Já se aproximava do horário definido quando Alexei se apresentou no terraço, onde deveria embarcar em um pequeno avião particular. Ele havia decidido chegar alguns minutos mais cedo para impressionar seu chefe, no entanto, não foi uma surpresa quando percebeu que todos já estavam lá.
— Chegou atrasado, Senhor Realocado.
A alfinetada veio de Hǎi yún, que estava acompanhada de uma garota com cabelos claros, a tal Zhu Ming-Yue. Como ele poderia ter chegado atrasado se ainda nem era a hora marcada?
Ao passarem por ele, Alexei percebeu que elas estavam como protetoras de Lan Zhong. Talvez um aviso tivesse ajudado Alexei a não permanecer parado na pista enquanto seu superior passava por ele, trajando um casaco que parecia esconder o traje que ele usava por baixo. Mesmo vestindo roupas escuras, era impressionante como as luzes da pista o iluminavam majestosamente, refletindo em suas mechas castanhas e nos olhos esmeraldinos. Felizmente, ele não estava segurando nada além de sua mochila pendurada nos ombros, pois certamente a deixaria cair no chão devido ao impacto de ser tão profundamente hipnotizado. Seria um vexame, e ele já estava cansado de passar vergonha.
Ao subir as escadas do avião, Alexei apenas pôde vislumbrar as costas de Lan Zhong antes que ele adentrasse a parte reservada para agentes de alta patente. Ao se sentar em seu lugar, ele ouviu vozes femininas que ecoavam de lá de dentro. Entre os cochichos, ouviu seu nome ser citado junto com palavras como "Que falta de respeito". Risadas masculinas e sutis surgiam vez ou outra. Ah sim, Lan Zhong, você ainda riria muito por causa de Alexei.
Ao encostar sua cabeça na pequena janela do avião, Alexei observou-o levantar voo em direção à imensidão escura do oceano envolta pelo véu da noite. No meio daquelas águas tão calmas, um navio iluminado estava atracado. Alexei havia ouvido falar que aquele cruzeiro pertencia ao próprio Lan Zhong e raramente fazia viagens, funcionando como um ponto de execução estratégico.
Ao pousar do avião, ele foi até a parede de armas para retirar sua AK-47. Primeiro, alguns soldados rasos desceram para vasculhar o local, seguidos por ele, que era o atirador de elite, e pela dupla Hǎi yún e Zhu Ming-Yue, para que então Lan Zhong descesse. Alexei não esperava mais um baque naquele dia, mas ao ver o outro trajando não suas roupas formais e escuras habituais, mas sim um terno tuxedo cappuccino com detalhes dourados que marcavam seu corpo esculpido e evidenciavam a perfeição de sua pele, adornado pelas íris esverdeadas e os fios de cabelos escuros presos em um rabo de cavalo alto, ele sentiu seu coração parar brutalmente. Talvez ele não fosse o alvo daquela missão, mas havia sido atingido certeiramente.
— O Sniper vem conosco. — A voz autoritária de Zhu Ming-Yue o havia feito despertar do devaneio.
Ele sentia a falta de empatia dela consigo, mas pouco se importava. Ao seguir o que lhe foi ordenado, ele também notou que Lan Zhong seguiu sozinho em direção ao cassino, sem sequer um único acompanhante. Pelo menos, ele pensou que Hǎi yún e Zhu Ming-Yue o seguiriam. Para uma direção contrária, eles seguiram as escadarias que os levariam a um cômodo estratégico, cuja janela e mira desembocavam no quarto à frente. Um único tiro que atravessasse a cabeça deveria bastar. Alexei sentou-se na cadeira, apenas esperando pelo momento que provaria quem ele realmente era.
As luzes do salão refletiam em suas íris esmeraldinas como chamas em um alvorecer. Lan Zhong sabia que chamava a atenção e, naquela noite, ele estava vestido para isso. Como o prêmio mais valioso daquela noite, as pessoas o cumprimentavam, mesmo sem saber que aquele navio inteiro lhe pertencia. Com seus olhos afiados, ele analisou as mesas de jogos, localizando o alvo daquela noite. Majestosamente, ele caminhou até o bar, vislumbrando os cabelos ruivos que ardiam entre as taças e o balcão. Poucos tinham o privilégio de serem servidos por Wolfgang, já que ele somente estava presente em noites em que ocorreriam um assassinato. Ele era como um presságio da morte.
— Gräf. — Lan Zhong cumprimentou o outro pelo sobrenome, aproximando-se e apoiando-se no balcão.
— Lan Zhong. — O outro respondeu. — O alvo de hoje tem sorte. Já ganhou três mesas esta noite. O próximo prêmio será um tiro na cabeça.
Lan Zhong soltou uma risada anasalada, enquanto observava Wolfgang colocar sua bebida à sua frente. Gostava de como ele era perspicaz, habilidoso e um ótimo ator. Os cubos de gelo tilintavam no líquido amarronzado e Lan Zhong já podia vislumbrar o futuro. Com um sorriso arquitetado em seu belo rosto, ele se afastou do bar com a bebida em sua mão enluvada. Com o alvo marcado por suas íris, ele escolheu jogar em mesas distantes de onde estava. Com um olhar cúmplice para o mestre da mesa, Lan Zhong estava preparado para articular seu plano: como um garoto inocente, ele perderia tudo o que tinha. Ao piscar para seu cúmplice, as apostas começaram com lances medianos. Os jogadores começaram a puxar conversas aparentemente descompromissadas consigo, e o cheiro de cocaína e os interesses imundos deles o enojaram. Ele sabia que sua beleza era como uma perigosa atração para o abismo da morte. A cada toque das mãos ardilosas deles em seus ombros ou braços, o agente sentia seu corpo borbulhar com a vontade de torcer seus pescoços para que agonizassem penosamente.
Ao perceber que seu dinheiro estava se esgotando, Lan Zhong finalmente caminhou em direção à mesa em que o alvo jogava, arquitetando majestosamente seu corpo para a mesa. Seus fios de cabelo, levemente desarrumados, caíam belamente sobre seus olhos que, com um brilho inocente, escondiam o vislumbre da morte. Com um sorriso doce, suas íris encontraram as do mestre daquela mesa, que não conseguiu controlar o sorriso ao vê-lo. Todos sabiam como aquela noite acabaria.
Era perceptível como todos os olhos da mesa haviam se voltado para ele. Seu magnetismo era mais do que suficiente para roubar toda a atenção. Com um sorriso confiante, Lan Zhong fez uma jogada alta, mesmo sabendo que aquilo levaria todo o restante do seu dinheiro. Ao rodar a roleta, ele podia sentir como os outros jogadores estavam ansiosos, mesmo estando exuberantemente torpes pelas altas quantidades de álcool e outras drogas mais intensas. Ao cair a pequena bolinha no número já arquitetado, um grito de comemoração foi ouvido. Lan Zhong sorriu internamente. Parecia que o alvo realmente era sortudo.
— Ah, que azar.
Ele proferiu, suspirando articuladamente com um pequeno gemido proposital. Suas sobrancelhas se franziram, acompanhadas de um sorriso desapontado. Ao encontrar os olhos do alvo fixos nele, passeou seus dedos pela sua franja, levemente úmida, e lamentou:
— Parece que eu perdi todo o meu dinheiro.
— Você realmente é um garotinho azarado. — A voz rouca dele invadiu seus ouvidos, enquanto ele se aproximava perigosamente.
— Eu sou? — Repetiu, mesmo sabendo que não era um garotinho, tampouco azarado.
— Sabe, eu estive te observando em algumas outras noites.
Ele começou, acariciando a face alva do outro. Lan Zhong inclinou levemente a cabeça, demonstrando-se submisso pela carícia. As mãos deles alcançaram um maço de dinheiro em seu bolso, que foi empurrado contra o seu peito. Em um sussurro rente ao seu ouvido, o alvo falou:
— Por que você não tenta de novo? Depois você me paga.
Ah, claro que Lan Zhong o pagaria mais tarde. Com um sorriso e palavras doces, ele não recusou o dinheiro. O agente adorava se sentir como um predador que se fazia de uma presa inocente, somente esperando o momento certo para matar. Os homens adoravam presas submissas e dóceis, pensando que poderiam pisar e devorá-las; porém, aquele jogo era ditado por ele, e com regras tão perigosas, não havia alvos que poderiam deixar aquela brincadeira com vida. Com mais uma rodada, o dinheiro foi levado sobre seus olhos. Não demorou mais que alguns minutos para que sentisse a mão do seu alvo se apoderando de seus ombros em um forte aperto. Lan Zhong sorriu, aprumando seu peito.
— Eu acredito que esteja na hora do meu pagamento.
O agente poderia ter sentido um calafrio na espinha com aquelas palavras proferidas tão libidinosamente, contudo, aquilo era tão previsível que tudo o que lhe cabia era continuar executando seu frágil papel. Com seus doces olhos e um falso sorriso inocente, ele não recusou.
Talvez Alexei estivesse quase dormindo e não possuía coragem para admitir, mesmo com o som alto e irritante das teclas do notebook de Hǎi yún. Como uma organização tão rica permitia ela trabalhar com aquela porcaria velha? Ele sentia os olhos de Zhu Ming-Yue faiscando atrás de si. Ele sabia que ela havia falado mal dele durante a viagem inteira e ainda devia estar xingando-o mentalmente. Imagine os novos xingamentos que ela criará quando descobrir o que ele estava planejando.
Alexei descruzou rapidamente os braços fortes e ajeitou sua coluna sobre a arma ao visualizar a porta do quarto se abrir. Naquele instante, todos pareceram se focar naquele cômodo. Ao colocar sua íris oceânica na mira da AK-47, ele vislumbrou Lan Zhong adentrar o quarto majestosamente. Ele estava um tanto desarrumado e seus lábios tão contornados exibiam um sorriso lascivo. Em pouco tempo, o alvo também passou pela porta, trancando-a em seguida. As mãos dele se envolveram nos longos e escuros fios de cabelo do agente, agarrando-os com libido. O sorriso que brincava nos lábios dele era hipnotizante. Alexei sentiu suas mãos tremularem, ele jamais havia visto o outro assim tão convidativo.
Um ósculo sôfrego e quase agressivo se apossaram dos lábios de Lan Zhong, enquanto as mãos do outro lhe desciam pelo corpo para o apalpar. O cheiro alcoólico dele o sufocava tanto quanto seus feromônios, que eram quase tangíveis. Os dedos dele eram quentes e afobados, certamente deixariam marcas na sua pele pálida. Seus corpos quase colados faziam com que Lan Zhong sentisse a ereção grande e abrasadora nas vestes dele. A língua dele o tentava domar, arqueando seu corpo para que se encaixassem ainda mais.
Um suor frio escorreu pela coluna de Alexei, enquanto seu coração parecia empedrar. Ele devia se concentrar no tiro perfeito, um único que deveria atravessar o crânio; contudo, era impossível ao vislumbrar Lan Zhong se entregar daquela forma. Alexei queria estar no lugar daquele homem, tateando aquele corpo tão quente e perfeito, tomando aqueles lábios e o fazendo gemer para si; todavia, ainda queria saber como aquilo acabaria, mesmo não estando naquele quarto. Céus, o que diabos estava acontecendo com ele?
Ao sentir suas costas serem jogadas contra a cama macia e visualizar o homem, em pé à sua frente, tirar suas vestes, Lan Zhong esperou que uma bala atravessasse sua cabeça, pois aquele era o momento perfeito; no entanto, para sua decepção, nada aconteceu. Com um sorriso irritado, quase sádico, em seus lábios, Lan Zhong se levantou da cama e caminhou lascivamente até o alvo, roubando-lhe outro ósculo. Desta vez, virado para a janela de onde sabia que Alexei estaria.
Alexei sentia que os olhos dele eram como adagas que lhe esfaqueavam o peito. Sua garganta estava dolorida. Ele sabia que devia atirar, era seu dever para o qual havia se comprometido; porém, seu corpo só conseguia tremer. Vislumbrar ele o olhando daquela forma, com tanta expectativa, enquanto beijava o alvo com tanta ânsia, somente fazia com que a ereção entre suas pernas se tornasse mais sólida.
Ao perceber que o outro não atiraria, seu sorriso se desfez em seu rosto. Com um gesto simples e veloz, Lan Zhong colocou suas mãos sobre o rosto do homem e, dolorosamente, torceu o pescoço dele, ouvindo o quebrar dos ossos. O corpo do alvo caiu inerte ao chão frio. Na outra janela, separados por alguns metros, Alexei sentiu o peso de ter fracassado ao ser encarado tão reprovadoramente com aqueles olhos que há tão pouco tempo queimavam como brasa e agora não passavam de pedras gélidas. Covardemente, ele abaixou a arma, engolindo a seco a falha que agora estava presa em sua garganta. Ele havia errado pateticamente.

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