o clima mais calmo.
Yani se aproximava de mim enquanto segurava o que julgava ser uma coxa do coelho ela olha diretamente para a coxa e diz:
一 Demetri lindo, o que acha de me dar a sua parte da comida?
一 Pode ficar, não estou com fome 一 digo a dando a coxa, ela a pega e vou em direção a Mark que estava perto do lobo branco.
一 O seu lobo ainda está exausto, nesse estado não consigo distinguir se ele é um lobo lupino ou se é um lobo normal. 一 Mark dizia olhando para o lobo.
Não achava que ele era um lupino, ele parecia mais ser um lobo comum, nada mágico. Na história original ele é só um lobo raro que foi morto:
一 Não acho que Money seja um lupino.
Mark parecia não acreditar em mim, enquanto o olhava Zadiel se aproximava de me dando um uma batata assada:
一 Toma...
一 Eu não quero. 一 digo o olhando, não sentia fome no momento.
一 Você precisa comer. 一 Zadiel insistiu me encarando.
Yani se aproximou falando:
一 Acredite ele não come muito, uma vez ele chegou em um estado anêmico.
一 É um milagre o jovem Queen está vivo então. 一 Roy disse com os olhos arregalados..
一 Ele tem a saúde tão frágil? 一 Casspion perguntou assustado.
一 Que tal irmos ver os cogumelos fluorescentes? 一 Mark falou me olhando como se disse; "estou te ajudando."
一 Vamos? 一 disse por fim.
Ao chegarmos ao grande salgueiro Mark rela em um dos cogumelos e Casspion o questiona com certa dúvida:
一 Então o que é isso?
一 Isso é um círculo ancestral... 一 Mark respondeu e de repente seus olhos mudaram de cor, eles estava de uma tonalidade mais avermelhada e sua expressão era de dor.
一 Mark? 一 perguntei assustado o olhando.
一 Ele quer se comunicar com você... Demetri... 一 Mark disse me encarando de maneira séria com seus olhos ainda avermelhados.
一 O que eu fácil? 一 perguntei o olhando com certa dúvida.
一 Entre no círculo e coloque sua mão direita sobre o tronco do salgueiro. 一 Mark explicou com seus olhos já voltando da cor normal.
一 Certo, isso é extremamente fácil! 一 falava indo em direção a salgueiro passando pelo círculo de cogumelos, ao tocar no tronco tudo fica escuro a minha volta e então digo com um certo receio 一 Olá?
一 Jovem criança, sua vida não será fácil... 一 dizia duas vozes como um eco sendo uma masculina e outra feminina.
一 Isso eu já sabia. 一 respondi revirando meus olhos.
一 Não, não. O que te aguarda no futuro não será algo que você enfrentou... Dor, tortura e sangue em suas mãos. 一 dizia as vozes com certa certeza que era medonha.
Não queria passar coisas dolorosas novamente! ainda consegui sentir a sensação de meus ossos sendo partidos ao meio...é terrível e falo com certa dor:
一 Não pretendo matar ninguém, não quero assumir o papel de vilão.
一 Não é só os vilões que carregam sangue inocente em mãos, heróis, camponesas, curandeiros, príncipes e princesas. Todos carregam. 一 as vozes falavam me desanimando ainda mais.
一 Não, não, não! 一 falava tampando meus ouvidos.
Não queria ser mal, não queria morrer...
一 Criança ingénua, você pode evitar e retardar acontecimentos futuros, mas tudo que se for mudado contra o curso natural será cobrado em dobro. 一 as vozes falavam de maneira acusatória.
一 Não estou fazendo nada que mereça um futuro ruim... 一 dizia com uma súplica.
一 Esse é o problema criança tola, o mal e o bem andam lado a lado. 一 as vozes falavam com se esse fosse um grande problema, sem o mal o bem estaria bem. não era bom?
一 Ainda não compreendi... 一 sussurrei mais para mim mesmo.
一 Quando for o momento certo talvez você entenda... 一 disse mais alto a voz masculina.
一 Talvez eu nunca entenda. 一 digo de maneira irônica, não queria ser mau mas tudo indicava isso e então pergunto 一 Eu serei mal no futuro?
一 Você nunca será do bem e mesmo que tente isso o levará a morte... 一 as vozes me responderam.
一 O que não me levará a morte? 一perguntei sem entender, ser bom me leva a morte, ser mal me levar a morte... o que não me levará a ela então?
一 Todas as suas escolhas sejam elas do bem ou mal serão seu próprio caminho para morte. 一 disse as vozes em um grande eco.
Então não fazia mal eu ser do mal, era isso que ela me dizia.
一 Você acha que eu devo seguir o caminho do bem ou mal? 一 perguntei olhando para a escuridão, que só agora entendi onde estava... eu estava dentro do meu próprio coração.
一 Não vamos mentir para você, criança tola. Você como uma boa pessoa é mil vezes melhor que qualquer outra versão... No entanto, se a partir dessa nossa conversa decidir ser do mal, você constituirá um legado, terá tudo que sempre quis e almejou. 一 disse as vozes e um tom muito mais alto, parecia que elas queriam que minha escolha não fosse o bem.
Se eu já não tivesse morrido em minha outra vida com certeza estaria apavorado com a ideia de morrer, mas como eu já morri a morte não era tão assustadora assim, se eu fosse morrer de qualquer jeito preferia morrer sem levar pessoas inocentes comigo e sem machucar ninguém, com isso em mente digo com toda a minha determinação vendo que a escuridão começou a sumir:
一 Eu não vou ser vilão!
一 Você irá ser de qualquer jeito... 一 disse uma voz baixa como um sussurro antes da escuridão toda sumir.
Vejo um grande clarão em minha frente e como já sabia de minha morte resolvi querer saber mais sobre o futuro:
一 Então me conte o que o futuro me reserva?
NOTA:
A escuridão em si era o coração de Demetri que era maldoso por natureza, já a luz é a bondade de Rusone que decidiu não ser mal mesmo sabendo de sua morte.

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