O brilho azul te envolve e ofusca sua visão. Sua mente fica confusa e leva quase um minuto inteiro para você se recuperar e o que te atinge primeiro é o vento forte que açoita sua pele de repente, seguido por um vazio no estômago e a falta de apoio.
Caindo.
No espaço de um piscar de olhos – o que pode durar uma eternidade quando se está em pânico e desorientado – você sente suas costas atingindo o chão com um baque inesperado. O ar escapa de seus pulmões e você toma seu tempo para tossir compulsivamente enquanto abraça o estômago numa tentativa de fisicamente segurar o enjoo pós portal do Luther.
Isso deveria ficar mais fácil com o tempo, mas a terra contra seu corpo e o ardor na garganta te dizem o contrário.
Você tem tempo para ficar no chão?
Seus olhos se abrem lentamente e o céu noturno começa a tomar foco lentamente. Com um som dolorido você consegue levantar, as mãos se agarrando a coisa mais próxima para servir de apoio, uma mureta de pedra.
“Ainda bem que o portal não te jogou ai…”
O pensamento te dá um calafrio e você respira fundo tentando recapitular a última meia hora tentando entender como as coisas chegaram a esse ponto. Seu corpo dói a ponto de te fazer se questionar se algo está quebrando e, considerando a surra que você levou do falso chemosit, não era inesperado que houvesse algumas fraturas graves.
Será que os outros se machucaram mais?
Esfregando a cabeça você olha em volta e procura os outros, mas não há o menor sinal deles por perto. Ótimo, outr
o caso do portal jogar cada um para um lado. Rezando para que os outros não estejam muito longe (ao contrário do seu oponente) você escolhe uma direção e começa a andar com passos lentos se afastando do barulho do mar. Os minutos passam sem sinais dos irmãos Hayashi e, para dificultar mais ainda, o portal te jogou no porto.
Em dias normais seria ótimo cair numa região periférica e pouco movimentada, mas algum maluco resolveu que seria um ótimo momento para realizar uma festa com direito a parque intinerante, música alta e muitas pessoas. E você se forçou a andar para longe dessa agitação em direção aos prédios e dos galpões.
Sinceramente os barulhos e luzes fortes estavam te deixando tonta. Ou é uma concussão. Dion poderia dizer mais sobre isso, você só precisa achar ele. Seus olhos passam pela multidão festiva mais rápido do que sua dor de cabeça gostaria, com o passar do tempo, a ausência de qualquer sinal dos seus amigos começou a te deixar hiperconsciente do barulho e da multidão de pessoas te cercando.
Será que Ele está seguindo vocês?
“Ele vai fazer um massacre quando chegar aqui.”
Você começa a caminhar mais perto das paredes, longe do mar e das pessoas reunidas em grupos. A dor de cabeça está piorando e você sente seu corpo ficando pesado, todos esses estímulos e o dia extremamente corrido estavam te alcançando.
Perigo.
Alguém agarra seu braço de repente. O puxão te faz tropeçar nas próprias pernas e perder o equilíbrio. O Mestre Seiichi ficaria decepcionado. Assim que as sombras te esconde de olhos curiosos, você firma os pés no chão e se vira usando o impulso para empurrar seu propenso agressor que cai de costas, você o prende no chão e o brilho esverdeado de uma lâmina de ninpo ilumina seus rostos.
Luther. Apenas o Luther sendo sorrateiro como sempre.
— Luh, você me deu um susto do –
— Ainda bem que te achei! – ele te interrompe com um abraço apertado, você segura a vontade de reclamar da força e apenas se inclina contra ele e devolve o gesto da melhor forma. – Acho que perdi todo mundo. De novo. – ele resmunga se afastando.
— A gente acha eles. De novo. – você afasta uma mecha de grossos cabelos negros para olha-lo nos olhos e sorri um pouco.
Ele resmunga algo, mas parece levemente aliviado antes que se agite de novo, parecendo finalmente notar algo em seu rosto e fica alarmado.
Mãos grandes cobrem os lados do seu rosto enquanto os olhos dourados do seu amigo se arregalam em preocupação.
— Você precisa de cuidados médicos.
Não diga.
.
.
.
Por insistência de Luther, vocês perdem algum tempo para que ele cuide de seus machucados mesmo não tendo mais do que alguns itens básicos que o Hayashi sempre carrega em sua pochete de perna, felizmente, a pancada na cabeça, os hematomas e arranhões que você ganhou fugindo do seu inimigo não estavam tão ruins quanto parecia. De qualquer forma, assim que tivessem um tempo, você tomaria um remédio e depois dormiria dois dias, no mínimo.
Dion os encontrou antes que vocês tivessem tempo de bolar um plano de busca. Seu óculos tinha uma rachadura e ele parecia desconfortável em sua própria pele, você só podia imaginar a extensão de seus machucados porque ele não estava com disposição sequer de apontar os seus próprios - oportunidade que ele não costuma perder facilmente – ele divaga rapidamente enquanto gesticula, seu gadget de pulso tem uma rachadura, mas parece funcionar bem enquanto ele mexe em algo e aponta direções aleatórias. As palavras se misturando em um ruído de fundo familiar enquanto sua mente vaga e você tenta contabilizar quantas pessoas deveriam estar com você.
Um. Dois. Três.Cinco. Quatro. Dois. Três…
Seus dedos continuam se dobrando e esticando enquanto você tenta contar. Uma tarefa tão simples... Até uma criança consegue.Porque você, não? Você se sente impotente, é como estar preso em um pesadelo apenas seguindo um roteiro que você não conhece e é incapaz de fazer algo além de esperar que acabe para que você possa acordar em sua cama e deixar tudo isso pra trás.
— Tudo bem aí? – alguém pousa a mão em seu ombro te trazendo de volta, você ergue a cabeça para ver Luther te encarando com um olhar preocupado – Temos que ir buscar o Rami primeiro e tentar falar com a Alika, ela já deve estar preocupada.
Você concorda com a cabeça e abaixa a mão, um suspiro pesado escapa enquanto esfrega a nuca, um pequeno estalo dolorido soa seguindo de um resmungo manhoso. Dion te dá um tapinha solidário nas costas e começa a andar, Luther passa um braço por seus ombros e segue o irmão te levando junto.
— Vou te dar uma massagem quando chegarmos em casa. – o funkwe comenta após um curto silêncio – Você fez por merecer hoje.
— O que eu fiz foi apanhar bonito, Luh. – você retruca com um sorriso mínimo.
— Muito bonito. – o líder retruca te puxando um pouco mais perto.
Vocês seguem nesse joguinho até que se aproximam de uma construção, a placa artesanal na frente diz: Labirinto de Espelhos. Você olha para lukwata esperando alguma explicação, ao que o seu colega se aproxima e te mostra a tela do gadget, há uma malha verde e preta com vários pontos vermelho e um amarelo muito próximos e, usando todo o seu conhecimento (Apenas o básico que Dion conseguiu te ensinar.), você consegue entender que é um gps e esse pontos estão em algum lugar mais a frente. Sua mente clareando o suficiente para você entender que estão dentro desse prédio.
Luther mantém o braço sobre seus ombros mesmo quando vocês entram enquanto seus olhos passeiam pelo corredor e se desviam para os espelhos por uma fração de segundo.
Um reflexo cansado te encara de volta.
Que noite horrível…
“Ainda não deve ser nem 21:00h.”
Você suspira e abaixa o olhar evitando os rostos exaustos e machucados que te encaram de todas as paredes. O irmão de cabelos tingidos esfrega seu ombro e volta a falar banalidades, sua voz alegre ecoando pelos corredores e voltando em ecos baixos e vocês caem novamente nessa falsa calmaria enquanto seguem Dion que virar de esquina em esquina sem desviar os olhos do pulso onde o mapa continua brilhando fracamente.
Algumas vozes familiares chamam vocês de um lugar desconhecido. Seus amigos se animam enquanto começam a chamar de volta e apressar os passos tentando se aproximar das vozes, mesmo com o rastreador e a gritaria agitada de seus nomes, ainda levou algumas curvas erradas antes que vocês achassem Alika e Rami. O irmão mais velho corre imediatamente para vocês e os captura em seus braços fortes, seus pés balançam no ar e você se preocupa com sua coluna que reclama ao ser pressionada, mas você apenas cala a boca e abraça ele de volta.
— Malik não está com vocês. – Alika comenta preocupada.
— Como você encontrou o Rami tão rápido? – você pergunta descansando a cabeça no ombro do irmão mais velho.
— Primeiro: vocês não estão tão longe. – sua amiga começa estendendo a mão para que você veja seu dedo erguido. – Segundo! – ela ergue outro com um ar exageradamente dramático – Ele me ligou.
— Isso faz sentido… – você e Luther murmuram de seus lugares debruçados sobre os ombros do Dingonek
Rami os coloca no chão e os olhos dourados varrem todos com uma expressão triste antes de parar em você. Há uma longa troca de olhares silenciosos antes que ele estenda a mão e bagunce seus cabelos com afeto, suas bochechas esquentando levemente.
— Não se preocupe. Dy tem tudo sob controle. – o autoproclamado gênio exclamou enquanto se aproximava de vocês e apontava para si mesmo com o polegar.
— Como esperado do gênio da família. – você elogia com um sorriso.
— Obrigada, docinho. – Dion agradece com um largo sorriso. – mas você esqueceu que eu também sou o mais engraçado.
E para confirmar isso, você ri.
Tendo reencontrado seus amigos, vocês seguem para a última marcação no mapa, essas coordenadas levam vocês para o centro da festa, pessoas vestindo uniformes de staff correm de um lado para o outro arrumando equipamentos e montando o que você supõe ser brinquedos de parque. Mais uma vez você se vira para o Dion em busca de explicações, dessa vez ele continua olhando para o gps e para as construções com as sobrancelhas franzidas e uma expressão levemente irritada.
— Dy? – April pergunta se aproximando do lukwata e pousando a mão em seu braço, conseguindo sua atenção. – Você perdeu ele?
— Não. Ele… eu… E-– o técnico se interrompe com uma série de resmungos (que se parecem muito com xingamentos abafados) enquanto gesticula para uma das construções.
Você dá alguns passos tentando ver algo por cima das cabeças de funcionários que ignoram suas presenças, o que é surpreendente porque tem três serpentes híbridas, uma semi-quimera e uma humana, todos usando roupas escuras e carregando armas ninja, além de que, tanto você quanto Alika pareciam ter caído de um penhasco (chegou perto, mas não) .
Demora um pouco, mas seus olhos pousam em uma figura familiar. Com um pouco de dificuldade você consegue encontrar um rosto conhecido, cachos tingidos de dourado aparecendo sob um boné padrão de um azul sem graça. Você sente uma contração no olho e o começo de uma enxaqueca, Malik marcha para vocês com um sorriso animado e começa um discurso entusiasmado sobre como ele entrou para essa “gangue” e agora ia trabalhar com eles e… sua dor de cabeça atinge um novo patamar e você se escora na pessoa mais próxima. Uma mão pousa em seu ombro e você se deixa puxar para mais perto.
Luh e Dion se aproximam do caçula e começam a discutir com ele em um tom moderado. Você não ouve nada, sua cabeça dói e você está fazendo e refazendo a contagem de quantas pessoas estão no seu grupo. Você ergue o olhar vagamente para cima só para confirmar em quem você está se escorando.
O sempre bom e confiável, Rami.
Você fecha os olhos e se acomoda melhor contra o lado do dingonek, a textura levemente pontuda das escamas ocasionais e a pele grossa não te incomodam nem um pouco enquanto você fecha os olhos e se deixa levar pela brisa fresca da noite e a mão gentil esfregando suas costas.
Tão familiar…
Tomara que eles sobrevivam.
Seus olhos se abrem bem a tempo de ver o híbrido menor correndo e pulando sobre você, só para ser pego no último momento por Raph pelo casaco. Você sorri e abre os braços para receber o abraço do rapaz que está se contorcendo no ar tentando te alcançar. Rami coloca ele no chão e no segundo seguinte ele já está te abraçando, braços enrolados firmemente em sua cintura enquanto ele esconde o rosto no seu ombro, a cauda balançando como a de um filhote de labrador, apenas um pouco menos peluda e com mais longa e escamada.
— O que foi baixinho? – você perguntou esfregando os olhos, parece que há uma camada de poeira cobrindo sua retina.
— Desculpa… – Mikey resmunga e se afasta para te olhar com olhinhos de filhote.
Você olha desconfiada para as duas serpentes gêmeas que desviam os olhares para longe confirmando sua suspeita. Aparentemente você virou o principal argumento para convencer o caçula. Novamente.
— Não se preocupa, maninho. Tá tudo bem. – você acalma ele fazendo carinho em suas costas.
Maninho?
Onde está o seu maninho?
— Que merda! – você deixa escapar chamando a atenção de seus amigos.
— O que aconteceu? – os irmãos perguntam ao mesmo tempo com pequenas variações dessa pergunta.
— Meu irmão tá na cidade… – você sente os braços em sua cintura se apertando mais um pouco.
Você sente que sua cabeça vai partir ao meio, a dor surgindo na nuca e atravessando até sua testa. Um gemido arrastado escapa enquanto você sente o chão girando sob seus pés e, de repente , os braços do Malik são a única coisa te impedindo de cair. Rami te segura pelos ombros e esfrega pequenos círculos com os polegares, Alika te oferece um olhar preocupado e os gêmeos apenas se mantêm perto o suficiente para que você saiba que eles estão lá.
Quando você se acalma o bastante para ficar de pé sem bobear Dion estende o pulso na sua direção. A tela de seu gadget mostra uma versão simplificada de um mapa com alguns pontos coloridos, um mais brilhante que os outros.
— Você colocou um rastreador no meu irmão? – você pergunta em um tom suave, um pequeno sorriso surgindo em sua face.
— Tá feliz com isso? – a serpente aquática pergunta se encolhendo levemente para dentro do casco.
…
…
— Tô. – você dá dois tapinhas no ombro do maior e se vira para os outros – Mostra o caminho, Dy.
Vocês se apressam na direção que o lukwata indica. Seus nervos estão atingindo níveis preocupantes.
Esse é, facilmente, o pior dia da sua vida.
⁶Gadjet: um dispositivo eletrônico portátil, nesse caso é como um computador de pulso.
⁷Lukwata: uma serpente aquática, dizem que partes do seu corpo são usadas por conter poderes mágicos.
⁸Dingonek: uma espécie de quimera africana, com escamas de tatu, pintas de leopardo, garras de réptil, presas de elefante, cabeça de leão e uma cauda como de castor boa pra nadar.
⁹Staff: o conjunto das pessoas que compõem o quadro de uma instituição, empresa, etc. “O pessoal”

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