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Não me Esqueças

2. Uma pequena Polypodiophyta (1)

2. Uma pequena Polypodiophyta (1)

Jun 08, 2024


  O amanhecer para Cassian era o melhor momento do dia. Ele era uma pessoa diurna, com muita energia pelas horas da manhã, ainda mais no Paraíso, onde a manhã era naturalmente fria em clima, mas a luz quente do sol batia logo na sua pequena cozinha, criando um ambiente perfeito para iniciar o dia.

  Seu apartamento não era grande, tinha apenas uma sala de estar, uma cozinha e um banheiro, mas era com toda certeza muito melhor do que outros lugares que ele já morou em vida. Ele havia recebido de vizinhos e colegas de trabalho alguns móveis e decorações, incluindo o sofá-cama que ele dormia todas as noites, e a cafeteira antiga que veio de um vizinho que já estava no Paraíso fazia mais de 20 anos. Claro, ele poderia conseguir móveis novos a qualquer momento, mas não só era algo demorado que ele precisaria tirar no mínimo um dia inteiro para apenas o básico, ele não gostava da ideia de que seus vizinhos iriam jogar fora esses móveis apenas por terem outros a disposição, e não por estarem em péssima condição. Cassian aprendeu em sua infância que nada se joga fora, e sim ressignifica, vendo seus pais consertando eletrodomésticos velhos, fazendo remendos em roupas, cortinas e cobertores, até mesmo tapetes de crochê jogados pela moradora idosa ganhavam um novo uso quando seu pai os desfazia, lavava os fios e criava novas peças a partir deles. Sua casa de infância não era nem perto de uma casa de luxo, ainda mais quando ela se tornava pequena pela quantidade de crianças que corriam por ela, porém ele tinha certeza de que ela não era apenas uma casa, e sim um lar. Esse era o objetivo de Cassian nesse pequeno apartamento, transformá-lo em um lar, aos poucos juntando aquilo que um dia foi importante para alguém e transformá-lo em importante para si.

  Enquanto Cassian dobrava os cobertores na sala de estar, o som da cafeteira era alto o bastante para que a briga rotineira de seus vizinhos do apartamento na frente fosse abafada, não entendendo uma única palavra. Normalmente o grupo de mensagens do prédio ficava mais agitado neste horário, fazendo apostas sobre qual era o motivo da briga dessa manhã, e implorando para que alguém fosse separá-los antes de saírem da agressão verbal para a física. Em dias mais interessantes, Cassian gostava de ver a movimentação do grupo e tirar algumas boas risadas antes de sair para trabalhar, mas hoje ele estava mais focado em terminar seus afazeres matinais e ir direto para a central. 

  Com o clique da cafeteira, Cassian tirou a jarra e deixou em cima da meia parede que agia como divisória entre a sala e a cozinha, puxando uma cadeira para se sentar ao lado dela. Na parede mais próxima, ele havia deixado carregando seu bracelete, a pedra lilás em seu topo piscando conforme as notificações chegavam. Às vezes Cassian sentia falta da simplicidade dos celulares, por mais que ele nunca tenha tido um de última geração em suas mãos. Aqui, tudo era administrado por dispositivos chamados Corvis, que se apresentavam como braceletes prateados, dourados, brancos ou pretos, em cima uma jóia transparente, sua lapidação mudando de usuário para usuário, enquanto sua cor era determinada pela cor principal escolhida para a interface. O modelo dado a Cassian era um dos mais simples e intuitivos, mas ele não podia negar que ainda tinha dificuldade de se encontrar em algumas das funções, normalmente pedindo para Chester o ajudar.

  Como se estivesse falando no Diabo, o pequeno dispositivo começou a vibrar, uma janela em estilo pop-up surgindo com o rosto de Chester nela. Cassian sabia que ele apenas estava o ligando para ter certeza que havia acordado, e que atendê-lo era apenas uma interação extra em sua manhã, porém ele queria perguntar algumas coisas para o anjo antes de ir até a central. Deslizando o ícone lilás no centro da tela para cima, a janela mudou para uma vídeo chamada, Chester ainda usando um roupão vermelho de veludo e penteando seu cabelo para formar as duas pontas características que se assemelhavam com orelhas de coelho. Aquela visão foi o suficiente para Cassian saber que estava cedo o suficiente para ele não precisar se apressar, tomando seu remédio diário com água antes de tomar o café com leite, assim evitando ficar com desconforto pelo resto do dia. Chester, pelo seu lado, só percebeu que o rapaz havia atendido após o mesmo bebericar do seu café, colocando seu primeiro sorriso simpático do dia.

  “Bom dia Cas! Preparado pra ter o pior dia da sua vida em dois anos?”

  “...Eu não começaria meu dia falando isso, mas bom dia pra você também”, Cassian se levantou do lugar, indo até um dos armários para pegar um pacote com doces caseiros, a janela o seguindo conforme se movia pelo apartamento. “Inclusive, se você pudesse elaborar eu agradeceria muito”

  “Eu dei uma olhada na carta que o arcanjo deixou ontem antes de fechar tudo, e o endereço do destinatário é na área das roseiras, boa sorte”

  “...É realmente tão ruim como todo mundo fala ou vocês só exageram pra deixar o pessoal com medo de arranjar problema?”

  Chester desligou a câmera por alguns minutos, evidentemente se trocando, “Assim, eu não diria que lá é um lugar ruim, mas com toda certeza junta muita porquisse. No começo da divisão, lá era onde o pessoal do RH ficava, e eles eram uns doces, mas hoje é uma bagunça de favoritismo e nepotismo, então é capaz que algum infeliz tente te perseguir. Por isso que você vai entrar, entregae a carta e sair”

  Afirmando com a cabeça e um ‘uhum’, Cassian jogou fora a embalagem vazia e começou a procurar em meio a sua bagunça o seu uniforme, se mordendo internamente por hoje ser obrigado a usar a boina que todos os entregadores usavam. Ela não era feia, mas ele odiava ter que mexer demais no seu cabelo ao ponto de precisar pensar em uma forma otimizada de usar com o acessório. Ele não conseguia entender como o líder da divisão conseguia criar as regras mais idiotas e desnecessárias para algo que deveria ser tão simples. Sua frustração era tanta que ele nem mesmo percebeu que deixou Chester falando sozinho, não entendendo uma palavra sequer. Ele parou por um segundo, apenas para ver se conseguia pegar algum contexto, mas logo percebeu que ele estava falando de uma outra pessoa que ele não conhecia e que, pelas palavras de Chester - sendo as únicas que ele realmente prestou atenção - tem a tendência de ser imprevisível e destrutivo, o que fez Cassian perder completamente qualquer interesse que podia desenvolver no assunto. 

  Quando Chester ativou novamente a câmera, ele já estava praticamente pronto, usando todos os apetrechos obrigatórios que ele deveria aparecer quando batesse o ponto de entrada na Divisão de Administração. Com um grande bocejo, o coelho se sentou no sofá vermelho cereja, o que fazia Cassian se perguntar se ele sequer conseguia ver a cor vermelha para começo de conversa. “Não se esqueça de me mandar mensagem quando estiver saindo. Se eu não estiver ocupado eu posso te buscar pra gente almoçar em algum canto”

  “Não precisa se preocupar comigo, hoje eu felizmente só tenho a manhã de expediente, então vou dar uma visita lá na Catty a tarde”

  “Oh. Então fala pra ela que eu mandei um abraço, e que a gente tem que se juntar algum dia desses pra comer algo”

  “Você sempre pensa em comida, acho incrível”, o coelho solta uma risada, como se aquela informação fosse óbvia, e desliga com um ‘até depois’ que realmente o fazia parecer como um irmão mais velho. Cassian gostava de começar seus dias dessa forma, fazia ele sentir menos saudade de casa. Em casa as coisas eram mais caóticas, como qualquer casa com 8 pessoas, mas ele também apreciava a rotina mais tranquila que tinha aqui. Todos os meses, ele podia ir até o salão de Láquesis para poder ver como sua família estava, checando principalmente os seus irmãos mais novos. Seus pais ainda não haviam partido, mas já estavam perto de uma idade avançada e ficavam em uma casa de cuidados com outros idosos. Toda vez que Cassian via os dois, ele escolhia ver nos finais da tarde de sextas, pois eram esses os dias que os residentes se reuniam para participar de alguma atividade, como jogos de tabuleiro e adivinhação, o que tirava algumas boas risadas do rapaz ao vê-los tentando imitar animais ou brigando entre si por uma rolagem de dados. Agora ver eles era mais fácil, mesmo que ainda um pouco doloroso, ele havia se acostumado com a ideia de apenas estar distante naquele momento, mas havia vezes em que ele se pegava pensando no quão difícil deveria ser para sua família - em especial seus irmãos - conseguirem continuar quando ele se foi tão de repente. Ele podia não ter certeza de como o seu irmão mais velho se sentia - se recusava ir atrás dele afinal - no entanto ele estava mais que certo que seus irmãos mais novos sentiam nem que fosse um pouco de saudade.

  Se olhando no espelho pela última vez antes de sair de casa, Cassian ajeitou seu cabelo em um meio rabo de cavalo baixo, usando uma presilha lilás, e colocando por cima a boina. Talvez ele precisasse cortar o cabelo pra não ter tanto trabalho, mas era trabalho demais encontrar alguém que conseguisse mexer em cabelo cacheado pra começo de conversa, então era melhor que ele deixasse crescer até a oportunidade certa aparecer.

  Antes de abrir a porta, o rapaz parou na frente de um quadro branco que ficava no corredor de entrada, marcando em um pequeno papel uma lista com os afazeres do dia. Ele ainda tinha dificuldade de manter controle das coisas que fazia pela manhã, mas manter o quadro que ganhou de Chester - que também o obrigou a aprender a usar - era uma das formas que ele conseguia se organizar em relação aos seus remédios e refeições. Precisou um ano inteiro de Chester agindo como um colega de quarto, em cima dele constantemente, para que Cassian finalmente entrasse nos trilhos e se acostumasse com a acessibilidade dos tratamentos que ele nunca recebeu em vida. 

  Do outro lado da porta ele já via alguns de seus vizinhos saindo, os cumprimentando enquanto desciam pelo elevador. O lado bom de morar nos dormitórios era justamente a possibilidade de ter pessoas por perto. Ter morado a vida inteira perto de sua família fez com que ele tivesse dificuldade de morar sozinho. Ele sabia todas as responsabilidades, conseguia cuidar da casa, cozinhar e limpar por si mesmo, mas a solidão ainda era um problema. Ele precisava ter pessoas por perto, mesmo que não conversasse com elas. Quando ainda vivo, ele chegava em casa após a faculdade e encontrava seus pais assistindo televisão na sala e seus irmãos planejando fazer algo que iria dar errado, e aquilo trazia felicidade para ele. Em noites que ele estava muito cansado, ele podia se sentar com seus pais e aproveitar o tempo de qualidade com eles, e em noites que ele tinha mais disposição, ele podia correr pela casa e brincar com os mais novos. Então, mesmo que ele não tivesse mais essas noites, viver nos dormitórios supria suficientemente essa necessidade.

  Como ainda era cedo, apenas algumas lojas estavam abertas, em sua maioria lojas de panificação e restaurantes de café da manhã. O bloco onde Cassian morava não ficava muito longe da central, então ele poderia caminhar até o trabalho com calma, observando as lojas se preparando.  A Divisão de Comunicação era característica por apresentar muitos pontos de vendas e serviços, os mais populares sendo os focados em alimentação, causado principalmente pela chegada dos anjos honorários e a exposição de suas culturas aos anjos de forma mais direta. Além disso, o tempo era agradável grande parte do tempo, justo por seu imenso território, englobando toda a região climática uniforme. Não significava que não haviam mudanças, mas independente de qual época do ano fosse, as temperaturas nunca eram extremas, os dias eram sempre mais úmido e as flores desabrochavam com muita mais facilidade. No momento, era inverno, e mesmo assim Cassian conseguia usar seu uniforme sem precisar de uma jaqueta a mais, e não havia um floco de neve sequer caindo.

  A melhor parte era, sem dúvidas, o céu pela manhã. Havia algo um tanto sentimental nos tons de rosa e laranja que coloriam o céu nesse horário, no horizonte mais distante um leve tom de roxo mais escuro, sendo este o remanescente da noite estrelada anterior. As nuvens completavam o espetáculo, parecendo com pinceladas, espalhadas numa tela de tinta acrílica. Contrastando com os tons pastéis, haviam árvores por todos os lados, apresentando flores vibrantes e perfumadas, criando um ambiente mais que acolhedor.

Erosgrammia
Anteros Grammia

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Céu é algo que muitos desejam. Não importa a crença, o conceito de paz eterna para a alma é sempre tentador. Infelizmente, Cassian aprendeu da pior maneira que esse conceito era exclusivo do imaginário.
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“Não há maior dor do que a de nos recordarmos dos dias felizes quando estamos na miséria.„
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