Alexei teve que desviar habilmente para não ser acertado pelo chute poderoso da agente com quem treinava. Ele podia sentir o suor quente escorrer pelo seu corpo esculpido. Ele não costumava suar em seus treinos; todavia, o sol da China o castigava penosamente. Outros socos vieram em sua direção e ele desviou com dificuldade, não porque Alexei fosse péssimo em luta corporal, mas porque sua mente andava atordoada desde o acontecimento com Lan Zhong. Ele ainda não o havia visto outra vez, porém, os olhos reprovadores dele estavam fortemente marcados em sua lembrança. Como se já não bastasse sua própria mente o torturar, os rumores sobre o acontecimento acabaram se dissipando mais rapidamente do que ele esperava, e a cada passo que ele dava no corredor, sentia-se cruelmente julgado. Voyeur era como as pessoas o chamavam agora.
A pouca concentração que Alexei possuía na luta se esvaziou quando a voz de Lan Zhong adentrou seus ouvidos. Ele não estava trajado em seu terno tuxedo que fazia os pelos de Alexei se eriçarem; contudo, ainda continuava hipnotizante em suas vestes formais que acompanhavam o rabo de cavalo baixo. Apesar da elegância dele, era facilmente identificável a falta de bom humor. Saber que ele era a razão do estresse de seu superior o excitava. Talvez não fosse da maneira que ele gostaria; mas, pelo menos, ele estava nos pensamentos do outro. Aquele outro garoto com a tatuagem verde também estava lá, e eles pareciam debater sobre algo, encostados em uma parede um tanto afastada do centro de treinamento.
Ele podia admitir que Lan Zhong o desconcentrava fortemente, tanto que não foi surpresa quando o punho da outra agente atingiu agressivamente seu rosto, fazendo com que sua cabeça pendesse para o lado.
— O jardim de infância fica para o outro lado, princesa. — A voz áspera de sua parceira de treino (ele poderia chamá-la assim?) pareceu arranhar seu ego
Alexei não costumava permitir que as outras pessoas sequer invejassem seu ego, portanto, destratá-lo daquela forma era como arrebentar o tênue fio de sua paciência; porém, havia algo diferente nele que ele não sabia exatamente como definir. Era como se uma coleira o eletrocutasse a cada passo errado, mas ele sabia que sua punição era o desdém de Lan Zhong.
Após aquele maldito treino, Alexei decidiu esfriar a cabeça e destensionar os músculos no chuveiro do banheiro masculino coletivo. Sua mente estava enlouquecendo, e seu corpo clamava por uma atitude. Ele havia caído miseravelmente em sua própria armadilha ardilosa.
Ao desligar o chuveiro, ele ainda sentia as gotículas gélidas pingando de seus fios dourados. Com apenas uma toalha amarrada em sua cintura forte e o torso úmido à mostra, ele pretendia sair do banheiro para ir até seu quarto, quando gemidos masculinos o fizeram estancar onde estava. Ao se esconder para tentar compreender se poderia tirar vantagem da situação, ele notou a tatuagem verde no braço pálido de um dos homens. Era Lan Yuan. Naquele instante, Alexei sorriu diabolicamente. Ao tentar identificar o outro, os longos fios castanhos e os olhos gentis lhe entregaram que aquele era Niàn zhēn. Ele e o moreno haviam treinado juntos na academia da organização, e Alexei até tentou se divertir um pouco com ele, todavia, o que importava no momento era que Niàn zhēn era um alvo fácil que lhe renderia boas informações.
— Eu tentei convencê-lo a não te levar para a missão. — Lan Yuan proferiu, parecendo preocupado, enquanto seus dedos ágeis se infiltravam nas vestes suadas do outro.
— Eu não gosto quando você se intromete nas minhas missões. Os outros pensam que você me privilegia. — Niàn zhēn contestou com autoridade. — O seu pai é um homem profissional, ele não vai me desrespeitar.
— Eu sei, mas me sinto desconfortável quando ele está tão distraído. — Explicou, enquanto beijava carinhosamente os lábios do outro. — Estava pensando em transferir aquele idiota loiro de volta para a Rússia. — A expressão em seu rosto parecia de desgosto.
Idiota? Loiro? Ele era esse idiota! Alexei sorriu com escárnio, já imaginando como seria prazeroso foder o paizinho daquele garoto esnobe.
As mãos quentes de Niàn zhēn se infiltraram nos fios de cabelo escuros do outro, enquanto ele explorava o corpo morno e beijava com ânsia o pescoço. Ele podia sentir a ereção quente de Lan Yuan contra a sua, enquanto seus dedos frios se aventuravam mais profundamente em seu corpo. Foi inevitável para Niàn zhēn não gemer prazerosamente enquanto rebolava seu quadril sobre os dedos habilidosos de seu parceiro. Lan Yuan aproximou seus rostos e, com o indicador nos lábios úmidos, pediu para que o outro tentasse não fazer barulho. Com a mão sobre os próprios lábios, Niàn zhēn tentou conter seus gemidos, enquanto seu parceiro o penetrava mais profundamente.
Ao ouvir vozes masculinas se aproximando da porta do banheiro, os dois se separaram com pressa. Não porque fazer sexo no banheiro masculino fosse incomum, mas porque Niàn zhēn odiava que os outros agentes associassem suas conquistas ao relacionamento que ele tinha com o filho do líder da organização na China.
Alexei esperou os outros agentes entrarem para poder sair do banheiro compartilhado. Com más intenções, ele planejou como poderia se reaproximar de Lan Zhong. Após se vestir e dar uma breve volta pelo corredor, Alexei dirigiu-se à parte do pavilhão onde ficava o dormitório de Niàn zhēn. Com cuidado, ele abriu a porta e encontrou o garoto secando seus longos cabelos castanhos.
— Ei, Niàn zhēn. — Chamou a atenção do outro com um tom arrastado e malicioso.
— Alexei? — Ele perguntou com surpresa, um pouco assustado, como se houvesse visto a encarnação do próprio capeta em sua frente. — Eu não esperava te ver nesta base da organização.
— Eu também não esperava ser transferido para cá. — Começou a conversar casualmente, sentando-se na parte inferior da beliche do outro. — Ouvi dizer que você tem um relacionamento... interessante com o filho adotado do nosso superior, e pensei que você poderia me ajudar.
— Como você ficou sabendo disso?
O questionamento foi feito em um misto de surpresa e cólera, e, com uma expressão confusa na própria face, ele se levantou incisivamente em direção ao outro, o que também ocasionou o erguer dele. Com um curvar de lábios de quem já podia vislumbrar o desenrolar de seu plano ardiloso, Alexei respondeu com um teor alarmante de lascividade:
— O que importa é que você vai me ajudar ou o seu segredinho vai virar notícia.
— O que diabos você quer?
Perguntou com pouca paciência estampada em seus olhos castanhos, inundando-os em desgosto ao encarar aquelas íris oceânicas, fortemente carregadas de perversidade.
— Eu quero colocar o Senhor Lan Zhong em seu devido lugar e, para ser mais exato, esse lugar é embaixo de mim.
Foi com uma dose cavalar de confiança que aquelas palavras foram proferidas, acompanhadas de um sorriso que exalava maldade e provocação. Com um bufar de quem sentia algo similar à pena, pois sabia que Alexei seria selvagemente pisoteado naquela organização, ele respondeu:
— Você definitivamente não sabe com quem está lidando.
— Niàn zhēn, você não está me ajudando a guardar o seu segredo tão precioso.
O russo ditou outra ameaça com sua língua afiada, descontente com o que estava ouvindo do outro. Já cansado da presença inconveniente em seu quarto, o outro falou:
— Por que você não tenta conversar com a Senhorita Lan Mei? Ela é um tanto estranha e turbulenta, porém, é uma das pessoas mais próximas ao Senhor Lan Zhong, e ela constantemente conturba as missões apenas por... diversão.
— A garota do chapéu bizarro? — Perguntou para logo o outro balançar positivamente a cabeça. — Isso pode ser interessante. Como você foi um bom menino, o seu segredinho vai ficar guardado... pelo menos por enquanto.
Com um sorriso potencialmente alarmante, Alexei deixou o quarto do outro. Com um suspiro pesado, Niàn zhēn desabou sobre o colchão do beliche, pensando em como Alexei parecia desejar se atirar enlouquecidamente em um abismo e levar outras pessoas com ele.
A tensão que pairava naquela sala escura excitava-a. O sentimento de poder, enquanto os outros se sentiam intimidados, era recompensador. Com um sorriso diabólico, suas mãos baixaram as cartas sobre a mesa. No seu baralho, três reis e dois dez de diferentes naipes ostentavam a sua soberania no jogo estratégico que era o poker.
— Full House! — As palavras brindaram com glória em seus lábios.
O resmungo que se seguiu na mesa de jogadores foi audível. Huo Yu, Hǎi yún e Zhu Ming-Yue disputavam o prêmio com a ardilosa Lan Mei. Com um sorriso vitorioso, ela arrastou o dinheiro das apostas para o seu lado. Antes que elas pudessem fazer outra jogada, alguns agentes da organização adentraram cuidadosamente a sala com um sujeito de cabelos dourados em seus braços.
— Senhoritas, foi identificado esse intruso nos arredores. — Um deles proferiu autoritário, enquanto segurava agressivamente o braço de Alexei.
— Ah, é o voyeur realocado. — Hǎi yún comentou, lembrando-se das palavras dele e do acontecimento da missão.
— O loirinho que quase fez com que Lan Zhong fosse uma presa devorada? — Lan Mei questionou curiosa e, ao ver a outra balançar afirmativamente a cabeça, sorriu maldosamente. — Por que não conversamos em particular, meu caro Cabeça de Banana?
Naquele momento, os agentes o soltaram ruidosamente, fazendo com que ele quase caísse contra o chão. Alegremente, Lan Mei simplesmente deixou o seu prêmio sobre a mesa e pediu para que o outro a seguisse para a sua sala. Ao entrarem no cômodo, Alexei podia sentir um misto de alegria infantil e uma malevolência que irradiava da outra, enquanto ela servia dois copos com bebidas alcoólicas.
— Sabe, voyeur. — Ela começou, fazendo com que o outro franzisse suas sobrancelhas. — Estragar o dia de Lan Zhong é um dos meus poucos entretenimentos aqui dentro e quando eu ouvi o que você fez, pensei que nos daríamos muito bem. — Foi inevitável que um sorriso surgisse nos lábios de Alexei. Quando ele pensou em procurar Lan Mei, sequer imaginou que ela tivesse aqueles pensamentos sobre ele. — Conte-me: Quais são as suas intenções?
— Minhas intenções? — Começou, tentando pensar em qual seria a resposta certa perante a outra. — Seu patrão tem algo que me atrai e eu queria explorar isso.
— Ah, que fofo. Cuidado para não terminar com uma bala na cabeça. — Ela comentou, balançando o líquido ardente no seu pequeno copo de vidro.
— O que você é dele? Irmã? Filha? Um pet? — Provocou, criando mais coragem.
— Haha, ele sabe fazer piadinhas. — Debochou, enquanto acessava os dados do outro com o celular em uma de suas mãos. — Ok, Senhor "Mikhail". — Ela começou a falar, dando uma risadinha ao ler o outro nome do homem à sua frente. — Eu vou te dar uma oportunidade de explorar nosso patrãozinho. Apenas tome cuidado para não morrer, certo? Porque Lan Zhong matou o último namoradinho dele. Embora eu pense que se você for executado, não vai fazer diferença. — Ela piscou, falando com graça, fazendo com que um arrepio temeroso corresse pela espinha do outro. — Amanhã haverá mais uma execução. Por que você não faz uma das suas burradas e me garante umas boas risadas? — Disse, alterando os dados da equipe da missão e alocando Alexei.
— E o que você ganha me ajudando? — Questionou desconfiado.
— O que eu ganho? Eu acredito que você me pergunta isso porque jamais viu Lan Zhong enfurecido. É tão gratificante ver um homem tão perfeito cometer deslizes porque um idiota acabou com a estratégia tão complexa dele. — Respondeu, inclinando adoravelmente a sua cabeça sobre as suas mãos, apoiadas sobre os cotovelos na mesa.
Alexei não confiava em Lan Mei, principalmente quando se rememorava que há alguns dias ela voltou uma arma na direção da sua cabeça; porém, se ela era a ponte entre ele e Lan Zhong, ele se arriscaria. Sua vida sempre fora repleta de adrenalina e riscos, ele não deveria se acovardar agora por causa de um homem majestoso e hipnotizante. Com um sorriso tão maldoso quanto o dela, ele alcançou um dos copos na mesa e a ergueu em direção a outra para proferir:
— Você tem um trato. — Alexei afirmou, desafiadoramente. — Eu vou fazer o meu jogo, causar problemas e te proporcionar risadas. Em troca, você me aproxima do Lan Zhong. — Lan Mei sorriu satisfeita, achando a coragem do russo bastante interessante.

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